O pai do meu bebê
91 Renesmee
Os anos seguintes acabaram encontrando um ritmo que eu não imaginava quando Jacob colocou aquela chave em minha mão no chalé da fazenda. A casa em Seattle deixou de parecer nova muito rápido, principalmente depois que JJ começou a engatinhar e espalhar brinquedos por todos os cômodos. Jacob cumpriu a promessa de reorganizar a própria vida para ficar conosco e abriu um escritório da empresa na cidade, de onde passou a resolver boa parte dos negócios sem precisar estar diariamente na fazenda. Isso não significava que ele tivesse abandonado os cavalos, muito pelo contrário. Duas ou três vezes por semana acordava cedo e pegava a estrada, às vezes passava a noite por lá quando havia algum problema maior e voltava na manhã seguinte reclamando do trânsito e dizendo que estava velho demais para viver entre duas cidades. Sam e Embry assumiram grande parte da administração e Billy continuou participando de tudo que conseguia, embora Sarah dissesse que ele só aparecia para dar ordens e voltar para casa. No fim, funcionou. Jacob conseguiu continuar sendo o homem que amava aquela fazenda e, ao mesmo tempo, passou a estar presente nas pequenas coisas da nossa casa que ele tanto tinha medo de perder. Eu também encontrei meu lugar naquela nova rotina. Voltar para Medicina exigiu muito mais de mim do que imaginei, principalmente porque JJ parecia escolher exatamente as semanas de prova para ficar gripado, decidir que não queria dormir ou simplesmente descobrir alguma nova maneira de ocupar cada minuto do meu dia. Jacob acabou vencendo a discussão sobre as babás, embora eu tivesse conseguido reduzir as duas que ele queria contratar para uma só, e até hoje ele dizia que aquilo tinha sido uma péssima negociação da parte dele. Entre aulas, plantões, livros espalhados pela mesa da cozinha e noites estudando enquanto meu marido dormia no sofá com nosso filho sobre o peito, fui avançando. Quando percebi, JJ já tinha completado um ano, depois dois, e agora, aos três, havia se tornado uma pequena versão do pai com energia suficiente para enlouquecer qualquer adulto que tentasse acompanhá-lo. Foi exatamente o que estava acontecendo naquela tarde. A inauguração do novo Centro Veterinário dos Cullen reunira praticamente toda a família, além de médicos veterinários, funcionários, investidores e alguns amigos do meu pai. Jacob havia entrado como sócio no projeto desde o início e participara principalmente da estrutura destinada ao atendimento de cavalos e animais de grande porte. Meu pai brincava que aquela tinha sido a única maneira de fazer o genro investir dinheiro sem questionar cada centavo. O prédio estava cheio, havia gente conversando por todos os lados e, no meio de tudo aquilo, JJ tinha decidido que aquele era o lugar perfeito para correr. — Jacob Black Junior, volta aqui! Ouvi a voz de Jacob e precisei segurar a risada. JJ passou correndo diante de mim com um pequeno carrinho na mão, olhou para trás e gargalhou ao perceber o pai vindo logo depois. — Não corre! — Jacob avisou. JJ correu mais rápido. Levei a mão à boca enquanto Bella ria ao meu lado. — Não ajuda — Jacob reclamou ao passar por nós. — Eu não fiz nada. — Está rindo. — Porque está engraçado. Ele apontou para mim sem parar de caminhar. — Quando eu pegar esse menino, nós dois vamos conversar. JJ soltou outro grito de alegria e desapareceu atrás de uma das mesas. Jacob foi atrás dele e minha mãe começou a rir ainda mais. — Ele tem o pai completamente nas mãos. — Completamente. Observei Jacob finalmente alcançar nosso filho. Ele o pegou pela cintura e o ergueu enquanto JJ ria e se debatia, tentando escapar. — Peguei você, moleque. Meu filho segurou o rosto do pai e disse alguma coisa que não consegui ouvir. Jacob tentou manter uma expressão séria durante aproximadamente três segundos antes de beijar sua bochecha. Balancei a cabeça. — E depois reclama que o menino não obedece. Bella me olhou com um sorriso. — Você não está muito melhor. — Eu pelo menos tento. — Sei. Minha mãe pegou uma taça de água da mesa ao lado e ficou alguns segundos me observando. Conhecia aquele olhar. — O quê? — Quando você vai contar para ele? Automaticamente levei a mão