O pai do meu bebê
49 Jacob
A manhã tinha aquele cheiro de capim molhado que eu sempre gostei. Eu terminava de escovar o dorso do Zeus quando ouvi passos atrás de mim. Nem precisei olhar para saber que era o Sam. Ele sempre caminhava pesado, como se cada passo anunciasse que vinha com assunto sério.
— Você perdeu a festa de aniversário do velho Harry — ele falou, cruzando os braços e apoiando o ombro no tronco mais próximo.
Soltei um suspiro.
— Pois é. Queria ter ido, mas eu precisei ficar mais tempo em Seattle.
Sam arqueou uma sobrancelha, daquele jeito de quem já sabe a resposta, só quer ouvir da sua boca.
— É verdade o que tão falando por aí?
— Depende — respondi, terminando de ajustar a sela. — O que chegou até você?
Ele deu um meio sorriso.
— Que você vai casar.
Parei por um segundo, a mão ainda apoiada na sela, e deixei um sorriso escapar. Um sorriso verdadeiro, daquele que eu não dava há muito tempo.
— É verdade — confirmei. — Semana que vem é o noivado. A Renesmee vem morar na fazenda.
Sam soltou uma risada curta, sincera, e balançou a cabeça como quem estava vendo algo impossível acontecer.
— Cara… eu fico muito feliz por você. De verdade. Desde o acidente… — ele parou, procurando as palavras — …eu nunca mais tinha te visto sorrir desse jeito.
Engoli seco, porque ouvir isso de alguém que viveu tudo comigo sempre mexia comigo.
Apertei o arreio, subi no cavalo e ajeitei as rédeas entre os dedos.
— A Renesmee… — falei baixo, encarando o horizonte — …trouxe alegria de volta pra minha vida, Sam.
Ele assentiu devagar, como quem entende o peso da frase.
Eu dei um leve toque com as pernas no Zeus e ele partiu em disparada pela trilha.
O sol já estava alto quando eu terminei de revisar uns papéis com Brad e Quil perto do celeiro. Eles falavam sobre os pastos do lado leste, algo sobre reforçar as cercas antes do inverno, quando vi Leah vindo pela trilha de terra. Ao lado dela… Lucy.
Meu estômago deu um nó. Eu não esperava vê-la ali. Não depois da noite passada.
Leah abriu um sorriso rápido.
— Trouxemos as marmitas da Sue, como prometido — ela disse, levantando o isopor.
Lucy ficou parada um pouco atrás. Ombros duros. Rosto fechado. Nem tentou esconder o incômodo.
— Pensei que você estivesse trabalhando na casa com a minha mãe — falei, tentando manter a voz neutra.
Ela respirou fundo, cruzou os braços.
— Não estou mais — respondeu seca. — Resolvi que não nasci pra servir a futura senhora Black.
Brad e Quil se entreolharam na hora. Quil até fingiu tossir, e Brad murmurou que ia guardar umas ferramentas. Em segundos os dois desapareceram, e Leah, percebendo o clima, só tocou o ombro de Lucy e disse:
— Eu te espero no caminhão.
Quando ficamos sozinhos, eu encarei Lucy. Ela não me olhava. Parecia pronta pra cortar a cerca inteira só pra não ficar ali.
— Lucy… a gente precisa conversar — falei baixo.
— Não — ela rebateu rápido. — Você é que precisava ter falado antes. Mas não falou, né?
— Eu nunca te prometi nada — tentei explicar. — Nunca disse que a gente tinha…
Ela riu. Um som frio, que me atingiu como um tapa.
— Claro que não prometeu. Você falou meu nome como se eu fosse importante pra você, mas quando te olhei nos olhos… quem você chamou? — Ela deu um passo pra trás. — Não fui eu.
Fechei os olhos por um segundo. A lembrança queimou.
— Lucy, eu errei. Você sabe disso. Eu não devia ter deixado as coisas acontecerem daquele jeito. Você não merecia.
— Não merecia mesmo — ela rebateu. — Mas mereço bem menos continuar ouvindo você colocar aquela garota num pedestal. A moça perfeita. A mãe perfeita. A futura esposa perfeita.
Ela cuspiu as palavras como se estivessem envenenadas.
— Isso não tem nada a ver com você — falei firme. — Eu não estou te deixando de lado pra correr atrás de alguém. Só estou assumindo minha responsabilidade.
Lucy apertou os lábios. Vi quando os olhos dela ficaram brilhando. Não de doçura. De raiva contida.
