O pai do meu bebê
21 Jacob
O som das cordas de um violão misturava-se ao burburinho das vozes e ao cheiro forte de cerveja e madeira velha.
O Coyote’s Bar ficava a alguns quilômetros da fazenda — pequeno, mas animado o suficiente para fazer Embry e Quil acreditarem que seria uma boa ideia me tirar de casa.
Eu, sinceramente, só tinha vindo porque eles insistiram.
Depois de passar o dia inteiro com o veterinário tentando salvar o Zeus, o último lugar que eu queria estar era num bar cheio de risadas e olhares curiosos.
Apertei o copo entre as mãos, observando a espuma da cerveja se dissolver lentamente.
— Eu ainda não acredito que você veio, cara — disse Embry, com aquele sorriso de quem sabia que tinha vencido uma batalha.
— Milagre — completou Quil, rindo. — Achei que o fazendeiro milionário aqui tinha esquecido o caminho pra diversão.
Revirei os olhos, mas não respondi.
— Só estou aqui porque o Zeus está estável — falei, tentando encerrar o assunto.
— E porque precisa de ar — Embry rebateu. — Faz dias que você anda calado, Jacob. Todo mundo na fazenda percebeu.
Tomei mais um gole e deixei o silêncio responder por mim.
Foi quando ouvi o riso.
Um som leve, conhecido.
Virei o rosto e a vi.
Lucy.
Ela entrou acompanhada de duas amigas, todas rindo alto, com aquele jeito espontâneo de quem sabia que chamava atenção.
Os cabelos escuros caíam sobre os ombros, e o vestido claro contrastava com o ambiente rústico do bar.
Embry me cutucou com o cotovelo.
— Olha só quem chegou, Jake… seu fandon.
Quil riu.
— Agora sim a noite promete.
Soltei um suspiro.
— Vocês dois são insuportáveis.
Mas eles continuaram rindo, se divertindo às minhas custas.
Lucy olhou em nossa direção e pareceu surpresa ao me ver.
Os olhos dela brilharam por um instante antes que ela dissesse algo às amigas e viesse até a nossa mesa.
— Jacob Black… — disse, com um sorriso encantado. — Não acredito que te encontrei aqui.
Embry levantou as mãos, fingindo rendição.
— É o nosso momento de sair de cena, Quil.
— Com certeza — respondeu o outro, levantando-se com um meio sorriso. — Boa sorte, campeão.
Revirei os olhos, mas não os impedi.
Eles foram embora rindo, deixando-me a sós com Lucy.
Ela se sentou à minha frente, ainda sorrindo.
— Parece que o destino esta a nosso favor.
— Talvez — respondi, sincero. — Normalmente não saio muito da fazenda.
Ela inclinou a cabeça, o olhar curioso.
— Embry e Quil te arrastaram?
— Como sempre. — bebi mais um gole. — Mas acho que eles só queriam me tirar um pouco do sério.
Lucy riu baixo.
— Bom… fico feliz que tenham conseguido.
Por alguns segundos, o silêncio se instalou entre nós. O bar estava cheio, mas parecia distante.
Ela brincava com o canudo do copo, enquanto eu a observava discretamente, tentando ignorar o peso das lembranças que vinham à mente — Rebecca, Heidi, o bebê, a confusão em Seattle.
Lucy então me encarou, séria.
— Posso te fazer uma pergunta, Jake?
Assenti, sem pensar.
— Pode.
— Por que você parece tão longe, mesmo estando aqui?
A pergunta me pegou de surpresa.
Sorri de leve, mas sem humor.
— Porque às vezes, Lucy, o corpo volta antes da cabeça.
Ela mordeu o lábio inferior, sem saber o que responder.
O silêncio voltou, mas dessa vez não era desconfortável.
Talvez porque, pela primeira vez em dias, eu simplesmente aceitei estar ali — só existindo, sem precisar consertar nada.
Perfeito, Suellen. Essa passagem marca um ponto importante na trajetória emocional de Jacob — o instante em que ele tenta fugir da própria dor e acaba se deixando levar por algo que mistura carência, culpa e confusão.
Lucy ficou me observando por alguns segundos, os olhos azuis fixos em mim, como se tentasse decifrar o que se passava por trás do meu silêncio.
