A manhã começou cedo, como sempre. O galo ainda nem tinha cantado direito quando deixei o quarto. O cheiro de café fresco vinha da cozinha, e o som das vozes da minha família enchia a casa — coisa rara, mas boa de ouvir.

Quando cheguei à sala de jantar, todos já estavam ali. Minha mãe, Sarah, mexendo no bule de café, Billy com o jornal aberto à frente, Rachel rindo de alguma piada do Paul, e Embry atacando as panquecas como se não comesse há dias.

— Bom dia, família — falei, puxando a cadeira e me servindo.

— Bom dia, filho — respondeu minha mãe, com aquele tom carinhoso que sempre me desmontava.

Sentei e comecei a comer enquanto Billy comentava algo sobre o preço do milho e Embry reclamava do conserto do trator. O assunto, como sempre, girava em torno da fazenda. Era o tipo de conversa que eu gostava — prática, direta, sem drama.

Mas o clima mudou quando ouvi passos vindo do corredor. Levantei o olhar e vi Lucy entrando com uma bandeja nas mãos. O cabelo preso, o avental branco, o sorriso discreto.

— Bom dia, senhores — ela disse, com um leve aceno.

Por um segundo, congelei. Lucy? Aqui?

— Lucy? — perguntei, quase derrubando o café. — Eu não sabia que você estava trabalhando aqui.

Antes que ela respondesse, minha mãe entrou na conversa, toda satisfeita.

— Estava precisando de mais uma secretária para a casa. — Ela olhou para Lucy com aprovação. — E a filha mais nova de Harry é perfeita para o cargo. Jovem, educada e sabe o seu lugar.

Tossi, disfarçando o desconforto. Embry quase se engasgou de tanto segurar o riso. Lucy, por outro lado, manteve a compostura. Apenas assentiu e começou a recolher alguns pratos vazios da mesa.

— É uma honra trabalhar para a senhora, dona Sarah — disse ela com aquele tom doce, mas firme.

Eu evitei olhar diretamente pra ela, lembrando da última vez que nos vimos. As mãos dela no meu peito, o cheiro do feno, a respiração descompassada... Tudo me voltou à cabeça de uma vez.


Eu estava terminando o café quando olhei pro relógio. Já passava das oito, e o dia prometia ser longo.

— Preciso ir — falei, pegando o chapéu em cima da cadeira. — Tenho dois compradores vindo ver os mangalargas caramelos ainda hoje.

Eu estava terminando o café quando olhei pro relógio. Já passava das oito, e o dia prometia ser longo.

— Preciso ir — falei, pegando o chapéu em cima da cadeira. — Tenho dois compradores vindo ver os mangalargas caramelos ainda hoje.

Embry levantou na hora, animado.

— Vou contigo. Quero ver se aquele garanhão que você tá treinando ainda tenta me derrubar.

— Duvido que tenha coragem de montar nele — provoquei, e ele riu, me acompanhando até a porta.

Mas antes que eu saísse, ouvi a voz da minha mãe.

— Jacob, espere um pouco. — O tom dela não deixava espaço pra fingir que eu não ouvi.

Billy levantou os olhos do jornal, como se soubesse o que vinha, mas se manteve em silêncio. Rachel fingiu estar muito ocupada passando manteiga no pão.

Suspirei.

— Tudo bem, mãe.

Ela me fez sinal pra segui-la até a varanda. O ar da manhã estava fresco, o cheiro do café ainda pairava no ar, e por um momento, pensei que talvez fosse uma daquelas conversas calmas sobre a fazenda ou sobre o meu pai. Mas o olhar dela dizia outra coisa.

Ela me acompanhou até a varanda, e o silêncio entre nós pesou. O vento soprava leve, mas a expressão dela estava longe de tranquila.

— Imagino que seja sobre a Lucy, certo? — perguntei, tentando quebrar o gelo.

Sarah cruzou os braços. — Exatamente. — Fez uma pausa breve antes de continuar. — Quero que você se afaste daquela moça.

Franzi o cenho, confuso. — Como é que é?

— Eu conheço muito bem mulheres como ela — disse com firmeza. — Principalmente sendo filha de quem é.

Fiquei olhando pra minha mãe, sem acreditar no que estava ouvindo. — Você tá falando da família Clearwater? Pensei que tivesse uma boa relação com eles.

