O pai do meu bebê
84 Jacob
A festa havia tomado praticamente toda a área em frente à mansão. Minha mãe e Rachel tinham exagerado um pouco quando disseram que fariam apenas uma comemoração para a família e os amigos mais próximos, mas eu já deveria conhecê-las o suficiente para saber que aquilo nunca significava uma reunião pequena. Mesas ocupavam boa parte do jardim, a banda tocava em um espaço montado próximo à varanda e as luzes presas entre as árvores deixavam a propriedade bonita sem tirar dela aquele jeito de fazenda que minha mãe fazia questão de preservar. Havia gente conversando perto dos estábulos, crianças correndo pelo gramado e alguns funcionários que tinham terminado o expediente, mas continuaram para comemorar conosco. Eu recebia cumprimentos, aceitava abraços e agradecia os presentes, embora meu aniversário tivesse se tornado apenas um detalhe desde o momento em que Renesmee desceu as escadas com JJ nos braços.
Ela estava linda. Escolhera um vestido que valorizava o corpo depois da gravidez e deixara os cabelos ruivos soltos sobre os ombros, exatamente do jeito que eu gostava. Tive vontade de dizer isso mais de uma vez durante a noite, mas me contive. A conversa com Rachel e Mary ainda estava na minha cabeça e, embora continuasse achando absurdo aquele conselho de não ficar atrás da minha própria esposa, precisava admitir que nos últimos meses eu realmente fizera isso. Era eu quem ligava quando a saudade apertava, quem encontrava desculpas para viajar até Seattle, quem tentava conversar sobre nossa casa e quem terminava pedindo que ela reconsiderasse a decisão de permanecer com os pais. Naquela noite eu queria fazer diferente, principalmente porque havia preparado algo para depois da festa e esperava que aquilo mostrasse a Nessie que eu finalmente tinha entendido o que ela tentava me dizer havia meses.
Aproveitei o momento em que ela estava ao lado de Sarah conversando com alguns convidados e me aproximei de Rachel, Rebecca e Mary, que estavam reunidas perto de uma das mesas. As três interromperam a conversa quando cheguei, e bastou olhar para o sorriso de Mary para saber que ela já imaginava o que eu perguntaria.
— Então? — perguntei, diminuindo a voz para que ninguém ao redor escutasse. — Está tudo pronto?
Mary sorriu com uma satisfação que me deixou mais tranquilo.
— Tudo exatamente como você pediu. Eu fui conferir antes de me arrumar e pedi para duas funcionárias verificarem novamente depois. Ninguém mexeu em nada, ninguém sabe o que você está planejando e, principalmente, Renesmee não desconfia de coisa alguma.
— Tem certeza?
— Jacob, você me fez conferir três vezes.
Rachel riu ao ouvir a reclamação.
— Ele está assim desde cedo. Perguntou para mim umas quatro vezes se eu lembrava do combinado com o JJ.
Olhei para minha irmã.
— Porque eu conheço vocês. Quando esse menino começa a sorrir, todo mundo perde a noção do tempo.
Rebecca cruzou os braços, divertida.
— Pode ficar tranquilo. Eu e Rachel vamos cuidar do Bebê Jake depois que a festa terminar. Já deixamos tudo preparado no quarto dele e, se precisar de qualquer coisa, estamos dentro da mesma casa. Você e Nessie podem aproveitar a noite sem se preocupar.
— E a mamãe já avisou que, se o JJ acordar, ela quer ser chamada antes de qualquer uma de nós — acrescentou Rachel. — Então, considerando que existem três mulheres disputando quem vai cuidar do seu filho, acho que você pode parar de agir como se estivesse deixando o menino sozinho no meio da floresta.
Ri, levando o copo aos lábios.
— Eu só estou me certificando.
— Você está nervoso — Mary corrigiu.
Olhei para ela.
— Não estou nervoso.
Rebecca soltou uma risada.
— Está sim.
— Eu conheço meu irmão — Rachel completou. — Quando ele começa a conferir a mesma coisa dez vezes é porque está nervoso.
Balancei a cabeça, sem disposição para discutir com as três.
— Está bem. Talvez um pouco.
Mary aproximou-se e falou mais baixo.
— Não precisa ficar. Está tudo pronto e ficou lindo. Agora depende de você não estragar a surpresa tentando controlar cada detalhe.
— Isso foi um elogio ou uma crítica?
— Os dois.
