Por Renesmee


As aulas daquela manhã tinham sido longas, mas, pela primeira vez em dias, eu me sentia um pouco mais leve. Talvez por causa das rosas que deixei sobre a cômoda, ou pela lembrança da voz de Jacob no telefone — calma, firme, diferente de tudo o que eu estava acostumada.

Quando o sinal tocou, guardei os livros na bolsa e encontrei Anna e Rafaela me esperando no corredor. As duas estavam, como sempre, conversando animadas e rindo de algo que provavelmente envolvia fofocas da turma.

— Finalmente! — disse Rafa, segurando meu braço. — Pensei que essa aula nunca fosse acabar.

— Jura? Eu achei até leve hoje — respondi, rindo. — Talvez porque eu não tenha dormido nas últimas duas horas da madrugada estudando igual vocês.

— Estudando? — Anna fez uma careta. — Eu chamo de tortura acadêmica.

Rimos juntas enquanto seguíamos pelos corredores, cercadas pelo som de passos e vozes de alunos.

— Então — começou Rafa, animada — vocês estão preparadas pro aniversário do vovô Carlisle?

Revirei os olhos, mas sorri. — Não acredito que já é essa semana.

— Pois é — disse Anna, empolgada. — Minha mãe chega amanhã de viagem pra ajudar na organização. Ela e o tio Jasper estavam em Nova York.

O rosto dela se iluminou ao falar da mãe, e eu sorri de volta. — Tô morrendo de saudade da tia Alice.

— Ela também de você — respondeu Anna, com carinho. — Vive perguntando quando vai te ver.

Rafa entrou na conversa, animada como sempre. — E a minha mãe já tá cuidando de tudo junto com a sua.

Soltei uma risada. — Então podemos esperar uma festa digna de realeza. Quando tia Alice e tia Rosalie se juntam, a coisa fica séria.

— Séria e cara — completou Rafa, fazendo todas nós rirmos. — Tenho certeza de que metade de Seattle vai estar lá.

— Aposto que sim — respondi, rindo. — Vovô vai amar, mesmo fingindo que não gosta dessas festas cheias de pompa.

— Claro — disse Anna. — Ele finge que não gosta, mas no fundo adora o show.

Seguimos rindo pelos corredores, o som leve das nossas vozes misturado ao burburinho dos outros estudantes. Foi um daqueles momentos raros em que tudo parecia normal outra vez — simples, fácil, confortável.

Até que a voz dela interrompeu o clima.

— Que coincidência te encontrar por aqui, Renesmee.

A risada morreu nos meus lábios. As três viramos ao mesmo tempo.

Victoria estava parada no meio do corredor, os cabelos ruivos soltos, os lábios curvados num sorriso debochado. Os olhos verdes brilhavam com algo entre ironia e provocação.

Anna e Rafa se entreolharam, tensas. Eu respirei fundo, tentando manter a calma.

— O que você quer, Victoria? — perguntei, a voz firme apesar do frio que subiu pelo estômago.

— Nada demais — respondeu ela, dando um passo à frente. — Só achei curioso você ainda ter coragem de aparecer por aqui depois do… showzinho da semana passada.

Anna deu um passo à frente, protetora. — Ela não vai falar com você, Victoria. Dá um tempo.

— Calma, prima — ela rebateu, com um sorriso venenoso. — Eu só queria cumprimentar a futura mamãe.

As palavras dela cortaram o ar como lâmina. O corredor pareceu silenciar por um instante.

Senti Rafa segurar meu braço, mas me mantive firme. — Cuida da sua vida, Victoria.

Ela sorriu, inclinando a cabeça. — Ah, mas a sua tá tão interessante ultimamente. Difícil ignorar.

Antes que eu pudesse responder, voz de Riley soou atrás de Victoria, firme e um pouco áspera.

— O que está acontecendo aqui?

Riley.

Meu coração deu um salto involuntário, mas logo se apertou quando o vi vindo em nossa direção, o uniforme do time pendendo no ombro, o cabelo ainda úmido do treino. Ele parecia tenso — mais do que eu lembrava.

Victoria se virou, surpresa, e tentou disfarçar o desconforto com um sorriso forçado. — Riley, amor, eu só estava conversando com a Renesmee.

— Conversando? — ele perguntou, cruzando os braços. — Porque o que parece é que você tava provocando.

Ela deu um passo em direção a ele. — Eu só disse a verdade. Você sabe que ela—

— Victoria, chega — cortou ele, num tom calmo, mas firme o bastante pra fazê-la parar. — Deixa ela em paz.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Anna e Rafaela se entreolharam, visivelmente incomodadas.

Victoria, com o rosto endurecido, soltou um riso curto, sem humor. — Certo. Fico feliz em ver que você já escolheu de que lado quer ficar.

— Não tem lado nenhum — respondeu ele, sem encará-la.

