O pai do meu bebê
71 Renesmee
Meu corpo inteiro tremia.
Eu tentava organizar os pensamentos, mas tudo havia acontecido depressa demais. Ainda conseguia sentir a mão de Lucy escapando da minha, o som de seu corpo batendo nos degraus e o silêncio assustador que veio em seguida. Mantive uma das mãos apoiada sobre a barriga, respirando devagar, como Rebecca sempre me ensinava quando o nervosismo ameaçava tomar conta de mim.
— Calma... calma... — murmurei para mim mesma, fechando os olhos por um instante. — Vai ficar tudo bem...
Não sabia se estava tentando convencer a mim ou ao pequeno bebê que carregava.
Lucy permanecia desacordada no chão quando outra funcionária da fazenda entrou pela porta da cozinha. Assim que seus olhos encontraram a cena, ela levou as duas mãos ao rosto.
— Meu Deus... o que aconteceu?
Ela deu um passo à frente, mas ergui a mão imediatamente.
— Não!
A mulher parou no mesmo instante e me encarou assustada.
— Não toque nela. Pode piorar alguma coisa. A ajuda já foi chamada.
Ela assentiu, ainda em choque, permanecendo imóvel enquanto olhava alternadamente para mim e para Lucy.
Os segundos pareciam intermináveis.
Foi então que ouvi o barulho de uma caminhonete freando bruscamente do lado de fora da mansão.
A porta principal foi aberta com força.
— Nessie!
Reconheci a voz antes mesmo de vê-lo.
Jacob entrou quase correndo, seguido por Sam. Bastou seus olhos encontrarem a cena para seu rosto perder completamente a cor. Antes mesmo de olhar para Lucy, ele veio diretamente até mim.
Segurou meu rosto entre as mãos e me examinou de cima a baixo.
— Você está bem? Se machucou? Sentiu alguma coisa?
Balancei a cabeça rapidamente.
— Eu estou bem.
Ele respirou aliviado por um segundo, mas logo voltou a olhar para Lucy caída no chão.
— O que aconteceu?
Minha garganta estava seca.
Mesmo assim consegui responder.
— Ela... ela estava indo embora. Tropeçou na escada... eu tentei segurá-la, Jacob... eu juro que tentei...
Minha voz falhou na última frase.
Vi seus olhos encontrarem os meus por apenas um instante. Havia preocupação, mas não desconfiança.
Ele apenas segurou minha mão rapidamente, como se quisesse me dizer que teria tempo para conversarmos depois.
Sam já estava ajoelhado ao lado de Lucy, observando sua respiração sem movimentá-la.
Depois de alguns segundos, levantou o rosto para Jacob.
— É melhor levá-la imediatamente. A ambulância ainda vai demorar para chegar até aqui.
Jacob não hesitou.
Abaixou-se com cuidado e acomodou Lucy nos braços, procurando manter seu corpo o mais estável possível.
Antes de sair, voltou-se para mim mais uma vez.
— Fique aqui.
Balancei a cabeça quase sem perceber.
Mas, quando ele começou a caminhar em direção à porta, um pensamento atravessou minha mente.
— Avisem a família dela!
Minha voz ecoou pela sala.
Olhei para uma das funcionárias.
— Chamem a Sue... o Harry... avisem que a Lucy sofreu um acidente.
A mulher assentiu e saiu correndo em direção ao telefone da casa.
Jacob já atravessava a varanda carregando Lucy quando comecei a caminhar atrás dele.
— Senhora Renesmee... — chamou uma das empregadas, preocupada.
Ignorei.
Naquele momento, tudo o que eu conseguia pensar era que Lucy precisava chegar ao hospital o mais rápido possível.
Segurei o vestido com uma das mãos e desci os poucos degraus da varanda. Jacob já acomodava Lucy no banco traseiro da caminhonete enquanto Sam assumia o volante.
Quando Jacob fechou a porta do veículo, nossos olhares se encontraram por um breve instante.
Eu ainda conseguia enxergar o desespero em seu rosto quando um medo diferente tomou conta de mim.
Não era apenas o medo pelo estado de Lucy.
Era a sensação de que, quando aquela caminhonete deixasse a fazenda, nossa vida também seguiria por um caminho do qual talvez não houvesse mais volta.
Horas depois que a caminhonete deixou a propriedade, senti minhas pernas perderem a força. Rachel foi a primeira a me amparar antes que eu tentasse sair atrás de Jacob outra vez. Ela me conduziu até a sala enquanto repetia, em voz baixa, que eu precisava me acalmar por causa do bebê. Eu não conseguia responder. Minha cabeça revivia a mesma cena sem parar. A mão de Lucy escorregando da minha, meu grito ecoando pela escada e o silêncio que veio depois.
