O som das cordas de um violão misturava-se ao burburinho das vozes e ao cheiro forte de cerveja e madeira velha.

O Coyote’s Bar ficava a alguns quilômetros da fazenda — pequeno, mas animado o suficiente para fazer Embry e Quil acreditarem que seria uma boa ideia me tirar de casa.

Eu, sinceramente, só tinha vindo porque eles insistiram.

Depois de passar o dia inteiro com o veterinário tentando salvar o Zeus, o último lugar que eu queria estar era num bar cheio de risadas e olhares curiosos.

Apertei o copo entre as mãos, observando a espuma da cerveja se dissolver lentamente.

— Eu ainda não acredito que você veio, cara — disse Embry, com aquele sorriso de quem sabia que tinha vencido uma batalha.

— Milagre — completou Quil, rindo. — Achei que o fazendeiro milionário aqui tinha esquecido o caminho pra diversão.

Revirei os olhos, mas não respondi.

— Só estou aqui porque o Zeus está estável — falei, tentando encerrar o assunto.

— E porque precisa de ar — Embry rebateu. — Faz dias que você anda calado, Jacob. Todo mundo na fazenda percebeu.

Tomei mais um gole e deixei o silêncio responder por mim.

Foi quando ouvi o riso.

Um som leve, conhecido.

Virei o rosto e a vi.

Lucy.

Ela entrou acompanhada de duas amigas, todas rindo alto, com aquele jeito espontâneo de quem sabia que chamava atenção.

Os cabelos escuros caíam sobre os ombros, e o vestido claro contrastava com o ambiente rústico do bar.

Embry me cutucou com o cotovelo.

— Olha só quem chegou, Jake… seu fandon.

Quil riu.

— Agora sim a noite promete.

Soltei um suspiro.

— Vocês dois são insuportáveis.

Mas eles continuaram rindo, se divertindo às minhas custas.

Lucy olhou em nossa direção e pareceu surpresa ao me ver.

Os olhos dela brilharam por um instante antes que ela dissesse algo às amigas e viesse até a nossa mesa.

— Jacob Black… — disse, com um sorriso encantado. — Não acredito que te encontrei aqui.

Embry levantou as mãos, fingindo rendição.

— É o nosso momento de sair de cena, Quil.

— Com certeza — respondeu o outro, levantando-se com um meio sorriso. — Boa sorte, campeão.

Revirei os olhos, mas não os impedi.

Eles foram embora rindo, deixando-me a sós com Lucy.

Ela se sentou à minha frente, ainda sorrindo.

— Parece que o destino esta a nosso favor.

— Talvez — respondi, sincero. — Normalmente não saio muito da fazenda.

Ela inclinou a cabeça, o olhar curioso.

— Embry e Quil te arrastaram?

— Como sempre. — bebi mais um gole. — Mas acho que eles só queriam me tirar um pouco do sério.

Lucy riu baixo.

— Bom… fico feliz que tenham conseguido.

Por alguns segundos, o silêncio se instalou entre nós. O bar estava cheio, mas parecia distante.

Ela brincava com o canudo do copo, enquanto eu a observava discretamente, tentando ignorar o peso das lembranças que vinham à mente — Rebecca, Heidi, o bebê, a confusão em Seattle.

Lucy então me encarou, séria.

— Posso te fazer uma pergunta, Jake?

Assenti, sem pensar.

— Pode.

— Por que você parece tão longe, mesmo estando aqui?

A pergunta me pegou de surpresa.

Sorri de leve, mas sem humor.

— Porque às vezes, Lucy, o corpo volta antes da cabeça.

Ela mordeu o lábio inferior, sem saber o que responder.

O silêncio voltou, mas dessa vez não era desconfortável.

Talvez porque, pela primeira vez em dias, eu simplesmente aceitei estar ali — só existindo, sem precisar consertar nada.


Perfeito, Suellen. Essa passagem marca um ponto importante na trajetória emocional de Jacob — o instante em que ele tenta fugir da própria dor e acaba se deixando levar por algo que mistura carência, culpa e confusão.

Lucy ficou me observando por alguns segundos, os olhos azuis fixos em mim, como se tentasse decifrar o que se passava por trás do meu silêncio.

Depois, soltou um meio sorriso e disse:

— Você precisa parar de pensar tanto, Jake. Só por uma noite… esquece os problemas.

