O pai do meu bebê
20 Renesmee
Eu não me lembrava exatamente de como havia saído da faculdade.
As vozes, os olhares, a dor no peito… tudo se misturou em um turbilhão confuso.
Quando percebi, já estava caminhando sem rumo pelas ruas de Seattle, tentando controlar o choro que insistia em escapar.
Acabei parando em uma pequena praça próxima ao centro — uma daquelas escondidas entre prédios altos e cafés movimentados.
Sentei-me num banco de madeira, debaixo de uma árvore coberta de folhas amarelas, e respirei fundo.
O vento frio batia no rosto, e o barulho distante do trânsito parecia vir de outro mundo.
Peguei o celular.
A tela mostrava uma sequência infinita de chamadas não atendidas — Mamãe, Papai, Antony, Anna, Rafaela.
As mensagens também estavam lá, uma após a outra:
"Onde você está?"
"Por favor, atenda."
"Estamos preocupados."
Fechei os olhos, apertando o aparelho nas mãos.
Eu não tinha forças pra ouvir ninguém.
Não naquele momento.
Olhei ao redor.
Um grupo de crianças brincava na grama, correndo umas atrás das outras, rindo alto.
Uma menininha de cabelos cacheados parou por um instante, olhando para mim.
Ela segurava uma boneca, e quando o vento soprou, colocou a mãozinha sobre a própria barriga e riu.
Por um instante, senti o ar faltar.
Meu olhar desceu para minhas próprias mãos, depois para o corpo que ainda não mostrava sinal algum do que estava crescendo ali.
A realidade me atingiu com força.
Havia uma vida dentro de mim.
E eu não fazia ideia do que fazer com isso.
As lágrimas voltaram, silenciosas.
— O que eu faço? — sussurrei, sem esperar resposta.
Minha voz se perdeu no vento, e o vazio dentro de mim pareceu ecoar a pergunta de volta.
O que eu faço?
Pensei no olhar de Riley.
Na decepção.
Na raiva.
Pensei no meu pai, nas palavras duras, no medo constante de perder o controle da minha própria vida.
E pensei naquela criança — um ser inocente, que nada tinha a ver com os erros dos adultos.
De repente, senti um calafrio.
O peso da responsabilidade, da solidão, do desconhecido.
Meu coração batia tão rápido que parecia querer fugir de mim.
Apertei as mãos sobre o colo e fechei os olhos, tentando encontrar dentro de mim alguma centelha de coragem.
Mas tudo o que encontrei foi silêncio.
Um silêncio que doía.
A chuva não parava desde que saí da praça.
As ruas de Seattle estavam cinzentas, as luzes dos carros refletindo no asfalto molhado, como se a cidade inteira chorasse comigo.
Dirigi quase no automático, sem perceber o tempo passar, até que a casa surgiu à frente, iluminada e silenciosa, como um refúgio que me esperava.
Estacionei o carro e fiquei alguns segundos olhando o volante, tentando reunir coragem para sair.
Quando finalmente abri a porta, o vento frio cortou meu rosto, e percebi o quanto estava encharcada. A água escorria pelos cabelos, colava o vestido ao corpo, e os sapatos faziam um som incômodo a cada passo.
A porta da frente se abriu antes mesmo que eu pudesse tocar a maçaneta.
Era minha mãe.
— Meu Deus, Nessie… — ela correu até mim, o olhar tomado de alívio e desespero. — Onde você estava?
Não consegui responder. Só deixei que ela me abraçasse.
O calor dos braços dela foi o bastante para que o que restava da minha força desmoronasse.
— Eu… — tentei falar, mas a voz falhou. — Eu tentei, mãe… mas ele não acredita em mim.
Minhas lágrimas se misturavam à água da chuva enquanto Bella me conduzia até o sofá.
Meu pai e Antony estavam ali, ambos com o mesmo olhar de preocupação.
O silêncio pesava, e o som da chuva batendo nas janelas parecia um lembrete do caos que eu trazia comigo.
Bella me fez sentar, ajeitando uma manta sobre meus ombros.
— Shh… calma, meu amor. — disse, passando a mão pelos meus cabelos molhados. — Tudo vai se resolver, você vai ver.
— Ele me olhou como se eu fosse uma mentirosa — sussurrei, o peito apertado. — Como se eu tivesse feito algo terrível.
Meu pai se aproximou, ajoelhando-se à minha frente.
O olhar dele, apesar da firmeza habitual, estava cheio de ternura.
— Riley está assustado, Renesmee. É muita coisa pra ele assimilar de uma vez. Mas ele vai compreender, eu prometo.
Balancei a cabeça, incapaz de acreditar.
