A porta se fechou atrás de Jacob Black, e por um breve instante o silêncio tomou conta da sala. Fiquei imóvel, olhando para a xícara de café ainda quente sobre a mesa.

Era um homem impressionante, pensei. Direto, seguro, dono de uma serenidade que não vinha da arrogância, mas da convicção.

Quando apertou minha mão, percebi que não estava diante de um aventureiro, mas de alguém que conhecia o peso de sustentar o próprio nome.

A conversa fora cordial, até mesmo agradável em alguns momentos — o que, sinceramente, não esperava. Ele não tentou se justificar, nem se colocar como vítima. Falou da criança como quem fala de um milagre improvável, e não de um erro.

E isso, de alguma forma, me trouxe paz.

Mas paz nunca dura muito.

Ouvi duas batidas na porta.

— Entre — disse, recostando-me na cadeira.

Jasper Hale entrou, como sempre impecável em seu terno escuro. O cunhado perfeito, meticuloso e discreto.

— Trouxe o que pediu — disse ele, depositando duas pastas sobre a mesa.

Peguei a primeira e a abri. O papel exalava o cheiro frio de tinta e burocracia. Dentro, havia um relatório detalhado: registros fiscais, reportagens, avaliações de propriedade.

Jasper resumiu, como quem já decorara cada linha.

— Jacob Black. Trinta e dois anos. Empresário do ramo de criação de cavalos. Dono de uma fazenda em Yakima, especializada em puro-sangue árabe. Três prêmios internacionais, contratos com haras europeus, patrimônio estimado em algumas centenas de milhões.

Fechei a pasta devagar, respirando fundo.

— Então Rebecca não exagerou.

— Não — respondeu Jasper. — Pelo contrário, acho que ela até poupou detalhes. O homem é sólido. Financeiramente e… aparentemente, moralmente também.

Assenti, mantendo o olhar fixo na pasta.

— Confesso que não estou surpreso. — Passei a mão no queixo, pensativo. — Mas fico aliviado.

Jasper me observava em silêncio, até perguntar com o tom analítico que o tornava um excelente consultor — e um parente irritantemente perspicaz:

— E o que pretende fazer com essa informação, Edward?

Fechei a pasta e encarei o cunhado.

— O que sempre fiz: o que for melhor pra minha filha.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Melhor segundo quem? Você ou ela?

Ignorei a provocação e abri a segunda pasta. Ali estavam os registros de Renesmee: exames, relatórios médicos, ultrassons. A imagem em preto e branco do bebê me prendeu por alguns segundos.

— Renesmee dará à luz a uma criança que, querendo ou não, herdará um império — disse com calma. — E isso, de certa forma, me tranquiliza.

Jasper cruzou os braços.

— Imagino. Mas essa tranquilidade soa perigosa.

Ergui o olhar para ele.

— Não pretendo deixar minha filha ser mãe solteira. Essa criança já existe, e não há mais o que mudar.

Jasper ficou em silêncio por alguns instantes, avaliando minhas palavras, até dar um passo à frente.

— Edward… — disse com um meio sorriso irônico. — Você não está pensando no que eu acho que está, está?

— E o que você acha que estou pensando? — perguntei, embora já soubesse a resposta.

— Que pretende unir Renesmee a Jacob Black.

Fechei lentamente a pasta e o encarei com um sorriso contido.

— Digamos apenas que acredito em soluções… harmoniosas.

Jasper soltou uma risada breve e descrente.

— Sempre político, não é?

— Realista — corrigi. — O destino juntou esses dois de forma trágica. Mas talvez, só talvez, eu possa transformar isso em algo digno.

Ele balançou a cabeça, ainda sorrindo.

— Você nunca muda, Edward.

— E espero que nunca precise — respondi, voltando o olhar para a janela.

Lá fora, a chuva caía sem pressa.

E, pela primeira vez em muitos dias, senti que o caos começava a se organizar — não naturalmente, mas do jeito que eu sabia fazer: planejando.

Jasper ainda estava encostado na estante, me observando com aquele olhar analítico que misturava curiosidade e desconfiança. Eu, por outro lado, já tinha voltado a vasculhar as pastas sobre a mesa. Entre relatórios e fichas, uma delas chamava atenção pelo nome no canto superior direito.

Riley Biers.

Puxei o documento e abri, lendo em silêncio as primeiras linhas. Estava tudo ali — histórico escolar, desempenho esportivo, registro médico e a mais recente atualização: Riley Biers, 21 anos, armador promissor, em processo de avaliação para uma bolsa no Seattle Storm College Team, um time universitário vinculado à NBA, com olheiros do Golden State Warriors observando seus jogos.

Um sorriso discreto se formou nos meus lábios.

— Interessante.

— O que foi? — Jasper perguntou, se aproximando um pouco.

— O namorado da minha filha está tentando uma bolsa no Seattle Storm. — Fechei a pasta e a bati de leve contra a mesa. — Curioso… o Storm é patrocinado pela empresa do Emmett, não é?

Jasper franziu o cenho.

— É sim. — Cruzou os braços. — E você está sorrindo. O que está tramando agora?

— Não estou tramando nada — respondi, ainda com o tom tranquilo. — Só estou… pensando.

— Pensando, no seu caso, geralmente significa mexendo as peças do tabuleiro — retrucou Jasper, com um meio sorriso. — Edward, você não vai prejudicar o garoto, vai?

— Claro que não. — Fechei a pasta e me recostei na cadeira. — Jamais prejudicaria um jovem talentoso. Seria uma crueldade desnecessária.

— Então por que esse olhar satisfeito? — Jasper insistiu.

Peguei a caneta sobre a mesa e a girei entre os dedos.

— Porque vou realizar o sonho dele.

Jasper me olhou com uma expressão confusa.

— Desculpe, mas acho que perdi alguma parte.

— Pense, Jasper. — Apoiei as mãos sobre a mesa, inclinando-me para frente. — Um garoto de vinte e um anos, prestes a conquistar uma bolsa de basquete, com chance real de jogar em um time americano. O que um sonho desses exige?

— Dedicação, foco, tempo… — começou Jasper, e então parou, percebendo. — Ah, entendi.

Assenti levemente.

— Um jovem que está prestes a vestir o uniforme de um time da NBA jamais abriria mão disso para se casar com uma moça grávida de outro homem.

Jasper soltou uma risada curta, quase incrédula.

— Edward… você é terrivelmente lógico.

— Lógico, sim — respondi, sereno. — Cruel, não. O garoto não vai perder nada. Pelo contrário, vai ganhar tudo o que deseja. E Renesmee ficará livre para viver em paz, sem precisar de um casamento apressado com alguém que jamais estaria pronto para isso.

Jasper balançou a cabeça.

— Você manipula o destino com uma elegância assustadora.

Sorri de leve.

— Prefiro pensar que eu apenas o organizo.

Peguei o celular sobre a mesa e procurei o contato de Emmett. Jasper soltou um suspiro resignado, cruzando os braços.

— Lá vem você pedindo “um favor simples”, não é?

— Algo assim. — Pressionei o botão de chamada.

A voz do meu irmão ecoou do outro lado, alta e animada como sempre.

— Fala, doutor! O que devo a honra?

— Emmett, preciso de um favor — respondi, o tom calmo, mas firme. — Um pequeno ajuste nos planos de patrocínio do Storm.

Jasper sorriu de canto, enquanto eu olhava pela janela a chuva fina de Seattle.

Eu não estava prestes a destruir o sonho de um jovem.

Estava apenas garantindo o futuro da minha filha.