O pai do meu bebê
48 Lucy
O cheiro da comida ainda pairava no ar quando Seth começou a rir alto de alguma piada boba que só ele achava graça. A mesa inteira estava animada. Era sempre assim nos aniversários do meu pai, Harry… muita conversa, comida demais e aquela sensação de que todo mundo se conhece desde antes de nascer.
Eu tentava acompanhar, mas minha cabeça estava longe.
— Então quer dizer que o Jacob vai ter um filho de uma moça que ele nem conhecia? — meu pai perguntou, balançando a cabeça como se o mundo tivesse virado de ponta-cabeça.
— Pai… por favor — Seth riu, cutucando o braço dele. — As coisas mudaram. Isso é normal hoje em dia.
— Normal? — Harry grunhiu. — A ciência tá estragando tudo. No meu tempo…
Sam riu baixo. Leah revirou os olhos. Sue pediu para o marido pegar leve.
E então Sam comentou, com aquele jeito tranquilo que sempre parece mais sério do que realmente é:
— Jacob não fala de outra coisa. Só do filho… e da moça. Pelo jeito ela é de família importante de Seattle.
Meu coração apertou. Eu tentei manter a expressão normal, mas senti o rosto esquentar.
A moça.
Sempre a moça.
A moça que ele conheceu do nada. A moça que estava esperando um filho dele. A moça que agora morava nos pensamentos dele… e pelo jeito, também no futuro dele.
Eu tentei pegar meu copo de suco, mas a mão tremeu.
Seth notou.
— Ei, Lucy, você tá bem?
— Tô… — menti, forçando um sorriso. — Só calor.
Mas não era calor.
Era outra coisa. Um nó estranho no estômago. Uma irritação que eu nem queria admitir que sentia. Uma espécie de… medo? Raiva? Ciúme? Tudo junto?
Sue continuou falando:
— Pelo menos Jacob tem responsabilidade. Vai assumir a criança, isso diz muito de um homem.
E Leah, com aquele jeito direto, completou:
— É. E tá bem animado com isso. Mais animado do que eu já vi ele ficar com qualquer coisa.
A faca cortou o pedaço de bolo no prato do Sam, mas o som pareceu alto demais perto do silêncio que se formou dentro de mim.
Eu perdi o ar por um segundo.
Tentei engolir. Tentei sorrir. Tentei parecer normal.
Mas o enjoo veio de repente. Forte. Quente. Subindo rápido demais.
— Com licença… — consegui dizer, levantando rápido da cadeira.
Ouvi a voz do meu pai me chamando, mas já estava atravessando a sala, uma mão na boca, a outra na parede, tentando respirar.
Entrei no banheiro e tranquei a porta.
Me apoiei na pia, sentindo o estômago revirar e a cabeça girar.
O enjoo passou devagar… mas a sensação de vazio continuou. Uma dor bem no peito.
Eu me olhei no espelho. As bochechas estavam pálidas. Os olhos marejados.
— Para com isso, Lucy… — sussurrei para mim mesma, apertando a pia.
Mas não adiantava.
Porque, no fundo, eu sabia exatamente o que estava me machucando.
E Jacob Black nem imaginava.
Eu fiquei parada no quarto, ainda meio tonta. O enjoo tinha ido embora, mas o medo não. A porta fechou atrás de mim e minha mãe cruzou os braços daquele jeito que sempre me deixa pequena.
Sue respirou fundo.
— Você acha mesmo que eu não ia perceber? — ela falou com calma, mas firme. — Um mês de enjoo não é coisa de comida ruim. E você não é criança, Lucy.
Meu estômago apertou. Eu queria negar, inventar alguma desculpa boba, mas… pra quê? Era minha mãe. Ela sempre soube ler meu rosto melhor do que eu.
— Mãe… — minha voz saiu fraca. — Eu… eu dormi com o Jacob. E… pode ter acontecido.
Sue não fez escândalo. Nem levantou a voz. Só ficou me olhando por uns segundos que pareceram horas.
