Os últimos seis meses mudaram minha vida mais do que todos os anos anteriores juntos.

Ser mãe do JJ era a melhor parte dos meus dias. Eu amava acordar com o som da respiração tranquila dele no berço ao lado da minha cama, descobrir um sorriso novo, perceber que ele já tentava alcançar meus cabelos ou segurava meu dedo com uma força surpreendente para um bebê tão pequeno. Cada pequena conquista dele fazia meu coração transbordar de orgulho.

Mas, ao mesmo tempo, havia uma parte de mim que eu também precisava resgatar.

Minha decisão de permanecer em Seattle acabou criando uma distância entre mim e Jacob que nenhum dos dois desejava. Nós continuávamos casados, conversávamos todos os dias, dividíamos as decisões sobre nosso filho e fazíamos o possível para que JJ nunca sentisse a ausência do pai. Ainda assim, eu sentia falta dele de um jeito difícil de explicar. Sentia falta de acordar ao seu lado, de ouvir sua risada ecoando pela casa, das noites em que ficávamos conversando até tarde sobre qualquer assunto e até das pequenas discussões que terminavam com ele me abraçando antes que eu conseguisse continuar brava.

Eu o amava.

Nunca tive dúvidas disso.

Mas também não conseguia ignorar tudo o que sentia quando pensava na fazenda.

Depois do acidente com Lucy, aquele lugar deixou de representar apenas a casa onde construí minha família. Sempre que fechava os olhos, lembrava da escada, das acusações, do medo de perder meu filho e da sensação de estar sendo julgada por algo que nunca fiz. Voltar para lá significava carregar tudo aquilo outra vez, e eu ainda não estava pronta.

Havia também outra verdade que passei muito tempo escondendo até de mim mesma.

Antes da gravidez, eu tinha planos.

Queria terminar a faculdade, construir minha carreira, vestir um jaleco todos os dias e conquistar meu espaço como médica. Quando descobri que estava grávida, minha vida mudou completamente. Nunca me arrependi de ter meu filho. Pelo contrário. JJ era o maior presente que eu poderia receber. Mas a maternidade não apagava os sonhos que eu já carregava antes dele nascer.

Foi por isso que, algumas semanas depois de receber alta definitiva de Rebecca, procurei a universidade.

Conversei com a coordenação do curso, apresentei toda a documentação médica e consegui retomar a graduação em Medicina exatamente de onde havia parado. Algumas disciplinas precisariam ser refeitas por causa do tempo em que fiquei afastada e outras teriam de ser cursadas em horários diferentes, mas aquilo pouco importava.

Na manhã em que entrei novamente na sala de aula, senti o mesmo frio na barriga do primeiro dia de faculdade.

Reconheci alguns colegas, encontrei professores que me receberam com um sorriso sincero e ouvi mais de uma vez que estavam felizes por me ver de volta. Passei boa parte da aula tentando acompanhar o ritmo da turma enquanto anotava tudo o que conseguia. Sabia que teria muito conteúdo para recuperar, mas, pela primeira vez em muitos meses, tive a sensação de que uma parte de mim estava voltando ao lugar.

Quando a última aula terminou, guardei meus livros na mochila e caminhei lentamente pelo corredor da universidade. O movimento de estudantes era intenso naquele horário. Grupos conversavam sobre provas, estágios e trabalhos enquanto seguiam em direção ao estacionamento.

Eu já procurava as chaves do carro dentro da bolsa quando ouvi alguém chamar meu nome.

— Renesmee?

Virei-me.

Riley caminhava na minha direção com um sorriso de surpresa.

Fazia tempo que não o via.

Ele parou diante de mim e me observou por alguns segundos.

— Eu não acredito.

Sorri.

— Oi, Riley.

Ele balançou a cabeça, ainda surpreso.

— Você voltou mesmo.

Assenti.

— Voltei.

Os olhos dele percorreram meu rosto por um instante antes de abrir um sorriso ainda maior.

— Você está linda.

Sorri, um pouco sem graça.

— Obrigada.