Acabei rindo e, quase por instinto, procurei Renesmee novamente. Ela continuava perto da varanda, agora sem JJ nos braços porque minha mãe já havia se apropriado do neto outra vez. Nessie conversava com uma das senhoras que trabalhavam conosco havia muitos anos, mas seus olhos não estavam completamente naquela conversa. Assim que olhei em sua direção, percebi que ela já estava olhando para mim.
Não foi difícil entender o motivo.
Mary estava ao meu lado, Rachel e Rebecca diante de nós, e provavelmente parecíamos envolvidos em uma conversa bastante particular. Por alguns segundos mantive o olhar preso ao de Nessie. Ela não sorriu, apenas continuou me observando antes de fingir interesse no que a mulher ao seu lado dizia. Aquilo me chamou a atenção porque eu conhecia minha esposa o suficiente para perceber quando alguma coisa a incomodava.
Mary acompanhou meu olhar e soltou uma risada baixa.
— Ela está olhando para cá de novo.
Voltei-me para ela.
— De novo?
Rachel também olhou discretamente na direção de Nessie.
— Faz um tempo.
Franzi a testa.
— Por que vocês não me falaram?
Mary ergueu as sobrancelhas.
— Porque você não precisa de relatório sobre cada vez que sua esposa olha para você.
Rebecca riu enquanto pegava uma taça da mesa.
— Além disso, acho que ela não está olhando exatamente para ele.
Mary levou a mão ao peito numa falsa surpresa.
— Será que é para mim?
— Não começa — avisei.
Ela riu.
— Eu não fiz nada.
Rachel se aproximou um pouco mais de mim.
— Lembra do que conversamos ontem. Não corre para lá só porque percebeu que ela está olhando. Deixa a Nessie aproveitar a festa também.
— Continuo achando a ideia de vocês ridícula.
— E continua obedecendo — Mary respondeu.
— Eu não estou obedecendo. Só estou tentando não sufocar minha esposa.
— Chame como quiser.
Antes que eu respondesse, a banda terminou uma música mais agitada e o vocalista anunciou que diminuiria um pouco o ritmo. Os primeiros acordes de uma música mais lenta começaram a preencher o jardim e alguns casais se aproximaram do espaço reservado para dança. Eu ainda observava Nessie quando senti Mary segurar minha mão.
Olhei imediatamente para ela.
— O que você está fazendo?
Ela abriu um sorriso.
— Chegou a hora da dança.
— Que dança?
— A que eu estou te convidando para dançar.
Ri, achando que estava brincando, mas Mary já puxava minha mão.
— Mary, espera.
— Não.
— Eu nem disse que queria dançar.
— Você nunca quer dançar. Se eu esperasse sua vontade, nós ainda estaríamos parados aqui no seu aniversário de cinquenta anos.
Rachel começou a rir enquanto Mary me puxava pelo braço.
— Vai, Jake. É seu aniversário.
Olhei para Rebecca esperando algum apoio, mas minha irmã apenas levantou a taça.
— Dessa vez estou com elas.
— Vocês três estão começando a me dar medo.
Mary não me deu oportunidade de continuar reclamando. Segurou minha mão e me puxou para o meio dos casais que começavam a ocupar o espaço diante da banda. Eu a acompanhei mais pela surpresa do que por vontade, ainda tentando entender em que momento aquela conversa sobre os meus planos para depois da festa havia terminado comigo sendo arrastado para dançar.
— Você continua mandona — murmurei quando paramos.
— E você continua reclamando demais.
Ela colocou uma das mãos no meu ombro enquanto eu segurava a outra, mantendo entre nós a distância natural de dois velhos amigos. Começamos a acompanhar o ritmo da música e Mary riu quando quase pisei no pé dela.
— Você piorou.
— Faz anos que eu não danço com você.
— Isso não é desculpa. Eu ensinei direito.
— Você nunca me ensinou nada. Eu só tentava acompanhar.
Ela riu novamente e eu acabei acompanhando, lembrando das festas da nossa adolescência em que Mary praticamente me obrigava a sair da parede enquanto Embry e Rachel se divertiam às minhas custas. Foi uma lembrança boa e simples, mas bastou virar um pouco o rosto para encontrar Renesmee novamente.
Dessa vez ela não fingiu que estava olhando para outro lugar.
Continuava ao lado da minha mãe, com uma taça nas mãos e os olhos fixos em nós. Mesmo à distância consegui perceber que sua expressão havia mudado, e por alguns segundos esqueci completamente a conversa com Mary enquanto tentava entender o que se passava pela cabeça da minha esposa.
