A aula de Anatomia Humana II estava em andamento e, por mais que eu tentasse me concentrar, as palavras da professora pareciam flutuar pelo ar, sem fazer sentido. As luzes frias da sala, o cheiro do formol vindo das bancadas… tudo parecia me incomodar mais do que o normal.

A professora, doutora Hargreeves, explicava sobre a estrutura do sistema digestivo quando senti o estômago revirar de repente. Um enjoo súbito, intenso, como se o café da manhã tivesse se transformado em chumbo dentro de mim. Levei a mão à boca, tentando disfarçar, mas a tontura veio logo em seguida.

A professora me notou. — Senhorita Cullen, está tudo bem? — perguntou, com gentileza.

Balancei a cabeça, envergonhada. — Acho que não muito, professora. Posso sair um instante?

Ela assentiu, o olhar compreensivo. — Claro, querida. Vá com calma.

Peguei minha mochila e saí quase tropeçando. Fui direto ao banheiro mais próximo. Assim que cheguei, me apoiei na pia, respirei fundo, mas não deu tempo — o enjoo venceu. Vomitei o café apressadamente, sentindo os olhos arderem.

Fiquei ali por alguns minutos, respirando devagar. Quando o mal-estar passou, lavei o rosto com água fria. O reflexo no espelho mostrava uma versão minha pálida, cansada e perdida. Suspirei. “Você precisa se recompor, Nessie”, murmurei pra mim mesma.

Ao sair, ouvi duas garotas conversando no corredor, animadas. Eram das líderes de torcida.

— Os meninos do time estão fazendo o jogo teste agora — disse uma delas. — O treinador quer definir quem vai pro torneio.

— Riley vai arrasar — respondeu a outra, rindo. — Aposto que vai ser o destaque, como sempre.

O nome dele me fez parar. Riley.

Por um instante, pensei em voltar pra casa. Mas algo em mim — talvez o desejo de vê-lo, talvez só saudade — me fez mudar de direção.

Atravessei o pátio até a quadra. De longe, já dava pra ouvir o som das bolas batendo no chão e os gritos da torcida. As líderes estavam reunidas à frente, com pompons coloridos, rindo alto. Várias garotas ocupavam as arquibancadas, a maioria claramente ali por causa dos jogadores.

Sentei no ponto mais distante, quase me escondendo entre as sombras do ginásio.

Lá embaixo, Riley estava em quadra. O cabelo preso num coque improvisado, o olhar concentrado. Ele parecia outro — leve, confiante, no controle de tudo. A cada cesta que fazia, os gritos aumentavam.

Fiquei observando, sem saber se o que sentia era orgulho, dor ou saudade. Talvez um pouco de tudo.

Mas, naquele momento, sentada ali, eu não era a filha do doutor Cullen, nem a garota que carregava o bebê de um estranho.

Era só Renesmee, tentando lembrar como era se sentir parte de algo simples outra vez.


Fiquei nas sombras da arquibancada, observando o jogo continuar. O som da bola ecoava pelo ginásio, misturado aos gritos das líderes de torcida e ao apito do treinador. Riley jogava com a intensidade de sempre — o mesmo brilho nos olhos, a mesma confiança que eu sempre admirei.

Depois de alguns minutos, o treinador apitou encerrando a partida para uma pausa. Os jogadores se reuniram perto do banco, suados, animados, trocando risadas. Foi então que notei dois homens de terno se aproximando. Não os conhecia. Eles falaram algo ao treinador, que imediatamente chamou Riley.

De onde eu estava, dava pra ver o sorriso dele surgir no rosto, primeiro surpreso, depois cheio de orgulho. Um dos homens apertou sua mão, e o outro fez o mesmo com o treinador. Pareciam satisfeitos.

O treinador então deu uns tapinhas nas costas de Riley, sorrindo largo. Depois, ele se virou para os outros garotos e gritou, com a voz cheia de entusiasmo:

— Atenção, pessoal! Quero que todos saibam que o nosso Riley Biers acaba de ser pré-selecionado pelo Seattle Thunderbirds!