até a barriga, embora ainda não houvesse absolutamente nada para alguém perceber. Sorri. — Hoje à noite. Bella também sorriu. — Tem certeza de que consegue esperar? — Quero contar em casa. Só nós dois. — E o JJ? Olhei para meu filho, que agora estava no colo de Jacob tentando mexer no relógio dele. — Quero ele junto. Afinal, também é uma notícia para ele. Minha mãe segurou minha mão. — Ainda não acredito que vou ser avó outra vez. — Fala baixo. Olhei rapidamente ao redor. — Meu pai não sabe guardar segredo. Bella riu. — Seu pai ainda nem sabe. Você pediu que eu não contasse. — E espero que continue assim até amanhã. Ela fez um gesto fechando os lábios. — Não sai nada daqui. — Ótimo. Bella ficou séria por um instante. — E seu último ano? Eu já tinha pensado naquela pergunta tantas vezes desde que vi o resultado do exame que não precisei pensar para responder. — Vai continuar. — Nessie... — Mãe, eu consigo. Ela apertou minha mão. — Eu sei que consegue. Só não quero que tente fazer tudo sozinha. — Não vou. Tenho você, papai, uma babá que praticamente virou parte da família e um marido que queria contratar duas antes mesmo de JJ nascer. Bella começou a rir. — Ele vai querer quatro agora. — Não coloca ideia na cabeça dele. — Estou falando sério. — Eu também. Jacob vai contratar uma equipe inteira se eu deixar. Nós duas rimos e eu ainda estava dizendo que provavelmente precisaria esconder os telefones das agências de babás quando ouvi uma voz conhecida atrás de mim. — Renesmee? Meu sorriso desapareceu por pura surpresa. Virei-me. Demorei alguns segundos para acreditar. — Heidi? Ela estava diferente da última vez que a vi. Os cabelos estavam um pouco mais curtos e sua expressão parecia muito mais leve. Ao lado dela havia um homem que reconheci vagamente de alguns encontros profissionais do meu pai. Heidi sorriu. — Quanto tempo. — Realmente. Bella cumprimentou os dois e foi então que reconheci o homem. — Você trabalha com meu pai, não é? Ele sorriu. — Trabalhei com Edward durante alguns anos. Hoje estou em outro hospital, mas continuamos amigos. Antes que eu pudesse responder, senti uma mão pousar em minha cintura. Jacob tinha chegado com JJ no colo. Percebi o instante exato em que reconheceu Heidi. Ele não ficou tenso nem desconfortável. Apenas pareceu surpreso. — Heidi. Ela sorriu. — Oi, Jacob. — Não esperava encontrar você aqui. — Eu poderia dizer a mesma coisa, mas seu nome está enorme naquela placa de patrocinadores. Jacob riu. — Justo. JJ começou a se mexer no colo do pai e Heidi olhou para ele. — Então esse é o famoso Jacob Junior. Meu filho escondeu o rosto no pescoço do pai, subitamente tímido depois de passar a última hora aterrorizando todos no salão. Jacob acariciou suas costas. — Esse mesmo. Embora a parte da fama provavelmente seja por destruir tudo que encontra. — Papai! — Estou mentindo? JJ levantou o rosto e fez uma careta para ele. Heidi riu. — Ele está enorme. — E impossível — respondi. — Mamãe! — Os dois contra mim agora? Jacob beijou minha testa, divertido. — Você começou. Heidi observou nossa pequena discussão com um sorriso tranquilo e então tocou o braço do homem que estava ao seu lado. — Aliás, acho que devo fazer as apresentações direito. Ela se aproximou dele. — Jacob, Renesme, este é Daniel. O homem estendeu a mão e Jacob a apertou. — Prazer. Heidi sorriu antes de completar: — Meu marido. Olhei para ela surpresa. — Vocês se casaram? Daniel passou o braço pela cintura dela. — Há quase um ano. Heidi mostrou discretamente a aliança. — Depois que voltei da Itália, nós nos reencontramos por acaso. O resto acabou acontecendo muito rápido. Jacob sorriu com uma sinceridade que me deixou feliz. — Parabéns aos dois. — Obrigada. Ela olhou para ele por alguns segundos. — Acho que nós dois acabamos encontrando o lugar certo. Jacob apertou minha cintura e olhou para mim. — Acho que sim. Sorri, apoiando a mão sobre a dele, enquanto JJ voltava a se remexer no colo do pai tentando descer. — Nem pense nisso — Jacob avisou imediatamente. — Quero chão! — Você teve chão durante três horas. Agora vai ficar no colo do papai por cinco minutos. JJ fez um bico indignado e eu comecei a rir. Enquanto Jacob negociava seriamente