O pai do meu bebê
72 Jacob
O fim da tarde costumava ser o horário mais movimentado dos estábulos. Os peões encerravam parte dos trabalhos do dia enquanto eu aproveitava para conferir os animais antes de voltar para a mansão. Naquela tarde, porém, tudo havia saído do normal.
Um dos cavalos mais novos havia se assustado durante o treinamento e prendido a pata entre duas tábuas da cerca. Quando conseguimos soltá-lo, o veterinário confirmou o que eu já temia.
— A fratura é séria.
Agachei-me ao lado do animal enquanto ele recebia a medicação para aliviar a dor. Passei a mão pelo pescoço do cavalo, tentando acalmá-lo, e depois olhei para o veterinário.
— Existe alguma chance de recuperação?
Ele permaneceu alguns segundos observando o raio-X portátil antes de responder.
— Existe, mas o tratamento será longo. Vamos precisar imobilizar a pata imediatamente e acompanhar a evolução nas próximas semanas. Se ele reagir bem, poderá voltar a caminhar normalmente.
Assenti em silêncio.
Ao meu lado, Sam acompanhava toda a avaliação enquanto dois peões terminavam de preparar a baia onde o animal permaneceria isolado durante a recuperação.
— É uma pena — comentou Sam. — Esse cavalo tinha um dos melhores desempenhos da geração.
— Continua tendo — respondi. — Só vai precisar de tempo.
O veterinário sorriu discretamente.
— Gosto de proprietários que não desistem dos animais na primeira dificuldade.
Olhei novamente para o cavalo.
— Eles trabalham por nós a vida inteira. O mínimo que podemos fazer é cuidar deles quando precisam.
Sam concordou com um movimento de cabeça.
— Vou pedir para os rapazes reforçarem a cerca onde isso aconteceu. Não quero outro acidente igual.
— Faça isso.
Enquanto conversávamos sobre os reparos que seriam necessários, ouvi passos rápidos vindo pelo corredor principal dos estábulos.
Margaret apareceu ofegante, claramente depois de correr uma distância que normalmente faria caminhando.
Assim que me viu, diminuiu o passo, tentando recuperar o fôlego.
— Patrão...
Franzi a testa imediatamente.
Ela nunca me procurava daquela maneira.
— Margaret, o que aconteceu?
Ela respirou fundo antes de responder.
— Houve... houve um acidente na mansão.
Meu coração disparou.
A primeira imagem que veio à minha cabeça foi Renesmee.
Dei um passo à frente sem conseguir esconder a preocupação.
— A Nessie?
Margaret balançou a cabeça rapidamente.
— A senhora Renesmee está bem.
O alívio durou menos de um segundo.
Porque ela continuou.
— Mas a senhorita Bree, não.
Senti um frio percorrer meu corpo.
— O que aconteceu?
A empregada ainda respirava com dificuldade.
— Eu... eu não vi tudo. Quando cheguei, ela já estava caída no pé da escada. A senhora Renesmee pediu que eu chamasse ajuda imediatamente.
Não esperei que ela terminasse.
Saí correndo em direção à caminhonete.
Sam veio logo atrás de mim.
— Jake!
Nem respondi.
Abri a porta do veículo e entrei.
Sam ocupou o banco do passageiro antes mesmo que eu ligasse o motor.
— Vai precisar de ajuda.
Assenti sem desviar os olhos da estrada.
Pisei fundo no acelerador e a caminhonete saiu levantando poeira pelo caminho de terra que ligava os estábulos à mansão.
Durante todo o trajeto, apenas uma pergunta se repetia na minha cabeça.
Como aquele acidente tinha acontecido justamente no único momento em que Renesmee havia ficado sozinha em casa?
Por mais que Margaret dissesse que ela estava bem, meu coração continuava acelerado. Eu precisava vê-la. Precisava ter certeza de que nem ela nem nosso filho haviam se machucado.
Quando a mansão finalmente surgiu entre as árvores, avistei funcionários reunidos na varanda e soube, antes mesmo de descer da caminhonete, que aquela tarde mudaria muito mais do que a rotina da fazenda.
A caminhonete mal parou diante da varanda e eu já havia saltado antes mesmo de desligar o motor. Atravessei a entrada da mansão quase correndo, com Sam logo atrás de mim. Os funcionários estavam reunidos próximos à porta, todos com a mesma expressão de preocupação. Assim que me viram, abriram passagem sem que eu precisasse pedir.
