Deitei na cama e olhei pro teto, tentando acalmar a mente. Ainda sentia os olhos ardendo por causa do choro. Bella bateu de leve na porta antes de entrar, segurando uma xícara de chá.

— Trouxe camomila. — Ela sentou na beira da cama e me ofereceu um sorriso cansado. — Sempre ajuda quando a cabeça não para.

Peguei a xícara e dei um gole. Minha mãe ficou em silêncio por alguns segundos, até que dentou na beira da cama, me observando em silêncio antes de falar.

— Quando eu engravidei do Antony — ela começou, com um sorriso leve — eu achei que o mundo tinha virado de cabeça pra baixo. Eu era jovem, cheia de planos, e de repente… um bebê.

Olhei pra ela, surpresa. Bella quase nunca falava sobre aquela época.

— E o papai? — perguntei baixinho.

— Ficou assustado também — admitiu. — Mas ficou. A gente se apoiou, mesmo sem saber o que fazer. Tínhamos medo, claro, mas também tínhamos um ao outro. Isso fez toda a diferença.

Ela fez uma pausa, mexendo a colher no chá. O som do metal batendo na xícara era suave.

— Depois, quando engravidei de você… — a voz dela ficou mais baixa. — Foi diferente. Eu já sabia o que era ser mãe. Mas foi mais forte, sabe? Eu e o Edward já tínhamos passado por tanta coisa juntos… e eu sabia que ele estaria comigo, acontecesse o que fosse.

Fiquei olhando pra ela, tentando imaginar essa sensação de segurança.

— Deve ter sido bom… — murmurei. — Ter alguém do seu lado, mesmo no meio do caos.

Bella assentiu.

— Foi. Mas o que realmente me manteve firme foi lembrar que cada filho nasce com um propósito. Às vezes a gente só entende depois. — Ela pousou a mão sobre a minha. — Você também vai entender, Nessie.

Baixei os olhos e fiquei ali, com o cheiro do chá ainda no ar, tentando acreditar que ela podia estar certa.


— Mãe… — murmurei, suspirando. — Eu sei onde quer chegar, mas é diferente. Eu não conheço o Jacob ele é só...

— O pai do seu bebê — interrompeu com calma, sem me julgar. — E pode ser seu amigo, Nessie.

Desviei o olhar, sentindo um aperto no peito.

— Amigo? Nem nos conhecemos.

— Eu entendo meu amor — disse ela, simples, como se fosse óbvio. — Mas , esse bebê vai precisar de paz. E você também.

Fiquei olhando pra xícara nas minhas mãos, o vapor subindo devagar.

— Mãe… eu realmente não sei se isso daria certo.

— Só depende de vocês — respondeu, simples. — Ele é o pai desse bebê. E, mesmo que o amor entre vocês não exista, ele pode ser uma presença boa. Um apoio.


Respirei fundo, sentindo o peso das palavras dela.

— Você acha que eu devo me aproximar dele?

— Eu acho que você deve deixar as portas abertas — disse com calma. — Nem toda criança precisa de pais que tenham um vínculo de amor romântico. Crianças ptecisam de responsabilidade, de carinho… de união.


Olhei pra ela e vi o mesmo olhar de quando eu era criança, aquele que dizia que tudo ia ficar bem, mesmo que o mundo parecesse desabar.

— Só pensa nisso, tá? — Bella completou, me dando um beijo na testa. — O que vem depois… o tempo mostra.


Fiquei ali, com o cheiro do chá ainda no ar, tentando acreditar que ela podia estar certa.

Bella passou a mão no meu cabelo e completou num tom quase sussurrado:

— Não precisa decidir nada agora. Só… pensa nisso.

Fechei os olhos, deixando o silêncio tomar conta do quarto. Parte de mim queria acreditar que ela tinha razão. Outra parte só queria acordar e fingir que nada disso estava acontecendo.


No dia seguinte, acordei antes do sol.

A cabeça ainda estava cheia das palavras da minha mãe, e por mais que eu tentasse, não consegui dormir direito. Tomei um banho rápido, prendi o cabelo e fui direto para o hospital. Queria respostas.

O corredor do andar administrativo estava calmo, o som distante de passos e o tilintar de bandejas ecoavam pelo piso brilhante. Parei diante da porta do consultório do meu pai e bati duas vezes.

— Pode entrar — ouvi a voz dele.

Abri a porta. Edward levantou o olhar dos papéis e, ao me ver, arqueou as sobrancelhas, surpreso.

— Renesmee? Você por aqui tão cedo? — Ele se levantou e veio até mim, com aquele sorriso que misturava orgulho e preocupação. — Aconteceu alguma coisa?

Fechei a porta atrás de mim, respirando fundo.