— Eu não sei se vai, pai…
Antony apareceu com uma toalha e a colocou nas minhas mãos. Sentei-me direito, tentando me recompor, mas minhas mãos tremiam.
Meu irmão se abaixou ao meu lado, num gesto protetor.
— Ei, Nessie… respira, tá? — disse, com a voz calma. — Se continuar nervosa assim, vai acabar fazendo mal a você e ao bebê.
Olhei para ele e, pela primeira vez desde a confusão na faculdade, consegui respirar fundo.
A expressão dele era a mistura perfeita entre o médico que ele se tornara e o irmão que eu amava desde sempre.
Minha mãe acariciou meu rosto e sorriu, mesmo com os olhos marejados.
— Nós estamos aqui, querida. Você não está sozinha.
Fechei os olhos e me deixei afundar naquele abraço coletivo.
Meu pai, minha mãe, meu irmão.
Por um instante, mesmo com o mundo inteiro desmoronando lá fora, eu me senti segura.
E talvez fosse isso que eu mais precisava — um lembrete de que ainda havia amor suficiente para me manter de pé.
O som do monitor cardíaco foi a primeira coisa que ouvi quando abri os olhos.
Um bip constante, ritmado, como se alguém quisesse me lembrar de que eu ainda estava aqui.
A luz branca acima de mim era fria, e o cheiro do álcool hospitalar era forte demais para confundir.
Pisquei algumas vezes, tentando entender onde estava.
O teto, o soro, a poltrona ao lado… nada parecia familiar.
Meu coração acelerou.
— Mãe? — murmurei, com a voz fraca. — Onde eu estou?
A cortina ao lado se moveu, e então vi o rosto dela.
Bella sorriu aliviada, mas o cansaço estava estampado em cada traço do seu rosto.
— Calma, meu amor. Está tudo bem. — disse, vindo até mim e segurando minha mão. — Você está no hospital.
— O quê? — minha voz saiu em um sussurro. — O bebê… o bebê está bem?
Ela me acariciou o rosto com ternura.
— Está, sim. Vocês dois estão bem. Você desmaiou, lembra? Seu pai e seu irmão acharam melhor trazer você pra cá.
Tentei lembrar, mas tudo parecia embaçado.
A sala de estar, o som da chuva lá fora, o abraço da minha mãe… e depois o escuro.
— Eu só me lembro de estar na sala — murmurei, confusa.
Bella assentiu, os olhos marejados.
— Foi um susto, mas está tudo sob controle agora.
Suspirei, tentando relaxar. Mas então percebi o que ela ainda não havia dito.
O jeito como olhava pra mim, como se tivesse algo preso na garganta.
— O que foi, mãe? — perguntei, desconfiada.
Ela hesitou por um instante, depois inspirou fundo.
— O pai do bebê está aqui.
O ar pareceu sumir do quarto.
— O quê? — perguntei, sem acreditar no que tinha ouvido.
— Ele chegou há pouco. Está do lado de fora, com seu pai. — Bella falava baixo, como se cada palavra precisasse ser medida. — Está muito preocupado com você.
Senti o estômago revirar. Meu peito ficou apertado.
Apenas a ideia de vê-lo, de olhar nos olhos de um homem que eu não conhecia — e que, de alguma forma, carregava comigo a origem dessa criança — me deixou sem chão.
— Eu… não sei se consigo — sussurrei. — Não quero conhecê-lo assim.
Bella se sentou à beira da cama e segurou minhas mãos.
— Eu sei, querida. Mas talvez seja melhor enfrentá-lo agora. Ele não veio como um inimigo. Está tão perdido quanto você.
Fechei os olhos, respirando fundo.
O medo e a curiosidade se misturavam dentro de mim, como duas forças opostas.
Parte de mim queria fugir. A outra, entender.
Bella se levantou devagar.
— Eu vou chamá-lo, tudo bem?
Assenti, quase num sussurro.
— Tudo bem.
Ela me deu um beijo na testa e saiu.
O som da porta se fechando pareceu ecoar alto demais.
Olhei para as mãos, tentando controlar o tremor, e então ouvi os passos.
Fortes, seguros.
Cada batida no chão parecia acelerar o meu coração.
A porta se abriu.
E, quando olhei… meu corpo inteiro paralisou.
Era ele.
O homem do parque.
O desconhecido de olhar firme, que havia estendido a mão pra mim quando quase me atropelou.
Por um instante, não consegui respirar.
Ele também pareceu surpreso — os olhos castanhos se fixaram nos meus, e o silêncio entre nós foi quase palpável.
Apenas um pensamento ecoou dentro de mim, nítido e assustador:
O destino realmente tinha um senso de ironia cruel.
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