Já fazia três dias que eu tentava digerir tudo. Mas por mais que trabalhasse até a exaustão, que cavalgasse até meus músculos queimarem, o pensamento voltava sempre ao mesmo lugar: um filho. Um filho que eu nunca planejei, que viria de uma mulher que eu sequer conhecia.

A manhã estava clara, o céu limpo refletindo nos campos úmidos de orvalho. O cheiro de terra misturado ao capim recém-cortado preenchia o ar. Minha fazenda era o que me mantinha de pé — os cavalos de raça trotando elegantes no cercado, as vacas espalhadas pelo pasto, os peões a distância cuidando da lida. Era meu reino de madeira, suor e poeira.

Eu cavalgava devagar sobre Trovão, o meu garanhão negro, enquanto o som dos cascos batendo no chão me ajudava a organizar os pensamentos. De longe, vi Sam encostado na cerca, observando as vacas como se estivesse prestes a julgá-las.

— Bom dia, capitão da boiada — falei, desmontando do cavalo.

Sam riu.

— Bom dia, milionário das terras. — Olhou para mim de lado, com aquele olhar que parecia atravessar qualquer armadura. — Você anda estranho, Jacob. Não é mais o mesmo desde a confusão com a Heidi.

Apertei a sela, tentando evitar o assunto, mas ele não deu trégua.

— Vou ser sincero, como sempre fui — continuou. — Todo mundo aqui comenta a mesma coisa: nunca entenderam como você casou com ela. Pra esse povo, a Heidi sempre foi mimada, fútil, nunca gostou da terra nem das pessoas daqui. Viveu como se fosse melhor que todos nós.

Suspirei fundo, encostando os braços na cerca.

— Você não tá errado, Sam. Eu amei a Heidi… de verdade. Mas o ciúme dela sufocava tudo. O casamento se tornou uma prisão.

Ele me olhou, esperando mais.

— Quando ela engravidou, quatro anos atrás, eu senti que tinha uma responsabilidade com ela. Mesmo depois da perda… eu continuei achando que era meu dever cuidar dela. E isso nos manteve juntos.

Sam franziu o cenho, balançando a cabeça.

— Dever não sustenta casamento, Jacob. E você sabe disso melhor que ninguém.

Fiquei em silêncio, observando as vacas pastando calmamente, enquanto por dentro eu era o oposto daquilo: um redemoinho.

Um filho que não vinha da minha esposa. Uma vida crescendo em algum lugar que eu não conhecia.

E, pela primeira vez em muito tempo, eu não tinha respostas.


O cheiro de feno e madeira molhada me envolvia dentro do celeiro. Sentei num banco velho, encostei os cotovelos nos joelhos e passei as mãos pelo rosto.

Um filho. Uma criança que nem deveria existir dessa forma.

Mas e se a mulher que o carregava não quisesse seguir com isso? E se ela visse aquela gravidez como um erro e decidisse interromper? Eu não tinha nenhum direito sobre ela, e ainda assim, a ideia de perder esse bebê antes mesmo de conhecê-lo me corroía.

Levantei de repente, como se não conseguisse mais respirar ali dentro. Montei no Trovão e galopamos até a casa principal. O vento batia no meu rosto, mas nem a velocidade do cavalo acalmava o turbilhão dentro de mim.

Quando entrei no saguão da mansão, Rachel estava à minha espera.

— Jake — disse, com aquele olhar sério que só ela tinha —, a Heidi está no quarto.

Suspirei fundo, já pressentindo a confusão.

— Certo.

Subi as escadas devagar, cada passo pesado como chumbo. Quando empurrei a porta, encontrei Heidi de costas, arrumando malas sobre a cama. Vestidos, sapatos e frascos de perfume espalhados como se ela fosse embora para sempre.

— Então… — quebrei o silêncio — você finalmente tomou a melhor decisão.

Ela se virou, os olhos faiscando.

— Não, Jacob. Não é isso que você pensa. Eu não estou indo embora de você… estou indo para Seattle.

Franzi a testa, confuso.

— Seattle? Pra quê?

Ela ergueu uma revista que estava aberta sobre a mala.

— Eu li. Li que em alguns casos a mulher pode ser apenas a hospedeira do bebê. Mas… — sua voz tremeu, carregada de esperança — se eles usaram o meu óvulo, Jacob, então esse bebê é meu. É nosso.

Meu coração falhou uma batida.

— O quê? — perguntei, sentindo a garganta secar. — Você tá dizendo… que esse filho pode ser seu?

Ela deu um passo em minha direção, segurando a revista contra o peito.

— Eu vou descobrir. Vou até aquele hospital e vou saber a verdade.

Fiquei imóvel, em choque. O chão parecia se abrir sob meus pés. Porque, pela primeira vez, percebi que essa história podia ser ainda mais complicada do que eu imaginava.


Olhei para Heidi, ainda segurando aquela revista contra o peito como se fosse uma prova irrefutável. Respirei fundo, tentando manter a calma.

— Se você vai até Seattle, eu vou com você. — A decisão saiu sem hesitação. — Não vou deixar que isso vire uma confusão ainda maior que prejudique a criança… ou a minha irmã.

