O céu de Seattle estava encoberto quando cheguei à faculdade naquela manhã. A garoa fina deixava o ar frio e úmido, e o som ritmado dos meus passos ecoava pelo estacionamento quase vazio. Estacionei o carro e fiquei alguns segundos dentro dele, respirando fundo antes de enfrentar o dia. Ainda sentia o peso da conversa da noite anterior com meu pai, mas tentava me concentrar em coisas simples — a aula, os amigos, a rotina.

Caminhei pelo corredor principal da University of Washington, o cheiro de café recém-feito vindo da cantina, o barulho de risadas, os casacos molhados pendurados nos braços dos alunos. Tudo parecia normal, mas dentro de mim o mundo ainda girava devagar.

Foi então que o vi.

Riley estava alguns metros adiante, encostado em uma das colunas, conversando com Victoria Evans — a ruiva do curso de Física. Mesmo de longe, o brilho no olhar dela era evidente. Victoria nunca fez questão de esconder o interesse que tinha por ele, e embora eu confiasse em Riley, havia algo na forma como ela se aproximava que me incomodava.

Respirei fundo e endireitei a postura. Eu não queria parecer insegura.

Conforme me aproximei, percebi o riso leve de Victoria e o jeito inquieto de Riley, que passava a mão no cabelo e desviava o olhar para o chão, como quem não queria estar ali. A conversa parecia trivial, mas havia uma tensão no ar — sutil, porém inegável.

— Bom dia — falei, quando cheguei perto o bastante.

Riley virou-se rápido, como se tivesse sido pego de surpresa.

— Nessie! — disse, forçando um sorriso. — Eu… não sabia que você já tinha chegado.

— Acabei de estacionar. — Olhei para Victoria e tentei manter o tom cordial. — Oi, Victoria.

Ela sorriu, mas o olhar era calculado.

— Oi, Renesmee. Estava só conversando com o Riley sobre o campeonato universitário. Ele pode ganhar uma bolsa se o time for bem este semestre.

— Que ótimo — respondi, mantendo o sorriso. — Tenho certeza de que ele vai se sair muito bem.

Riley pigarreou, visivelmente desconfortável.

— A gente tava só trocando uma ideia rápida, nada demais.

— Imagino — falei, tentando soar leve. — Eu sei o quanto o basquete é importante pra você.

Victoria cruzou os braços, ainda sorrindo.

— Ele é talentoso, isso é inegável. O técnico fala que ele tem mais foco que qualquer outro jogador.

Senti o incômodo crescer no peito, mas me controlei.

— Sim, ele sempre teve determinação. — Toquei o braço de Riley de leve. — Por isso eu admiro tanto o que ele faz.

Ele me olhou por um segundo, como se pedisse desculpas por algo que eu ainda não compreendia.

— Eu preciso passar no ginásio antes da próxima aula — disse rápido, tentando encerrar o momento. — A gente se vê no intervalo?

Assenti, mesmo sem ter certeza se queria ficar sozinha depois daquilo.

— Claro, te encontro no refeitório.

Victoria ajeitou o cabelo e se despediu com um sorriso que mais parecia um desafio.

— Foi bom ver vocês. — E saiu, o salto fazendo eco no piso do corredor.

Ficamos apenas nós dois. Riley respirou fundo, e eu o observei em silêncio por alguns segundos.

— Ela parece gostar muito de você — comentei, tentando não soar amarga.

Ele passou a mão na nuca, nervoso.

— Ela é só amiga, Ness. Eu juro.

— Eu acredito — respondi, mesmo sem saber se acreditava de fato.

Riley me beijou na testa e sussurrou:

— Você é a única pessoa que eu quero.

Sorri, mas o nó no estômago não passou. E enquanto ele se afastava, eu me perguntei se o amor seria suficiente para segurar tudo o que estava prestes a acontecer.


A aula de Fisiologia Médica parecia se arrastar. As palavras da professora vinham em ondas distantes, e eu apenas fingia acompanhar as anotações no caderno. Minha cabeça estava longe, dividida entre o olhar de Riley mais cedo e o telefonema de Rebecca na noite anterior.

Quando o sinal soou, fechei o caderno e me preparei para sair. Foi então que vi Anna parada na porta, me observando com uma expressão indecifrável. Assim que nossos olhos se encontraram, ela fez um sinal discreto com a cabeça, pedindo que eu a seguisse.

— O que foi? — perguntei, tentando parecer tranquila.

Ela me levou até um canto mais vazio do corredor, perto das janelas, onde quase não passava ninguém. Cruzou os braços e soltou num tom direto, sem rodeios:

— Quando é que você ia me contar?

Franzi o cenho, sem entender.

— Contar o quê?

Anna suspirou, impaciente.

— Nessie… eu ouvi a conversa da tia Bella com minha mãe ontem à noite. — Seus olhos buscaram os meus. — Eu sei que você está grávida.

