O pai do meu bebê
30 Jacob
Por.Jacob
A manhã em Seattle estava fria, e o céu tinha aquela cor acinzentada que parecia refletir meu humor. O som do trânsito lá fora entrava pelas frestas da janela enquanto eu servia café numa das canecas da cozinha.
A campainha tocou pontualmente às dez. Eu já sabia quem era.
— Entra, Alec — disse, abrindo a porta.
Alec Volturi atravessou o corredor com a elegância de sempre, o terno impecável e a pasta de couro sob o braço. Era o tipo de homem que parecia ter nascido em um tribunal.
— Bom dia, Jacob — cumprimentou, apertando minha mão com firmeza. — Espero que não se importe se eu for direto ao ponto.
— Por favor — respondi, sentando no sofá e indicando a poltrona em frente. — Acho que quanto mais rápido resolvermos isso, melhor.
Ele abriu a pasta, tirou alguns documentos e ajeitou os óculos antes de falar:
— Recebemos a resposta da senhora Heidi Black. Ela se recusou a assinar o acordo de divórcio amigável.
Dei um riso curto, sem surpresa. — Eu imaginei. Heidi nunca soube quando recuar.
— Ela também apresentou uma contraproposta — continuou Alec, deslizando uma folha na minha direção. — Quer uma compensação financeira e parte da fazenda.
Peguei o papel, olhei por cima, e deixei sobre a mesa. — Isso não vai acontecer.
Alec assentiu, como se já esperasse minha resposta. — Nesse caso, a alternativa é seguir com o divórcio litigioso. Vai ser mais demorado e mais desgastante, mas é a única forma de encerrar isso sem ceder.
Cruzei os braços, refletindo. — Faça o que for preciso. Eu só quero seguir em frente.
Alec guardou os papéis e fechou a pasta, mas percebi que ele me observava com atenção. — Há mais alguma coisa, Jacob? Você parece… mais tenso que o normal.
Suspirei e passei a mão pelo rosto. — Tem, sim. Heidi tá planejando outra coisa.
— Outra coisa?
— Ela me procurou. Disse que vai entrar com um processo pra tentar tirar a guarda da criança de Renesmee. Disse que foi “lesada” no procedimento e que tem direito sobre o bebê.
Alec arqueou as sobrancelhas, claramente surpreso. — Ela realmente disse isso?
— Disse. E parecia acreditar em cada palavra.
Ele se recostou na poltrona, pensativo. — Legalmente, é uma jogada muito arriscada. O material genético é seu, Jacob, e a gestação foi feita no corpo da senhorita Cullen. Heidi não tem vínculo biológico com a criança.
— Mas ela pode alegar erro médico, não?
— Sim — respondeu Alec — mas o máximo que conseguiria seria uma indenização contra o hospital, nunca a guarda da criança. Para isso, ela teria que provar que o bebê seria fruto do material dela, o que, com os registros e as provas em mãos, é impossível.
Assenti devagar, aliviado, mas ainda irritado. — Mesmo assim, ela vai tentar.
Alec me olhou com firmeza. — Então nós vamos estar preparados.
Fiquei em silêncio por um momento, o som distante da cidade enchendo o espaço entre nós.
— Essa mulher vai me destruir se eu deixar — murmurei.
— Não vai — respondeu Alec, fechando a pasta e se levantando. — Você só precisa continuar firme. O resto, Jacob, é comigo.
Assenti, estendendo a mão para ele.
— Então faça o que for necessário, Alec. Eu não vou perder meu filho.
Ele apertou minha mão e deu um leve sorriso profissional. — E não vai.
Entreguei um copo de uísque a Alec, que aceitou com aquele ar contido de quem raramente se permite relaxar. Ele girava o líquido no copo enquanto falava sobre prazos e documentos, mas mal consegui prestar atenção — minha cabeça estava em outro lugar.
O som do celular vibrou sobre a mesa. Olhei para a tela: Rebecca.
Atendi de imediato. — Fala, Bec.
A voz dela veio tensa, apressada. — Jake, o pai da Renesmee acabou de me ligar. Ele está preocupado, e com razão. Parece que a moça saiu da faculdade há algumas horas… e ninguém sabe onde ela está.