NARRADO POR JACOB
Quando a música terminou, Mary agradeceu pela dança e voltou para perto de Rachel e Rebecca, enquanto eu procurei Renesmee quase imediatamente. O lugar onde ela estava antes, perto da varanda, agora estava vazio. Olhei entre os convidados, procurei perto das mesas e até na direção da casa, mas não encontrei nem ela nem JJ. Aquilo me incomodou mais do que deveria. Durante a dança eu tinha percebido a maneira como Nessie nos observava, e agora comecei a pensar se Rachel e Mary não tinham ido longe demais com aquela história de me fazer parecer indiferente. Eu já estava prestes a entrar na mansão quando encontrei minha mãe conversando com algumas pessoas perto da mesa de doces.
— Mãe, você viu a Nessie?
Sarah apontou para a casa.
— Foi trocar o pequeno Jake. Acho que ele resolveu deixar um presente para a mãe bem na hora da festa.
Sorri, mas minha mãe continuou me olhando e logo sua expressão ficou mais séria.
— Está acontecendo alguma coisa entre vocês?
A pergunta me pegou de surpresa.
— Por quê?
— Porque a Renesmee está inquieta desde que chegou. Tentei conversar com ela algumas vezes, mas parece estar com a cabeça longe. Agora, quando você estava dançando com a Mary, ela ficou ainda mais estranha.
Passei a mão pela nuca e olhei para a casa. Minha mãe não sabia de absolutamente nada do plano de Rachel e Mary, muito menos do que eu havia preparado para depois da festa, e naquele momento achei melhor continuar assim.
— Vou falar com ela.
Sarah assentiu.
— Faça isso. Vocês já passaram tempo demais longe um do outro para desperdiçar a noite com algum mal-entendido.
Eu mal tinha dado dois passos quando Rachel surgiu no meu caminho e segurou meu braço.
— Nem pense em desaparecer agora. Está na hora do parabéns.
— A Nessie foi trocar o JJ. Eu vou buscá-la.
— Eu busco — Mary se ofereceu ao se aproximar. — Vai para a mesa antes que sua mãe resolva mandar alguém atrás de você.
— Não precisa, eu mesmo...
Rachel não deixou que eu terminasse. Segurou meu braço e começou a me puxar em direção à mesa montada perto da varanda.
— Jacob, tem um monte de gente esperando você há quase dez minutos. A Renesmee já vem.
Acabei cedendo e fui com ela. A banda interrompeu a música e aos poucos todos começaram a se aproximar, formando um grande círculo ao redor da mesa. O bolo estava no centro, cercado por doces que milagrosamente tinham sobrevivido a mim e Embry durante a tarde, e minha mãe parecia satisfeita ao ver que finalmente tinham conseguido reunir todo mundo no mesmo lugar.
Sam apareceu ao meu lado e olhou para o bolo com uma expressão séria demais.
— Só tenho um pedido.
— Qual?
— Quando chegar a hora do discurso, seja breve. Estou com fome.
As pessoas mais próximas ouviram e começaram a rir.
— Você passou a noite inteira comendo — respondi.
— Aquilo era aperitivo. Eu estou esperando o bolo.
Embry se aproximou logo depois, aparentemente muito melhor do que pela manhã. Ainda havia cansaço em seu rosto e eu sabia que teríamos muito o que conversar nos próximos dias, mas fiquei aliviado ao vê-lo ali.
— Dá um desconto para ele, Jake. Na sua idade, qualquer discurso longo pode acabar virando uma palestra sobre como era a vida antes da eletricidade.
As gargalhadas vieram imediatamente.
Olhei para meu irmão.
— Tenho trinta e nove anos.
Embry assentiu com a maior seriedade.
— Exatamente. Está praticamente vendo os quarenta pela janela.
— Você não está muito atrás.
— Hoje o velho é você. No meu aniversário a gente conversa.
Sam bateu no ombro dele.
— Continua distraindo o aniversariante enquanto eu descubro quem está responsável pela faca do bolo.
— Vocês dois só vieram pela comida.
— Finalmente percebeu — Embry respondeu.
Balancei a cabeça rindo e, quando voltei a olhar para a varanda, vi Renesmee saindo da mansão com JJ nos braços. Mary vinha alguns passos atrás dela. Meu filho estava com outra roupa, os cabelos penteados para o lado e uma expressão tão séria que parecia não entender por que havia tanta gente reunida.
Meu sorriso apareceu antes mesmo que eu percebesse.
Estendi a mão para Nessie.
— Vem aqui.
