O som dos meus passos ecoava pelo corredor, misturado ao burburinho abafado das conversas. Eu podia sentir os olhares — alguns curiosos, outros cheios de julgamento. Não precisava ouvir as palavras para saber do que falavam.

Fazia uma semana que eu não aparecia na faculdade, e agora todos sabiam.

Fiz força para manter a cabeça erguida, embora o estômago parecesse dar voltas.

— Nessie! — ouvi a voz de Anna me chamando. Ela surgiu entre os alunos e veio em minha direção quase correndo.

— Anna… — murmurei, sentindo o alívio me invadir quando ela me abraçou.

— Você devia ter me mandado mensagem — ela disse, ainda me abraçando. — Eu fiquei preocupada.

— Eu só… precisava de um tempo. — Minha voz saiu mais fraca do que eu queria.

Anna me soltou, mas manteve as mãos nos meus ombros. — E agora? Tá melhor?

Assenti com um meio sorriso que não durou muito. — Tô tentando.

Começamos a andar juntas pelo corredor, e logo Rafaela apareceu, se juntando a nós. Elas tentavam agir naturalmente, mas eu sabia que estavam protegendo-me, formando um escudo invisível.

— Todo mundo já sabe, não é? — perguntei baixinho.

Anna suspirou. — Sabe. E alguns são bem sem noção. Mas a maioria só comenta.

— Ótimo… — resmunguei, revirando os olhos.

Logo avistei alguns dos amigos de Riley sentados perto das escadas, rindo alto de alguma piada. Eles ficaram em silêncio quando me aproximei.

— Oi — cumprimentei. — Vocês viram o Riley?

James foi o primeiro a responder, coçando a nuca. — Tá na quadra. O treino começou cedo hoje.

— Obrigada. — Tentei sorrir, mas minha voz saiu mais tensa do que eu pretendia.

Anna segurou minha mão. — Ness, pensa bem… você quer mesmo falar com ele agora?

— Quero. — Respirei fundo. — Eu não posso continuar fingindo que nada aconteceu.

— E se ele for grosso de novo? — Rafaela perguntou, preocupada.

Olhei para o chão por um instante antes de encará-las. — Então vai ser a última vez que ele vai ter a chance de ser.

Anna suspirou, apertando minha mão. — Tudo bem. Mas eu fico por perto, tá?

Assenti e segui sozinha, ouvindo o som das bolas quicando na quadra. Meu coração batia rápido, tão forte que doía.

E no fundo… eu só queria entender em que momento tudo tinha desmoronado.


A quadra estava cheia de vozes, bolas batendo no chão, o som agudo dos tênis riscando o piso encerado. Eu parei na entrada, o coração acelerado, tentando reunir coragem para seguir até o treinador.

— Com licença — falei, a voz quase sumindo no barulho. — Eu preciso falar com o Riley.

O homem, alto e com expressão impaciente, ergueu as sobrancelhas. — No meio do treino?

— É importante. — Respirei fundo. — Por favor.

Ele cruzou os braços, claramente contrariado. — Isso vai atrapalhar a equipe.

— Eu prometo que é rápido.

O treinador me observou por um instante, então soltou um suspiro e virou-se para o grupo. — Biers!

Riley parou o drible e olhou na direção da voz. Quando seus olhos encontraram os meus, o semblante dele mudou. O sorriso que usava com os colegas sumiu como se nunca tivesse existido.

Ele largou a bola, passou a toalha no rosto e veio até mim com passos firmes.

— O que você tá fazendo aqui, Nessie? — a voz dele saiu fria, seca.

Engoli em seco. — A gente precisa conversar.

— Não aqui. — Ele olhou em volta, visivelmente incomodado. — Todo mundo tá olhando.

— Eu não me importo.

Ele suspirou impaciente, olhando para o treinador, que apenas deu de ombros. — Dois minutos — disse ele. — E seja breve.

Riley virou-se de volta pra mim. — Fala logo, Renesmee.

A forma como ele disse meu nome — formal, distante — doeu mais do que qualquer grito.

— Eu só quero te explicar… — comecei, com a voz tremendo. — Eu nunca te traí, Riley. Nunca.

Ele riu, mas sem humor. — Eu sei disso.

Eu o encarei, confusa. — Então por que…?

— Porque eu já sei o que aconteceu. — Ele deu um meio sorriso amargo. — Foi um acidente, certo?

Por um segundo, eu senti alívio. Ele acreditava em mim. Talvez as coisas pudessem voltar a ser como antes. — Sim… foi. Mas isso não muda o que eu sinto.

