A tela do notebook refletia o brilho frio da madrugada. Os números da planilha pareciam dançar, borrados, diante dos meus olhos cansados. Eu tentava revisar as últimas contas do trimestre — os custos com ração, medicamentos, transporte, e o orçamento para o novo estábulo. Era o tipo de trabalho que costumava me acalmar.

Mas, naquela noite, não funcionava.

Em meio às colunas de dados, a imagem dela surgiu sem ser convidada — os cabelos ruivos iluminados pela luz do fim de tarde, o olhar surpreso e ao mesmo tempo calmo, mesmo caída no asfalto. Eu revivi o momento em que ela levantou, agradeceu e disse estar bem, sem imaginar o quanto sua voz ficou presa na minha cabeça desde então.

Suspirei e passei a mão pelo rosto.

— Ridículo, Black — murmurei para mim mesmo. — Está pensando numa mulher que nem sabe o nome.

Fechei o notebook e me recostei na cadeira. Ia me levantar para buscar um café quando o celular vibrou sobre a mesa.

Embry.

Atendi no segundo toque.

— Fala, irmão. — disse, tentando parecer mais desperto do que realmente estava. — Algum problema?

Do outro lado da linha, a voz de Embry vinha abafada, misturada ao som de vento e cascos.

— Eu não queria te preocupar, Jake… mas acho que você precisa saber.

Endireitei-me imediatamente.

— O que aconteceu?

— É o Zeus. — respondeu, a voz mais tensa. — O rapaz que cuida do pasto noturno percebeu que ele está mancando. Eu chamei o veterinário, mas ele disse que talvez seja uma lesão de tendão.

Fechei os olhos por um instante, respirando fundo.

— De novo um tendão. — murmurei. — Esse mês está me testando.

— Eu sei, cara. Mas achei melhor te avisar. O velho Billy já está sabendo, e Sam está tentando ajudar com a contenção.

Olhei para o relógio. Passava da meia-noite.

— Certo. Mantenham-no tranquilo, sem deixá-lo forçar a pata. Vou praí agora.

— Jake, você está em Seattle. Vai dirigir a noite toda?

— Já dirigi em piores condições. — Respondi, levantando-me e pegando a jaqueta. — Se é um problema com um dos meus cavalos, eu preciso estar lá.

Embry suspirou do outro lado da linha.

— Às vezes eu esqueço que você nasceu pra isso.

— Pra quê?

— Pra carregar o peso do mundo e ainda achar que dá conta.

Sorri, mesmo cansado.

— Alguém tem que tentar.

— Então toma cuidado na estrada, irmão. — disse ele, mais calmo. — A chuva está forte por aqui.

— Sempre tomo. — desliguei, troquei de roupa, peguei as chaves do carro, a mochila e saí.

No estacionamento do hotel, o vento soprava gelado.

Enquanto ligava o motor, vi meu reflexo no espelho retrovisor — o mesmo olhar obstinado de sempre. Mas por um segundo, antes de sair, a imagem dela voltou à minha mente: o cabelo ruivo, os olhos claros, o jeito distraído.

Bati levemente no volante, como se pudesse espantar o pensamento.

— Esquece isso, Jake. Ela é só uma desconhecida.

Engatei a marcha e segui em direção à estrada escura.

Mas, lá no fundo, eu sabia que não era “só” isso.



O sol ainda mal havia rompido o horizonte quando entrei pelo portão da fazenda. A neblina da madrugada se espalhava pelos campos, e o som distante dos cavalos quebrava o silêncio. A estrada de cascalho úmida estalava sob os pneus da caminhonete.

Assim que estacionei diante da casa principal, a porta se abriu.

Minha mãe surgiu envolta num xale azul, o rosto cansado, mas aliviado ao me ver.

— Jacob, graças a Deus! — disse, aproximando-se apressada. — Você passou a noite na estrada? Eu fiquei preocupada.

Sorri, tentando esconder o cansaço.

— Estou bem, mãe. A estrada estava tranquila, só um pouco de chuva no caminho.