— Isso não vem ao caso — respondeu rápido, desviando o olhar por um instante. — O que importa é que Lucy não é pra você, Jacob. Ela é esperta, sabe se aproximar das pessoas certas.

Meu tom subiu um pouco, sem querer. — Mãe, isso é injusto. Ela só tá ajudando aqui, não fez nada de errado.

Sarah balançou a cabeça. — Você é homem, Jacob. E um homem em posição de respeito. Nem todas as intenções que parecem inocentes são.

Respirei fundo, tentando conter a irritação que subia. — Eu não acredito que você tá dizendo isso.

— Acredite no que quiser, mas não quero vê-la misturada com você. — O tom dela agora era firme, cortante.

Por um momento, fiquei sem resposta. Eu amava minha mãe, respeitava cada palavra dela, mas dessa vez ela passava dos limites.

— Eu preciso ir — falei, enfim, com a voz controlada.

Sarah me olhou, decepcionada, mas não respondeu.

Desci os degraus da varanda e segui em direção à caminhonete. Quando bati a porta e liguei o motor, senti o peso da conversa grudado em mim.

Ela podia estar errada sobre Lucy — e provavelmente estava —, mas havia algo no tom da minha mãe que me deixava inquieto.

Como se ela soubesse mais do que dizia.


Eu estava parado ao lado da caminhonete, observando o rebanho que pastava tranquilo sob o sol. O som dos cascos misturava-se ao barulho do vento passando pelas cercas de madeira. Os dois compradores, homens de meia-idade vestidos com botas e chapéus gastos, analisavam os animais com atenção. Embry estava ao meu lado, prancheta na mão, tentando conter o sorriso de quem sabia que o negócio seria bom.

— Então, senhores — eu disse , com o tom firme e direto de quem já havia fechado muitos acordos — o preço está em vinte e cinco por cabeça, incluindo transporte e documentação.

Um dos homens, o mais alto, coçou o queixo e olhou para o parceiro. — Os cavalos são raros, não há dúvida. Mas vinte e cinco é um pouco acima do que esperávamos pagar.

Embry deu um meio sorriso. — Esses aqui não são qualquer cavalos amigo. Foram criados com ração especial e acompanhados por veterinário. Vocês não vão achar qualidade assim fácil.

O comprador mais baixo, que parecia ser o decisor, assentiu. — E se fecharmos agora, com pagamento à vista?

Cruzei os braços. — Fechando agora, eu cubro o custo da vacina e do transporte até a fazenda de vocês.

Os dois homens trocaram um olhar rápido. O mais alto estendeu a mão. — Negócio fechado= Falei apertando a mão dele com firmeza. — Fechado. Embry, acompanha os senhores e finaliza a papelada — disse voltando-me para meu irmão. — Quero que tudo esteja registrado ainda hoje.

— Pode deixar comigo — respondeu Embry, animado. — Vamos lá, rapazes, é por aqui.

Eles se afastaram em direção ao celeiro, enquanto Jacob ficou observando o trio desaparecer pela estrada de terra.

O silêncio voltou por um instante, quebrado apenas pelo mugido distante de uma vaca. Enfiei as mãos nos bolsos, respirei fundo e estava prestes a subir na caminhonete quando o celular vibrou no bolso da calça. Tirei no mesmo instante, achando que era Embry me chamando de volta, mas o nome na tela me fez parar. Rebecca.

Atendi rápido. — Oi, Bec. Tá tudo bem?

Do outro lado, a voz dela veio tranquila, mas com um tom diferente, meio contido. — Tá sim, Jake. Na verdade... eu te liguei porque tenho uma ótima notícia.

Fiquei em silêncio por um segundo, franzindo o cenho. — Que notícia?

Rebecca soltou uma risadinha curta. — Respira fundo antes que eu diga.

— Bec, fala logo — resmunguei, meio impaciente.

Ela deu um suspiro leve. — Renesmee. Ela quer falar com você.

O nome dela me atingiu como um soco no peito.

Engoli em seco. Olhei pro horizonte, o vento levantando a poeira e bagunçando meus pensamentos.

— Isso é uma excelente noticia— falei por fim, num tom que mal saiu da garganta.

E fiquei ali, imóvel, com o coração batendo mais forte, esperando ouvir a voz dela do outro lado da linha.