Olhei meu reflexo no espelho por longos segundos. O vestido azul-claro caía solto sobre o corpo, leve, confortável, mas era impossível não notar a mudança — minha cintura estava um pouco mais larga, o formato do meu corpo começava a se transformar. Toquei a barriga com cuidado, sem saber se devia sorrir ou chorar. Ainda era cedo, mas algo dentro de mim já dizia que aquela mudança era só o começo.

Respirei fundo, soltei o cabelo e passei um batom discreto. Eu não queria parecer abatida — não no aniversário do meu avô. A noite seria longa, e Alice e Rosalie tinham passado dias preparando a recepção. Se eu aparecesse com cara de quem chorou a semana inteira, Alice provavelmente teria um colapso fashion.

Quando saí do quarto e desci as escadas, encontrei meus pais na sala, prontos, elegantes como sempre. Mamãe foi a primeira a me notar.

— Olha só pra você… — disse Bella, com aquele sorriso terno que só ela tinha. — Está linda, minha filha.

Senti o coração amolecer. — Obrigada, mãe. — Me aproximei e a abracei, sentindo o perfume familiar de lavanda e o calor do colo dela. Por um instante, o mundo pareceu mais leve.

Papai nos observava com aquele ar contido de sempre, mas o olhar dele era cheio de orgulho. Ainda assim, foi Antony quem quebrou o momento, surgindo com o paletó meio torto e o humor habitual.

— Podemos ir? — disse, olhando para o relógio. — Porque, se demorarmos mais cinco minutos, tia Alice vai surtar e ligar trinta vezes.

Mamãe riu. — Ele não tá errado.

— E eu não tô disposta a enfrentar Alice Cullen de mau humor — completei, tentando esconder o nervosismo com uma piada.

Papai pegou as chaves do carro e fez um gesto com a cabeça. — Então vamos.

Saímos juntos da mansão, os quatro. A noite estava fria, o céu encoberto, mas havia algo aconchegante naquele instante — nós caminhando lado a lado, como uma família unida, mesmo depois de tudo o que tinha acontecido.

Por um momento, deixei de lado os medos, as dúvidas, o futuro incerto.

Apenas senti.

E percebi que, apesar de tudo, ainda existiam coisas boas esperando por mim.


O salão escolhido para a recepção era o Fairmont Olympic Hotel, um dos lugares mais elegantes de Seattle. O saguão brilhava sob a luz dos lustres de cristal, e o som suave do piano ecoava ao fundo, misturando-se às conversas animadas e ao tilintar das taças.

Assim que chegamos, avistei meus avós no centro do salão. Esme estava radiante em um vestido verde-esmeralda, e Carlisle, impecável como sempre, cumprimentava os convidados com aquele sorriso gentil e educado que parecia fazer qualquer um se sentir bem-vindo.

Assim que nos viram, os dois abriram um largo sorriso e vieram em nossa direção.

— Finalmente! — disse Esme, abrindo os braços para abraçar mamãe e depois a mim. — Eu estava contando os minutos pra ver vocês.

Carlisle se aproximou de papai e o envolveu num abraço firme. — Edward, meu filho, você não mudou nada.

Papai riu baixo. — O senhor também não. Ainda parece capaz de dar plantão de doze horas sem pestanejar.

— Não me tenta, porque às vezes eu sinto falta — respondeu Carlisle, com aquele brilho divertido nos olhos.

Esme abraçou Antony com o mesmo carinho de sempre e, por fim, voltou-se para mim. — Renesmee, minha querida. Você está linda!

— Obrigada, vovó — disse, sorrindo. — E vocês? Como foi o cruzeiro? Gostaram da surpresa?

Carlisle deu uma risada leve. — Gostar é pouco. Foi maravilhoso. Mas, pra ser sincero, eu mal saí do navio e já fui sequestrado pela sua avó pra essa festa.

— Não reclama — retrucou Esme, divertida. — Você sabe que adora uma boa comemoração.