Rachel, Billy e Sarah haviam chegado minutos depois do acidente. Assim que Sarah me viu sentada no sofá, ajoelhou-se diante de mim e segurou minhas mãos entre as dela.
— Respire, minha filha. Você está muito pálida.
Obedeci, mas cada tentativa de inspirar profundamente parecia insuficiente.
— Eu tentei segurá-la, Sarah... eu juro que tentei.
Ela acariciou meus dedos com delicadeza.
— Eu sei. Você não precisa me convencer de nada.
Aquelas palavras fizeram meus olhos se encherem de lágrimas outra vez.
Billy aproximou sua cadeira de rodas e parou ao meu lado. Seu semblante era sério, mas transmitia uma tranquilidade que, naquele momento, eu precisava encontrar em alguém.
— Rebecca já deve ter chegado ao hospital da cidade vizinha — disse Sarah, tentando me tranquilizar. — Assim que Jacob ligou, ela saiu imediatamente. Lucy está sendo atendida pelos melhores médicos que poderiam cuidar dela.
Assenti em silêncio.
Queria acreditar que tudo ficaria bem, mas uma inquietação insistia em apertar meu peito.
Billy permaneceu alguns segundos me observando antes de falar.
— Renesmee... você consegue me contar exatamente o que aconteceu?
Fechei os olhos por um instante. Reviver aqueles minutos era doloroso, mas eu sabia que precisava falar.
— Nós nos encontramos por acaso. Ela disse que entrou porque achou que o Jacob estava em casa. Conversamos... na verdade, discutimos um pouco. Ela disse que, se o bebê fosse mesmo do Jacob, precisaria se acostumar a vê-la naquela casa. Eu respondi que isso não mudava o fato de que aquela era a nossa família. Depois resolvi subir para o quarto. Ela disse que iria embora... virou para descer a escada... e tropeçou.
Minha voz começou a falhar.
— Eu corri. Consegui segurar o braço dela por um instante... mas minha mão escorregou. Eu... eu não consegui impedir...
As lágrimas finalmente venceram.
Rachel sentou-se ao meu lado e passou o braço pelos meus ombros enquanto eu tentava controlar o choro.
Sarah respirou fundo, visivelmente irritada.
— Eu sabia que essa história ainda ia terminar mal.
Billy voltou o rosto para a esposa.
— Sarah...
Ela cruzou os braços.
— Não estou dizendo que a Renesmee fez alguma coisa. Estou dizendo que essa família Clearwater nunca trouxe paz para esta casa.
Rachel olhou imediatamente para a mãe.
— Mãe...
Sarah continuou, ainda tomada pela revolta.
— Desde o tempo da Sue é um problema atrás do outro. Agora acontece isso...
Ela balançou a cabeça.
— Às vezes penso que isso foi um castigo divino por tanta confusão.
— Sarah! — Billy a interrompeu, firme pela primeira vez desde que tudo começara. — Não diga uma coisa dessas.
Rachel também demonstrou indignação.
— A Heidi perdeu um bebê.
Sarah abaixou o olhar por alguns segundos.
— Eu sei...
Sua voz saiu mais baixa.
— Não gosto da Lucy, mas não desejo isso a ela.
O silêncio voltou a dominar a sala. Apenas o relógio na parede quebrava aquela quietude, marcando os minutos que pareciam não passar.
Foi então que o celular de Rachel tocou sobre a mesa de centro.
Todos olharam ao mesmo tempo para o aparelho.
Rachel pegou o telefone e olhou rapidamente para a tela.
— É o Jake.
Meu coração disparou.
Ela atendeu imediatamente.
— Oi... como ela está?
Ninguém dizia uma palavra. Eu tentava descobrir alguma resposta apenas observando a expressão de Rachel.
Ela ouviu durante alguns segundos, fez um leve movimento afirmativo com a cabeça e respondeu apenas:
— Eu entendi.
Quando desligou, demorou um instante antes de olhar para mim.
Percebi que ela escolhia cuidadosamente as palavras.
— O Jake disse que preferiu ligar para mim porque não queria que você se assustasse atendendo o telefone sem saber o que tinha acontecido.
Senti minhas mãos gelarem.
— Rachel...
Ela segurou minha mão com delicadeza.
Os olhos dela estavam marejados.
— A Lucy perdeu o bebê.
Foi como se o ar desaparecesse da sala.
Eu permaneci imóvel, incapaz de dizer qualquer coisa. Minha mão deslizou lentamente até a barriga, enquanto uma única pergunta se repetia dentro de mim.
Como nossa vida conseguiria voltar a ser a mesma depois daquela tarde?