Ela bufou e se afastou, os saltos ecoando pelo corredor. Quando passou por mim, lançou um último olhar venenoso. — Boa sorte com o drama, mamãe.

Senti Anna ficar rígida ao meu lado, mas segurei o braço dela antes que dissesse qualquer coisa. Victoria desapareceu no fim do corredor, e por um momento, o ar pareceu voltar aos meus pulmões.

— Vamos, Nessie — disse Anna, ainda irritada. — Já chega de confusão por hoje.

Rafa concordou e segurou minha bolsa, pronta pra me arrastar dali.

Mas então Riley falou, a voz mais baixa, quase implorando. — Renesmee, espera.

Eu me virei, cansada, sem vontade de reabrir feridas. — Acho que não tem mais nada pra falar, Riley.

Ele deu um passo à frente, o olhar sincero e abatido. — Por favor. Eu sei que errei, e você não me deve nada. Mas eu preciso conversar com você. Só mais uma vez.

Anna olhou pra mim, hesitante, mas eu não consegui responder. Parte de mim queria ir embora e esquecer que ele existia; outra parte ainda tentava entender em que momento tudo desabou entre nós.

— Eu prometo — disse ele, dando mais um passo — que não vou mais te incomodar depois disso. Só me escuta, uma última vez.

O tom dele era tão contido, tão diferente do Riley que eu conhecia, que acabei cedendo. Suspirei, sentindo o peito apertar.

— Tudo bem — murmurei. — Cinco minutos.

Anna me olhou preocupada, mas eu apenas balancei a cabeça. — Vai ficar tudo bem.

Ela relutou, mas puxou Rafaela pelo braço e se afastou, me deixando sozinha com ele.

Riley respirou fundo, como se também não soubesse por onde começar.

E eu fiquei ali, parada, esperando por algo que talvez não tivesse conserto.


Saímos do corredor em silêncio, e cada passo parecia mais pesado que o anterior. O som das conversas dos outros alunos se misturava ao barulho do meu coração acelerado. Riley caminhava ao meu lado, as mãos nos bolsos, o olhar baixo. Fomos até uma área mais reservada do campus, perto do jardim, onde quase ninguém passava naquele horário.

O vento soprava leve, carregando o cheiro das flores. Eu fiquei parada, de braços cruzados, tentando me preparar para o que quer que ele tivesse pra dizer.

Riley respirou fundo e começou:

— Eu… — ele hesitou, a voz falhando por um instante. — Eu preciso te pedir desculpas, Nessie. Pelo que eu disse, pelo jeito que eu te tratei.

Cruzei os braços com mais força, tentando manter a calma.

— Você não só me tratou mal, Riley. Você virou as costas pra mim no pior momento da minha vida.

Ele assentiu devagar, com os olhos marejados. — Eu sei. Eu fui um idiota. Quando fiquei sabendo da gravidez, entrei em pânico. Achei que... não sei, que tudo tinha acabado, que isso atrapalharia a minha vida.

— E eu? — perguntei, a voz saindo trêmula. — Você acha que eu não tava apavorada também? Que eu não precisei de você?

Ele passou as mãos pelo cabelo, frustrado. — Eu sei, eu sei. E é por isso que eu tô aqui agora. Eu me arrependi de tudo o que disse. De ter te deixado sozinha. Eu… — fez uma pausa e me olhou, com aquele olhar que um dia me fazia derreter. — Eu ainda te amo, Renesmee.

Fechei os olhos por um segundo, lutando contra a vontade de chorar. As palavras dele me acertaram como uma lembrança distante, de um amor que tinha sido bonito, mas agora doía só de existir.

— Não, Riley — falei, dando um passo atrás quando ele tentou tocar na minha mão. — Não faz isso.

Ele franziu o cenho. — Eu só quero te mostrar que—

— Não adianta — interrompi, a voz firme agora. — O que existia entre a gente, você mesmo quebrou. E algumas coisas, quando quebram, não têm conserto.

Riley engoliu em seco, os olhos brilhando. — Eu errei, mas eu ainda te amo.

Olhei pra ele, sentindo o nó na garganta apertar. — Eu também te amo, Riley. De verdade. Mas… — dei um passo atrás, respirando fundo — eu não gosto mais de você.

Ele ficou em silêncio, como se não soubesse o que fazer com aquelas palavras. O vento bagunçou o cabelo dele, e eu percebi que, apesar de tudo, parte de mim ainda lamentava pelo garoto que eu pensei que ele fosse.

— Adeus, Riley. — disse, e me virei antes que as lágrimas caíssem.

Caminhei pelo jardim sem olhar pra trás.

A cada passo, a dor parecia mais real — mas, pela primeira vez em muito tempo, também vinha misturada com algo novo.

Força.

Eu finalmente estava escolhendo a mim mesma.