O pai do meu bebê
28 Jacob
Subi as escadas decidido, mas com a cabeça uma bagunça. Ainda sentia o peso daquele olhar que Lucy me lançou na cozinha. Bati na porta do quarto dela umas três vezes antes que abrisse.
Ela apareceu com o rosto pálido, os cabelos soltos caindo pelos ombros. Me encarou por um segundo, depois cruzou os braços.
— O que você tá fazendo aqui, Jacob? — a voz dela saiu firme, mas dava pra sentir a mágoa escondida ali.
— A gente precisa conversar — respondi, tentando manter a calma.
Lucy riu sem humor e balançou a cabeça. — Conversar? Sobre o quê? Sobre o fato de você ter chamado o nome de outra mulher enquanto estava comigo? Ou sobre como você tenta fingir que nada aconteceu?
Suspirei fundo, procurando as palavras certas. — Lucy, eu não sei o que deu em mim. Aquilo foi um erro, eu...
— Foi um erro, sim — ela me cortou, os olhos marejando. — Mas não só por causa do que aconteceu ontem. Foi um erro acreditar que você podia sentir alguma coisa por mim. — Ela deu um passo à frente. — Agora entendo. Você não tá interessado só no filho que aquela mulher espera. Tá interessado nela também, não tá?
Fiquei em silêncio por um momento. A pergunta bateu fundo, e a verdade era que eu mesmo não sabia o que sentia.
— Lucy, eu só quero fazer o certo. Essa história toda é confusa pra mim também. Eu tô tentando entender o que acontece, mas não quero que você pense que te usei.
Ela riu de novo, mas dessa vez com tristeza. — Tarde demais, cowboy.
— Eu nunca quis te magoar, Lucy.
— Pois conseguiu mesmo assim. — Ela respirou fundo e apontou pra porta. — Agora, por favor, me deixa sozinha.
Olhei pra ela por um instante, querendo dizer algo que consertasse aquilo, mas nada vinha. Dei um passo pra trás e saí, sentindo o peso da porta se fechar atrás de mim como se tivesse acabado de encerrar mais um erro na minha vida.
Saí da casa sentindo o ar frio da manhã bater no rosto. O sol ainda nem tinha subido direito, mas eu já precisava ir. Peguei as chaves do carro e segui direto pro veículo, tentando deixar pra trás o peso daquela conversa com Lucy.
Assim que liguei o motor, o celular vibrou no bolso da jaqueta. Olhei o visor — Rebecca. Respirei fundo antes de atender.
— Fala, Bec. — Minha voz saiu mais rouca do que eu esperava.
— Onde você tá, Jake? — ela perguntou animada. — Tentei te ligar mais cedo.
— Já tô na estrada. Indo pra Seattle. — Apoiei o braço na janela e olhei pro horizonte.
— Ótimo. Eu ia justamente te avisar. A Renesmee vai ao hospital hoje à tarde pra fazer uns exames. Você pode falar com ela lá.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, olhando a estrada de terra à frente. A ideia de reencontrá-la naquele ambiente frio e cheio de gente me incomodava.
— Não, Rebecca. — falei, firme. — Não quero conversar com ela no hospital.
— Como assim, Jake? Lá seria perfeito, ela vai estar tranquila, com a mãe dela perto...
— Não, Bec. — interrompi. — Dessa vez vai ser do meu jeito.
Do outro lado da linha, ela ficou muda por alguns segundos. — Tá bom… mas o que você vai fazer?
— Depois te explico. Só confia em mim.
— Jacob, você tá sendo teimoso.
— Pode ser. Mas eu tô cansado de deixar os outros decidirem por mim.
Antes que ela insistisse, encerrei a ligação e deixei o celular no banco ao lado.
Girei a chave, e o motor ronronou sob minhas mãos. Enquanto pegava a estrada principal, senti a cabeça fervendo. Minha vida parecia uma tempestade: um processo judicial, um bebê a caminho, minha mãe desconfiando de tudo, Lucy magoada... e Renesmee.
Suspirei fundo.
Se eu quisesse ser pai de verdade, não podia continuar deixando as coisas me empurrarem. Precisava colocar tudo no lugar, começar do zero se fosse preciso.
A estrada seguia reta à frente, e eu apertei o volante com força. Seattle me esperava — e, com ela, todas as respostas que eu ainda não tinha coragem de encarar.
Cheguei a Seattle já perto do meio-dia. O trânsito estava intenso, mas eu mal percebia. A cabeça fervia com mil pensamentos — Rebecca, o processo, Renesmee. Tudo parecia desordenado, como se minha vida tivesse saído do eixo e eu ainda tentasse endireitar o volante.
Quando estacionei em frente ao prédio do apartamento, só queria um banho e silêncio. Subi o elevador no automático, passei o cartão na porta e entrei. Mas o que encontrei lá dentro me fez parar.