— Eu precisava falar com você. — Cruzei os braços, nervosa. — É sobre o processo… sobre o Jacob.

O sorriso dele desapareceu aos poucos. Edward fez um gesto para eu me sentar, depois se recostou na mesa.

— Eu imaginei que esse assunto viria. — A voz dele era calma, mas firme. — O Jacob entrou com o pedido, sim.

Baixei os olhos.

— Então é verdade.

— É. Ele quer estar presente na vida do bebê. Quer assumir a paternidade legal. — Edward falou com serenidade, sem julgamento. — E, sinceramente, filha, isso é uma coisa boa.

Olhei pra ele, surpresa.

— Boa? Pai, ele me ameaçou. Disse que, se eu não aceitasse, ele ia lutar na justiça.

Edward respirou fundo, cruzando os braços.

— Eu sei que deve ter sido difícil ouvir isso. Mas o Jacob é um homem direto, ele fala o que pensa. E o que ele está tentando fazer não é errado.

— Você está do lado dele? — perguntei, sem conseguir esconder o tom magoado.

— Não é questão de lado, Nessie — ele respondeu, olhando firme nos meus olhos. — É questão de caráter. Ele poderia simplesmente ignorar tudo isso e seguir com a vida dele. Mas ele não fez isso. Quer estar presente, quer fazer o que é certo. Isso, pra mim, diz muito sobre quem ele é.

Fiquei em silêncio, tentando digerir as palavras dele.

— Eu só tenho medo, pai… — confessei. — Medo de perder o controle da minha vida.

Edward se aproximou, colocando as mãos sobre meus ombros.

— Você não vai perder nada, minha filha. Esse bebê é seu tanto quanto é dele. E vocês dois vão ter que aprender a lidar com isso juntos.

Eu quis responder, mas a voz falhou.

Ele me puxou para um abraço, e por um instante voltei a ser a garotinha que corria pelo jardim do castelo pedindo conselhos pro pai.

— Você é forte, Renesmee — ele murmurou. — E, se me permite dizer, o Jacob também. Só espero que vocês aprendam a enxergar isso um no outro.

Assenti devagar.

Talvez, só talvez, meu pai estivesse certo.


Aceitei o convite do meu pai para tomar café com ele na lanchonete do hospital. Achei que ele ia se recusar, já que sempre parecia atolado de trabalho, mas ele sorriu e disse que precisava de uma pausa.

Descemos juntos pelos corredores iluminados demais para aquele horário. O hospital ainda estava acordando, os primeiros pacientes chegando, o cheiro de café misturado ao de desinfetante. A lanchonete ficava logo na entrada, e por um instante me senti… normal. Como se eu e meu pai fôssemos só pai e filha tomando café antes do trabalho.

— Ainda não acostumei com você adulta — ele disse, pegando uma bandeja. — Parece que foi ontem que eu te levava pra escola e você chorava porque queria ficar mais tempo com a sua mãe.

Sorri, mexendo o açúcar no café. — E agora choro porque quero dormir mais tempo.

Ele riu, aquele riso baixo que só aparecia quando estávamos sozinhos.

— Espera até enfrentar seus primeiros plantões, Renesmee. Café vai virar seu melhor amigo.

Revirei os olhos. — Você está tentando me animar ou me assustar?

— As duas coisas. — Ele deu um gole no café e apoiou os cotovelos na mesa. — A medicina exige muito, mas é recompensadora. E com o seu talento, sei que vai se sair bem.

Fiquei em silêncio, observando o vapor subir da xícara. O jeito como ele falava sempre me acalmava.

Foi então que vi uma mulher entrando na lanchonete. Cabelos escuros, olhar decidido. Rebecca Black.

Meu coração acelerou. As palavras da minha mãe da noite anterior voltaram à cabeça, junto com as de meu pai minutos antes: Jacob é o pai do bebê. E pode ser seu amigo.

Rebecca nos viu e caminhou até nossa mesa com um sorriso educado.

— Doutor Cullen, bom dia. — Ela olhou para mim, gentil. — Renesmee, bom dia. Como você está? E o bebê?

Tentei parecer tranquila. — Estamos bem, obrigada. — Coloquei a xícara de lado e respirei fundo. — E falando no bebê… poderia fazer um favor pra mim?

— Claro — ela respondeu, curiosa.

Olhei nos olhos dela, tentando não gaguejar.

— Avise o seu irmão que eu quero conversar com ele.

Rebecca assentiu lentamente, surpresa, mas o olhar dela parecia… satisfeito. Como se já esperasse por isso.

— Eu aviso, Renesmee — disse com um pequeno sorriso. — Tenho certeza de que ele vai querer ouvir o que você tem a dizer.

Meu pai olhou pra mim em silêncio, mas percebi o leve sorriso no canto da boca.

Como se esperasse ansioso por isso.