O pai do meu bebê
32 Renesmee
Eu ainda sentia o calor do abraço dele, mesmo depois de me afastar. Era estranho… Jacob tinha uma presença diferente. Ele não me olhava com pena, nem com aquela preocupação exagerada que eu via nos olhos dos meus pais. Havia algo calmo nele — uma firmeza que me fazia querer respirar de novo.
Enquanto enxugava as lágrimas com as costas da mão, percebi que algo dentro de mim mudava devagar. Talvez eu precisasse parar de lutar tanto contra tudo e todos. Talvez baixar a guarda não fosse sinal de fraqueza.
— Obrigada — murmurei, ainda com a voz embargada. — Por me ouvir… por não me tratar como se eu fosse feita de vidro.
Jacob deu um meio sorriso, aquele tipo de sorriso que começava discreto e iluminava o rosto inteiro. — Você não precisa agradecer. Só fiz o que qualquer amigo faria.
Amigo. A palavra soou estranha, mas ao mesmo tempo reconfortante.
Ele se inclinou um pouco, cruzando os braços. — Que tal a gente sair daqui e comer alguma coisa?
Arqueei uma sobrancelha, surpresa. — Agora?
— É, agora. — Ele deu de ombros. — Tenho quase certeza de que você não comeu direito o dia todo.
Soltei uma risadinha sem graça. — Eu não tô com muita fome, pra falar a verdade. Acho melhor ir pra casa.
Jacob balançou a cabeça devagar, com aquele olhar firme que não aceitava objeção. — Olha, Renesmee… eu só vou te deixar em casa depois que você se alimentar. Então, podemos fazer isso do jeito fácil — com um jantar tranquilo — ou eu te levo num drive-thru e fico olhando até você terminar o lanche.
Não consegui evitar o riso que escapou.
— Então você não vai aceitar um “não”, é isso?
— Faz parte da amizade — ele respondeu com um sorriso de canto. — Aceitar que eu sou um pouco superprotetor.
Balancei a cabeça, rindo de leve. — Um pouco?
— Tá bom, talvez muito. — Ele ergueu as mãos num gesto de rendição. — Mas eu prometo que o jantar vai ser leve. Só conversa, nada de interrogatório.
Suspirei, mas senti o peso do dia começar a diminuir.
— Certo, Cowboy. Você venceu.
Jacob sorriu, satisfeito. — Então, combinado. E, por favor, nada de chamar de “cowboy”, senão eu começo a te chamar de “princesa”.
Revirei os olhos, rindo, e pela primeira vez em muito tempo, senti algo simples e bom: paz.
Talvez — só talvez — conversar com ele não fosse um erro.
Acabamos escolhendo um restaurante pequeno e aconchegante em Ballard, chamado The Walrus & The Carpenter. O lugar era iluminado por luzes amareladas e cheirava a pão fresco e frutos do mar. As mesas de madeira e o som leve de jazz criavam uma atmosfera tranquila — quase íntima.
Eu ainda não acreditava que estava ali, jantando com Jacob Black. No começo, tudo parecia meio estranho, mas conforme a conversa fluía, as risadas vieram naturalmente.
— Então você realmente tentou abrir o armário de anatomia achando que era a saída da sala? — Jacob perguntou, rindo alto, enquanto o garçom servia nossos pratos.
Levei a mão ao rosto, rindo também. — Eu estava nervosa, tá? Era o primeiro dia de aula, e o professor tinha aquele olhar de vilão de filme antigo.
— Aposto que seus colegas nunca deixaram você esquecer disso.
— Nunca. — suspirei, divertida. — Até hoje a Anna me manda fotos de esqueletos com legenda “saída de emergência”.
Ele gargalhou, e o som da risada dele era contagiante, cheio de vida. Eu percebi que gostava de ouvir.
— Sabe — ele disse, ainda rindo — faz alguns anos que eu saí da faculdade, mas também passei por umas boas.
— Ah, é? — apoiei o queixo nas mãos, curiosa. — Tipo o quê?
— Tipo… o dia em que eu fui apresentar um projeto e descobri, no meio da apresentação, que o arquivo era o da minha irmã.
Arregalei os olhos. — Não!
— Sim. — ele riu, balançando a cabeça. — Eu, lá, tentando falar sobre engenharia mecânica, e de repente, na tela, aparecem as fotos de um ensaio de nutrição sobre “alimentação equilibrada”.
Soltei uma risada alta. — Meu Deus, eu teria desmaiado!
— Eu quase desmaiei. Mas, por algum milagre, o professor achou que era uma “crítica à relação entre energia humana e máquinas”. Tirei nove e meio.
Continuei rindo, e por um instante, percebi que não pensava em Riley, nem no hospital, nem em nada que me pesava nos últimos dias.
