O pai do meu bebê
12 Renesmee
O céu de Seattle estava encoberto quando cheguei à faculdade naquela manhã. A garoa fina deixava o ar frio e úmido, e o som ritmado dos meus passos ecoava pelo estacionamento quase vazio. Estacionei o carro e fiquei alguns segundos dentro dele, respirando fundo antes de enfrentar o dia. Ainda sentia o peso da conversa da noite anterior com meu pai, mas tentava me concentrar em coisas simples — a aula, os amigos, a rotina.
Caminhei pelo corredor principal da University of Washington, o cheiro de café recém-feito vindo da cantina, o barulho de risadas, os casacos molhados pendurados nos braços dos alunos. Tudo parecia normal, mas dentro de mim o mundo ainda girava devagar.
Foi então que o vi.
Riley estava alguns metros adiante, encostado em uma das colunas, conversando com Victoria Evans — a ruiva do curso de Física. Mesmo de longe, o brilho no olhar dela era evidente. Victoria nunca fez questão de esconder o interesse que tinha por ele, e embora eu confiasse em Riley, havia algo na forma como ela se aproximava que me incomodava.
Respirei fundo e endireitei a postura. Eu não queria parecer insegura.
Conforme me aproximei, percebi o riso leve de Victoria e o jeito inquieto de Riley, que passava a mão no cabelo e desviava o olhar para o chão, como quem não queria estar ali. A conversa parecia trivial, mas havia uma tensão no ar — sutil, porém inegável.
— Bom dia — falei, quando cheguei perto o bastante.
Riley virou-se rápido, como se tivesse sido pego de surpresa.
— Nessie! — disse, forçando um sorriso. — Eu… não sabia que você já tinha chegado.
— Acabei de estacionar. — Olhei para Victoria e tentei manter o tom cordial. — Oi, Victoria.
Ela sorriu, mas o olhar era calculado.
— Oi, Renesmee. Estava só conversando com o Riley sobre o campeonato universitário. Ele pode ganhar uma bolsa se o time for bem este semestre.
— Que ótimo — respondi, mantendo o sorriso. — Tenho certeza de que ele vai se sair muito bem.
Riley pigarreou, visivelmente desconfortável.
— A gente tava só trocando uma ideia rápida, nada demais.
— Imagino — falei, tentando soar leve. — Eu sei o quanto o basquete é importante pra você.
Victoria cruzou os braços, ainda sorrindo.
— Ele é talentoso, isso é inegável. O técnico fala que ele tem mais foco que qualquer outro jogador.
Senti o incômodo crescer no peito, mas me controlei.
— Sim, ele sempre teve determinação. — Toquei o braço de Riley de leve. — Por isso eu admiro tanto o que ele faz.
Ele me olhou por um segundo, como se pedisse desculpas por algo que eu ainda não compreendia.
— Eu preciso passar no ginásio antes da próxima aula — disse rápido, tentando encerrar o momento. — A gente se vê no intervalo?
Assenti, mesmo sem ter certeza se queria ficar sozinha depois daquilo.
— Claro, te encontro no refeitório.
Victoria ajeitou o cabelo e se despediu com um sorriso que mais parecia um desafio.
— Foi bom ver vocês. — E saiu, o salto fazendo eco no piso do corredor.
Ficamos apenas nós dois. Riley respirou fundo, e eu o observei em silêncio por alguns segundos.
— Ela parece gostar muito de você — comentei, tentando não soar amarga.
Ele passou a mão na nuca, nervoso.
— Ela é só amiga, Ness. Eu juro.
— Eu acredito — respondi, mesmo sem saber se acreditava de fato.
Riley me beijou na testa e sussurrou:
— Você é a única pessoa que eu quero.
Sorri, mas o nó no estômago não passou. E enquanto ele se afastava, eu me perguntei se o amor seria suficiente para segurar tudo o que estava prestes a acontecer.
A aula de Fisiologia Médica parecia se arrastar. As palavras da professora vinham em ondas distantes, e eu apenas fingia acompanhar as anotações no caderno. Minha cabeça estava longe, dividida entre o olhar de Riley mais cedo e o telefonema de Rebecca na noite anterior.
Quando o sinal soou, fechei o caderno e me preparei para sair. Foi então que vi Anna parada na porta, me observando com uma expressão indecifrável. Assim que nossos olhos se encontraram, ela fez um sinal discreto com a cabeça, pedindo que eu a seguisse.
— O que foi? — perguntei, tentando parecer tranquila.
Ela me levou até um canto mais vazio do corredor, perto das janelas, onde quase não passava ninguém. Cruzou os braços e soltou num tom direto, sem rodeios:
— Quando é que você ia me contar?
Franzi o cenho, sem entender.
— Contar o quê?
Anna suspirou, impaciente.
— Nessie… eu ouvi a conversa da tia Bella com minha mãe ontem à noite. — Seus olhos buscaram os meus. — Eu sei que você está grávida.