com uma criança de três anos, levei a mão discretamente à barriga e olhei para ele. Ainda faltavam algumas horas para contar que, em breve, ele teria dois pequenos Black correndo pela nossa casa. E eu já conseguia imaginar o desespero dele. Quando chegamos em casa, JJ já dormia profundamente no banco de trás. Toda a energia que tinha usado durante a inauguração finalmente cobrara seu preço e nem o carro entrando na garagem foi suficiente para acordá-lo. Jacob abriu a porta traseira com cuidado, soltou o cinto da cadeirinha e pegou nosso filho no colo, que apenas resmungou alguma coisa incompreensível antes de esconder o rosto no pescoço do pai e continuar dormindo. Eu entrei primeiro e deixei minha bolsa sobre uma das poltronas da sala, sentindo imediatamente o alívio de tirar as sandálias depois de passar horas em pé. Sentei no sofá, soltei as fivelas e deixei os pés descalços tocarem o tapete enquanto ouvia os passos de Jacob subindo as escadas com JJ. Aproveitei aqueles minutos sozinha para respirar fundo e pensar na notícia que vinha escondendo dele desde a manhã anterior. Passei o dia inteiro imaginando sua reação e quase contei umas cinco vezes, principalmente quando o vi correndo atrás de nosso filho durante a inauguração, mas queria aquele momento só nosso, dentro da casa que tinha se tornado o lugar onde construímos nossa família. Jacob demorou alguns minutos e, quando voltou, vinha dobrando as mangas da camisa enquanto descia os últimos degraus. Eu ainda estava no sofá massageando um dos pés quando ele entrou na sala. — Esse menino apagou de um jeito que eu nunca vi. Sorri. — Nem quando você trocou a roupa? — Nem quando tirei os sapatos, coloquei o pijama e enfiei ele debaixo da coberta. Só virou para o lado e continuou dormindo como se eu nem estivesse ali. — Dorme igualzinho ao papai. Jacob parou diante de mim. — Eu não durmo assim. Olhei para ele com uma expressão séria. — Jake, uma vez o alarme disparou durante quase três minutos e você não acordou. — Eu estava cansado. — Você ronca também. — Isso é mentira. — Quer que eu grave? Ele estreitou os olhos. — Você está muito engraçadinha hoje. — Só estou falando a verdade. Jacob aproximou-se e, antes que eu percebesse o que pretendia fazer, segurou minha cintura e me fez levantar do sofá. — Ei! Ri enquanto apoiava as mãos em seus ombros. — O que foi? — Você estava confortável demais aí. Ele passou os braços pela minha cintura e me trouxe para perto. — Já vai dormir? Olhei para ele e sorri. Brinquei com o colarinho de sua camisa, passando os dedos lentamente pelo tecido antes de responder. — Depende. — Depende de quê? — Não sei. Desfiz o primeiro botão de sua camisa. — Talvez eu ainda não esteja com sono. Jacob acompanhou o movimento da minha mão e voltou a olhar para mim. — Interessante. — O quê? — Há cinco minutos você estava reclamando que seus pés estavam doendo. — Meus pés estão doendo. O resto de mim está perfeitamente bem. Ele riu e segurou meu rosto. — Nesse caso... Não terminou a frase. Seus lábios encontraram os meus e passei os braços ao redor de seu pescoço quase imediatamente. Jacob me puxou mais contra seu corpo e aprofundou o beijo devagar, sem qualquer pressa, enquanto uma de suas mãos subia pelas minhas costas. Sorri quando ele tentou me fazer caminhar para trás em direção à escada e interrompi o beijo antes que seus planos avançassem demais. — Espera. Jacob tentou me beijar novamente. — Jake. — O quê? Coloquei a mão em seu peito. — Eu preciso te contar uma coisa. A mudança em sua expressão foi imediata. — Aconteceu alguma coisa? — Calma. — Você fala que precisa me contar uma coisa desse jeito e pede calma? Segurei sua mão. — Não é nada ruim. Ele continuou me olhando com desconfiança. — É sobre a faculdade? — Não. — Sobre o JJ? — Também não. — Você está bem? — Estou. Jacob franziu a testa. — Então fala logo, Nessie. Mordi o lábio para conter o sorriso. — Aconteceu uma coisa. — Você acabou de dizer isso. — Estou tentando contar. — E eu estou ficando preocupado. Ri baixinho. — Você realmente não tem paciência. — Renesmee. O jeito como falou meu nome me fez desistir de prolongar a brincadeira. Peguei sua mão e entrelacei nossos dedos. Durante