Cheguei ao hospital e encontrei Sue andando de um lado para o outro diante da recepção enquanto Leah tentava conversar com uma enfermeira e Lucy permanecia sentada com os braços cruzados sobre o corpo, olhando fixamente para a porta que dava acesso à emergência. Sam também estava ali e veio ao meu encontro assim que me viu. Bastou olhar para a expressão dele para entender que a situação de Harry era muito mais séria do que eu imaginava quando saí da fazenda. Perguntei o que havia acontecido e Sam explicou que Harry sentira uma dor forte no peito enquanto estava em casa, começou a suar muito e perdeu os sentidos pouco depois de chegar ao hospital. Os médicos ainda estavam tentando estabilizá-lo e ninguém tinha recebido qualquer informação desde então. Olhei para Sue e, apesar de tudo o que aquela mulher havia feito nos últimos meses, senti pena dela. Não havia raiva naquele momento, apenas uma esposa desesperada tentando descobrir se o homem com quem dividira boa parte da vida sairia vivo daquela sala.

— Quanto tempo faz que ele entrou? — perguntei.

— Mais de uma hora — Sam respondeu, olhando para o relógio. — Leah já perguntou umas três vezes, mas ninguém diz nada.

Sue ouviu e se aproximou imediatamente.

— Porque ninguém quer me contar o que está acontecendo. Eu sou esposa dele, tenho o direito de saber.

— Mãe, eles estão atendendo o papai — Leah falou com uma paciência que provavelmente já estava chegando ao limite. — Assim que tiverem alguma informação, vão vir falar com a gente.

— Você não sabe disso.

— Sue, tenta sentar um pouco — Sam pediu. — Você está andando desde que chegou.

— Eu não quero sentar!

A voz dela chamou a atenção de algumas pessoas na recepção, mas ninguém comentou. Sue levou as duas mãos ao rosto e respirou fundo, tentando se controlar.

— Ele estava bem de manhã. Estava trabalhando naquela maldita cerca. Eu falei para ele deixar aquilo para outro dia, mas vocês conhecem o Harry. Ele nunca escuta ninguém.

Leah passou o braço pelos ombros da mãe.

— Eu sei.

— Ele entrou em casa dizendo que estava sentindo uma dor. Eu achei que fosse cansaço, depois ele ficou branco na minha frente...

A voz de Sue falhou e Leah a abraçou.

Desviei os olhos. Eu tinha visto Harry naquela mesma manhã. Quando estacionei diante da casa dos Clearwater, ele estava justamente mexendo na cerca que Sue mencionava. Lembrei dele largando as ferramentas para me cumprimentar e perguntando o que o filho de Billy Black fazia tão cedo em sua casa. Poucas horas depois, eu estava esperando notícias dele em um hospital.

Lucy não tinha dito uma palavra desde que cheguei.

Ela permanecia sentada, os olhos vermelhos e as mãos inquietas sobre as pernas. A discussão que tivemos na fazenda parecia pertencer a outro dia. Eu ainda estava furioso com tudo o que ela fizera, mas aquele não era o momento para acertar contas. Harry não tinha culpa das atitudes da filha e muito menos das brigas entre Sue e minha família.

Sentei em uma das cadeiras próximas a Sam e esperei.

Os minutos pareciam demorar muito mais dentro daquele corredor. De vez em quando uma enfermeira atravessava a porta e Sue se levantava imediatamente, apenas para descobrir que não vinha falar conosco. Leah tentava manter a mãe calma enquanto Sam fazia o possível para ajudar. Em determinado momento Lucy levantou e perguntou se alguém queria café. Ninguém respondeu. Ela voltou a se sentar e ficou olhando para as próprias mãos.

Não sei quanto tempo passou até a porta finalmente se abrir.

Um médico saiu acompanhado de uma enfermeira.

Pela expressão dele, soube antes que dissesse qualquer coisa.

Sue também percebeu.

Ela se levantou imediatamente.

— Doutor?

O homem se aproximou devagar.

— Família do senhor Harry Clearwater?

— Eu sou a esposa.

Sue praticamente correu até ele.

— Como ele está? Posso entrar? Minha filha disse que vocês estavam tentando estabilizar ele.

O médico respirou fundo.

— Senhora Clearwater, seu marido chegou ao hospital em uma condição bastante grave. Nossa equipe iniciou o atendimento imediatamente, mas ele sofreu uma parada cardíaca.

