O vento do fim da tarde soprava leve, trazendo o cheiro doce das árvores e o som distante das risadas das crianças. Eu respirei fundo, tentando disfarçar a tensão que me acompanhava desde que a encontrei.

— Posso sentar? — perguntei, apontando para o espaço ao lado dela no banco.

Renesmee assentiu com um leve movimento de cabeça, ainda me observando como se tentasse entender o que eu fazia ali.

Sentei ao lado dela, mantendo um pequeno espaço entre nós. Ela cruzou os braços e olhou para o horizonte, onde o sol começava a se esconder atrás das colinas.

— Eu deveria perguntar — disse, com um meio sorriso cansado — se isso foi mesmo coincidência ou se sua família colocou o FBI atrás de mim porque eu parei de atender as ligações.

Deixei escapar uma risada breve. — Confesso que não fui tão longe, mas acho que seu pai teria feito isso se eu não tivesse te achado antes.

Ela suspirou, o olhar ainda perdido no pôr do sol. — Eles devem estar preocupados…

— Devem, sim. — Falei com calma. — E com razão.

— Mas tá tudo bem. — A voz dela saiu baixa. — O bebê também deve estar bem, do contrário… eu saberia.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, observando o modo como ela dizia “o bebê”, como se ainda não acreditasse totalmente que existia uma vida ali.

— Não se trata só do bebê, Renesmee — falei por fim.

Ela virou o rosto, me encarando com um misto de confusão e cautela. — E do que mais, então?

— Da mãe dele. — respondi, sem hesitar.

Ela arqueou uma sobrancelha, surpresa. — E por que você se importaria comigo, Jacob? Você mal me conhece.

Sorri de leve, tentando deixar o momento menos pesado. — Talvez por isso mesmo. Porque eu quero conhecer.

Ela me olhou, desconfiada, e eu continuei:

— Não quero forçar nada, nem complicar mais as coisas. Só… quero estar por perto. Ser seu amigo. Ajudar você a passar por tudo isso sem sentir que tá sozinha.

Renesmee abaixou o olhar, mexendo distraidamente nos dedos. Por um momento, o silêncio se instalou entre nós — mas não era desconfortável. Era o tipo de silêncio que fala por si, que deixa o ar cheio de coisas que nenhum dos dois sabia colocar em palavras.

— Ser amigo, hein? — ela murmurou, sem me encarar. — Não sei se isso é uma boa ideia.

— A gente pode descobrir juntos — respondi, com um tom leve.

Ela soltou um pequeno riso, e naquele instante, vi um brilho diferente nos olhos dela — uma fagulha de confiança. Pequena, mas real.

E pela primeira vez desde que tudo começou, senti que havia uma chance de ela me deixar entrar.


Renesmee ficou em silêncio por alguns segundos. Eu podia ouvir a respiração dela tremer, o som contido de alguém tentando segurar algo que já estava escapando por dentro.

Quando ela baixou a cabeça, o cabelo caindo em ondas sobre o rosto, percebi que estava chorando.

Sem pensar muito, apenas agi. Passei o braço ao redor dela e a puxei com cuidado contra o meu peito. Ela hesitou por um segundo, como se quisesse recuar, mas acabou cedendo — e, quando o fez, desabou de vez.

— Ei… — murmurei, passando a mão devagar pelos cabelos dela. — Tá tudo bem. Tudo vai ficar bem, tá?

Ela soluçou, a voz falhando. — Desculpa… eu não devia chorar assim.

— Não precisa se desculpar. — Falei baixo, com calma. — Você não precisa carregar tudo isso sozinha, Renesmee.

Ela respirou fundo, se afastando um pouco, mas sem coragem de me olhar direto. — Eu só… — começou, a voz embargada — eu achei que as coisas seriam diferentes. Que eu teria o Riley comigo.

Fiquei quieto por alguns instantes, esperando ela continuar.

— Ele era meu noivo — ela confessou, a voz pequena. — Disse que me amava, mas… quando soube da gravidez, tudo mudou. Ele achou que eu menti. Que traí.

Os olhos dela estavam marejados, e por um segundo, tudo que eu quis foi encontrar aquele garoto e obrigá-lo a entender o tamanho da dor que ela sentia.

— Ele disse que só poderíamos continuar juntos se eu… — ela engoliu em seco, — se eu tirasse o bebê.

Meu maxilar travou. A raiva veio, quente, mas engoli antes de deixar transparecer. Respirei fundo e falei com firmeza, tentando passar segurança.

— Ele não merece você, Renesmee.

Ela levantou o olhar, confusa.

— Um homem que ama de verdade não impõe escolhas assim. E se ele fez isso, é porque esse tipo de covardia já estava nele, só esperava o momento certo pra aparecer.

Ela respirou com dificuldade, limpando uma lágrima que escapou.

— Eu só queria entender onde foi que tudo deu errado…

— Às vezes, não deu errado. — falei, olhando pro horizonte. — Às vezes, só aconteceu como tinha que ser.

Ela ficou em silêncio. O pôr do sol refletia no rosto dela, dourando as lágrimas ainda presas nos cílios.

— Eu sei que você acha que o mundo desabou, Nessie — murmurei, usando o apelido sem nem perceber — mas você é mais forte do que imagina.

Ela me olhou surpresa, e eu sorri de leve.

— E eu tô aqui. Não pra substituir ninguém, nem pra te cobrar nada. Só pra estar do seu lado.

Ela respirou fundo, e dessa vez o choro cessou. Ficamos ali, em silêncio, vendo o sol se esconder de vez atrás das árvores.

E eu soube, naquele instante, que minha vida nunca mais seria a mesma — porque parte de mim já pertencia àquela garota de olhos cor de mel que, sem perceber, tinha acabado de me desmontar por completo.