— Você tem certeza que esse bebê é dele? — ela perguntou, curta e direta.
Foi como uma flecha. Eu senti a garganta fechar, mas respondi.
— Sim. Tenho.
Ela passou a mão no rosto, cansada. Caminhou pelo quarto uns passos e voltou a me olhar, dessa vez com aquela expressão de quem já está montando um plano.
— Então você não vai contar pra ninguém. Nem pro seu pai. Muito menos pra Sarah — ela disse firme. — Não agora.
Meu coração saltou.
— Mas por quê? — perguntei. — Por que esconder isso?
Sue se aproximou e tocou meu braço, do jeito que só ela fazia quando queria que eu prestasse atenção.
— Porque Sarah não gosta de você. E não é segredo. Se ela descobre isso antes da hora, vai virar guerra. E você não está pronta pra enfrentar a Sarah Black. Nem eu.
Engoli seco.
— E o Jacob? — sussurrei. — Ele… ele tem o direito de saber.
Sue balançou a cabeça.
— Você vai esperar. Primeiro vamos confirmar tudo. Depois decidimos o próximo passo. Até lá, você respira fundo e confia em mim.
Eu senti as lágrimas chegarem, mas segurei. Sue percebeu, me puxou num abraço apertado.
— Vai ficar tudo bem — ela sussurrou. — Mas você precisa ir devagar. Nada de agir por impulso. E nada de enfrentar essa história sozinha.
Fechei os olhos e deixei minha cabeça cair no ombro dela.
Mas lá no fundo… eu sabia.
Nada estava bem. E tudo podia desmoronar muito rápido.
NARRADO POR LUCY
Voltei para a mansão já de noite, entrando pelos fundos como sempre fazia quando precisava respirar antes de encarar a casa inteira. O ar tinha cheiro de madeira velha e café recente. Mal coloquei o pé na cozinha e uma das empregadas veio ao meu encontro.
— A dona Sarah perguntou por você mais cedo — disse ela, enxugando as mãos no avental.
Meu coração deu um salto.
Ultimamente qualquer frase que envolvesse o nome de Sarah me deixava em alerta.
— Ela tá tomando o chá dela? — perguntei tentando soar normal.
— Tá sim. Tá lá na sala. Quer que eu leve?
— Não… eu levo. — forcei um sorriso. — Assim ela me vê.
Preparo a bandeja com as mãos que tremem um pouco. A chaleira, a xícara de porcelana, o pratinho com biscoitos. Respiro fundo antes de atravessar o corredor.
O som da voz dele chega primeiro.
A voz que eu conheço melhor do que deveria.
Paro na porta da sala, ainda invisível pra eles. Jacob está sentado no sofá, gesticulando devagar enquanto conversa com a mãe. A luz amarela do abajur ilumina metade do rosto dele. O peito aperta antes mesmo de eu entender por quê.
E então eu entendo.
— …ela vai vir morar aqui na semana que vem — Jacob diz, com um sorriso leve, quase… emocionado. — E a gente vai casar.
Eu congelo.
A bandeja escorrega das minhas mãos antes mesmo que eu possa tentar impedir. O barulho da porcelana quebrando ecoa alto na sala.
Sarah solta um suspiro de susto.
Jacob se vira para mim.
Eu não vejo mais nada além dele.
Não ouço a voz da Sarah perguntando se me machuquei.
Não sinto o calor do chá respingando no meu sapato.
Só sinto aquela dor surda, profunda, que parece abrir um buraco no meu peito.
O tipo de dor que só existe quando a gente percebe que foi usada… e nem sabia.
Jacob dá um passo na minha direção, preocupado, mas eu desvio os olhos antes que ele possa ver o que realmente está neles. Não posso. Não agora.
— Me desculpem — consigo dizer, a voz falhando. — Eu… me atrapalhei.
Ajoelho no chão para juntar os pedaços da xícara. Meus dedos tremem enquanto coloco os cacos no prato. Parece que cada estalo do porcelanato quebrado acompanha o som do meu peito sendo esmagado.