— Eu adoro, sim. — Ele olhou para ela com carinho e depois voltou o olhar pra mim. — Mas o melhor presente é ver minha família reunida assim.

Fiquei um pouco sem jeito sob aquele olhar — tão cheio de orgulho e ternura, mas com um toque de seriedade também.

— Você está… diferente, Renesmee — disse ele, após um breve silêncio.

Tentei disfarçar, sorrindo. — Diferente como?

— Mais madura — respondeu, desviando o olhar para a multidão, como se já soubesse das mudanças em mim. — Depois da festa, quero conversar com você, tudo bem?

Assenti, sentindo o estômago revirar de leve. — Tudo bem, vovô.

Esme me puxou novamente para um abraço, animada. — Agora, sem mais conversas sérias. Hoje é uma noite pra celebrar.


O salão estava cada vez mais cheio, e o som das risadas familiares logo se misturou à música suave que vinha do palco. Eu estava conversando com Esme quando ouvi uma voz animada atrás de mim:

— Que bom que chegaram!

Me virei e vi Alice avançando com seus saltos brilhantes e um sorriso que parecia iluminar o salão. Atrás dela vinham Jasper, sempre com aquele ar sereno, Rosalie impecável como uma modelo saindo de uma capa de revista, e Emmett, que já me cumprimentava de longe com um aceno exagerado.

E, claro, logo atrás deles estavam Anna e Rafaela, minhas primas queridas — e cúmplices das minhas maiores confusões.

Alice me envolveu num abraço apertado, o perfume floral dela me cercando. — Olha só pra você, Nessie! Está ainda mais linda do que nas fotos que sua mãe mandou!

Rosalie, com um sorriso orgulhoso, tocou meu cabelo. — Essa cor fica perfeita em você, querida. É delicada e marcante ao mesmo tempo.

Antony, ao lado, fingiu indignação. — Impressionante como vocês duas passam por mim como se eu fosse invisível.

Emmett riu alto, dando um tapa no ombro dele. — Relaxa, garoto, você não compete com uma mulher grávida.

— Emmett! — reclamei, rindo e corando ao mesmo tempo.

Todos riram juntos, o clima leve e alegre. Era bom ver todos ali — a família reunida, como há tempos não acontecia.

Foi então que Anna e Rafaela se entreolharam com aquele olhar cúmplice de quem estava prestes a aprontar algo.

— Vem, Nessie! — disse Rafa, puxando meu braço. — Os doces estão lindos, e a tia Alice vai surtar se a gente não provar logo.

— É, e você precisa comer por dois agora! — completou Anna, me arrastando pelo salão enquanto todo mundo ria.

Fomos até a mesa de sobremesas, que era praticamente uma obra de arte: macarons, tortas, mini cheesecakes e uma torre de chocolates que parecia saída de um sonho.

Enquanto eu observava tudo, Anna me cutucou. — E então… como estão as coisas?

Suspirei, pegando uma taça de mousse. — Mais calmas. Eu diria… estáveis.

Rafa arqueou uma sobrancelha, desconfiada. — Isso quer dizer que o drama esfriou ou que você tá só tentando se convencer disso?

Dei um pequeno sorriso. — Quer dizer que Jake7 tem ajudado muito.

Anna arregalou os olhos, com um sorrisinho travesso. — Jake, é?

Revirei os olhos. — É o apelido dele, Anna.

— Aham. — Ela cruzou os braços, fingindo inocência. — Então agora vocês já estão nesse nível de intimidade, é isso?

Rafaela gargalhou, balançando a cabeça. — Ai, Nessie, até seu jeito de dizer o nome dele entrega tudo.

— Vocês duas são insuportáveis — resmunguei, sentindo o rosto queimar. — Ele é só um amigo, tá bom?

Anna apoiou o queixo nas mãos, fingindo drama. — Só amigo… por enquanto.

— Anna! — exclamei, rindo sem conseguir esconder o constrangimento.