Sue ficou imóvel.

— Mas vocês conseguiram reanimar ele, não conseguiram?

O silêncio do médico durou apenas alguns segundos, mas pareceu muito mais.

— Nós realizamos todas as manobras de reanimação possíveis.

Leah apertou a mão da mãe.

O médico continuou com cuidado.

— Infelizmente, o senhor Harry não respondeu.

Sue balançou a cabeça.

— Não.

— Eu sinto muito.

— Não.

Ela repetiu mais alto.

— Não, você está enganado. Meu marido estava conversando comigo hoje de manhã. Ele estava andando, estava trabalhando. Não pode simplesmente...

A voz desapareceu.

Vi as pernas dela cederem.

Sam foi mais rápido e a segurou antes que caísse no chão. Leah imediatamente passou o braço pela cintura da mãe e os dois a ajudaram a se sentar.

— Mãe, olha para mim.

Sue parecia não escutar.

— Ele não pode ter morrido.

Leah se ajoelhou diante dela.

— Mãe...

— Não fala isso!

Sue agarrou os braços da filha.

— Não fala que ele morreu.

Leah começou a chorar.

Sam manteve a mão no ombro de Sue enquanto tentava acalmá-la, mas não havia muito que alguém pudesse fazer naquele momento.

Olhei para Lucy.

Ela continuava de pé no mesmo lugar onde estava quando o médico apareceu.

Parecia completamente perdida.

— Lucy...

Ela me olhou, mas não respondeu.

Então voltou os olhos para o médico.

— Meu pai morreu?

O homem assentiu devagar.

— Sinto muito.

Lucy levou a mão à boca.

Por alguns segundos permaneceu imóvel, como se ainda estivesse tentando entender aquelas palavras. Depois simplesmente se sentou na cadeira atrás dela e começou a chorar. Não houve gritos nem acusações. Ela curvou o corpo, cobriu o rosto com as duas mãos e desabou.

Fiquei parado sem saber o que fazer.

Harry estava morto.

Eu tinha conversado com ele naquela manhã.

Ainda conseguia vê-lo diante daquela cerca, tranquilo como sempre, abrindo a porta da própria casa para mim mesmo sabendo que eu estava ali para resolver um problema com sua filha. Harry nunca levantou a voz, nunca tentou me intimidar e nem transformou aquela conversa em uma disputa entre nossas famílias. Apenas me recebeu como fazia desde que eu era garoto.

Sam olhou para mim por cima do ombro de Sue. Nenhum dos dois precisou dizer nada.

Aquele homem tinha feito parte das nossas vidas por tempo demais para que sua morte fosse apenas uma notícia ruim recebida no corredor de um hospital.

Passei a mão pelo rosto e me encostei na parede.

Do outro lado, Sue chorava amparada por Leah e Sam enquanto Lucy permanecia curvada sobre si mesma, completamente destruída.

Eu só conseguia pensar que, naquela manhã, Harry Clearwater estava vivo.

E agora não estava mais.


Na tarde seguinte, La Push parecia ter entendido que estávamos enterrando um dos seus. A chuva começou pouco depois do almoço e não parou mais, fina na maior parte do tempo, mas constante o bastante para deixar a terra escura, o ar frio e as árvores ao redor do pequeno cemitério cobertas por uma névoa baixa. Sue tinha me contado ainda no hospital que Harry dizia havia anos que, quando chegasse a hora, não queria ser enterrado em outro lugar. Queria ficar na terra onde nasceu, perto da família e das pessoas com quem crescera. Fiz questão de que sua vontade fosse respeitada e cuidei pessoalmente do que fosse necessário para que o corpo fosse levado até La Push. Depois de tudo o que acontecera entre nossas famílias, aquilo não era um favor para Sue ou para Lucy. Era por Harry. Eu devia isso ao homem que conhecia desde menino e que, naquela mesma manhã, tinha me recebido em sua casa com respeito sem imaginar que poucas horas depois sua vida terminaria.