Meu primeiro pensamento continuava sendo Renesmee.
Assim que entrei na sala, procurei por ela instintivamente. Encontrei-a próxima à escada, completamente pálida. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar, e bastou me ver para que desse um passo na minha direção.
Segurei seu rosto entre as mãos antes de qualquer outra coisa.
— Você está bem?
Ela assentiu rapidamente, embora ainda estivesse tremendo.
— Estou.
Passei os olhos por seu corpo, procurando qualquer sinal de que tivesse se machucado.
— Sentiu alguma coisa..
— Sim estou bem.
Só depois de ouvir aquelas palavras consegui respirar de verdade.
Aproximei-a de mim por um instante, envolvendo-a em um abraço rápido. Senti seu corpo estremecer contra o meu e percebi que ela fazia um enorme esforço para não desabar naquele momento.
— Ela tropeçou... — murmurou com a voz embargada. — Eu tentei segurá-la, juro que tentei.
Olhei para Lucy estava caída ao pé da escada, completamente imóvel. A cena fez meu estômago se contrair.
Sam aproximou-se primeiro, ajoelhando-se ao lado dela com cuidado.
— Ela está respirando.
Abaixei-me ao lado dele.
— Lucy...
Não houve qualquer reação.
Seu rosto estava muito pálido e havia um pequeno ferimento próximo à testa provocado pelo impacto da queda. Mantive a calma o melhor que pude enquanto verificava sua respiração mais uma vez.
Nesse momento, uma das funcionárias aproximou-se.
— Patrão, já chamaram a ambulância.
Sam levantou o rosto para mim.
— É melhor leva-la imediatamente, a ambulância vai demorar a chegar até aqui.
Assenti.
Conhecia bem aquela realidade. A fazenda ficava distante do hospital mais próximo, e esperar poderia significar perder um tempo precioso.
Olhei novamente para Lucy.
Depois para Sam.
Não precisei dizer mais nada. Ele compreendeu imediatamente.
— Eu preparo a caminhonete.
Balancei a cabeça.
Com todo o cuidado possível, deslizei um braço por baixo de suas costas e outro sob suas pernas. Erguer um corpo desacordado exigia atenção para evitar qualquer movimento brusco, principalmente sem saber a extensão dos ferimentos.
Levantei-me devagar.
Lucy permaneceu completamente inconsciente.
Quando passei por Renesmee, ela segurou delicadamente meu braço.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Jake...
Parei por um instante.
— Eu juro que tentei impedir.
Olhei para ela.
Naquele momento não havia espaço para dúvidas ou acusações. Vi apenas o desespero estampado no rosto da mulher que eu amava.
Ela fechou os olhos por um breve instante, como se aquelas duas palavras fossem tudo de que precisava para continuar respirando.
— Fica aqui.
Ela assentiu, ainda segurando minha mão por alguns segundos antes de soltá-la.
Atravessei a varanda carregando Lucy nos braços e pedi que avisassem a familia dela, enquanto Sam já ligava o motor da caminhonete.
Assim que acomodei Lucy no banco traseiro, entrei no veículo e seguimos em alta velocidade pela estrada de terra. Enquanto a fazenda desaparecia pelo retrovisor, uma única preocupação ocupava meus pensamentos.
Eu precisava fazer Lucy chegar viva ao hospital.
Depois haveria tempo para entender como aquela tragédia tinha acontecido.
O hospital da pequena cidade nunca me pareceu tão silencioso. Depois que a equipe médica levou Lucy para o centro cirúrgico, fui orientado a permanecer do lado de fora. Passei a andar de um lado para o outro pelo corredor, incapaz de permanecer sentado por mais de alguns segundos. A imagem de Renesmee ajoelhada ao lado da escada, chorando e repetindo que havia tentado segurá-la, insistia em voltar à minha mente. Eu conhecia minha esposa e sabia que ela jamais machucaria alguém daquela forma, mas também não conseguia deixar de pensar na gravidade do acidente e em tudo o que poderia acontecer dali em diante.
Ouvi passos apressados se aproximando e levantei a cabeça.
Rebecca surgiu no fim do corredor ainda vestindo o jaleco do hospital onde trabalhava. O cabelo estava preso às pressas e sua respiração denunciava que ela havia atravessado praticamente o estacionamento correndo para chegar até ali.
— Jacob.
Ela aproximou-se imediatamente.
— Vim assim que recebi a ligação. Onde está a Lucy?
Apontei para a porta do centro cirúrgico.