Ele passou a mão na nuca.

— Ouvi alguns comentários de que você talvez retornasse neste semestre, mas achei que fosse só boato.

— Eu também não tinha certeza até poucos dias atrás.

Conversamos rapidamente sobre a faculdade, os professores que continuavam dando aula e as mudanças que aconteceram durante o tempo em que fiquei afastada. Riley parecia genuinamente feliz por me encontrar ali outra vez, e percebi que, apesar dos meses de distância, nossa conversa continuava tão leve quanto antes.

Quando nos despedimos, ele fez um pequeno aceno.

— Espero encontrar você mais vezes pelos corredores.

Sorri.

— Acho que vai.

Ele seguiu em direção ao bloco principal da universidade enquanto eu caminhei para o estacionamento.

Destravei o carro e coloquei a mochila no banco do passageiro. Antes de entrar, fiquei alguns segundos olhando o movimento da faculdade. Era estranho perceber como aquele lugar continuava exatamente igual, enquanto minha vida havia mudado completamente.

Agora eu era mãe.

Esposa.

E também voltava a ser estudante de Medicina.

Pela primeira vez em muito tempo, senti que talvez fosse possível conciliar essas três versões de mim sem precisar abrir mão de nenhuma delas.


Quando estacionei o carro na garagem da casa dos meus pais, senti aquele cansaço gostoso de quem passou o dia inteiro aprendendo. Ainda teria horas de estudo pela frente para recuperar o conteúdo perdido durante a licença, mas, pela primeira vez em muito tempo, aquilo não me assustava. Eu estava voltando a construir uma parte da vida que achei que tivesse ficado para trás.

Assim que entrei em casa, ouvi as risadas vindas da sala.

Meu pai estava sentado no sofá enquanto minha mãe fazia caretas para JJ, que gargalhava no colo dela como se aquela fosse a coisa mais engraçada do mundo. Bastou eu aparecer na porta para Edward erguer os olhos do neto e abrir um sorriso.

— Olha só quem chegou... a futura nova médica da família.

Revirei os olhos, divertida.

— Nossa, isso sim é uma grande novidade.

Meu pai riu.

— Não custa lembrar.

— O senhor fala como se não tivéssemos médicos na familia.

Bella também sorriu.

— Ele está orgulhoso.

— Muito.

Edward confirmou sem esconder a satisfação.

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, JJ me viu.

Os olhinhos dele brilharam imediatamente.

Meu filho soltou um pequeno som de alegria e esticou os dois bracinhos na minha direção, abandonando completamente a brincadeira com a avó.

Meu coração derreteu no mesmo instante.

— Ah... então alguém sentiu saudade da mamãe?

Bella levantou-se e o entregou para mim.

Assim que o acomodei nos braços, JJ segurou minha blusa com as mãozinhas e encostou o rostinho no meu peito.

Fechei os olhos por um instante.

— Eu também estava morrendo de saudade de você.

Beijei sua testa.

Depois uma bochecha.

E outra.

Ele soltou uma risadinha gostosa que fez minha mãe rir junto.

— Coitado desse menino.

Bella balançou a cabeça.

— A mãe não deixa nem respirar.

— Claro que deixo.

Respondi enquanto enchia JJ de beijos outra vez.

— Mas só depois de matar a saudade.

Foi nesse momento que meu celular começou a tocar.

Olhei para a tela e sorri automaticamentene atendi quase no mesmo instante.

— Oi.

Bastou ouvir sua voz para que meu dia parecesse um pouco mais leve.

— Oi, amor.

Sorri sem perceber.

— Estou atrapalhando?

— Nunca.

Respondi quase imediatamente.

Olhei para JJ brincando com um botão da minha blusa.

— O JJ acabou de acordar da soneca.

Jacob deu uma pequena risada do outro lado da linha.

— E como está o meu rapaz?

Olhei para nosso filho.

— Está muito bem.- Fiz uma pequena pausa antes de continuar. — Acho que está com saudade do papai.

Durante alguns segundos não ouvi resposta, quando Jacob voltou a falar, sua voz saiu mais baixa.