Depois que Rachel desligou o telefone, ninguém voltou a tocar no assunto. Sarah insistiu para que eu subisse e descansasse um pouco, dizendo que permanecer na sala apenas aumentaria minha ansiedade. Eu não tinha vontade de dormir, muito menos de ficar sozinha com meus pensamentos, mas acabei cedendo. Rachel preparou um chá de camomila como Rebecca costumava fazer e o levou até o quarto antes de me deixar sozinha.
Sentei-me perto da janela com a xícara entre as mãos, observando o céu escurecer sobre a fazenda. A propriedade, que normalmente transmitia uma sensação de paz naquele horário, parecia carregada por um silêncio estranho. Eu tentava me convencer de que Lucy receberia todo o atendimento necessário, mas bastava fechar os olhos para reviver a queda. A lembrança insistia em voltar, e eu já havia perdido a conta de quantas vezes me perguntei se poderia ter feito alguma coisa diferente.
Ainda segurava a xícara quando ouvi a porta do quarto se abrir lentamente.
Levantei os olhos e encontrei Jacob parado na entrada.
Bastou vê-lo para perceber o quanto aquele dia também o havia consumido. Seus cabelos estavam desalinhados, a camisa ainda era a mesma que vestia quando saiu às pressas carregando Lucy, e havia um cansaço estampado em seu rosto que eu nunca tinha visto antes. Durante alguns segundos ele apenas me olhou, como se precisasse ter certeza de que eu realmente estava bem. Então atravessou o quarto sem dizer uma palavra e me envolveu em um abraço tão apertado que senti toda a tensão que ele vinha carregando desde a tarde.
Escondi o rosto em seu peito e fechei os olhos.
— Como você está? — perguntou baixinho, passando a mão pelos meus cabelos.
Afastei-me apenas o suficiente para olhá-lo.
— Eu estou bem... só estava preocupada esperando notícias.
Ele respirou aliviado ao ouvir minha resposta, depois levou uma das mãos ao meu rosto e acariciou minha bochecha com delicadeza.
— Rebecca me disse que você ficou muito nervosa.
Assenti.
— Não tinha como ser diferente.
Por alguns segundos permaneci observando seus olhos. Havia tristeza neles, mas também um enorme esforço para permanecer firme.
— E a Lucy?
Jacob abaixou a cabeça antes de responder.
— Ela está sendo acompanhada pela Rebecca e pelos médicos do hospital. Fisicamente ela vai ficar bem.
Aquela pequena pausa antes da última frase foi suficiente para que eu entendesse o restante.
Apertei sua mão entre as minhas.
— Eu sinto muito, Jake.
Ele permaneceu em silêncio por um instante, depois aproximou-se novamente e depositou um beijo demorado na minha testa.
— Eu sei.
Sua voz saiu baixa, quase cansada.
— Mas agora eu preciso que você pense em você e no nosso filho.
Sorri de forma discreta.
— Você ainda consegue cuidar de mim mesmo depois de um dia como esse.
Ele devolveu um sorriso pequeno.
— Acho que nunca vou deixar de fazer isso.
Passou o polegar pelo meu rosto, enxugando uma lágrima que eu nem havia percebido cair.
— Descansa um pouco. Você passou por um susto enorme hoje.
Assenti, mas continuei olhando para ele.
Havia alguma coisa diferente.
Jacob sempre foi transparente comigo. Bastava observá-lo por alguns minutos para saber quando estava feliz, preocupado ou irritado. Naquela noite, porém, existia um peso silencioso que ele parecia fazer questão de esconder.
Toquei sua mão.
— Você está estranho.
Ele soltou um longo suspiro antes de se sentar ao meu lado na cama.
— Foi um dia difícil, Nessie.
Não insisti imediatamente. Esperei que continuasse.
Jacob apoiou os cotovelos sobre os joelhos e ficou alguns segundos olhando para o chão.
— Mesmo sem saber se aquele bebê era realmente meu... eu não consigo fingir que isso não me abalou.
Sua sinceridade me desarmou.
Ele nunca havia escondido de mim a possibilidade de ser o pai daquela criança. Também nunca tentou diminuir a dor de Lucy. Naquele momento, enxerguei apenas um homem sofrendo pela perda de uma vida que talvez tivesse carregado seu sobrenome.
Segurei sua mão com mais força.
— Eu entendo.
Jacob voltou-se para mim e seus olhos encontraram os meus.
— Obrigado.
Não havia mais nada que precisasse ser dito.
Ele se levantou, puxou o cobertor sobre a cama e fez um gesto para que eu me deitasse. Assim que me acomodei, deitou-se ao meu lado e me trouxe para perto, fazendo com que minha cabeça repousasse sobre seu peito. Passei um braço ao redor de sua cintura enquanto ele acariciava meus cabelos lentamente, num movimento repetitivo que sempre conseguia me acalmar.