— Responsabilidade? — Ela deu uma risada amarga. — É isso que chama agora? Bonito. Mas sabe o que eu acho, Jacob?
— Não começa, Lucy…
— Acho que você é igual a todos. Se apaixona pela garota de cidade grande e esquece quem sempre esteve aqui. Quem te conhece. Quem te apoiou.
Quemmjante viu se quebrar e reerguer. Sabe eu te achava perfeito,.mas eu estava cega. Você é um babaca.
— Eu nunca te usei — falei baixo, mais uma vez. — Nós dois deixamos acontever. Aconteceu. Mas não significa que eu te enganei.
Ela olhou pra mim como se eu fosse um estranho.
— Pois é. Aconteceu. E sabe o que mais? Nunca vai acontecer de novo. Nem se você implorar.
— Eu não vou implorar — respondi com calma. — Só quero que seja feliz.
Lucy apertou os punhos.
— Vá pro inferno, Jacob Black.
Ela deu meia-volta e saiu em passos rápidos, quase tropeçando na pressa. Leah, perto do caminhão, lançou a mim um olhar que dizia tudo: depois conversamos, e entrou com Lucy.
Fiquei ali parado, sentindo a poeira levantar na estrada enquanto elas partiam.
Eu ainda estava sentado na beira da cama, o celular ainda quente na minha mão depois da ligação com Nessie. Ela tinha contado, empolgada, sobre os preparativos do jantar de noivado, sobre os arranjos de flores que Alice insistiu em refazer três vezes, sobre o cardápio que Rosalie estava ajustando como se fosse um evento diplomático.
E eu só conseguia sorrir.
Sorrir com aquela sensação boa no peito que só ela provocava.
— Eu tô com saudade — ela tinha dito, com a voz baixinha.
— Quando vier morar na fazenda vai enjoar de mim — brinquei.
— Não vou não — ela respondeu, rindo daquele jeitinho que mexia comigo.
Desligamos com um “boa noite” suave… quase um sussurro.
Aquele tipo de despedida que deixa a pessoa sorrindo sozinho no quarto.
Eu estava guardando o celular quando ouvi três batidinhas secas na porta.
— Jacob… posso entrar? — Era minha mãe.
Passei a mão pelo cabelo ainda úmido e abri a porta.
Sarah entrou com aquele olhar firme, carregando preocupação, julgamento e… algo mais que eu não entendi de imediato.
Ela parou no meio do quarto.
— Nós precisamos conversar sobre a Lucy.
Meu estômago travou na hora.
Suspirei fundo e encostei no criado-mudo.
— Mãe… já falei sobre isso. Eu e a Lucy foi um erro. Um momento ruim. Eu já coloquei um ponto final.
Sarah cruzou os braços, como fazia desde que eu era moleque e ela queria que eu dissesse onde enfiei a chave do carro dela.
— Você acha que eu sou boba, Jacob? — ela disse, baixinho, mas firme. — A garota desapareceu, voltou estranha, e do nada pediu demissão. E você… — ela apertou os olhos — você está agindo como se nada tivesse acontecido.
Eu respirei fundo.
— Não tem mais nada acontecendo, mãe. Nada. Eu nunca prometi nada pra Lucy. Nunca dei esperança. E agora eu vou noivar, vou construir uma vida com a Renesmee… eu não quero olhar pra trás.
Ela ficou me observando em silêncio. Tão sério que parecia que adivinhava algo no ar.
— Você tem certeza absoluta que não existe nada que ela possa usar contra você? — Sarah perguntou devagar. — Nada mesmo?
O ar ficou pesado.
A lembrança de Heidi, da acusação envenenada dela, e da última conversa com Lucy cruzou minha mente num flash incômodo.
Balancei a cabeça.
— Eu não devo nada à Lucy. Nada que me impeça de seguir com a minha vida — falei com calma, mas decidido. — E mesmo que ela faça qualquer drama… eu não vou abrir mão da Renesmee. Nem do meu filho.
Sarah respirou devagar e tocou meu braço, finalmente suavizando a expressão.
— Então só tenha cuidado, Jacob — ela murmurou. — Algumas pessoas… quando percebem que perderam algo que nunca foi delas… podem fazer besteira.
— O que você tem contra os Clearwater afinal? Parece que toda vez que alguém menciona esse sobrenome você trava.
O maxilar dela ficou tenso. Eu conheço bem esse sinal.
