O pai do meu bebê
35 Jacob
Por Jacob
A manhã em Seattle começou cinza, como quase todas. O som distante da chuva batendo na janela e o cheiro de café fresco me tiraram da inércia. Eu estava sentado à mesa da cozinha, com o notebook aberto, mas a tela estava parada há mais de dez minutos — meu pensamento longe, inevitavelmente voltando pra ela.
Renesmee.
Peguei o celular e respirei fundo antes de discar o número da Rebecca. Ela atendeu no terceiro toque, com a voz animada de quem já estava há horas no hospital.
— Jacob Black, o homem que só me liga quando precisa. Que honra! — disse ela, num tom divertido.
Sorri de leve. — Bom dia pra você também, doutora Finau.
— Já percebi que você quer alguma coisa. Então, fala logo — ela provocou. — É sobre o processo? A Heidi aprontou de novo?
— Não, não é sobre isso — respondi, girando a caneca de café nas mãos. — Eu preciso do número da Renesmee Cullen.
O silêncio do outro lado durou alguns segundos. Depois, veio o tom debochado que eu conhecia bem. — O número da Renesmee?
— Isso mesmo. — Mantive a voz neutra, mas já sabia o que estava por vir.
Rebecca riu, divertida. — Que coincidência, né? Justo a moça que carrega o seu filho.
— Não começa, Rebecca.
— Só tô dizendo — continuou, provocando. — É impressionante como você fica todo responsável quando fala dela. “Preciso conversar com a mãe do meu filho”, “preciso resolver tudo da forma certa”. Sei. Tá parecendo outra coisa.
Suspirei, passando a mão no rosto. — Eu só quero conversar com ela, esclarecer algumas coisas. E não é do seu interesse quais.
— Ah, claro. Profissional e distante — disse Rebecca, rindo. — Você é péssimo pra disfarçar, Jake.
— Rebecca…
— Tá bom, tá bom — ela cedeu, ainda rindo. — Vou te mandar o número dela por mensagem. Mas, por favor, tenta não assustar a menina. Ela já tem um pai protetor demais pra lidar.
— Eu prometo me comportar.
— Duvidei. — A risada dela foi a última coisa que ouvi antes da ligação cair.
Deixei o celular sobre a mesa e tomei um gole do café, que já começava a esfriar.
Por um instante, fiquei ali, em silêncio, observando o vapor subir da caneca.
A imagem de Renesmee me veio à cabeça sem esforço — os olhos marejados, a voz embargada quando contou sobre o ex-noivo, a maneira como tentou disfarçar a dor com um sorriso frágil.
Lembrei da sensação estranha de tê-la nos meus braços, chorando, e de como, sem pensar, prometi que tudo ficaria bem.
Um gesto simples, mas que mexeu comigo mais do que eu gostaria de admitir.
Balancei a cabeça, meio rindo de mim mesmo.
— Você tá ficando mole, Black. — murmurei, levando a caneca de volta aos lábios.
Mas, no fundo, eu sabia.
O que eu sentia não era fraqueza.
Era o início de algo que eu não conseguia mais ignorar.
A manhã em Seattle começou como tantas outras — céu pesado, cheiro de chuva e o som constante de motores ecoando pelas avenidas molhadas. Ainda assim, algo em mim parecia diferente. Havia uma energia, uma pressa que eu não sabia explicar. Talvez fosse o café forte demais, ou talvez fosse o fato de que, em poucas horas, eu a veria de novo.
Estacionei a caminhonete em frente ao Rainier Tower, um dos prédios mais imponentes da cidade. Alto, moderno e cercado por vidro e concreto. Um lugar que parecia feito para negócios sérios — exatamente o que eu precisava.
Assim que entrei, fui recebido por um corretor baixinho, terno impecável e um sorriso que parecia treinado em frente ao espelho.
— Senhor Black! — ele disse, apertando minha mão com entusiasmo. — Que bom vê-lo novamente. O senhor vai adorar o espaço.
— Espero que sim — respondi, com um leve aceno.
Subimos juntos até o vigésimo sétimo andar. Quando a porta da sala se abriu, a vista me pegou de surpresa — o mar ao fundo, os prédios refletindo a luz cinzenta da manhã, e lá embaixo, o caos organizado de Seattle.
— É… — murmurei, caminhando até a janela. — É um bom lugar.
O corretor quase esfregava as mãos de empolgação.
— Vista para a baía de Elliot, metragem ampla, localização estratégica. O senhor escolheu um imóvel excelente, senhor Black.
Fiquei em silêncio por um momento, observando o movimento lá fora. A cidade pulsava de vida — e, de certa forma, eu queria que uma parte minha pulsasse ali também.
— Quero ficar com ela — disse enfim.
— Maravilha! — O corretor parecia quase aliviado. — A Black’s Ranch Holdings vai expandir pra Seattle?
Assenti. — Parte dela. Quero trazer a parte administrativa pra cá. É mais fácil lidar com contratos e investidores estando perto dos escritórios.
— Entendo, senhor Black. — Ele anotou algo numa prancheta. — Posso preparar toda a papelada hoje mesmo.