Depois, soltou um meio sorriso e disse:
— Você precisa parar de pensar tanto, Jake. Só por uma noite… esquece os problemas.
— Isso nunca deu certo comigo — respondi, encostando o copo na mesa. — A cabeça não desliga fácil.
Ela inclinou-se para a frente, apoiando o queixo na mão.
— Então faz o corpo desligar.
Ri de leve, mas sem vontade.
— Você fala como se fosse simples.
— Não é — disse ela, séria dessa vez. — Mas ficar se afogando em culpa também não ajuda. Você vive preso às suas responsabilidades, ao que precisa fazer, e esquece que ainda é um homem.
Olhei para ela, sem saber o que responder.
Lucy sempre teve esse dom — o de me deixar sem palavras quando mais queria manter o controle.
— Eu não sei se é o momento, Lucy.
Ela deu um passo mais perto e segurou minha mão, firme.
— Então faz ser o momento. — sorriu. — Só hoje, Jake. Dança comigo.
Neguei com a cabeça.
— Você sabe que danço mal.
— Mentira. — ela provocou. — Nós dançamos no aniversário do seu pai. Não adianta fingir.
Soltei um suspiro resignado e sorri.
— Você não vai desistir, vai?
— Nunca. — respondeu, rindo. — Vem.
Antes que eu percebesse, ela já me puxava pela mão em direção ao pequeno espaço que chamavam de pista. A música era lenta, antiga, dessas que parecem nascer do coração de quem toca.
No início, fiquei tenso — o corpo travado, o olhar perdido em qualquer lugar que não fosse o dela.
Mas, aos poucos, fui cedendo.
A cada passo, a cada respiração sincronizada, o peso dos últimos dias parecia diminuir.
Por um instante, o mundo se calou.
Lucy ergueu o rosto e me olhou de perto, o sorriso tímido desaparecendo aos poucos.
— Jake… posso te perguntar uma coisa?
— Pode.
Ela hesitou, mordendo o lábio inferior.
— Por que você não sente nada por mim? — perguntou, com a voz baixa, mas firme. — Eu sou tão feia assim? Ou insignificante demais pra você olhar duas vezes?
Fiquei imóvel. A pergunta me atingiu como um soco.
— Lucy… não é isso. — comecei, sem saber por onde seguir. — Você é linda. E doce. E verdadeira.
Ela me encarou, com uma tristeza que doía de ver.
— Então por que não eu, Jake?
Engoli em seco.
— Porque eu estaria mentindo se dissesse que não te desejo… mas desejar não é o mesmo que sentir.
Lucy respirou fundo, e um brilho diferente surgiu nos olhos dela — metade dor, metade desafio.
— Então me prova.
— Lucy…
— Me prova, Jacob.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela se aproximou mais.
O perfume dela era suave, o olhar intenso.
E naquele momento, talvez pela primeira vez em semanas, eu parei de pensar.
Minhas mãos tocaram o rosto dela com cuidado, e então eu a beijei.
O bar, a música, o mundo inteiro desapareceram.
Era só o gosto da cerveja misturado ao dela, o som abafado da respiração e o calor do instante.
Um beijo longo, que começou com hesitação, mas terminou com entrega.
O ar frio da noite cortou o calor abafado do bar assim que saímos.
Lucy segurava firme a minha mão, os olhos brilhando sob a luz fraca dos postes.
— Vamos, Jake. — ela disse, rindo baixinho. — Você precisa de mais risadas e menos pensamentos.
Deixei que me puxasse até o carro.
Embry e Quil ainda ficaram no bar, e por um momento pensei em voltar, mas ela já havia aberto a porta do passageiro e olhava pra mim com aquele sorriso de quem não aceitava um não.
Suspirei e entrei.
O som do motor preencheu o silêncio, e eu segui pela estrada de terra que cortava o povoado.
Lucy falava sem parar — histórias sobre os peões da fazenda, fofocas da vila, lembranças da infância com Leah e Claire.
E, apesar de tudo, eu ri.
De verdade.
— Eu juro, Jake, o Paul caiu no lago porque achou que dava pra pular de uma pedra pra outra! — ela dizia, gesticulando tanto que precisei segurar o volante pra não rir demais. — E o pior é que ele tentou culpar o cachorro!
Balancei a cabeça, rindo.
— Paul e suas ideias geniais. Nada muda.