alguns segundos apenas olhei para ele, tentando guardar aquela expressão séria antes de acabar com todo o mistério. — Lembra que minha mãe estava estranha comigo hoje? Jacob pensou por um instante. — Bella está sempre estranha quando está escondendo alguma coisa. — Dessa vez ela estava escondendo. — O quê? Respirei fundo. — Um segredo meu. A preocupação voltou ao rosto dele. — Nessie, você está começando a me assustar. Aproximei-me mais e levei sua mão até minha barriga. Jacob baixou os olhos. Ficou alguns segundos olhando para nossas mãos e depois voltou a me encarar. Ainda não tinha entendido. Sorri. — Eu estou grávida. Ele não reagiu. Apenas ficou me olhando. Por um instante achei que não tivesse escutado. — Jake? Seus olhos desceram novamente para minha barriga. — Grávida? Comecei a rir. — É. — Você está... Ele apontou para minha barriga como se precisasse confirmar onde exatamente um bebê ficava. — Tem um bebê aí? Minha risada aumentou. — Essa costuma ser a definição. Jacob abriu a boca, fechou novamente e passou a mão pelo rosto. Eu nunca tinha visto aquele homem completamente sem palavras. Nem quando soube da gravidez de JJ ele ficou daquele jeito, embora as circunstâncias naquela época fossem tão diferentes que quase parecia outra vida. — Você está falando sério? Assenti. — Fiz o exame ontem. E hoje de manhã confirmei com a Rebecca antes da inauguração. Ele ficou imóvel mais alguns segundos. — Minha irmã sabia? — Sabia. — Bella sabia? — Sabia. — E eu fui o último? — Você foi o primeiro que eu quis contar pessoalmente. Jacob tentou parecer ofendido, mas o sorriso começou a surgir no canto de sua boca e acabou com qualquer possibilidade de manter a expressão séria. — Nós vamos ter outro filho? Foi a maneira como perguntou que me emocionou. Não havia dúvida, medo ou preocupação em sua voz. Havia uma felicidade quase infantil. — Vamos. O sorriso dele se abriu completamente. Antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, Jacob passou os braços ao redor da minha cintura e me tirou do chão. — Jacob! Comecei a rir enquanto segurava seus ombros. — Me coloca no chão! — Você está grávida! — Exatamente por isso você deveria me colocar no chão! Ele obedeceu imediatamente. — Desculpa. Olhou para minha barriga, preocupado. — Eu apertei você? Gargalhei. — Jake, eu descobri ontem. Não sou de porcelana. Ele pareceu perceber o próprio exagero e começou a rir também. Depois se ajoelhou diante de mim sem qualquer cerimônia e colocou as duas mãos sobre minha barriga. — Oi. Olhei para ele, emocionada. — Ele ainda não escuta você. — Não importa. Jacob beijou minha barriga por cima do vestido. — O papai já está aqui. Passei os dedos pelos cabelos dele. — Ou a mamãe. Jacob levantou o rosto. — Você acha que é menina? — Não faço ideia. — Eu quero uma menina. Arqueei uma sobrancelha. — Há três minutos você nem sabia que existia um bebê. — E agora já tenho preferência. — Coitada dessa criança. Ele se levantou e segurou meu rosto entre as mãos. — Eu estou muito feliz. Meu sorriso vacilou quando senti os olhos arderem.— Eu também. Jacob me beijou novamente, dessa vez de uma maneira diferente. Havia carinho demais naquele beijo para qualquer brincadeira continuar. Passei os braços ao redor dele e fiquei ali, sentindo suas mãos acariciarem minhas costas enquanto tentava não chorar. Quando nos afastamos, ele manteve a testa encostada na minha. — Obrigado. Franzi a testa. — Pelo quê? — Por mais um filho. Pela nossa casa. Pelo JJ. Por tudo isso. Acariciei seu rosto. — Nós fizemos tudo isso juntos. Jacob sorriu e voltou a colocar a mão sobre minha barriga. — Então agora somos quatro. — Somos. Ele ficou pensativo por alguns segundos. — Acho que precisamos de outra babá. Soltei uma gargalhada e bati em seu peito. — Eu sabia! Jacob começou a rir enquanto me abraçava. — Dessa vez você não vai ganhar essa discussão. — Nem começa, Jacob Black. — Duas crianças, duas babás. Matemática simples. — Você vai dormir no sofá. — Minha esposa grávida jamais faria isso comigo. Olhei para ele. — Quer testar? Jacob me beijou antes que eu continuasse reclamando, ainda rindo contra meus lábios.
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