Ficamos assim por vários minutos, sem conversar. Eu ouvia apenas as batidas do coração dele e sentia seus dedos deslizando pelos meus cabelos com a mesma delicadeza de todas as noites. Pela primeira vez desde o acidente, consegui fechar os olhos sem reviver a queda de Lucy.
Naquele instante, o único lugar onde eu queria estar era ali, protegida nos braços do homem que eu amava, sem imaginar que aquela paz duraria muito menos do que nós dois desejávamos.
Não sei quanto tempo consegui dormir. A noite havia sido pesada demais para que meu corpo encontrasse um descanso verdadeiro. Despertei assustada ao ouvir vozes alteradas vindas do andar de baixo. Por alguns instantes permaneci imóvel, tentando compreender o que estava acontecendo. Estendi a mão procurando Jacob ao meu lado, mas encontrei apenas o lençol frio.
Sentei-me na cama imediatamente.
As vozes voltaram, agora ainda mais altas. Coloquei o robe sobre a camisola e caminhei até a porta do quarto. À medida que me aproximava da escada, reconheci Sarah discutindo com alguém. Logo depois ouvi Jacob falar num tom firme, completamente diferente daquele homem silencioso que havia se deitado ao meu lado poucas horas antes.
Desci os primeiros degraus segurando o corrimão.
A sala estava tomada pela tensão.
Sue encontrava-se diante de Jacob, visivelmente transtornada. Leah tentava convencê-la a ir embora, segurando seu braço a todo instante, enquanto Sarah permanecia entre ela e o restante da família. Billy observava tudo da cadeira de rodas, sem desviar os olhos de ninguém.
— Você precisa sair da minha casa, Sue. — Jacob falava com firmeza, mas ainda procurava manter o controle. — Não vou permitir esse tipo de situação aqui.
— Eu só saio depois que essa menina olhar na minha cara!
Foi nesse instante que terminei de descer a escada.
O olhar de Sue encontrou o meu imediatamente.
Ela apontou na minha direção.
— Está aí!
Todos se voltaram para mim.
Senti um aperto estranho no peito.
— Sue... o que está acontecendo?
Ela deu um passo à frente, tomada pela revolta.
— Minha filha acordou!
Olhei para Jacob sem entender.
Ele permaneceu em silêncio.
Foi naquele silêncio que comecei a sentir medo.
Sue continuou.
— A Lucy contou exatamente o que aconteceu naquela escada.
Meu coração disparou.
Voltei a olhar para Jacob.
Ele abaixou os olhos por um breve instante.
Foi suficiente para eu perceber que ele já sabia.
Uma sensação gelada percorreu meu corpo inteiro.
— Jacob...
Minha voz saiu quase num sussurro. Ele voltou a me olhar, mas havia uma tristeza profunda em seus olhos.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Sue voltou a falar.
— A Lucy disse que vocês discutiram.
As palavras pareciam atravessar a sala lentamente.
— E disse que, quando virou para ir embora...
Ela respirou fundo.
— Você a empurrou.
Por alguns segundos fiquei completamente imóvel.
Olhei novamente para Jacob.
Depois para Billy.
Depois para Sarah.
Minha garganta secou.
— Não...
Foi a única palavra que consegui dizer.
Balancei a cabeça repetidas vezes.
— Isso não...
Minha voz falhou.
— Isso não aconteceu.
As lágrimas começaram a cair antes mesmo que eu percebesse.
— Eu tentei segurá-la.
Olhei diretamente para Jacob.
— Jake... eu tentei...
Vi a dor no rosto dele.
Não era um olhar de acusação.
Era o olhar de um homem que ouvira duas versões completamente diferentes da mesma tragédia.
Billy quebrou o silêncio.
— Eu acredito nela.
Sua voz firme fez todos olharem para ele.
— Conheço a Renesmee desde que ela entrou nesta família.
Ele voltou-se para Sue.
— Ela jamais faria uma coisa dessas.
— Minha filha não mentiria sobre isso! — respondeu Sue imediatamente.
Billy manteve a serenidade.
— Também não acredito que ela esteja mentindo.
Sue franziu a testa.
— Então do que está falando?
— Estou dizendo que ela acabou de perder um filho. Passou por um trauma enorme. Antes de condenarmos alguém, precisamos descobrir exatamente o que aconteceu naquela escada.
A sala voltou ao silêncio.
Eu permanecia olhando apenas para Jacob.
Naquele instante compreendi por que ele havia chegado tão diferente do hospital.
Por que me abraçou por tanto tempo.
Por que quase não falou durante a noite.
Ele já sabia da acusação.
E escolhera não me contar.
Porque, por algumas horas, tentou me poupar da pior notícia que eu poderia receber.
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