O riso dela encheu o carro, leve, quase contagiante.
Por alguns minutos, o peso dos últimos dias pareceu distante — o hospital, Renesmee, o bebê, tudo.
Só havia aquela estrada escura e o som suave da voz de Lucy.
Quando parei em frente à casa dela, o silêncio retornou.
A varanda estava parcialmente iluminada, e o vento fazia as cortinas se moverem pelas janelas abertas.
Lucy me olhou por alguns segundos antes de falar:
— Não quer entrar?
Respirei fundo.
— Acho que não é uma boa ideia. A gente bebeu… e eu não quero fazer nada que vá te magoar.
Ela inclinou o rosto, o sorriso ainda nos lábios.
— Você acha mesmo que eu não sei o que quero, Jake?
Desviei o olhar, apertando o volante.
— Lucy… não é tão simples.
Ela se aproximou, o perfume leve preenchendo o ar entre nós.
— Não é simples porque você complica. — sussurrou. — Só por uma noite, deixa o mundo lá fora.
Fiquei quieto por um instante, encarando a escuridão do lado de fora.
Parte de mim queria ir embora.
A outra… só queria sentir um pouco de paz, mesmo que fosse falsa.
Cedi.
Desliguei o motor e a segui até a varanda.
O som dos nossos passos no assoalho de madeira ecoava como um segredo.
Assim que entramos, ela se virou, aproximando-se devagar.
Os olhos dela buscavam os meus, e quando nossas respirações se encontraram, o tempo pareceu parar.
Lucy encostou as mãos no meu rosto e me beijou.
Um beijo quente, decidido, que misturava desejo e carência.
O tempo parecia suspenso.
A chuva lá fora batia contra as janelas num ritmo constante, e o quarto estava mergulhado em uma penumbra suave. Lucy se aproximou de novo, o olhar cheio de algo que eu não conseguia definir — talvez desejo, talvez apenas solidão.
Por um instante, deixei que o toque dela me alcançasse.
Era calor humano. Era o silêncio de alguém que só queria ser visto.
Ela passou os braços ao redor do meu pescoço, e eu cedi, mais uma vez. O beijo veio carregado de tudo o que eu tentava enterrar: o medo, a culpa, o peso de uma vida que parecia me esmagar.
Mas antes que qualquer palavra pudesse nascer, o som cortante do celular quebrou o momento.
O toque insistente, fora de hora, me fez afastar de repente. O ar ainda parecia preso nos pulmões quando peguei o aparelho sobre a mesa.
Rebecca.
O coração disparou.
Era tarde demais para ser algo banal.
Atendi sem pensar.
— Rebecca?
A voz da minha irmã veio apressada, carregada de tensão.
— Jake, graças a Deus você atendeu.
— O que aconteceu? — perguntei, já sentando na beira da cama, o peito apertado.
— É sobre… ela. — Rebecca respirou fundo. — A moça, a mãe do bebê.
Por um segundo, não consegui responder.
Lucy me observava, confusa, tentando entender.
— O que tem ela? — minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
— Ela passou mal, Jake. Está no hospital desde mais cedo. Eu acabei de sair de lá. Seu nome estava na ficha como responsável secundário. Achei que devia te avisar.
— Ela está bem? E o bebê?— perguntei, com a voz firme, embora a mão tremesse.
— Estável. Mas foi por pouco. Os médicos querem que ela fique em observação por causa da gravidez.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, apenas ouvindo a respiração acelerada da minha irmã do outro lado da linha.
— Certo — murmurei, por fim. — Eu vou pra Seattle agora.
— Jake… — Rebecca hesitou. — Vai com calma, por favor.
Desliguei antes que ela dissesse mais.
Lucy se aproximou, o lençol cobrindo parcialmente os ombros.
— O que foi?
Passei a mão pelo rosto, tentando recobrar o fôlego.
— Uma emergência, preciso ir.
Lucy me olhou em silêncio, o sorriso apagado, e algo em seu olhar dizia que ela entendia — que, a partir daquele momento, eu não estava mais ali.
Levantei-me, peguei a jaqueta pendurada na cadeira e fui em direção à porta.
— Jake… — ela chamou.
Parei por um segundo, mas não me virei.
— Desculpa, Lucy.
E saí, com a sensação de que o ar lá fora era mais frio do que nunca.
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