— Heidi. — O nome escapou antes mesmo que eu pensasse.
Ela estava de pé na sala, usando um vestido claro e segurando uma pasta nas mãos. Parecia nervosa, mas determinada.
— O que você ainda faz aqui? — perguntei, mantendo a voz firme. — Achei que já tivesse voltado pra casa dos seus pais.
Ela respirou fundo, deu um passo à frente. — Jacob, eu precisava falar com você.
— A gente já conversou, Heidi. — Passei a mão no rosto, cansado. — Não tem mais o que dizer.
— Tem, sim — insistiu, a voz tremendo. — Eu busquei ajuda. Fui atrás dos meus direitos.
Arqueei as sobrancelhas, desconfiado. — Que direitos?
Ela ergueu a pasta, os olhos brilhando de um jeito estranho. — Eu vou lutar pelo bebê.
Fiquei olhando pra ela, atordoado. — O quê?
— O bebê que aquela garota está esperando — continuou, num tom firme, quase frio. — Houve um erro médico, Jacob! Um erro grave. Eu fui lesada, e isso me dá direito sobre essa criança.
Meu estômago virou. Dei um passo em direção a ela, tentando manter o controle. — Você enlouqueceu de vez? Tá me dizendo que quer brigar judicialmente pela guarda de um bebê que nem é seu?
— É meu, Jacob! — ela gritou, as lágrimas começando a escorrer. — O material era nosso, o procedimento era meu! Se trocaram as fichas, a culpa não é minha. Aquela menina está carregando o filho que era pra ser meu.
Fechei os olhos por um instante, sentindo a raiva subir. — Heidi, pelo amor de Deus... você tá distorcendo tudo.
Ela balançou a cabeça, decidida. — Eu fui até um advogado. Ele disse que posso processar o hospital. E se eu provar que a inseminação era pra mim, posso reivindicar a maternidade legal.
Dei uma risada curta, sem humor. — Isso é absurdo. Você quer transformar um erro em vingança?
Ela me olhou fixamente. — Eu quero justiça, Jacob. Quero o que era meu.
O silêncio que se formou foi pesado. Fiquei ali parado, encarando a mulher que um dia eu tentei amar — e que agora parecia disposta a atravessar qualquer limite.
— Heidi... — falei baixo, mais pra mim do que pra ela. — Você não tem ideia do que tá prestes a fazer.
Ela segurou firme a pasta e respondeu com frieza. — Tenho, sim. E dessa vez, nada vai me impedir.
Fiquei alguns segundos parado, tentando entender o que tinha acabado de ouvir. A cabeça latejava, o sangue fervia. Quando finalmente consegui falar, a voz saiu mais baixa e firme do que eu esperava.
— Você não vai fazer isso, Heidi. Eu não vou deixar.
Ela cruzou os braços, os olhos cheios de uma confiança que eu nunca tinha visto antes. — Não vai deixar? E como pretende me impedir, Jacob? Vai lutar contra mim na justiça?
— Se for preciso, sim. — Dei um passo à frente, o olhar cravado no dela. — Você não tem direito algum sobre esse bebê. Nenhum.
— Esse bebê só existe por minha causa! — ela rebateu, elevando o tom. — O material era nosso, o tratamento era meu. Eu fui enganada!
— O bebê é meu! — interrompi, a voz saindo mais alta. — Meu sangue, minha responsabilidade. Você não tem nada a ver com isso.
Ela me encarou, os olhos marejando, mas o rancor ainda firme na expressão. — Por que tá defendendo tanto essa garota, hein? — perguntou, quase cuspindo as palavras. — É por causa dela, não é? Tá interessado nessa menina!
A acusação bateu como um tapa. Eu respirei fundo, tentando não perder o controle.
— Heidi, para. Isso não é sobre ela. É sobre o certo e o errado.
— Ah, claro — ela riu, amarga. — O herói Jacob Black, lutando por justiça, quando na verdade só quer uma desculpa pra ficar perto da garotinha dos olhos de mel.
Senti o sangue subir de vez. Me aproximei até ficar a poucos passos dela.
— Se você quer guerra, Heidi, vai ter. — Minha voz saiu fria, dura. — Mas escuta bem o que eu vou te dizer: não ouse se aproximar da Renesmee. Nem dela, nem do bebê. Se tentar, vai se arrepender.
Ela empalideceu, mas não respondeu. Apenas apertou a pasta contra o peito, com raiva e orgulho, e passou por mim rumo à porta.
Quando o som da batida ecoou, eu fiquei sozinho na sala, o corpo tenso, o coração batendo forte demais.
Aquela mulher que um dia eu amei agora era uma inimiga declarada.
E, pela primeira vez, eu percebi o quanto essa luta estava prestes a mudar tudo — inclusive quem eu era.
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