Ela me olhou de cima a baixo, como se procurasse algum sinal de que eu mentia.

— Você não aprende. — suspirou, depois de um instante. — Poderia ter esperado o amanhecer.

— Um dos cavalos precisava de mim — respondi, entrando na sala. — Eu não ia conseguir dormir sabendo disso.

Do corredor, ouvi o som característico das rodas da cadeira de Billy se aproximando.

Meu pai surgiu com o jornal no colo e aquele meio sorriso tranquilo de quem sabia mais do que deixava transparecer.

— Bom dia, filho. Embry já foi pros estábulos. Disse que o veterinário chega em uma hora.

— Ótimo — respondi, largando a mochila sobre o sofá. — Quero ver o Zeus assim que terminar o café.

Billy observou o olhar tenso da minha mãe e franziu o cenho.

— Sarah, ele voltou inteiro. Não precisa fazer esse rosto.

Ela ignorou o comentário e serviu café para nós três.

O aroma quente se espalhou pela cozinha, e por alguns instantes, o ambiente pareceu recuperar a calma habitual.

Depois de um gole, minha mãe me olhou com atenção.

— E como foram as coisas em Seattle? — perguntou, com aquele tom sutil que sempre parecia sondar mais do que as palavras diziam.

Deixei a xícara sobre a mesa e respirei fundo antes de responder.

— Ainda não consegui contato com a mãe da criança. — disse com calma. — Só falei com o pai dela. Edward Cullen.

Billy ergueu as sobrancelhas.

— O médico?

— Ele mesmo. — confirmei. — Homem de pulso firme. Civilizado, mas… difícil. Disse que tentaria conversar com a filha pra me permitir conhecê-la.

Sarah se sentou, apoiando as mãos sobre o avental.

— Deve ser complicado pra ela.

— É. — respondi, pensativo. — Não consigo imaginar o que ela está sentindo.

Houve um breve silêncio até que minha mãe, com o mesmo tom suave de sempre, comentou:

— A propósito… a Heidi ligou.

Levantei o olhar, surpreso.

— Ligou pra cá?

— Ligou ontem à noite. Pediu que eu pedisse pra você enviar as coisas dela para Seattle. Disse que está ficando no apartamento de vocês.

Cruzei os braços e encostei na cadeira, olhando para o vazio por um instante antes de responder.

— Pode deixar as malas dela prontas. Vou mandar alguém levar.

Sarah me olhou com cuidado, mas sem julgamento.

— Jacob… você tem certeza?

Assenti, firme.

— Tenho. Pedi o divórcio, mãe.

Ela suspirou, como quem esperava por aquilo, mas ainda assim doía ouvir.

— Imagino que não tenha sido fácil.

— Não foi — admiti. — Mas ela cruzou um limite que não tem volta. E o que sinto agora é só… alívio.

Billy pigarreou, pousando o jornal no colo.

— Às vezes, filho, cortar o que te prende é o único jeito de continuar andando.

Sorri de leve.

— É, pai. Acho que finalmente entendi isso.

Minha mãe tocou minha mão com carinho.

— Então é hora de começar de novo. Do seu jeito.

Olhei para o campo pela janela, onde o sol finalmente começava a surgir, tingindo de dourado as cercas e o pasto úmido.

Era um novo dia — e, de algum modo, o mundo parecia mais pesado e mais esperançoso ao mesmo tempo.

Peguei o chapéu sobre o aparador e o coloquei.

— Vou ver o Zeus.

Sarah assentiu.

— Eu levo o café pra você lá embaixo.

Billy sorriu.

— E não discute com o veterinário. Deixa o homem trabalhar.

— Sem promessas — respondi, já a caminho da porta.

A fazenda me esperava.

E, enquanto caminhava em direção aos estábulos, uma voz na minha mente insistia em lembrar da jovem ruiva que eu quase atropelara.

Por mais que tentasse afastar a imagem, ela voltava, teimosa., sem imaginar que o destino estava prestes a juntá-la a mim — de um jeito que ninguém seria capaz de prever.