Heidi levantou-se da cadeira como se tivesse levado um tapa. Os olhos dela faiscavam de raiva, e sua voz ecoou alta no consultório.

— Isso é mentira! Você está inventando, Rebecca! — Ela batia a mão na mesa da irmã. — Esse bebê tinha que ser meu, você me garantiu que…

Rebecca ergueu a voz, mais firme que ela.

— Chega, Heidi! — apontou para a porta. — Este é o meu consultório e você não vai transformar isso num circo. Você não é o Jacob. Então, se não consegue se controlar, saia. Agora.

Heidi olhou para mim, esperando cumplicidade. Mas encontrei apenas gelo no meu próprio olhar.

— Vai embora, Heidi — disse baixo, mas com uma firmeza que não deixava espaço para discussão. — Antes que eu seja obrigado a te arrastar por esses corredores.

Ela abriu a boca, ofendida.

— Você não pode falar assim comigo! Eu sou sua esposa!

Cruzei os braços.

— Não por muito tempo. Meu advogado vai entrar em contato com você em breve.

Os olhos dela se encheram de lágrimas de ódio.

— Você acha que vai se livrar de mim assim fácil? — cuspiu as palavras, a voz tremendo. — Pois está enganado, Jacob. Eu ainda sou sua esposa.

Rebecca já não tinha paciência.

— Já chega, Heidi. Saia.

Com um último olhar cheio de rancor, Heidi pegou a bolsa de forma brusca e saiu, batendo a porta com força.

O silêncio caiu no consultório. Passei as mãos pelo rosto, tentando respirar. O peso do que tinha acabado de ouvir ainda latejava em mim.

— Rebecca… — comecei, a voz baixa, rouca. — Eu tô preocupado.

Ela me olhou, sem dizer nada, esperando que eu continuasse.

— E se essa mulher… — engoli seco — se a Renesmee… não quiser levar a gravidez adiante? Existe essa possibilidade?

Rebecca suspirou fundo, tirando os óculos e os colocando sobre a mesa.

— Existe, Jake. Essa escolha é dela. Só dela.

Meu coração se apertou de um jeito que doía fisicamente. A ideia de perder esse filho que já era parte de mim, antes mesmo de eu conhecer o rosto da mãe, me deixava sem chão.

— Eu não sei o que fazer, Rebecca… — confessei, encarando o vazio. — Eu não sei como lidar com isso.

Ela se inclinou para frente, pousando a mão sobre a minha.

— Então vai ter que aprender, irmão. Porque essa criança é real. E não importa o que aconteça, você precisa estar preparado.


Rebecca ficou em silêncio por alguns instantes, como se estivesse escolhendo bem as palavras. Por fim, apoiou os cotovelos na mesa e falou devagar:

— Jake… a Renesmee tem só vinte anos. É praticamente uma menina ainda. Eu não posso nem imaginar o que ela deve estar passando agora.

Balancei a cabeça, me levantando da cadeira como se o ar tivesse ficado pesado demais. Andei até a janela do consultório, olhando a cidade cinzenta lá fora.

— Então eu preciso conhecê-la. — Minha voz saiu firme. — Preciso olhar nos olhos dela e dizer que não está sozinha. Que eu vou apoiar qualquer decisão que ela tomar, mas que, se ela permitir, eu quero que essa criança venha ao mundo.

Rebecca se levantou também, preocupada.

— Jake, não é tão simples assim. Estamos falando da filha de Edward Cullen. E você sabe quem ele é. Ele tem influência em Seattle, tem poder, conexões. Nada acontece sem que ele saiba.

Virei para ela, a raiva e a determinação se misturando no meu peito.

— Eu não dou a mínima para a influência dele. — Apertei os punhos. — Esse bebê é meu filho, Rebecca. E eu só quero o direito de protegê-lo.

Minha irmã me olhou com um misto de orgulho e receio. Ela respirou fundo, cruzou os braços e, enfim, assentiu.

— Eu vou conversar com Renesmee primeiro. — Sua voz saiu firme, mas com cuidado. — Não quero forçá-la a nada. Se ela aceitar… então eu marco esse encontro.

Assenti, passando a mão pelo cabelo, sentindo a adrenalina correr em minhas veias.

