O caminho entre o hangar e a fazenda sempre me pareceu mais curto quando eu estava ao lado de Jacob. Talvez porque, durante boa parte da viagem, nenhum dos dois precisasse se esforçar para preencher o silêncio. Havia uma tranquilidade antiga entre nós, daquelas que só existem quando duas pessoas já conhecem os gestos uma da outra.

Enquanto Jacob dirigia, virei-me algumas vezes para o banco de trás.

JJ estava acomodado na cadeirinha, completamente entretido com um dos brinquedos que minha mãe fizera questão de colocar na bolsa antes de sairmos de Seattle. De vez em quando balançava as perninhas, soltava um resmungo baixinho e voltava a tentar alcançar o pequeno cavalinho de pelúcia preso à alça da cadeirinha. Sorri sozinha ao observá-lo. Era impressionante como ele conseguia transformar qualquer momento simples em alguma coisa especial.

— Ele cresceu muito.

A voz de Jacob interrompeu meus pensamentos.

Olhei para ele.

— Cresceu mesmo.

Sorri.

— Está cada dia mais curioso. Agora quer pegar tudo o que vê pela frente.

Jacob deu uma rápida olhada pelo retrovisor, procurando o filho.

— Herdou isso da mãe.

Ri.

— Não lembro de ser tão curiosa.

— Porque você não se conhecia quando tinha seis meses.

Balancei a cabeça, divertida.

— Engraçadinho.

Ele sorriu discretamente e voltou a atenção para a estrada.

Depois de alguns minutos, tornou a falar.

— E a faculdade?

Meu sorriso apareceu de novo.

Era uma pergunta que eu esperava ouvir.

— Voltei para a minha turma.

Ele me olhou rapidamente antes de voltar os olhos para a pista.

— Sério?

Assenti.

— A coordenação conseguiu reorganizar minha grade. Vou continuar o semestre com o pessoal que estudava comigo antes da gravidez. Vou precisar cursar algumas disciplinas extras para compensar o período em que fiquei afastada, mas prefiro assim.

Vi um sorriso sincero surgir no rosto dele.

— Fico muito feliz por você.

Aquelas palavras me tocaram mais do que imaginei.

Durante alguns segundos apenas observei seu perfil enquanto dirigia.

Não havia qualquer ironia.

Nem desapontamento.

Apenas orgulho.

— Obrigada.

Minha resposta saiu quase num sussurro.

O silêncio voltou a nos acompanhar por alguns quilômetros.

Resolvi quebrá-lo.

— E a fazenda?

Jacob demorou um pouco antes de responder.

Seus dedos apertaram levemente o volante.

— As coisas andam... um pouco complicadas.

Franzi a testa.

— Aconteceu alguma coisa?

Ele respirou fundo.

— Aconteceram algumas.

Olhou rapidamente para mim.

— Mas hoje eu realmente não quero falar sobre isso.

Percebi que havia um cansaço diferente em sua voz.

Assenti sem insistir.

— Tudo bem.

Voltei a olhar pela janela.

As paisagens começaram a ficar cada vez mais familiares. Os campos, as cercas de madeira, os piquetes e os estábulos apareceram um após o outro, despertando lembranças que eu ainda não sabia exatamente como sentir. Parte de mim ficou feliz por rever aquele lugar. Outra parte continuava carregando o peso de tudo o que havia acontecido ali meses antes.

Pouco depois, Jacob reduziu a velocidade.

A caminhonete entrou pela estrada principal da propriedade e seguiu até a frente da mansão.

Meu coração acelerou.

Respirei fundo antes mesmo que o carro parasse completamente.

— Chegamos.

Olhei pela janela.

A casa continuava exatamente como eu me lembrava.

Desci devagar e caminhei até o banco traseiro. Soltei os cintos da cadeirinha e peguei JJ nos braços. Assim que o tirei dali, ele olhou curioso para todos os lados, como se tentasse reconhecer aquele lugar onde passou os primeiros dias de vida.

Enquanto isso, Jacob retirava nossas malas da carroceria com a ajuda de um dos funcionários.

Mal tive tempo de fechar a porta da caminhonete quando ouvi a porta principal da casa se abrir.

Sarah foi a primeira a aparecer.

Atrás dela vinham Rachel e Rebecca.

Minha sogra atravessou a varanda praticamente sem esconder a emoção.

— Meu neto...

Sorri.

Ela nem tentou disfarçar.

Assim que se aproximou, estendeu os braços e recebeu JJ com todo o carinho do mundo.

— Meu Deus, como você cresceu...

Cobriu o rostinho dele de beijos enquanto ele observava tudo com a maior tranquilidade.

Rachel aproximou-se logo depois e me abraçou.

— Que bom ver você aqui outra vez.

Retribuí o abraço sorrindo.

— Também senti saudade.

Rebecca segurou delicadamente minha mão.

— Como está se sentindo?

— Muito bem.

Ela sorriu satisfeita.

— Dá para perceber.