— A equipe a levou há poucos minutos. Não me disseram muita coisa, apenas que precisavam agir rápido.
Rebecca assentiu, mantendo a serenidade que sempre demonstrava diante das situações mais difíceis.
— Vou falar com os médicos e entender exatamente o quadro dela.
Segurou meu braço por um instante antes de entrar.
— Enquanto isso, tente manter a calma.
Acompanhei Rebecca com o olhar até a porta se fechar novamente. Voltei a caminhar pelo corredor, mas a sensação de impotência só aumentava. Na fazenda eu sempre encontrava uma solução para os problemas. Quando um animal adoecia, quando uma máquina quebrava ou quando uma cerca precisava ser reconstruída, bastava agir. Ali era diferente. Restava apenas esperar.
Não demorou muito para que a porta principal do hospital se abrisse outra vez.
Sue entrou quase correndo, seguida por Leah. As duas tinham o rosto tomado pela preocupação, e bastou Sue me encontrar para caminhar diretamente na minha direção.
— Onde está a minha filha?
Sua voz estava trêmula, muito diferente daquela mulher que costumava enfrentar qualquer situação de cabeça erguida.
— Ela está sendo atendida — respondi. — Os médicos a levaram para a cirurgia assim que chegamos.
Sue levou a mão à boca numa tentativa de controlar o desespero.
— Ela estava consciente? Ela falou alguma coisa?
Balancei a cabeça.
— Não. Quando a encontrei, já estava desacordada.
Leah passou o braço pelos ombros da mãe, tentando sustentá-la.
— Ela vai ficar bem, mãe.
Sue não respondeu.
Permaneceu olhando fixamente para a porta do centro cirúrgico, como se esperasse vê-la se abrir a qualquer instante.
Os minutos seguintes pareceram intermináveis.
Ninguém dizia nada. O corredor era preenchido apenas pelo som distante dos equipamentos do hospital e pelos passos ocasionais de enfermeiros atravessando os corredores. Eu olhava para o relógio constantemente, mas os ponteiros pareciam quase parados.
Quando a porta finalmente se abriu, Rebecca saiu primeiro.
Bastou olhar para seu rosto para entender que as notícias não eram boas.
Sue levantou-se imediatamente.
— Como está a minha filha?
Rebecca retirou lentamente a máscara cirúrgica antes de responder.
— A Lucy sofreu um trauma importante por causa da queda. A equipe médica precisou levá-la para uma cirurgia de emergência.
Sue permaneceu imóvel, esperando que ela continuasse.
Rebecca respirou fundo.
— Nós fizemos tudo o que estava ao nosso alcance...
Sua voz ficou mais baixa.
— Mas infelizmente o bebê não resistiu.
Por alguns segundos ninguém se moveu.
As palavras pareciam incapazes de encontrar um lugar dentro daquela realidade.
Então Sue levou as duas mãos ao rosto.
O choro veio de forma incontida, como se toda a força que ela demonstrara até aquele momento simplesmente desaparecesse. Leah a abraçou imediatamente, segurando a mãe antes que suas pernas cedessem.
— Mãe... — disse entre lágrimas. — Vem cá...
Sue apoiou o rosto no ombro da filha e chorou sem qualquer tentativa de esconder a dor.
Ver aquela cena apertou meu peito de uma forma difícil de explicar. Independentemente de qualquer desentendimento entre nossas famílias, nenhuma mãe deveria passar pela perda de um neto daquela maneira.
Rebecca permaneceu em silêncio por alguns instantes, respeitando o luto daquela família. Depois voltou a falar com a mesma delicadeza.
— A cirurgia continua. Agora nossa prioridade é estabilizar a Lucy. Ela perdeu bastante sangue, mas os médicos estão fazendo tudo o que é necessário.
Assenti em silêncio.
Naquele momento, a única coisa que importava era que Lucy sobrevivesse.
Eu ainda não fazia ideia de que, quando ela despertasse, mudaria completamente o rumo da vida de todos nós.
As horas seguintes passaram lentamente. O movimento no corredor diminuía à medida que a noite avançava, mas ninguém parecia disposto a deixar o hospital. Sue permanecia sentada com o olhar perdido no chão, enquanto Leah se mantinha ao seu lado em silêncio, segurando sua mão. Eu caminhava de um lado para o outro sem conseguir permanecer parado por muito tempo. De vez em quando pegava o celular para olhar as horas ou relia alguma mensagem de Rachel dizendo que Renesmee estava em casa e que Rebecca havia pedido para ela descansar. Aquilo me trazia um pouco de alívio, mas não diminuía a angústia de esperar por notícias.