— Eu também estou morrendo de saudade dele.

Houve uma breve pausa.

— E de você.

Sorri sozinha mas não espondi imediatamente.

Às vezes o silêncio dizia exatamente aquilo que eu estava sentindo.

Respirei devagar antes de falar.

— Nós também sentimos sua falta.

Acariciei os cabelinhos de JJ enquanto ele tentava pegar meu colar. — Eu e o JJ.

Jacob soltou um pequeno suspiro.

— Hoje a fazenda está uma bagunça.

— Deixa eu adivinhar.

— Pode tentar.

— Dona Sarah resolveu fazer festa.

Ouvi a risada dele.

— Acertou.

— E a Rachel deve estar ajudando.

— Também acertou.

Balancei a cabeça, divertida.

— Então realmente deve estar uma bagunça.

Nós dois rimos. Era bom conversar daquele jeito.

Sem acusações, sem discutir sobre a fazenda e principalmente sem falar da Lucy.

Por alguns minutos, parecíamos apenas um casal sentindo falta um do outro.

Então a voz dele ficou um pouco mais séria.

— Amanhã é o jantar do meu aniversário.

Permaneci em silêncio.

Sabia que ele ainda não tinha dito tudo.

— Eu estava pensando...

Ouvi um leve ruído do outro lado da linha, como se ele tivesse passado a mão pelos cabelos.

— Esse pode ser o aniversário mais feliz da minha vida...

Esperei.

— Se você aceitar trazer o nosso menino para passar o dia comigo.

Meu coração apertou.

Olhei para JJ, que agora brincava distraído com meus dedos.

Fiquei alguns segundos sem responder.

Jacob não insistiu.

Apenas esperou.

Então ele voltou a falar com toda a calma.

— Você não precisa ficar preocupada. Vem pela manhã, passa o dia comigo, participa do jantar e, se quiser, eu mesmo mando o jatinho levar vocês de volta para Seattle logo cedo.

Fechei os olhos por um instante, eu sabia o quanto aquele convite era importante para ele.

Também sabia o quanto voltar à fazenda ainda me assustava.

Quando finalmente consegui responder, minha voz saiu baixa.

— Você promete que, na manhã seguinte, eu volto para Seattle?

A resposta veio sem qualquer hesitação.

— Eu prometo.

Sorri.

— Então...

Olhei para JJ mais uma vez.

— Eu vou.

Do outro lado da linha ouvi um suspiro de alívio.

Aquilo me fez sorrir ainda mais.

— Obrigado.

Ri baixinho.

— Acho que quem vai ficar mais feliz é o JJ.

— Tenho quase certeza de que sou eu.

Balancei a cabeça, divertida.

Era impossível não sorrir ouvindo aquele homem.

— Vou mandar o jatinho buscar vocês amanhã cedo.

— Está bem.

Passei a mão delicadamente nas costas do nosso filho.

— O Bebê Jake e eu estaremos prontos.


Na manhã seguinte, acordei antes mesmo do despertador tocar. Quase não dormi durante a noite. Parte de mim estava feliz por Jacob finalmente passar um tempo com o filho. A outra ainda sentia aquele aperto no peito ao pensar que pisaria novamente na fazenda depois de tantos meses.

Minha mãe insistiu em preparar um café da manhã reforçado antes de sairmos. Meu pai nos levou até o aeroporto particular enquanto Bella fazia as últimas recomendações, como se eu ainda fosse uma adolescente viajando sozinha pela primeira vez.

— Me liga quando chegar.

Sorri.

— Mãe, são pouco mais de duas horas de voo.

— Mesmo assim.

Ela ajeitou a manta de JJ pela terceira vez.

— Me liga.

Edward apenas riu da cena.

— Ela só vai sossegar quando vocês estiverem de volta.

O jatinho de Jacob já nos aguardava na pista.