Endireitei o corpo, sentindo o estômago apertar. — Como assim ninguém sabe?
Alec me olhou, curioso, parando o movimento do copo. Eu me levantei, começando a andar pelo apartamento. — Rebecca, você pode repetir isso? Ninguém sabe onde ela foi?
— As sobrinhas dela disseram que ela saiu nervosa depois de uma discussão, mas não atenderam mais o telefone. A mãe dela está desesperada.
Apertei o celular contra o ouvido, já sentindo o sangue ferver. — E vocês só estão me avisando agora?
— Jake, eu só soube há poucos minutos — respondeu ela, a voz trêmula. — Os pais estão preocupados.
Alec se aproximou um pouco. — Aconteceu alguma coisa?
Fiz um gesto pra ele esperar e voltei a falar com Rebecca. — Escuta, Bec… eu vou procurar por ela.
— Procurar? — ela repetiu, confusa. — Jake, a cidade é enorme! Onde vai começar?
— Onde for preciso — respondi, pegando as chaves do carro na mesa. — Se eu tiver que revirar Seattle inteira, eu vou achar essa garota.
Rebecca suspirou do outro lado da linha. — Jake, eu sei que você se preocupa, mas…
— Não é só preocupação, Bec. — Interrompi, a voz firme. — Ela tá grávida do meu filho. Eu não vou ficar sentado esperando notícias.
Do outro lado, o silêncio dela foi breve, pesado.
— Tudo bem, Jake. Eu te aviso se souber de algo.
— Faça isso. — Encerrei a ligação.
Alec me observava, sério. — Imagino que seja sobre a moça que espera o seu filho.
Assenti, respirando fundo. — Ela sumiu. Ninguém sabe onde está.
Ele deu um pequeno gole no uísque, avaliando minha expressão. — E o que vai fazer?
Peguei o casaco e segui para a porta. — O que um pai faria, Alec. Vou encontrá-la.
— E se ela não quiser ser encontrada? — perguntou, com o tom calmo de sempre.
Parei na porta por um instante e olhei pra ele. — Então ela vai ter que me dizer isso pessoalmente.
Saí do apartamento decidido.
A cidade lá fora parecia mais fria do que antes — mas não importava.
Enquanto eu respirasse, eu procuraria por Renesmee Cullen.
O trânsito de Seattle parecia interminável. Eu já havia passado por meio mundo de lugares — Gas Works Park, Pike Place, até um pequeno café em Queen Anne onde pensei que ela pudesse estar. Nada. Nenhum sinal.
O relógio marcava quase seis da tarde quando cheguei ao Discovery Park. O céu estava tingido de tons dourados e rosados, e o som distante das crianças brincando contrastava com o peso que eu sentia no peito.
Estacionei o carro e fiquei ali por alguns segundos, observando o movimento. Famílias espalhadas pelo gramado, casais caminhando, e um grupo de garotos tentando empinar uma pipa que insistia em cair.
Foi então que a vi.
Sentada num dos bancos de madeira, de costas para mim, os cabelos ruivos soltos balançando com o vento do fim da tarde. Ela observava o pôr do sol como se o mundo ao redor não existisse.
Meu coração disparou.
Mesmo de longe, eu sabia que era ela.
Saí do carro e caminhei devagar na direção dela, sentindo uma mistura de alívio e nervosismo crescer dentro de mim. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. Quando cheguei perto o suficiente, respirei fundo e disse, num tom leve — tentando disfarçar o quanto meu peito estava apertado:
— Você sabe que a gente precisa parar de se encontrar assim… do nada, nos lugares mais aleatórios da cidade.
Ela virou o rosto devagar, surpresa. Os olhos cor de mel se arregalaram por um instante, e eu juro que por alguns segundos o tempo parou de novo — igual da primeira vez.
— Jacob? — ela murmurou, como se duvidasse do que via.
Sorri de canto, tentando aliviar o clima. — Bom, pelo menos dessa vez eu não precisei quase te atropelar pra te achar.
Renesmee piscou algumas vezes, claramente sem saber se ria ou se chorava. E naquele pôr do sol, com o vento brincando com o cabelo dela e as crianças rindo ao fundo, eu soube que tinha feito a coisa certa em procurá-la.
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