Ela arregalou os olhos, surpresa, mas antes que pudesse responder, fui até o armário, puxei uma bolsa de viagem e joguei algumas peças de roupa lá dentro. Não precisava de muito — só do necessário.

Em menos de meia hora, estávamos no carro. O silêncio entre nós era sufocante, apenas o som do motor preenchendo o espaço. Mantive os olhos fixos na estrada, até que resolvi quebrar o gelo.

— Heidi, ouve bem o que vou dizer. — Minha voz saiu firme, dura. — Mesmo que esse bebê seja como você acredita, mesmo que tenham usado seu óvulo… isso não muda nada. Eu vou cuidar dessa criança. Mas o nosso casamento acabou. Vou pedir o divórcio.

Ela virou o rosto para mim, os olhos faiscando de fúria.

— Você não pode fazer isso comigo! Eu lutei todos esses anos por nós!

— Não, Heidi — corrigi, mantendo a atenção na estrada. — Você lutou por controlar tudo. O ciúme destruiu o que eu sentia. O que eu tinha por você se perdeu no meio da sua obsessão.

Ela ficou em silêncio, respirando fundo, mas eu não a encarei. O que tínhamos estava morto fazia tempo.

Peguei o celular do bolso e disquei o número da Rebecca. Quando ela atendeu, sua voz veio preocupada.

— Jake?

— Estou indo para Seattle com a Heidi. — A firmeza na minha voz não deixava margem para dúvida. — Quero entender tudo isso de uma vez.

Do outro lado da linha, ouvi Rebecca suspirar fundo.

— Então é melhor você se preparar, irmão. Porque quando chegar aqui, vai ter que encarar a verdade inteira.

Desliguei o telefone e joguei o celular no console. Mantive as mãos firmes no volante, sentindo o peso do futuro se aproximar mais rápido do que eu queria.

A estrada até Seattle parecia interminável. Heidi passou quase todo o caminho em silêncio, apenas tamborilando os dedos nervosos sobre a janela do carro. O som dos pneus contra o asfalto era o único que me mantinha no presente, enquanto minha mente voava para possibilidades que eu preferia não imaginar.

Quando a cidade começou a surgir diante de nós, o céu estava cinzento, típico de Seattle. As torres de vidro refletiam a luz fraca da tarde, e o tráfego intenso nos obrigou a reduzir a velocidade. Heidi ajeitava o cabelo e o batom pelo espelho retrovisor, como se fosse entrar em um palco — e não em um hospital para encarar a verdade.

O Hospital Cullen se erguia imponente na avenida, um prédio moderno de vidro e concreto. Estacionei o carro na garagem subterrânea, desliguei o motor e respirei fundo antes de sair.

Entramos pelo saguão, onde o cheiro de antisséptico misturado a café barato dominava o ar. O balcão de recepção estava cheio de pacientes e visitantes, mas bastou eu pedir por Rebecca Black que uma das atendentes ligou e nos orientou ao elevador.

O corredor do setor ginecológico era silencioso, exceto pelo som abafado de passos e vozes ao longe. Quando chegamos à sala de Rebecca, batemos na porta.

— Entrem. — A voz dela veio firme, mas acolhedora.

Rebecca estava atrás da mesa, de jaleco branco, óculos na ponta do nariz e uma pasta de prontuários aberta. Ao nos ver, levantou-se, abraçou Heidi brevemente e me cumprimentou com um aceno contido.

Sentamos lado a lado. Eu cruzei os braços, enquanto Heidi ajeitava a saia nervosamente.

— Rebecca… — Heidi começou, com os olhos marejados. — Eu sei que parece loucura, mas eu li numa revista que existe uma chance. Que às vezes a mulher pode ser apenas a hospedeira do bebê. Mas… se usaram meu óvulo, então o bebê é meu e do Jacob.

Rebecca suspirou fundo e se apoiou na mesa, olhando-a com seriedade.

— Heidi, eu sei que você está desesperada. Mas preciso que escute com atenção.

Heidi assentiu, mordendo o lábio.

— Existem diferentes tipos de inseminação artificial — explicou Rebecca, pausadamente, como se escolhesse cada palavra com cuidado. — Em alguns casos, sim, o esperma pode ser introduzido no útero da mulher, e o óvulo é dela. Mas não foi o que aconteceu aqui.

Heidi arregalou os olhos, inclinando-se para frente.

— Então… o que aconteceu?

Rebecca fechou a pasta e encarou nós dois.

— O material genético do Jacob foi colocado diretamente no óvulo de Renesmee Cullen. Isso significa que o bebê não é seu, Heidi. É filho dele… e dela.

O silêncio na sala foi pesado. Senti meu coração disparar, uma pressão absurda contra o peito.

Heidi, por outro lado, parecia perder o ar. Sua expressão de esperança desabou de uma vez, os olhos enchendo-se de lágrimas de pura fúria.

Eu fiquei imóvel, tentando absorver aquelas palavras, mas no fundo sabia que nada voltaria a ser como antes.