— Isso nunca deu certo comigo — respondi, encostando o copo na mesa. — A cabeça não desliga fácil.

Ela inclinou-se para a frente, apoiando o queixo na mão.

— Então faz o corpo desligar.

Ri de leve, mas sem vontade.

— Você fala como se fosse simples.

— Não é — disse ela, séria dessa vez. — Mas ficar se afogando em culpa também não ajuda. Você vive preso às suas responsabilidades, ao que precisa fazer, e esquece que ainda é um homem.

Olhei para ela, sem saber o que responder.

Lucy sempre teve esse dom — o de me deixar sem palavras quando mais queria manter o controle.

— Eu não sei se é o momento, Lucy.

Ela deu um passo mais perto e segurou minha mão, firme.

— Então faz ser o momento. — sorriu. — Só hoje, Jake. Dança comigo.

Neguei com a cabeça.

— Você sabe que danço mal.

— Mentira. — ela provocou. — Nós dançamos no aniversário do seu pai. Não adianta fingir.

Soltei um suspiro resignado e sorri.

— Você não vai desistir, vai?

— Nunca. — respondeu, rindo. — Vem.

Antes que eu percebesse, ela já me puxava pela mão em direção ao pequeno espaço que chamavam de pista. A música era lenta, antiga, dessas que parecem nascer do coração de quem toca.

No início, fiquei tenso — o corpo travado, o olhar perdido em qualquer lugar que não fosse o dela.

Mas, aos poucos, fui cedendo.

A cada passo, a cada respiração sincronizada, o peso dos últimos dias parecia diminuir.

Por um instante, o mundo se calou.

Lucy ergueu o rosto e me olhou de perto, o sorriso tímido desaparecendo aos poucos.

— Jake… posso te perguntar uma coisa?

— Pode.

Ela hesitou, mordendo o lábio inferior.

— Por que você não sente nada por mim? — perguntou, com a voz baixa, mas firme. — Eu sou tão feia assim? Ou insignificante demais pra você olhar duas vezes?

Fiquei imóvel. A pergunta me atingiu como um soco.

— Lucy… não é isso. — comecei, sem saber por onde seguir. — Você é linda. E doce. E verdadeira.

Ela me encarou, com uma tristeza que doía de ver.

— Então por que não eu, Jake?

Engoli em seco.

— Porque eu estaria mentindo se dissesse que não te desejo… mas desejar não é o mesmo que sentir.

Lucy respirou fundo, e um brilho diferente surgiu nos olhos dela — metade dor, metade desafio.

— Então me prova.

— Lucy…

— Me prova, Jacob.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela se aproximou mais.

O perfume dela era suave, o olhar intenso.

E naquele momento, talvez pela primeira vez em semanas, eu parei de pensar.

Minhas mãos tocaram o rosto dela com cuidado, e então eu a beijei.

O bar, a música, o mundo inteiro desapareceram.

Era só o gosto da cerveja misturado ao dela, o som abafado da respiração e o calor do instante.

Um beijo longo, que começou com hesitação, mas terminou com entrega.




O ar frio da noite cortou o calor abafado do bar assim que saímos.

Lucy segurava firme a minha mão, os olhos brilhando sob a luz fraca dos postes.

— Vamos, Jake. — ela disse, rindo baixinho. — Você precisa de mais risadas e menos pensamentos.

Deixei que me puxasse até o carro.

Embry e Quil ainda ficaram no bar, e por um momento pensei em voltar, mas ela já havia aberto a porta do passageiro e olhava pra mim com aquele sorriso de quem não aceitava um não.

Suspirei e entrei.

O som do motor preencheu o silêncio, e eu segui pela estrada de terra que cortava o povoado.

Lucy falava sem parar — histórias sobre os peões da fazenda, fofocas da vila, lembranças da infância com Leah e Claire.

E, apesar de tudo, eu ri.

De verdade.

— Eu juro, Jake, o Paul caiu no lago porque achou que dava pra pular de uma pedra pra outra! — ela dizia, gesticulando tanto que precisei segurar o volante pra não rir demais. — E o pior é que ele tentou culpar o cachorro!

Balancei a cabeça, rindo.

— Paul e suas ideias geniais. Nada muda.