O olhar dele endureceu. — Muda tudo, Nessie. — Ele passou a mão pelos cabelos, inquieto. — A gente pode continuar junto, mas só se você se livrar desse problema.

Eu senti o ar sumir dos meus pulmões. — O quê?

— Você sabe do que eu tô falando. — Ele manteve o tom baixo, mas firme. — Eu não posso jogar fora a minha vida, o meu futuro, por algo que nem devia ter acontecido.

Senti os olhos arderem. — Riley, você tá falando do meu filho.

— Não, Renesmee. — Ele deu um passo pra trás. — Eu tô falando da sua escolha. E se quiser ficar comigo, vai ter que escolher direito.

Fiquei parada, sem conseguir responder. Ele virou as costas e voltou pra quadra, como se nada tivesse acontecido, com o som da bola quicando ecoando na cabeça e uma dor que parecia me partir ao meio.

O mundo parecia girar, mas ao mesmo tempo, tudo estava parado.

Eu não ouvia mais o som das bolas batendo no chão, nem os gritos dos jogadores. Só a voz dele ecoando na minha cabeça — fria, distante, cruel. Se livrar desse problema.

Meu peito queimava. Senti as lágrimas descerem antes mesmo de perceber que estava chorando. Tentei respirar fundo, mas o ar parecia preso, como se tivesse um peso esmagando meu peito. Minhas mãos tremiam. O chão da quadra parecia longe, o teto também. Tudo distorcido.

Eu saí andando sem direção, tropeçando nos próprios passos, tentando não desabar ali mesmo. Passei pelo corredor vazio, encostei na parede e deslizei até sentar no chão frio.

Meu coração batia rápido, doía. E quanto mais eu lembrava das palavras dele, mais doía.

“Se livrar desse problema.”

“Escolher direito.”

Era como se cada frase dele arrancasse um pedaço de mim.

Eu pensei que ele me amava. Que, mesmo assustado, ficaria do meu lado. Mas ele só viu um obstáculo. Um fardo.

E o pior é que esse “fardo” era uma parte de mim.

Ouvi passos apressados e uma voz familiar me chamou:

— Nessie! — Era Anna. — Meu Deus, o que aconteceu?

Ela se ajoelhou ao meu lado e tentou levantar meu rosto, mas eu não consegui olhar pra ela. Só consegui chorar.

Rafaela apareceu logo depois, ofegante, com os olhos arregalados.

— Eu sabia que isso ia dar errado… o que o Riley fez? — perguntou, nervosa.

Tentei responder, mas minha voz não saía. Só balancei a cabeça e murmurei:

— Eu… eu preciso ir pra casa.

Anna segurou minhas mãos, firme. — Então a gente vai te levar, tá? Você não vai sozinha.

Rafaela passou o braço pelos meus ombros, me ajudando a caminhar.

Eu me deixei guiar pelas duas, ainda atordoada, sem conseguir pensar direito.

Enquanto caminhávamos até o carro, as lágrimas continuavam caindo.

Eu olhava pela janela, vendo as ruas passarem borradas, e tudo o que conseguia pensar era como o amor pode se transformar tão rápido em algo que machuca.

A única coisa que restava agora era o silêncio — e o som do meu coração partindo, devagar.


Entrei em casa ainda sentindo o nó na garganta. Bella estava na sala e, ao me ver, franziu o cenho.

— Que surpresa te ver tão cedo — disse, aproximando-se devagar.

Não consegui segurar o choro. Ela me abraçou forte, me puxando para perto.

— Oi mãe— sussurrei, a voz embargada. — Não consegui assistir as aulas, Riley e eu conversamos e ele disse coisas horríveis.

Bella me levou para o sofá, ainda me abraçando.

Entre lágrimas, expliquei cada palavra que ele disse, cada exigência, cada gesto de insensibilidade. Bella ouviu em silêncio, acariciando meus cabelos. Quando terminei, ela suspirou fundo.

— Eu sei que dói, mas você precisa se manter forte. — Ela me olhou nos olhos, firme. — Sei que não deveria te contar agora, mas seu pai ligou hoje. Jacob Black entrou na justiça pelo direito ao bebê.

Meu peito apertou ainda mais, mas senti o calor do abraço da minha mãe me dando um pouco de coragem.

— Ele não pode fazer isso, ele pode? — perguntei, a voz trêmula.

— Eu não sei querida — respondeu ela, segurando minhas mãos. — Mas você não está sozinha.

Eu me apoiei nela, tentando encontrar algum pouco de paz em meio à confusão que estava minha vida.