Ela hesitou por um instante, mas caminhou até mim. Quando chegou perto, coloquei a mão em sua cintura e a trouxe para o meu lado. JJ imediatamente tentou agarrar a gola da minha camisa, fazendo Renesmee rir enquanto tentava afastar sua mão.
— Acho que alguém quer ir com você.
— Então deixa ele vir.
Peguei nosso filho no colo e beijei sua bochecha. JJ segurou meu rosto com as duas mãos e soltou um daqueles sons que ultimamente pareciam acompanhar tudo o que fazia.
— Agora sim — Sarah comentou, aproximando-se. — Podemos cantar.
Rachel pediu um pouco de silêncio e, antes que começassem os parabéns, Sam levantou a mão.
— Lembrem do acordo. Discurso curto.
Todos riram novamente.
Olhei ao redor e encontrei rostos que faziam parte de praticamente todas as fases da minha vida. Minha mãe estava perto de Billy, Rachel e Rebecca permaneciam juntas, Embry conversava com Sam e Mary tinha parado ao lado deles. Renesmee estava ao meu lado, e JJ brincava com um dos botões da minha camisa enquanto eu tentava impedir que ele o arrancasse.
— Eu prometo não demorar porque aparentemente algumas pessoas aqui estão passando fome.
Sam ergueu o copo em concordância e ouvi novas risadas.
— Amanhã eu acordo oficialmente com trinta e nove anos, então descobri hoje que virei um quase quarentão.
Embry bateu palmas.
— Finalmente admitiu!
— Se você me interromper outra vez, não vai ganhar bolo.
— Retiro o que disse.
Esperei as risadas diminuírem antes de continuar.
— Eu nunca fui muito bom com discurso de aniversário, mas este ano é diferente. Quando fiz trinta e oito, eu não fazia ideia de como minha vida estaria hoje. Aconteceu tanta coisa nesses últimos meses que às vezes parece que passaram cinco anos em vez de um.
Olhei para JJ e ajeitei meu filho nos braços.
— Mas também foi o ano em que ganhei o melhor presente da minha vida.
JJ levantou o rosto quando ouviu minha voz e levou a mão até minha boca. Segurei seus dedinhos e beijei sua palma, arrancando alguns comentários carinhosos ao nosso redor.
— Esse rapazinho mudou tudo. Mudou meus horários, meu sono, minhas prioridades e conseguiu fazer um homem que cresceu no meio de cavalos descobrir que trocar uma fralda pode ser muito mais complicado do que cuidar de um estábulo inteiro.
Renesmee riu ao meu lado.
— E você ainda precisa melhorar bastante.
Olhei para ela.
— Eu estava indo muito bem até minha esposa resolver me desmoralizar na frente dos convidados.
— Só estou sendo sincera.
— Depois conversamos em casa, senhora Black.
Ela sorriu e, por alguns segundos, mantive meus olhos nos dela antes de voltar para todos.
— Também descobri que família não é só estar junto quando as coisas estão fáceis. Este último ano colocou todos nós à prova de maneiras diferentes, mas quando precisei olhar para o lado, vocês estavam aqui. Minha mãe, meu pai, minhas irmãs, meu irmão, meus amigos e as pessoas que trabalham comigo há tantos anos que já fazem parte dessa família também. Então eu só tenho a agradecer por estar completando mais um ano cercado por vocês.
Rachel sorriu e começou a bater palmas, sendo acompanhada pelos outros. Sam apontou imediatamente para o bolo.
— Acabou?
— Acabou.
— Graças a Deus.
As gargalhadas recomeçaram e logo todos começaram a cantar parabéns. Renesmee ficou ainda mais perto de mim e segurou uma das mãozinhas de JJ enquanto eu o mantinha no colo. Quando a música terminou, minha mãe acendeu a única vela no centro do bolo.
Abaixei um pouco o rosto para ficar na altura do meu filho.
— Agora você vai ajudar o papai.
JJ olhou para a chama com os olhos arregalados.
Nessie aproximou-se também.
— Sopra com o papai, meu amor.
Ele obviamente não fazia ideia do que estávamos pedindo. Em vez de soprar, tentou estender a mão para a vela e eu rapidamente segurei seus dedos.
— Não, campeão. Essa parte a gente aprende quando você estiver um pouco maior.
Renesmee começou a rir.
— Acho melhor você apagar antes que ele resolva pegar.
Concordei e soprei a vela com JJ seguro em meus braços, enquanto ele arregalava os olhos ao ver a chama desaparecer e logo começava a bater as mãozinhas, animado com as palmas ao nosso redor.
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