— É tudo o que eu peço. Uma chance.

Rebecca se aproximou e colocou a mão no meu ombro.

— Mas você precisa estar preparado, Jake. Porque essa conversa pode mudar a vida de vocês dois.

Olhei para ela e assenti em silêncio, sentindo o peso do destino cair sobre mim.

Despedi-me de Rebecca com um abraço rápido. Ela ficou no consultório, séria, já pensando nos próximos passos. Eu segui sozinho pelos corredores frios do hospital, cada passo ecoando junto do peso que carregava.

Quando cheguei ao estacionamento, a visão me fez bufar de frustração. Heidi estava encostada no meu carro, braços cruzados, expressão desafiadora.

— Era só o que me faltava… — murmurei, passando a mão pelo rosto.

Ela ergueu o queixo.

— Vou ficar no nosso apartamento em Seattle. E você não pode me impedir. Ainda somos legalmente casados.

Suspirei fundo, tirei a chave do bolso e a entreguei sem hesitar.

— Fica à vontade.

Ela franziu a testa, confusa.

— O que você tá fazendo?

Abri a porta do carro ao lado.

— Indo para um hotel. — Liguei o motor e a encarei por um segundo. — Você pode continuar tentando controlar todo mundo, Heidi, mas não vai me controlar mais.

Antes que ela pudesse responder, engatei a marcha e saí, deixando-a sozinha no estacionamento.

Dirigi pelas ruas molhadas de Seattle, a cidade iluminada por postes e letreiros de neon refletidos no asfalto escuro. O coração ainda estava acelerado, não pelo trânsito, mas pelo peso da vida que parecia mudar a cada hora.

Foi então que, ao virar numa avenida perto de Belltown, uma jovem atravessou de repente na frente do carro. Pisei com força no freio. O som estridente ecoou, e ela caiu no chão, o corpo frágil contra o asfalto.

— Droga! — soltei, saindo desesperado do carro.

Corri até ela e me ajoelhei, a respiração em descompasso.

— Ei! Você está bem? — perguntei, apavorado, estendendo a mão para ajudá-la.

A garota ergueu o rosto devagar, e mesmo na penumbra das luzes da rua, consegui ver seus olhos assustados e ao mesmo tempo profundos.

Algo em mim congelou.

A jovem ainda estava no chão, os cabelos castanhos acobreados caindo em ondas pelo rosto. Me ajoelhei diante dela, e por um instante me perdi na intensidade dos olhos dela — havia algo ali, um brilho inocente e ao mesmo tempo cheio de intensidade.

— Você tem certeza que está bem? — perguntei, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar.

Antes que ela respondesse, ouvimos vozes femininas se aproximando às pressas.

— Nessie! — duas jovens apareceram correndo. Uma morena de cabelo preso e uma loira de olhos claros. Ambas se ajoelharam ao lado dela, preocupadas.

— Meu Deus, o que aconteceu? — a loira perguntou, passando o braço pela amiga.

A garota respirou fundo e ajeitou os cabelos, tentando sorrir.

— Tá tudo bem. O motorista freou a tempo. Foi só um susto.

Olhei para ela de novo, ainda incrédulo com a calma.

— Tem certeza? Eu posso levá-la ao hospital. É melhor não arriscar.

A morena concordou, mas antes que pudesse insistir, a própria garota balançou a cabeça.

— Não precisa. Eu realmente estou bem.

Foi então que a loira se virou para mim, erguendo o queixo de forma protetora.

— Ela é nossa prima. Pode ficar tranquilo, nós cuidamos dela.

Assenti devagar, sem argumentos. A jovem — Nessie, como elas a chamaram — me olhou nos olhos e abriu um pequeno sorriso de gratidão.

— Obrigada pela gentileza.

Engoli em seco e dei um passo para trás. Voltei para o carro, ainda atordoado. Quando fechei a porta e liguei o motor, não resisti: olhei mais uma vez pelo retrovisor.

Ela estava ali, entre as primas, os cabelos soltos dançando com a brisa noturna.

E sem pensar, deixei escapar em voz baixa:

— Que mulher linda…

Engatei a marcha e parti, sem imaginar o quanto aquela desconhecida ainda mudaria toda a minha vida.