O riso dela encheu o carro, leve, quase contagiante.

Por alguns minutos, o peso dos últimos dias pareceu distante — o hospital, Renesmee, o bebê, tudo.

Só havia aquela estrada escura e o som suave da voz de Lucy.

Quando parei em frente à casa dela, o silêncio retornou.

A varanda estava parcialmente iluminada, e o vento fazia as cortinas se moverem pelas janelas abertas.

Lucy me olhou por alguns segundos antes de falar:

— Não quer entrar?

Respirei fundo.

— Acho que não é uma boa ideia. A gente bebeu… e eu não quero fazer nada que vá te magoar.

Ela inclinou o rosto, o sorriso ainda nos lábios.

— Você acha mesmo que eu não sei o que quero, Jake?

Desviei o olhar, apertando o volante.

— Lucy… não é tão simples.

Ela se aproximou, o perfume leve preenchendo o ar entre nós.

— Não é simples porque você complica. — sussurrou. — Só por uma noite, deixa o mundo lá fora.

Fiquei quieto por um instante, encarando a escuridão do lado de fora.

Parte de mim queria ir embora.

A outra… só queria sentir um pouco de paz, mesmo que fosse falsa.

Cedi.

Desliguei o motor e a segui até a varanda.

O som dos nossos passos no assoalho de madeira ecoava como um segredo.

Assim que entramos, ela se virou, aproximando-se devagar.

Os olhos dela buscavam os meus, e quando nossas respirações se encontraram, o tempo pareceu parar.

Lucy encostou as mãos no meu rosto e me beijou.

Um beijo quente, decidido, que misturava desejo e carência.



O tempo parecia suspenso.

A chuva lá fora batia contra as janelas num ritmo constante, e o quarto estava mergulhado em uma penumbra suave. Lucy se aproximou de novo, o olhar cheio de algo que eu não conseguia definir — talvez desejo, talvez apenas solidão.

Por um instante, deixei que o toque dela me alcançasse.

Era calor humano. Era o silêncio de alguém que só queria ser visto.

Ela passou os braços ao redor do meu pescoço, e eu cedi, mais uma vez. O beijo veio carregado de tudo o que eu tentava enterrar: o medo, a culpa, o peso de uma vida que parecia me esmagar.

Mas antes que qualquer palavra pudesse nascer, o som cortante do celular quebrou o momento.

O toque insistente, fora de hora, me fez afastar de repente. O ar ainda parecia preso nos pulmões quando peguei o aparelho sobre a mesa.

Rebecca.

O coração disparou.

Era tarde demais para ser algo banal.

Atendi sem pensar.

— Rebecca?

A voz da minha irmã veio apressada, carregada de tensão.

— Jake, graças a Deus você atendeu.

— O que aconteceu? — perguntei, já sentando na beira da cama, o peito apertado.

— É sobre… ela. — Rebecca respirou fundo. — A moça, a mãe do bebê.

Por um segundo, não consegui responder.

Lucy me observava, confusa, tentando entender.

— O que tem ela? — minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.

— Ela passou mal, Jake. Está no hospital desde mais cedo. Eu acabei de sair de lá. Seu nome estava na ficha como responsável secundário. Achei que devia te avisar.

— Ela está bem? E o bebê?— perguntei, com a voz firme, embora a mão tremesse.

— Estável. Mas foi por pouco. Os médicos querem que ela fique em observação por causa da gravidez.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, apenas ouvindo a respiração acelerada da minha irmã do outro lado da linha.

— Certo — murmurei, por fim. — Eu vou pra Seattle agora.

— Jake… — Rebecca hesitou. — Vai com calma, por favor.

Desliguei antes que ela dissesse mais.

Lucy se aproximou, o lençol cobrindo parcialmente os ombros.

— O que foi?

Passei a mão pelo rosto, tentando recobrar o fôlego.

— Uma emergência, preciso ir.

Lucy me olhou em silêncio, o sorriso apagado, e algo em seu olhar dizia que ela entendia — que, a partir daquele momento, eu não estava mais ali.

Levantei-me, peguei a jaqueta pendurada na cadeira e fui em direção à porta.

— Jake… — ela chamou.

Parei por um segundo, mas não me virei.

— Desculpa, Lucy.

E saí, com a sensação de que o ar lá fora era mais frio do que nunca.