Já passava das nove da noite quando a porta do centro cirúrgico voltou a se abrir. Rebecca apareceu ao lado de um dos médicos responsáveis pelo atendimento. Assim que os vimos, todos nos levantamos ao mesmo tempo.
O médico retirou a touca cirúrgica e falou primeiro.
— A cirurgia foi um sucesso. Conseguimos controlar a hemorragia e a paciente está estável. Ela permanecerá em observação pelas próximas horas, mas, neste momento, não corre risco de vida.
Sue levou as mãos ao rosto e fechou os olhos por alguns segundos. Era evidente que a perda do neto continuava doendo, mas saber que a filha sobreviveria parecia aliviar uma parte daquele sofrimento.
— Eu posso vê-la? — perguntou, aproximando-se.
Rebecca lançou um olhar discreto para o médico antes de responder.
— Pode, mas preciso avisar uma coisa antes.
Sue franziu a testa.
— O quê?
Rebecca respirou fundo.
— A Lucy acordou há poucos minutos. Ela ainda está bastante debilitada, mas estava consciente o suficiente para conversar.
Fez uma pequena pausa.
— E ela pediu para falar com o Jacob.
O corredor ficou em silêncio.
Olhei para Sue sem saber o que dizer. Imaginei que ela reagiria mal, mas, para minha surpresa, apenas abaixou a cabeça.
— Vá — disse ela, com a voz cansada. — Depois eu entro.
Assenti discretamente.
Rebecca fez um gesto para que eu a acompanhasse, e seguimos pelo corredor ao lado do médico até o quarto onde Lucy havia sido internada.
Antes de abrir a porta, Rebecca voltou-se para mim.
— Ela ainda está sob efeito da medicação. Converse com calma e não a deixe se alterar.
Concordei com um movimento de cabeça.
Respirei fundo e entrei.
O quarto estava iluminado apenas pelas luzes mais fracas. O monitor cardíaco emitia um som ritmado, quebrando o silêncio do ambiente. Lucy estava deitada na cama, muito pálida. Havia olheiras profundas sob seus olhos, e o semblante abatido fazia parecer que ela havia envelhecido anos em poucas horas.
Quando me viu, tentou esboçar um sorriso, mas desistiu antes mesmo de conseguir.
Aproximei-me da cama.
— Como está se sentindo?
Ela desviou o olhar para o teto.
— Vazia.
Sua resposta saiu quase num sussurro.
Permaneci em silêncio.
Não havia palavras capazes de diminuir uma dor daquela dimensão.
Lucy levou lentamente a mão ao próprio ventre e as lágrimas começaram a escorrer.
— Eu queria muito esse bebê, Jacob.
Sua voz falhou.
— Muito.
Baixei os olhos por alguns segundos antes de responder.
— Eu sinto muito, Lucy.
Ela continuou chorando em silêncio.
— Independentemente de qualquer coisa... — continuei com calma. — Mesmo sem termos certeza sobre a paternidade, eu jamais desejaria que isso acontecesse.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Eu sei.
O quarto voltou ao silêncio.
Achei que aquela conversa terminaria ali, mas Lucy voltou a falar.
— A Renesmee não podia ter feito isso.
Levantei a cabeça imediatamente.
— O quê?
Ela abriu os olhos devagar e me encarou.
Havia dor neles.
Mas também havia convicção.
— Ela me empurrou.
Senti meu corpo inteiro enrijecer.
— Lucy...
Ela respirou com dificuldade.
— Nós discutimos na escada. Eu disse que, se o bebê fosse seu, continuaria fazendo parte da sua vida.
Fez uma pausa para recuperar o fôlego.
— Ela ficou nervosa.
Balancei a cabeça quase por instinto.
— Do que você está falando?
Lucy segurou minha mão com a pouca força que ainda tinha.
— Eu estava indo embora.
Sua voz saiu entrecortada.
— Quando passei por ela... ela me empurrou.
As palavras ecoaram no quarto.
Fiquei completamente imóvel.
Na minha lembrança, Renesmee chorava desesperada ao lado da escada, repetindo que havia tentado segurá-la.
Agora, diante de mim, Lucy afirmava exatamente o contrário.
Olhei para ela sem conseguir responder.
Pela primeira vez naquele dia, senti que a tragédia não havia terminado na queda daquela escada.
Ela apenas começava.
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