Enquanto conversávamos, ouvi o barulho das rodas de uma cadeira se aproximando pela varanda.

Voltei o rosto naquela direção.

Billy vinha sendo conduzido por uma jovem que eu nunca tinha visto.

Ela aparentava ter pouco mais de trinta anos, tinha os cabelos escuros presos em um rabo de cavalo e um sorriso tranquilo enquanto empurrava a cadeira de rodas com toda a naturalidade do mundo.

Parei por um instante.

Não consegui esconder a expressão de surpresa.

Billy percebeu imediatamente.

Abriu um sorriso acolhedor.

— Que bom que você veio, Renesmee.

Sorri de volta.

Antes que eu perguntasse quem era a mulher ao lado dele, Jacob aproximou-se carregando as últimas bolsas.

Percebendo minha confusão, ele sorriu discretamente.

— Nessie...

Olhou para a jovem.

— Quero apresentar uma pessoa.

Ela deu um passo à frentee Jacob continuou.

— Essa é a Mary. Minha melhor amiga desde a infância.


A jovem abriu um sorriso simpático antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa. Aproximou-se com naturalidade e estendeu a mão.

— Então você é a Renesmee.

Apertei sua mão com um sorriso educado.

— Sou.

— É um prazer conhecer a mãe do filho do Jacob.

Mantive o sorriso por educação, mas senti um pequeno incômodo atravessar meu peito.

Mãe do filho dele.

Era verdade.

Mas eu também era a esposa dele.

Por algum motivo, aquela apresentação me pareceu incompleta. Talvez fosse apenas impressão minha. Talvez eu estivesse sendo sensível demais depois de tantos meses longe da fazenda. Ainda assim, preferi não comentar nada.

— O prazer é meu.

Mary parecia ter um jeito leve de conversar. Não havia maldade em sua expressão, apenas a espontaneidade de alguém que se sentia completamente à vontade naquele lugar.

Seu olhar logo encontrou JJ nos braços de Sarah.

— Posso conhecê-lo mais de perto?

Ela aproximou-se devagar e sorriu para meu filho.

— Meu Deus...

Levou a mão delicadamente até a bochecha dele.

— Como você é lindo.

JJ respondeu do jeito que sempre fazia quando alguém falava com ele. Ficou observando Mary atentamente por alguns segundos e depois abriu um sorriso que fez todos rirem.

— Acho que fui aprovada.

Ela comentou, divertida.

Sarah sorriu.

— Se ele sorriu, é porque gostou de você.

Billy estendeu os braços da cadeira de rodas.

— Agora chegou a minha vez.

Olhou para a filha.

— Posso segurar meu neto?

Sarah entregou JJ com todo o cuidado do mundo.

Billy o acomodou no colo e seus olhos se encheram de emoção imediatamente.

— Esse menino está ficando cada dia mais parecido com a família.

Fiquei observando aquela cena em silêncio.

Era bonito ver o carinho com que todos recebiam meu filho.

Enquanto isso, Jacob já havia pegado nossas malas.

— Vou levar isso para o quarto.

Deu alguns passos em direção à escada.

— Já volto.

— Ei.

Mary o chamou antes que ele desaparecesse pelo corredor. Jacob virou o rosto.

— Não demora. — Ela apontou para a área do jardim. — Ainda preciso que você veja comigo onde a banda vai montar o palco para a festa.

Ele fez um gesto confirmando.

— Cinco minutos.

— Você disse isso faz meia hora quando foi falar com o Embry.

Jacob deu uma risada.

— Agora eu realmente volto.

— Vou cobrar.

Os dois sorriram um para o outro com uma naturalidade que chamou minha atenção.

Observei Jacob subir a escada carregando nossas malas enquanto Mary continuava falando sobre a organização da festa, como se estivesse acostumada a participar de tudo ao lado dele.

Era evidente que se conheciam havia muitos anos.

Havia intimidade nos gestos, nas brincadeiras e até na forma como um interrompia o outro sem qualquer cerimônia.

Baixei os olhos por um instante.

Não existia nada de errado naquela cena, afinal de contas Mary era sua melhor amiga de infância.

Mesmo assim...

Eu não conseguia evitar aquele pequeno incômodo que surgiu dentro de mim. Talvez fosse apenas porque passei meses longe da fazenda.

Talvez porque, durante esse tempo, outra pessoa acabou ocupando um espaço na rotina dele que antes era meu.

Ou talvez fosse apenas ciúme.

Disfarcei o pensamento antes que ele ganhasse força e sorri para Billy, que fazia JJ rir balançando um pequeno chaveiro diante dele.

Ainda assim, enquanto observava Mary conversar com tanta liberdade sobre a vida de Jacob, percebi que aquela sensação insistia em permanecer comigo.


Assim que entrei no quarto, senti uma estranha sensação de familiaridade. Quase nada havia mudado desde a última vez que estive ali. A cama permanecia no mesmo lugar, as cortinas continuavam exatamente como eu lembrava e algumas fotografias nossas ainda ocupavam a cômoda ao lado da janela. Durante alguns segundos fiquei apenas observando o ambiente, como se tentasse descobrir se eu ainda pertencia àquele lugar.

