O pai do meu bebê
27 Jacob
Eu estava no quarto, sentado diante do notebook, revisando uns contratos de venda que Embry tinha deixado pendentes. A noite já tinha caído, e a luz amarelada do abajur deixava o quarto com aquele ar quieto de fazenda depois de um dia longo.
Mas, por mais que eu tentasse focar nas planilhas, minha cabeça não parava de voltar pra um ponto no tempo — o dia em que conheci Renesmee Cullen.
Lembrei do susto quando quase a atropelei na estrada de La Push. Ela apareceu do nada, distraída, o vento bagunçando aquelas madeixas ruivas e o sol batendo bem nos olhos cor de chocolate. Foi um segundo só, mas desde então... aquele olhar nunca saiu da minha cabeça.
Fechei o notebook devagar e recostei na cadeira, deixando a lembrança me tomar por inteiro. Pensei nela com a mão sobre o ventre, protegendo o bebê... meu bebê.
Por um instante, imaginei o rosto da criança. Se fosse menina, talvez tivesse o mesmo cabelo avermelhado e os olhos doces da mãe. Ri sozinho da imagem, balançando a cabeça. — Já tô ficando bobo, — murmurei pra mim mesmo.
Amanhã eu ia pra Seattle resolver assuntos da fazenda e do processo... mas agora, a única coisa que eu queria era desligar o mundo um pouco.
Fechei o notebook, deixei sobre a escrivaninha e fui até a cama. Me deitei, o som distante dos grilos invadindo o quarto pela janela entreaberta.
Fechei os olhos e estava quase adormecendo quando senti uma mão quente deslizar pelo meu peito. Abri os olhos num susto e segurei o pulso com firmeza. Lucy estava ali, o rosto meio escondido pela penumbra, o sorriso atrevido e o lábio inferior preso entre os dentes.
— Lucy... o que tá fazendo aqui? — minha voz saiu rouca, confusa.
— Ficou surpreso? — ela respondeu, inclinando a cabeça. — Sua mãe só facilitou as coisas.
— Facilitou? — soltei um riso nervoso. — Você é perigosa, garota.
Ela arqueou uma sobrancelha, provocando. — Tá com medo, cowboy?
Antes que eu pudesse responder, ela se aproximou e sentou sobre mim. O perfume dela, doce e leve, tomou o quarto. Eu fechei os olhos por um segundo, tentando recuperar o controle, mas a mente me traiu.
E então, por um instante, não era Lucy ali. Era Renesmee. A lembrança dela, o jeito como me olhava, a voz que ecoava nas minhas noites mais silenciosas.
O toque de Lucy virou outro. A respiração dela se confundiu com a de Nessie. Eu senti o coração acelerar, e as palavras escaparam baixas, quase um sussurro.
— Nessie...
Lucy congelou. Se afastou um pouco e me olhou, o sorriso sumindo.
— Quem é Nessie? — perguntou, o tom mais sério agora.
Eu permaneci em silêncio, o peso das palavras ainda pairando no ar. Não havia resposta que apagasse o que ela tinha acabado de ouvir.
Lucy ficou ali, observando, tentando entender o que eu não conseguia explicar nem pra mim mesmo.
Fiquei paralisado por alguns segundos, sem saber o que dizer. Lucy ainda me olhava, esperando uma resposta que eu mesmo não tinha.
— Me desculpa — murmurei, tentando recuperar o ar. — Eu... não sei quem é Nessie, tá? Foi um engano, um nome que me veio do nada.
Ela soltou uma risada seca, sem humor. — Sério, Jacob? Vai tentar me convencer que falou o nome de outra mulher por engano?
— Eu juro, Lucy, não foi o que parece.
— Ah, claro — ela rebateu, cruzando os braços. — Então eu devo ser louca por acreditar que um homem fala o nome de uma mulher aleatória enquanto tá comigo.
Fiquei em silêncio. Qualquer coisa que eu dissesse só pioraria. Lucy balançou a cabeça e respirou fundo, claramente decepcionada.
— Sabe de uma coisa? É melhor eu ir dormir — disse, já se levantando da cama. — Boa noite, cowboy.
— Lucy, espera... — tentei segurar o braço dela, mas ela se soltou com um movimento rápido, sem nem olhar pra trás.
A porta bateu leve quando ela saiu.
Fiquei ali, sentado na beira da cama, o corpo quente e a cabeça girando. Passei as mãos no rosto, frustrado, e soltei um longo suspiro.
— Que diabos tá acontecendo comigo... — murmurei. — Só posso estar ficando maluco.
Deitei de novo, virando pro teto. A imagem de Lucy indo embora se misturava com o rosto de Renesmee que insistia em voltar à minha mente.
Tentei afastar os pensamentos, mas quanto mais lutava, mais o nome dela ecoava em mim.
Até que, exausto, simplesmente fechei os olhos e deixei o sono me levar.
A manhã começou silenciosa, daquele jeito que antecede um dia longo. O cheiro de café fresco se espalhava pela cozinha quando me sentei à mesa com a família. Billy lia o jornal, Embry já atacava o pão, e Rachel passava manteiga nas torradas enquanto conversava com a minha mãe.
— Vou pegar a estrada hoje — avisei, servindo café na caneca. — Preciso resolver umas coisas em Seattle.
Sarah levantou os olhos pra mim e deu um pequeno sorriso. — Fiquei sabendo que a moça que espera o bebê aceitou conversar com você. Fico feliz por isso, Jacob. — Ela inclinou um pouco a cabeça, curiosa. — Como é mesmo o nome dela?
Antes que eu respondesse, Lucy entrou na sala com uma bandeja de porcelana. Estava com o cabelo preso, o avental impecável e o olhar fixo no chão. Fingiu não me ver — e, sinceramente, eu também não sabia como encarar ela depois da noite anterior.
Rachel respondeu no meu lugar: — Rebecca comentou que o nome dela é Renesmee, mas todos chamam de Nessie.
O som da porcelana quebrando interrompeu a conversa.
A xícara que Lucy segurava caiu e se espatifou no chão. O silêncio foi imediato. Billy abaixou o jornal e olhou pra ela.
— Tá tudo bem, Lucy?
Ela piscou rápido, parecendo acordar de um transe. — Eu... me distraí, senhor Billy. Me desculpe.
Ajoelhou-se pra recolher os pedaços, evitando qualquer contato visual comigo. Vi as mãos dela tremerem levemente.
Sarah tentou disfarçar o desconforto, mas o olhar dela passou de Lucy pra mim em segundos.
— Não se preocupe, querida — disse, tentando manter a voz leve. — Vá cuidar do corte na mão antes que se machuque mais.
Lucy assentiu rápido, levantou-se e, antes de sair, olhou diretamente pra mim. Foi um olhar curto, intenso e cheio de perguntas que eu não sabia responder.
Depois ela saiu apressada, deixando a sala em um silêncio pesado.
Embry tentou quebrar o clima, limpando a garganta. — Acho que vou buscar mais pão na despensa.
Sarah continuou mexendo no café como se nada tivesse acontecido, mas eu sabia que ela tinha notado tudo. E, no fundo, eu também sabia que aquele nome — Renesmee — não tinha abalado só a mim.
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