Assim que embarquei com JJ nos braços, senti uma mistura de ansiedade e nostalgia. Quantas vezes fiz aquele mesmo trajeto durante a gravidez? Naquela época eu ainda imaginava como seria nosso futuro. Agora fazia o caminho com nosso filho dormindo tranquilamente no meu colo.

A viagem foi calma.

JJ passou boa parte do tempo olhando pela janela sem realmente entender o que havia do outro lado das nuvens. Em determinado momento acabou adormecendo novamente, completamente aconchegado em meus braços. Aproveitei o silêncio da cabine para olhar a paisagem lá embaixo e organizar meus pensamentos.

Eu havia prometido a Jacob que ficaria apenas um dia.

Era só o aniversário dele.

No dia seguinte voltaríamos para Seattle.

Repeti aquilo para mim mesma durante praticamente todo o voo.

Quando o piloto avisou que iniciaríamos o procedimento de pouso, senti meu coração acelerar.

Poucos minutos depois, as rodas tocaram a pista do pequeno hangar do vilarejo próximo à fazenda.

Respirei fundo.

A porta da aeronave foi aberta e uma brisa fresca invadiu a cabine. Desci os primeiros degraus segurando JJ com cuidado e imediatamente procurei Jacob com os olhos.

Ele já estava ali.

Parado ao lado de uma caminhonete preta, conversava com um dos peões da fazenda. Assim que me viu, interrompeu a conversa e caminhou em nossa direção.

Sorriu.

Aquele sorriso ainda tinha o efeito de deixar meu coração um pouco mais leve.

— Como foi a viagem?

Parou diante de mim.

— Tranquila.

Respondi sorrindo de volta.

— O Bebê Jake dormiu quase o tempo todo.

Os olhos dele imediatamente encontraram nosso filho.

Sorriu ainda mais.

— Então eu dei sorte.

Estendeu os braços.

— Posso?

Entreguei JJ para ele.

Jacob o recebeu com aquele cuidado que eu já conhecia tão bem. Assim que sentiu os braços do pai, nosso filho abriu lentamente os olhinhos e, ao reconhecê-lo, abriu um sorriso desdentado que fez Jacob rir na mesma hora.

— Olha quem acordou...

Ele aproximou o rosto do filho.

— Estava com saudade do papai, campeão?

JJ respondeu do único jeito que sabia.

Esticou as mãozinhas e segurou a barba de Jacob.

— Ei...

Jacob riu.

— Já chegou puxando a barba?

Beijou demoradamente a testa do menino.

Depois uma bochecha.

E mais outra.

— Acho que você cresceu desde a última vez que nos vimos.

Enquanto os dois pareciam esquecer completamente o restante do mundo, um dos peões aproximou-se discretamente.

— Dona Renesmee, posso levar suas malas?

Olhei para ele.

— Claro. Obrigada.

Ele recolheu as bagagens sem dificuldade e seguiu em direção à caminhonete e voltei minha atenção para Jacob.

Durante aqueles poucos minutos, percebi alguma coisa diferente nele.

Continuava carinhoso com JJ, sorrindo, mas havia algo mais.

Era como se estivesse medindo cada gesto, escolhendo cuidadosamente cada palavra antes de dizê-la.

Talvez fosse apenas cansaço ou a preocupação com a festa. Ou talvez eu estivesse imaginando coisas.

Afastei aquele pensamento.

Não queria estragar aquele reencontro procurando problemas onde talvez não existissem.

Jacob terminou de brincar com JJ e finalmente voltou o olhar para mim.

Por um instante nossos olhos permaneceram presos um no outro.

Ele sorriu de leve.

Aproximou-se mais um passo e colocou cuidadosamente nosso filho novamente em meus braços.

— Você está linda.

Sorri, sentindo minhas bochechas aquecerem.

— Obrigada.

Ele continuou me olhando por mais um instante antes de abrir a porta da caminhonete para que eu entrasse.

Sem perceber, fiquei pensando que, apesar das palavras carinhosas, havia uma distância discreta entre nós que nunca existira antes. Eu não sabia dizer exatamente o que era, apenas sentia que alguma coisa tinha mudado desde a última vez que estivemos juntos.