Nessie permaneceu ao meu lado durante toda a cerimônia. Nossas mãos estavam entrelaçadas e, de vez em quando, eu sentia seus dedos apertarem os meus quando alguém se emocionava mais. Ela poderia ter escolhido não ir, e eu teria entendido depois de tudo que Sue e Lucy fizeram, mas quando disse que iria ao enterro, Renesmee apenas respondeu que Harry nunca havia feito nada contra ela. JJ tinha ficado na fazenda com Rachel e Mary, principalmente por causa da chuva e do frio, e eu estava mais tranquilo sabendo que meu filho estava protegido em casa. Minha mãe permanecia alguns passos atrás de nós junto de Embry, enquanto Billy estava mais próximo do caixão. Meu pai quase não falara desde que recebeu a notícia. Ele e Harry tinham uma história que começara muito antes de nós, e bastava olhar para seu rosto para perceber que não estava apenas enterrando um amigo. Estava se despedindo de uma parte da própria vida.

Sue chorou praticamente durante toda a cerimônia, amparada por Leah. Lucy permaneceu ao lado da irmã, muito diferente da mulher que enfrentara Renesmee na fazenda no dia anterior. Ela parecia abatida, com os olhos inchados e o rosto quase sem expressão. Sam estava perto delas e ajudava no que fosse necessário, mas meu olhar voltava constantemente para Billy. Quando chegou o momento das últimas palavras, meu pai pediu ajuda a Embry para se aproximar. O silêncio se espalhou pelo cemitério enquanto ele ficou diante do caixão, e por alguns segundos Billy apenas olhou para o lugar onde seu amigo seria enterrado.

— Conheci Harry quando nós dois ainda éramos jovens o bastante para acreditar que ficaríamos assim para sempre — meu pai começou, com a voz mais baixa do que de costume. — Depois vieram os filhos, os problemas, as responsabilidades e os cabelos brancos. No caso dele vieram menos cabelos brancos porque ele perdeu quase todos antes de mim.

Algumas pessoas riram em meio ao choro, e até Sue abaixou o rosto com um pequeno sorriso triste.

Billy respirou fundo antes de continuar.

— Harry era o tipo de amigo que não precisava entrar na sua casa todos os dias para você saber que estava ali. Podíamos passar semanas sem conversar e, quando nos encontrávamos, parecia que tínhamos nos visto na manhã anterior. Brigamos algumas vezes, concordamos em poucas e discutimos sobre praticamente tudo, mas nunca precisei perguntar se podia contar com ele. Eu sabia.

Meu pai parou por alguns segundos e vi seus olhos se encherem.

— Eu gostaria de ter tido mais uma conversa com você, velho amigo. Gostaria de ter sentado mais uma vez na varanda, reclamado da vida e ouvido você dizer que eu estava ficando ranzinza, mesmo sendo você o pior dos dois. Mas acho que amizade também é aceitar quando uma conversa termina antes do que a gente queria.

Billy tocou a lateral do caixão.

— Descansa na sua terra, Harry. Obrigado por todos esses anos.

Apertei a mão de Nessie quando meu pai se afastou. Ela encostou a cabeça por um instante em meu ombro e ficamos em silêncio enquanto o enterro prosseguia. Ver a terra cair sobre o caixão tornou tudo definitivo de uma maneira que o hospital ainda não tinha conseguido. Harry Clearwater não voltaria para casa. Não terminaria aquela cerca que eu o vira consertando. Não entraria novamente na cozinha da fazenda para tomar café com Billy nem apareceria nos estábulos para reclamar de alguma decisão minha. Quando as pessoas começaram a deixar o cemitério, fui até meu pai e coloquei a mão em seu ombro.

— Está bem?

Billy soltou um suspiro cansado.

— Vou ficar.

Minha mãe se aproximou e segurou a cadeira dele.

— Vamos levar seu pai para o carro. Essa chuva está ficando mais forte.

Embry assumiu a cadeira e começou a conduzi-lo pelo caminho. Eu e Nessie seguimos alguns passos atrás, dividindo o mesmo guarda-chuva, até ouvirmos alguém chamar meu nome.

— Jacob.

Parei.

Nessie parou comigo.

Lucy estava alguns metros atrás de nós.

Leah não estava mais ao seu lado. Ela permanecia sozinha sob a chuva, sem guarda-chuva, os cabelos já molhados grudando no rosto.

— O que foi, Lucy?

Ela olhou primeiro para mim e depois para Renesmee.

— Eu preciso falar uma coisa.

Senti Nessie ficar tensa ao meu lado.

— Hoje não é o momento — respondi. — Você acabou de enterrar seu pai. Vai ficar com sua família.

— É justamente por causa do meu pai que eu preciso falar.

Alguma coisa em seu tom me fez permanecer onde estava.

Lucy caminhou até nós.