Meu corpo inteiro congelou. O ar me faltou por um instante.

— O quê? Como assim você ouviu…?

— A porta estava entreaberta — ela explicou rápido. — Eu ia deixar uns livros pra minha mãe, mas parei quando ouvi. Elas estavam preocupadas, falando sobre você, sobre o hospital… — fez uma pausa e sussurrou. — Eu achei que fosse mentira. Que fosse algum engano.

Afastei o olhar, o coração disparado.

— Não era mentira.

Anna deu um passo à frente, baixando a voz.

— Eu achei que você fosse virgem, Nessie.

A vergonha me queimou por dentro. Olhei ao redor, nervosa.

— Vamos pro banheiro — murmurei. — Eu te explico lá.

Entramos no banheiro feminino, vazio e silencioso. Encostei na pia, sentindo as mãos suadas.

— Anna… — comecei respirando fundo. — Eu sou virgem.

Ela piscou, confusa.

— O quê? Como assim?

— Foi um erro, uma troca no hospital. — As palavras saíram rápidas, como se eu precisasse me livrar delas. — Fui fazer um exame de rotina, e… eles usaram material genético errado. Me inseminaram sem saber.

O choque no rosto de Anna foi imediato.

— Meu Deus… — ela levou as mãos à boca. — Isso é absurdo. Você… você foi vítima de um erro médico?

Assenti, sentindo as lágrimas ameaçarem.

— Foi um engano, mas agora existe uma vida dentro de mim. E eu não sei o que fazer.

Ela se aproximou devagar, os olhos marejados.

— E o Riley? Ele já sabe?

Engoli em seco.

— Ainda não. — Minha voz saiu quase num sussurro. — Não sei como contar.

O silêncio tomou o espaço por alguns segundos, até o toque do meu celular quebrar o clima.

Olhei a tela e o coração disparou: Pai.

Anna me observou, apreensiva.

— Vai atender?

Assenti devagar e deslizei o dedo na tela.

— Oi pai!

A ligação com meu pai ainda ecoava na minha cabeça. Ele não tinha pedido, tinha informado. Disse que ia me buscar pra almoçar e conversar. O jeito como falou… calmo, mas firme, deixava claro que eu não tinha escolha.

Guardei o celular e fiquei olhando pro chão por um tempo, até sentir o olhar de Anna me atravessando.

— Ele vai te buscar? — perguntou, cruzando os braços.

— Vai. Disse que quer conversar. — Suspirei. — E quando meu pai fala assim, é inútil tentar recusar.

Anna me olhou em silêncio por alguns segundos, depois falou mais baixo:

— E você acha que é sobre... o bebê?

Assenti, sem coragem de dizer em voz alta.

Ela fez um gesto com a cabeça, pedindo pra gente sair do banheiro e sentar num banco no corredor, onde o movimento era menor. Assim que nos sentamos, ela respirou fundo, mexendo nas unhas — um sinal de nervosismo que eu conhecia bem.

— Ness… — começou devagar — eu preciso te perguntar uma coisa.

— Pode perguntar.

— Você sabe quem é o pai?

Olhei pra frente, para o chão frio, e balancei a cabeça.

— Ainda não. A doutora Rebecca só me disse que foi um erro. Que o homem não tinha nada a ver com isso, que ele só descobriu há poucos dias.

Anna ficou alguns segundos em silêncio, tentando entender.

— Então ele… ele quer te conhecer?

— É o que parece. — As palavras saíram mais baixas do que eu queria. — Meu pai deve tocar nesse assunto no almoço.

— E você vai?

Demorei pra responder.

— Eu não sei, Anna. Não sei se quero olhar pra alguém que eu nunca vi e pensar que… que ele é o pai do meu filho.

Ela soltou o ar, me olhando com doçura.

— Eu não consigo imaginar o que você tá passando. Mas se fosse comigo, acho que eu estaria assustada também.

Dei um sorriso triste.

— Assustada é pouco. Eu me sinto… perdida.

Anna esticou o braço e apertou minha mão.

— Você pode contar comigo, tá? Pra qualquer coisa.

— Eu sei. — Fiz uma pausa e baixei o olhar. — Só te peço uma coisa: não conta pra ninguém. Nem pra Rafa, nem pra tia Alice. Por favor.

— Claro que não — respondeu de imediato. — Pode confiar em mim.

Por um instante, o silêncio voltou, até ela falar num tom mais sério:

— Mas você sabe que não vai conseguir esconder isso por muito tempo, né?

Engoli em seco.

— Eu sei.

Ela hesitou antes de continuar.

— Principalmente do Riley.

Meu estômago se revirou. Só o nome dele já fazia o ar ficar mais pesado.

— Eu ainda não contei. — Minha voz saiu trêmula. — Não sei nem por onde começar.

Anna suspirou, como quem entende mais do que diz.

— Então espera o momento certo. Mas, Nessie, não deixa o medo decidir por você.