Jacob tenta se aproximar novamente, mas eu não deixo.
— Já limpo tudo — digo, sem olhar pra ele. — Tá tudo bem.
Mentira.
Nada estava bem.
Levanto com a bandeja, mantendo a cabeça baixa, e volto para a cozinha antes que alguém me veja chorar. Só quando a porta se fecha atrás de mim é que minhas pernas perdem a força.
Encosto na pia fria e finalmente deixo o ar sair.
Sinto a traição queimando como se fosse febre.
Não pelo que aconteceu entre nós.
Mas porque, por um segundo, eu acreditei que significava alguma coisa.
E agora… agora não passo de um erro que eu mesma cometi.
Seguro a borda da pia até os dedos ficarem brancos.
Sue tinha razão.
Ninguém podia saber.
Principalmente Sarah.
E principalmente ele.
Quando cheguei em casa, a porta rangeu daquele jeito que só ela faz quando estou com o coração apertado. Ainda bem que a casa estava quase no escuro. Só a luz fraca da cozinha acesa.
Encontrei minha mãe sentada à mesa, mexendo numa xícara de chá como se soubesse que eu ia entrar naquele estado.
Ela levantou os olhos e, só de me ver, franziu a sobrancelha.
— O que aconteceu, minha filha?
Tentei responder, mas a voz falhou. Senti o queixo tremer igual criança pequena. Minha mãe levantou devagar, veio até mim e segurou meu rosto com as duas mãos.
— Lucy… fala comigo.
E então desabei. As palavras saíram misturadas com soluços.
— Ele voltou… — respirei com dificuldade — e… e vai casar com ela. Com a mãe do filho dele.
O rosto da minha mãe mudou na mesma hora. Não foi choque. Não foi surpresa. Foi uma mistura de raiva e… pena. Pena de mim.
Ela me puxou para um abraço apertado, daqueles que parecem costurar o peito da gente.
— Vem cá, meu amor… calma. Chora o que tiver que chorar.
Enterrei o rosto no ombro dela. Senti o cheiro de sabonete de alecrim e aquilo me desmontou ainda mais. Eu repetia baixinho:
— Eu fui uma idiota… ele nunca… nunca gostou de mim. Eu só fui… diversão.
Minha mãe fez carinho no meu cabelo, firme.
— Não fala assim. Você não é diversão de ninguém. Ele que não sabe o que perdeu.
Limpei o rosto com as costas da mão. Ainda doía, mas o abraço dela ajudava a me manter de pé.
— E agora? — perguntei com a voz arranhada. — O que eu vou fazer se eu estiver mesmo grávida?
Minha mãe respirou fundo. Aquele fundo que anuncia que algo sério está vindo.
Ela segurou meus ombros e me olhou como quem vê além de mim.
— Agora você vai ser cautelosa. Vai ser esperta. — Ela passou o polegar pelo meu rosto, limpando uma lágrima teimosa. — A vida dessa moça vir pra fazenda é uma boa notícia pra você.
Eu pisquei, confusa.
— Como assim?
Ela encaixou minhas mãos nas dela e apertou.
— Porque, Lucy… se você estiver esperando um filho… o seu filho vai ser o único herdeiro Black.
Meu coração disparou tão forte que senti o pulso nos ouvidos.
Herdeiro.
Black.
Me deu um frio na pele que não era só tristeza. Era medo. Era choque. Era… uma pontinha de esperança torta, daquelas que a gente nem sabe se devia ter.
Minha mãe continuou:
— Mas ninguém pode saber por enquanto. Principalmente a Sarah Black. Você vai fazer tudo com calma. Com cuidado. E eu vou estar do seu lado.
Engoli seco, tentando respirar direito.
Eu não sabia o que pensar, o que sentir, o que desejar. Minha cabeça estava uma bagunça.
Só consegui assentir e me jogar nos braços da minha mãe mais uma vez.
Porque, pela primeira vez naquela noite, eu percebi que tudo ia mudar.
E que nada — absolutamente nada — seria simples daqui pra frente.
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