— Eu sou culpada.

Franzi a testa.

— Culpada do quê?

Ela respirou fundo e olhou diretamente para Nessie.

— Da morte dele.

Renesmee permaneceu em silêncio.

— Lucy, você está abalada — falei. — Não começa a colocar isso na sua cabeça.

Ela balançou a cabeça.

— Você não entende. Ontem de manhã, antes de você chegar à nossa casa, meu pai descobriu.

— Descobriu o quê?

Lucy começou a chorar novamente.

— Que eu menti.

Meu corpo inteiro ficou imóvel.

Ao meu lado, senti a mão de Nessie escapar lentamente da minha.

Lucy continuou olhando para ela.

— Você nunca me empurrou daquela escada.

Por alguns segundos, nem o som da chuva pareceu chegar até mim.

Olhei para Renesmee.

Ela não reagiu. Seu rosto estava completamente parado enquanto encarava Lucy.

— Repete — Nessie pediu.

Lucy engoliu em seco. — Você não me empurrou.. A voz dela falhou. — Eu tropecei. Quando comecei a cair, você tentou me segurar. Eu lembro de você segurando meu braço, mas não conseguiu porque eu perdi o equilíbrio.

Senti uma raiva violenta subir pelo meu peito.

— Você sabia disso esse tempo inteiro?

Lucy fechou os olhos. — Sabia.

Dei um passo em sua direção, mas Nessie se moveu antes. — Então por que você mentiu?

Nunca tinha ouvido minha esposa falar daquele jeito.

Lucy chorava. — Porque eu estava com raiva. Eu tinha acabado de perder o bebê, vi o Jacob preocupado com você e...

— E resolveu dizer que eu matei seu filho?

— Nessie...

— Não fala meu nome.

Lucy recuou.

Renesmee continuou encarando-a. — Sua mãe entrou na minha casa me chamando de assassina. Eu estava grávida, passei mal e precisei ser levada às pressas para Seattle. Meu filho nasceu antes da hora depois daquela confusão e você sabia que eu não tinha feito nada.

Lucy abaixou o rosto.

— Eu sei.

— Não, você não sabe.

A voz de Nessie começou a tremer. — Eu passei meses lembrando daquela queda. Passei meses me perguntando se poderia ter segurado você de outro jeito, se poderia ter feito alguma coisa para impedir aquilo. Eu sabia que não tinha empurrado você, mas carreguei a culpa de não ter conseguido impedir que você caísse.

— Eu sinto muito.

Nessie soltou uma risada curta, sem qualquer humor.

— Você sente muito?

Lucy levou as mãos ao rosto.

— Meu pai descobriu ontem. Ele me ouviu discutindo com minha mãe depois que voltamos da fazenda. Ele percebeu que alguma coisa não batia e me pressionou até eu contar a verdade. Nós discutimos. Ele ficou muito nervoso comigo, disse que eu tinha destruído a vida de uma pessoa inocente por vingança. Pouco depois começou a passar mal.

Agora entendi por que ela dizia ser culpada pela morte de Harry.

— Por isso você acha que matou seu pai — falei.

Lucy assentiu chorando.

— Se eu não tivesse mentido, aquela discussão nunca teria acontecido.

Nessie deu um passo em sua direção.

Pensei que fosse dizer alguma coisa.

Não tive tempo sequer de reagir.

O som do tapa cortou o silêncio do cemitério.

O rosto de Lucy virou para o lado com a força do golpe.

Fiquei completamente surpreso.

Em todos os meses em que conhecia Renesmee, eu a tinha visto assustada, furiosa, magoada e até enfrentando pessoas muito mais poderosas do que ela. Nunca a tinha visto bater em ninguém.

Lucy levou a mão ao rosto e olhou para ela, mas Nessie não recuou.

Minha esposa estava chorando.

— Isso foi por cada noite em que eu dormi pensando naquele bebê — ela disse, com a voz trêmula. — Por cada vez que alguém me olhou como se eu fosse capaz de empurrar uma mulher grávida de uma escada. Por meu filho ter vindo ao mundo antes da hora enquanto eu estava apavorada dentro de um hospital. E principalmente porque você olhou na minha cara durante meses sabendo que eu era inocente.

Fiquei ao lado dela sem tentar impedir.

Naquele momento, depois de tudo o que Lucy acabara de confessar, eu finalmente entendia o tamanho do peso que Renesmee carregara em silêncio.