Olhei para o relógio. Já estava perto do horário que eu havia combinado de buscar Renesmee na faculdade. Um pequeno nervosismo começou a crescer dentro de mim — algo que eu fingia não entender.
— Faça isso — disse, pegando o celular. — Envie tudo para o meu advogado, Alec Volturi. Ele vai cuidar do resto.
— Perfeito. — O corretor me acompanhou até o elevador, animado. — O senhor tem um ótimo olho pra negócios.
Dei um sorriso breve. — Eu só gosto de manter tudo sob controle.
Quando as portas se fecharam, fiquei encarando meu reflexo no aço espelhado. A barba por fazer, o olhar cansado… e, ainda assim, uma centelha ali — algo novo, incômodo.
Eu sabia o que era.
Tentei afastar o pensamento, mas a imagem dela me veio à cabeça de novo — os olhos marejados, as mãos pequenas segurando o lenço, o jeito frágil com que tentou sorrir no parque.
Suspirei.
Assim que o elevador chegou ao térreo, caminhei decidido até o estacionamento. Entrei na caminhonete, liguei o motor e olhei o relógio mais uma vez.
Seattle inteira parecia me atrasar naquele instante.
Mas eu não ia me atrasar pra vê-la.
Girei a chave, e o som do motor preencheu o silêncio.
— Vamos lá, Black — murmurei. — Hora de buscar a senhorita Cullen.
E parti, sentindo o coração bater mais rápido do que o motor sob o capô.
O campus estava cheio quando estacionei a caminhonete. Jovens iam e vinham entre os prédios modernos, alguns rindo alto, outros apressados, equilibrando livros e copos de café. O tipo de energia que me fazia lembrar o quanto minha vida já estava longe dessa fase — mais responsabilidade, menos leveza.
Saí do carro ajeitando a jaqueta e senti alguns olhares femininos se voltarem. Duas garotas que passavam cochicharam algo e riram, tentando disfarçar, mas não consegui evitar o sorriso curto que escapou. Era engraçado. Eu já estava acostumado com atenção, mas naquele dia, minha cabeça só tinha espaço pra uma pessoa.
E então, como se o pensamento tivesse força própria, a vi.
Renesmee.
Ela vinha caminhando em minha direção, com o cabelo ruivo balançando ao vento e aquele jeito doce, meio distraído, que parecia involuntariamente encantador. Mas bastou olhar mais de perto pra notar — os olhos estavam inchados, o rosto ainda marcado por algo recente. Choro.
Ao lado dela vinham duas jovens que eu ainda não conhecia — as primas, imaginei. As três se aproximaram, e quando pararam diante de mim, Renesmee forçou um pequeno sorriso.
— Oi, Jacob.
— Oi — respondi, analisando seu rosto por um instante. — Tá tudo bem?
Ela hesitou, como se pesasse as palavras. — Tá, sim… só um dia longo.
Não acreditei, mas não insisti. Eu podia ver que não estava tudo bem, mas ela tinha esse jeito de esconder a dor atrás de uma postura calma.
Renesmee respirou fundo e se virou para as primas. — Essa é minha prima Anna, e essa é a Rafaela. Meninas, esse é o Jacob Black.
Anna me olhou de cima a baixo, com os olhos brilhando de curiosidade. Rafa deu um sorriso mais discreto, como quem tentava medir o clima.
E então Anna, sem nem pensar duas vezes, disparou:
— Pera… o pai do seu bebê é o bonito que quase te atropelou?
Renesmee ficou completamente corada. — Anna! — exclamou, a voz mais alta que o habitual.
Rafaela levou a mão à testa, sem conter o riso. — Ai, meu Deus, Anna… você não tem filtro, garota.
Eu não consegui evitar um sorriso — metade divertido, metade constrangido. — Então… acho que já fui apresentado oficialmente, né?
Renesmee cruzou os braços, olhando pra prima como quem prometia vingança. — Eu juro que ainda vou te matar por isso.
Anna deu de ombros, rindo. — O que foi? Só falei o óbvio.
Rafa suspirou. — Ignora, Nessie. Ela é assim desde sempre.
Renesmee balançou a cabeça, sem conseguir esconder o sorriso tímido que escapou. — Desculpa, Jacob. Minhas primas não têm freio na língua.
— Tudo bem — respondi, rindo baixo. — Já lidei com piores.
Os olhos dela se encontraram com os meus por um instante, e por um momento o barulho do campus pareceu sumir. Havia um brilho ali — algo frágil, mas verdadeiro.
Ela desviou o olhar primeiro. — Acho que a gente pode ir.
— Claro — falei, abrindo a porta do carro pra ela.
Enquanto ela entrava, ouvi Anna cochichar pra Rafa:
— Ele é ainda mais bonito de perto.
E as duas caíram na risada.
Renesmee me lançou um olhar de aviso. — Ignora.
Eu apenas sorri, tentando esconder o quanto aquela cena simples — tão humana, tão cotidiana — me acertava por dentro.
Fale com o autor