JJ começou a resmungar baixinho.

Sorri para ele.

— Eu sei... alguém está precisando de uma fralda limpinha.

Coloquei-o sobre o trocador que Jacob havia instalado meses antes e comecei a trocar sua roupa. Enquanto conversava com meu filho, ouvi batidas leves na porta.

— Posso entrar?

Era Rachel.

— Claro.

Ela entrou carregando uma pequena sacola.

— Minha mãe mandou isso. Disse que esqueceu de colocar alguns brinquedos do JJ no quarto.

Sorri.

— Obrigada.

Rachel deixou a sacola sobre a poltrona e aproximou-se do trocador.

— Meu sobrinho está cada dia mais bonito.

JJ respondeu com um sorriso largo que fez Rachel rir.

— Acho que ele já sabe conquistar as pessoas.

Continuei terminando de fechar a fralda enquanto conversávamos.

Rachel começou a contar algumas novidades da fazenda. Falou sobre um dos potros que finalmente havia sido domado, comentou que Sam agora ajudava Jacob na administração de uma parte das terras e riu ao lembrar que Sarah quase expulsara Embry da cozinha naquela manhã porque ele insistia em beliscar os doces da festa.

Ouvi tudo com atenção.

Mas minha cabeça voltava repetidamente para outra pessoa.

Esperei uma pequena pausa na conversa antes de perguntar da maneira mais natural que consegui.

— A Mary...

Rachel voltou os olhos para mim.

— O que tem ela?

Continuei dobrando a manta de JJ para disfarçar o interesse.

— O Jacob nunca falou muito sobre ela.

Rachel ficou em silêncio por alguns segundos.

Pela expressão dela, percebi que pensava na melhor forma de responder.

Depois soltou um pequeno suspiro.

— Eu não vou mentir para você, Nessie.

Levantei os olhos.

Ela continuou com toda a calma.

— A Mary foi o primeiro amor do Jacob.

Senti minhas mãos pararem por um instante.

Continuei ajeitando a roupa de JJ para que Rachel não percebesse minha reação.

— É mesmo?

Minha voz saiu mais tranquila do que eu realmente me sentia.

Rachel assentiu.

— Eles eram muito jovens.

Sentou-se na poltrona perto da janela.

— Cresceram juntos, passavam praticamente o dia inteiro um com o outro. Todo mundo na família acreditava que acabariam se casando.

Olhei novamente para meu filho.

— E por que não aconteceu?

Rachel sorriu de leve.

— Porque a Mary nunca quis viver aqui.

Franzi a testa.

— Ela sempre sonhou em viajar, conhecer outros lugares, construir uma vida fora da fazenda. Dizia que gostava daqui, mas não queria passar o resto da vida presa a essas terras.

Meu coração apertou discretamente.

Rachel continuou.

— Quando decidiu ir embora, os dois perceberam que queriam coisas diferentes.

Terminava de vestir JJ enquanto assimilava cada palavra.

Aquela história parecia estranhamente familiar.

Fechei o último botão do macacão do meu filho.

— Entendi.

Foi tudo o que consegui dizer.

Rachel permaneceu me observando por alguns instantes.

Depois sorriu.

— Engraçado...

Olhei para ela.

— Desde que a Mary chegou, eles praticamente não se separaram.

Meu peito apertou outra vez.

Ela falava aquilo com absoluta naturalidade, sem perceber o efeito que aquelas palavras tinham sobre mim.

— Ela está ajudando a organizar a festa, acompanhou o Jacob pela fazenda ontem inteiro e hoje cedo os dois já estavam resolvendo um monte de coisas juntos.

Peguei JJ no colo antes que Rachel percebesse minhas mãos um pouco trêmulas.

Meu filho sorriu para mim completamente alheio ao turbilhão que começava a crescer dentro de mim.

Forcei um pequeno sorriso.

— Eles devem ter muita coisa para colocar em dia.

— Bastante.

Rachel respondeu.

— Afinal, ficaram anos sem se ver.

Assenti apenas para encerrar o assunto.

Mas, quando Rachel voltou a falar sobre a festa, já não consegui prestar atenção em mais nada.

Enquanto embalava JJ nos braços, minha cabeça repetia a mesma conversa sem parar.

Mary havia sido o primeiro amor de Jacob.

Também não quis viver na fazenda.

Assim como eu.

Pela primeira vez desde o nascimento do meu filho, um medo diferente tomou conta de mim.

Até então eu acreditava que a distância entre Jacob e eu existia apenas por causa da fazenda.

Naquele instante, vendo outra mulher ocupar naturalmente um espaço ao lado dele, senti uma insegurança que nunca havia experimentado.

E, por mais que tentasse convencer a mim mesma de que era apenas ciúme, uma parte de mim começou a temer que, enquanto eu insistia em permanecer em Seattle, estivesse deixando Jacob escapar aos poucos.