Um burburinho tomou conta do ginásio. A torcida explodiu em gritos e aplausos. Os companheiros de time o cercaram, batendo nas costas dele, levantando-o no ar como um verdadeiro herói.

Eu senti um nó na garganta, mas era de felicidade.

O Thunderbirds era o sonho dele desde o primeiro semestre. O caminho pra carreira profissional. E agora estava acontecendo.

Sorri, de verdade, pela primeira vez em dias.

Desci as escadas da arquibancada devagar, já imaginando o sorriso dele quando me visse, a forma como eu o abraçaria e diria o quanto estava orgulhosa.

Mas antes que eu pudesse chamá-lo, vi um vulto ruivo atravessar a quadra. Victoria.

Ela correu até ele, se jogou em seus braços e o beijou, ali, na frente de todos.

O tempo pareceu parar. O barulho do ginásio desapareceu. Só o som do meu coração ecoava nos meus ouvidos. Riley não a afastou. Ficou parado, surpreso por um segundo — e depois retribuiu o beijo.

Eu congelei no meio da escada, com as mãos trêmulas segurando o corrimão. A felicidade que eu sentia segundos antes se desfez como vidro quebrando.

Desviei o olhar, tentando respirar.

Não chore aqui, pensei. Não agora.

Aplausos e gritos continuavam, mas pra mim tudo ficou distante, borrado.

Eu só queria sair dali antes que alguém me visse.

Fiquei parada no meio da arquibancada, incapaz de me mover. O barulho ao redor parecia distante, abafado, como se o mundo tivesse diminuído o som só pra que eu pudesse ouvir o próprio coração se partindo.

Riley ainda segurava Victoria pela cintura quando finalmente levantou o olhar. Nossos olhos se encontraram. A expressão dele mudou no mesmo instante — do orgulho e da euforia para o choque puro. Ele a soltou quase de imediato e começou a correr na minha direção, atravessando a quadra com passos apressados.

Eu não consegui me mover. Só quando ele se aproximou o bastante, minha razão gritou dentro de mim — e eu dei as costas, descendo os degraus da arquibancada sem olhar pra trás.

— Nessie! — ouvi a voz dele, aflita, ecoando atrás de mim. — Espera, por favor!

Apertei o passo, o nó na garganta ficando impossível de engolir. Senti a mão dele segurar meu braço e virei-me bruscamente.

— Me solta, Riley! — pedi, a voz embargada.

— Eu posso explicar — ele disse, ofegante. — Não é o que parece, eu juro!

— Não é o que parece? — ri, amarga. — Porque, daqui onde eu tava, parecia exatamente o que era.

Ele tentou se aproximar, mas eu dei um passo atrás.

— Nessie, ela me pegou de surpresa. Eu nem sabia o que estava acontecendo!

— E mesmo assim retribuiu. — Minha voz saiu fraca, quase num sussurro. — Parabéns, Riley. Agora você tem tudo o que queria. O time… e ela.

Olhei pra mão dele e vi o anel que eu mesma usava, o símbolo do que eu acreditava ser amor. Tirei-o do meu dedo, lentamente, sentindo o coração pesar a cada movimento.

— Isso é seu — disse, colocando a aliança na palma da mão dele. — Ou melhor… é dela quem deve usá-la agora.

Ele ficou imóvel, olhando pro anel, sem dizer nada. Eu dei um passo pra trás, tentando segurar as lágrimas que já ameaçavam cair.

— Boa sorte, Riley — murmurei, virando as costas antes que ele pudesse responder.

Ele me chamou de novo, mas eu não olhei pra trás. Caminhei o mais rápido que pude, deixando as lágrimas escorrerem livremente.

Lá fora, o sol ainda brilhava, como se o mundo não tivesse percebido que o meu tinha acabado de desabar.