— Você não parece ser tão… — fiz uma pausa, buscando a palavra certa — “velho” pra já ter passado da faculdade há tanto tempo.
Jacob arqueou uma sobrancelha, com um sorriso provocador. — “Velho”, é?
Ri, meio sem graça. — Não foi isso que eu quis dizer! É que você… sei lá… não parece.
— Bom — ele disse, apoiando os cotovelos na mesa —, eu já passei dos trinta faz um tempinho.
Fingi estar chocada. — Mentira!
— Verdade.
— Trinta o quê? Trinta e dois?
— Hm… mais pra trinta e cinco.
— Não acredito. Eu jurava que você tinha, sei lá… vinte e oito.
Ele riu, balançando a cabeça. — Tá tentando me agradar, é isso?
— Não, só sendo sincera. — dei um sorriso tímido. — Você realmente não parece ter trinta e cinco.
Ele me olhou com um daqueles sorrisos calmos, que vinham devagar e pareciam dizer mais do que palavras.
E por um instante, enquanto o jazz tocava e o cheiro de pão quente se misturava ao som das risadas ao redor, percebi que a conversa com Jacob não era só leve. Era… fácil.
Fácil de falar. Fácil de rir.
Fácil de me sentir, finalmente, em paz.
Quando o carro parou em frente à minha casa, o céu de Seattle já estava coberto por um manto de estrelas tímidas. As luzes da varanda estavam acesas, e por um momento senti aquele frio na barriga que sempre aparece antes de entrar em casa depois de um dia longo — ou de um dia importante.
Jacob saiu primeiro, deu a volta e abriu a porta para mim. Um gesto simples, mas cheio de cuidado. Senti o ar frio da noite tocar meu rosto e respirei fundo antes de subir os degraus da varanda.
Assim que a porta se abriu, vi minha mãe vir em minha direção.
— Renesmee! — Bella exclamou, me puxando para um abraço apertado antes mesmo que eu conseguisse dizer qualquer coisa. — Meu Deus, você me deixou louca de preocupação!
Fechei os olhos e retribuí o abraço, sentindo o calor familiar e o cheiro leve de café que sempre parecia acompanhá-la. — Desculpa, mãe. Eu só precisava… respirar um pouco.
Ela se afastou o suficiente pra me olhar de cima a baixo, como se precisasse se certificar de que eu estava inteira. — Respirar tudo bem, filha, mas desaparecer não!
Antes que eu pudesse responder, ouvi a voz firme do meu pai atrás dela. — Renesmee.
Edward estava na sala, parado, com as mãos nos bolsos e o semblante mais sereno do que eu esperava. Seus olhos, no entanto, denunciavam o alívio que ele tentava disfarçar.
— Oi, pai. — murmurei, sem jeito.
Ele deu um passo à frente, desviando o olhar por um instante, e só então percebi que Jacob ainda estava ao meu lado.
— Senhor Cullen. — Jacob disse, educado, estendendo a mão. — Eu a encontrei no Discovery Park. Achei melhor trazê-la pessoalmente.
Meu pai apertou a mão dele, o rosto sério, mas o tom sincero. — Eu agradeço, senhor Black. De verdade.
— Foi nada — Jacob respondeu, simples, com aquele tom tranquilo que parecia sempre esconder mais do que dizia. — Só fiz o que qualquer um faria.
Minha mãe olhou para ele com gratidão. — Mesmo assim, obrigada, Jacob. Você não imagina o quanto esse gesto significa pra gente.
Ele apenas acenou com a cabeça, recuando um passo. — Eu fico feliz que ela esteja bem.
Olhei pra ele por um instante, sentindo algo estranho — como se quisesse dizer mais, mas as palavras simplesmente não vinham. Ele me lançou um olhar rápido, um sorriso de canto, e então virou-se para meu pai.
— Eu já vou indo.
— Claro — Edward assentiu. — Mais uma vez, obrigado.
Jacob me olhou uma última vez. — Se cuida, Renesmee.
Assenti, tentando sorrir. — Você também.
Quando ele saiu e a porta se fechou atrás dele, minha mãe passou o braço pelos meus ombros e me conduziu até o sofá.
— Agora, me conta — disse ela, com aquele tom que misturava preocupação e carinho. — Onde você esteve o dia todo, mocinha?
Suspirei, sentando. — No parque… pensando. E, bem… — olhei para a porta, onde a silhueta de Jacob ainda parecia ecoar na minha mente — ele me encontrou.
Meu pai cruzou os braços, observando em silêncio. Eu sabia que o assunto “Jacob Black” estava longe de acabar. Mas, por enquanto, o que importava era estar em casa.
E pela primeira vez em muito tempo, eu realmente senti um pouco de paz.
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