Ela deu de ombros, divertida. — Ué, não me olha assim. Eu só tô torcendo pra esse amigo continuar te fazendo sorrir desse jeito.

E eu, por mais que quisesse negar, senti o calor subir ainda mais pelo rosto.

Porque, no fundo, sabia que ela tinha razão.


A música estava alta, vibrante, e o salão inteiro parecia brilhar sob as luzes douradas. As risadas ecoavam, as taças se chocavam, e por um instante, a vida parecia leve outra vez.

O parabéns para o meu avô foi emocionante — Alice, claro, tinha preparado uma entrada triunfal com bolo, velas e uma orquestra que surgiu do nada. Carlisle, sempre elegante, agradeceu com um breve discurso sobre família, amor e “como Esme ainda consegue ser mais bonita a cada aniversário dele”, o que fez todos rirem e Esme corar como uma garota de vinte anos.

Depois disso, a festa se transformou num turbilhão de alegria. Anna e Rafaela, animadas, me puxaram pelo braço.

— Anda, Nessie! — disse Rafa, já se balançando ao ritmo da música. — Você precisa dançar!

— Eu? — perguntei rindo. — Eu não danço desde o último baile da faculdade.

— Então hoje vai dançar — disse Anna, determinada. — E não aceito desculpas de grávida!

Antes que eu protestasse, já estava no meio da pista, cercada por risadas, vestidos rodando e a música invadindo o corpo.

Por alguns minutos, esqueci tudo — o peso, as dúvidas, os olhares.

Apenas ri e dancei, como fazia antes de tudo mudar.

Mas o vibrar do celular na minha bolsa me tirou do transe. Parei, ofegante, e toquei o braço de Rafaela.

— Volto já, prometo.

Ela assentiu, ainda rindo, e eu me afastei do salão, indo para um dos corredores laterais do hotel — mais calmo, com menos luz. Peguei o celular e olhei o visor.

Jacob.

Senti um frio leve no estômago antes de atender.

— Oi, Jake.

A voz dele veio firme, mas com aquele tom de cuidado que eu já começava a reconhecer.

— Oi, Nessie. Tudo bem?

— Tudo. Quer dizer… mais ou menos. Mas agora tô dançando com minhas primas e comendo bolo, então acho que isso conta como "bem". — Sorri, tentando soar leve.

Ouvi ele rir do outro lado. — Que bom ouvir você rindo.

— E você? — perguntei. — Como tá?

— Correndo com uns papéis da fazenda… e pensando se você tomou as vitaminas hoje.

Revirei os olhos, sorrindo. — Jake, você virou meu nutricionista agora?

— Só um homem preocupado — respondeu, no mesmo tom tranquilo. — Então tomou?

— Esqueci — admiti, rindo. — Mas assim que chegar em casa, eu tomo. Prometo.

Houve um silêncio breve, e então a voz dele veio carregada de algo mais sério.

— Eu imaginei que você fosse dizer isso.

— E o que tem demais? — perguntei, confusa. — Vou tomar mais tarde, pronto.

— Não precisa. — A voz dele mudou de tom, mais próxima, quase sorridente. — Porque eu vim pessoalmente resolver isso.

Por um instante, achei que tivesse entendido errado.

— Como é que é?

Antes que eu perguntasse de novo, olhei em direção à entrada do salão — e meu coração parou por um segundo.

Jacob estava ali.

De pé, imponente, com um terno escuro que parecia feito sob medida e aquele olhar calmo, firme, que me desarmava sempre.

As mãos nos bolsos, o sorriso de canto e a presença dele tomando o espaço, como se o mundo tivesse diminuído de tamanho ao redor.

— Jake… — murmurei, ainda surpresa. — Você tá brincando, né?

Do outro lado da linha, ouvi o tom satisfeito dele.

— Não. E, se não for incômodo, acho que posso até te entregar as vitaminas pessoalmente.

Sorri, sentindo o coração acelerar sem saber dizer se o que eu sentia era surpresa… ou algo muito mais perigoso.