— No passado, seu pai e Harry trabalhavam juntos, você lembra. Eu e Sue éramos amigas. Muito amigas. E ela me traiu, Jacob. — A voz dela saiu rouca. — E Lucy… Lucy é igualzinha a mãe. Ardilosa. Cheia de esconderijo. Ela manipula, ela finge. E agora anda choramingando pelos cantos por sua causa.
Eu segurei a vontade de suspirar alto.
— Mãe, isso é coisa sua com a Sue. Lucy não tem nada a ver com isso. E eu nunca prometi nada pra ela.
Sarah se aproximou um passo, com o olhar duro.
— Então me responde uma coisa. Existe alguma chance… mínima que seja… dessa garota estar grávida de você?
Eu ri pelo nariz. Um riso curto, sem humor.
— Não, mãe. Zero chance. Literalmente zero.
Ela franziu a testa.
— Como pode afirmar assim?
Eu passei a mão no rosto. O assunto não era fácil. Nunca foi.
— Porque eu tenho azoospermia. — Falei direto. — É uma condição. Eu não produzo espermatozoides suficientes pra engravidar uma mulher de forma natural. Nem perto disso.
Sarah empalideceu.
— Jacob…
— Eu e Heidi tentanos construir uma família com a fertilização. Foi.a única forma. — Continuei sem pausa. — Concordamos em não contar a ninguém que eu era o problema depois que Heidi perdeu nosso fikho na primeira tentativa e foi por isso que essa história com Renesmee aconteceu. Meu material estava armazenado no hospital. A troca foi um desastre, mas só existe um bebê porque foi por fertilização. Não existe nenhuma possibilidade, nenhuma, de Lucy estar grávida de mim.
Minha mãe ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo cada palavra.
— Mãe… — suspirei. — Porquê esta me perguntando isso?
— Tenho observado o comportamento de Lucy— Sarah respondeu sem rodeios. — Ontem ela quase desmaiou na cozinha. Hoje de manhã, a Leah disse que ela passou mal de novo. E você sabe como é… todo mundo está comentando.
Eu franzi a testa.
— Passou mal como?
— Enjoo, tontura… — Sarah contou, apertando os lábios. — Não quis comer nada. Ficou pálida feito papel. E quando perguntei se queria ir ao hospital, inventou uma desculpa boba e saiu correndo. Isso não é normal, Jacob.
Estiquei o pescoço, tentando organizar as ideias.
— Pode ser uma virose — tentei aliviar. — Ou alergia.
— Eu sei diferenciar uma virose daquilo que eu vi — Sarah rebateu, firme. — A menina estava suando frio. Ela mal conseguia ficar em pé.
Meu estômago deu um nó.
Não porque eu achava que fosse o que ela suspeitava.
Afinal… apesar de tudo… eu não queria mal nenhum a ela.
— E o que a senhora está achando que é? — perguntei, já imaginando a resposta.
Sarah respirou fundo, baixando a voz.
— Só de pensar que essa menina poderia estar grávida de você.
Aquilo bateu como um tijolo na têmpora.
Eu nem tive tempo de filtrar.
— Mãe! — levei a mão ao rosto. — Mesmo que isso seja verdade, não sou o pai.
— Então… não há chance? — ela perguntou, quase aliviada.
— Não, mãe — confirmei. — Zero. O que ela tem deve ser outra coisa. Cansaço, estresse, sei lá. Mas gravidez… não.
Sarah soltou o ar, como se tivesse segurado por muito tempo.
— Bom… — ela ajeitou o cabelo atrás da orelha. — Isso já me deixa mais tranquila. Eu só… — ela hesitou, olhando para mim com aquele olhar de mãe que vê mais do que deveria — não quero que mais ninguém complique sua vida agora que ela finalmente está entrando nos trilhos.
Eu sorri de canto, meio cansado, meio grato.
— Não se preocupe dona Sarah.
Ela se aproximou, tocou meu rosto com carinho e disse baixinho:
— A Renesmee é uma boa menina. Eu vejo como você fala dela. Mesmo sem conhece-la. Não deixa nada… nem ninguém… atrapalhar o que vocês têm.
Meu peito esquentou.
— Eu não vou deixar — prometi.
Sarah assentiu, satisfeita, e saiu do quarto.
Quando a porta fechou, fiquei ali por alguns segundos, respirando fundo.
Renesmee.
A fazenda.
O bebê.
E agora Lucy passando mal.
Minha vida tinha virado um redemoinho.
Mas, pela primeira vez em muito tempo…
Eu sabia qual era o caminho que eu queria seguir.
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