Meu corpo inteiro congelou. O ar me faltou por um instante.
— O quê? Como assim você ouviu…?
— A porta estava entreaberta — ela explicou rápido. — Eu ia deixar uns livros pra minha mãe, mas parei quando ouvi. Elas estavam preocupadas, falando sobre você, sobre o hospital… — fez uma pausa e sussurrou. — Eu achei que fosse mentira. Que fosse algum engano.
Afastei o olhar, o coração disparado.
— Não era mentira.
Anna deu um passo à frente, baixando a voz.
— Eu achei que você fosse virgem, Nessie.
A vergonha me queimou por dentro. Olhei ao redor, nervosa.
— Vamos pro banheiro — murmurei. — Eu te explico lá.
Entramos no banheiro feminino, vazio e silencioso. Encostei na pia, sentindo as mãos suadas.
— Anna… — comecei respirando fundo. — Eu sou virgem.
Ela piscou, confusa.
— O quê? Como assim?
— Foi um erro, uma troca no hospital. — As palavras saíram rápidas, como se eu precisasse me livrar delas. — Fui fazer um exame de rotina, e… eles usaram material genético errado. Me inseminaram sem saber.
O choque no rosto de Anna foi imediato.
— Meu Deus… — ela levou as mãos à boca. — Isso é absurdo. Você… você foi vítima de um erro médico?
Assenti, sentindo as lágrimas ameaçarem.
— Foi um engano, mas agora existe uma vida dentro de mim. E eu não sei o que fazer.
Ela se aproximou devagar, os olhos marejados.
— E o Riley? Ele já sabe?
Engoli em seco.
— Ainda não. — Minha voz saiu quase num sussurro. — Não sei como contar.
O silêncio tomou o espaço por alguns segundos, até o toque do meu celular quebrar o clima.
Olhei a tela e o coração disparou: Pai.
Anna me observou, apreensiva.
— Vai atender?
Assenti devagar e deslizei o dedo na tela.
— Oi pai!
A ligação com meu pai ainda ecoava na minha cabeça. Ele não tinha pedido, tinha informado. Disse que ia me buscar pra almoçar e conversar. O jeito como falou… calmo, mas firme, deixava claro que eu não tinha escolha.
Guardei o celular e fiquei olhando pro chão por um tempo, até sentir o olhar de Anna me atravessando.
— Ele vai te buscar? — perguntou, cruzando os braços.
— Vai. Disse que quer conversar. — Suspirei. — E quando meu pai fala assim, é inútil tentar recusar.
Anna me olhou em silêncio por alguns segundos, depois falou mais baixo:
— E você acha que é sobre... o bebê?
Assenti, sem coragem de dizer em voz alta.
Ela fez um gesto com a cabeça, pedindo pra gente sair do banheiro e sentar num banco no corredor, onde o movimento era menor. Assim que nos sentamos, ela respirou fundo, mexendo nas unhas — um sinal de nervosismo que eu conhecia bem.
— Ness… — começou devagar — eu preciso te perguntar uma coisa.
— Pode perguntar.
— Você sabe quem é o pai?
Olhei pra frente, para o chão frio, e balancei a cabeça.
— Ainda não. A doutora Rebecca só me disse que foi um erro. Que o homem não tinha nada a ver com isso, que ele só descobriu há poucos dias.
Anna ficou alguns segundos em silêncio, tentando entender.
— Então ele… ele quer te conhecer?
— É o que parece. — As palavras saíram mais baixas do que eu queria. — Meu pai deve tocar nesse assunto no almoço.
— E você vai?
Demorei pra responder.
— Eu não sei, Anna. Não sei se quero olhar pra alguém que eu nunca vi e pensar que… que ele é o pai do meu filho.
Ela soltou o ar, me olhando com doçura.
— Eu não consigo imaginar o que você tá passando. Mas se fosse comigo, acho que eu estaria assustada também.
Dei um sorriso triste.
— Assustada é pouco. Eu me sinto… perdida.
Anna esticou o braço e apertou minha mão.
— Você pode contar comigo, tá? Pra qualquer coisa.
— Eu sei. — Fiz uma pausa e baixei o olhar. — Só te peço uma coisa: não conta pra ninguém. Nem pra Rafa, nem pra tia Alice. Por favor.
— Claro que não — respondeu de imediato. — Pode confiar em mim.
Por um instante, o silêncio voltou, até ela falar num tom mais sério:
— Mas você sabe que não vai conseguir esconder isso por muito tempo, né?
Engoli em seco.
— Eu sei.
Ela hesitou antes de continuar.
— Principalmente do Riley.
Meu estômago se revirou. Só o nome dele já fazia o ar ficar mais pesado.
— Eu ainda não contei. — Minha voz saiu trêmula. — Não sei nem por onde começar.
Anna suspirou, como quem entende mais do que diz.
— Então espera o momento certo. Mas, Nessie, não deixa o medo decidir por você.
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