NARRADO POR JACOB

Quatro meses.

Quatro meses desde que minha vida virou de cabeça pra baixo no consultório da Rebecca.

Quatro meses desde que descobri que seria pai.

E, de alguma forma que eu ainda tentava entender, esses quatro meses foram… bons.

Eu passei a dirigir pra Seattle quase todas as semanas. Acompanhava os exames, ouvia o coraçãozinho do bebê, segurava as mãos de Renesmee quando ela ficava nervosa. E cada visita aproximava a gente um pouco mais. Ela ria das minhas preocupações. Eu fingia que não reparava no jeito que ela apertava minha mão quando o bebê mexia. E assim a gente seguia, encontrando um ritmo novo que parecia natural demais.

Mas ali, naquele dia, eu estava na fazenda, de volta ao meu mundo com cheiro de pasto, madeira e couro.

Eu, Paul e Embry estávamos no escritório finalizando algumas planilhas. Embry apontava para uma das telas.

— Viu isso aqui? — ele comentou, animado. — Se continuar desse jeito, dá pra gente comprar mais uns hectares lá pro lado leste.

Paul riu. — Você fala isso como se terra estivesse sobrando, moleque.

Eu me recostei na cadeira, pensativo.

— Não é má ideia. Se o aumento das vendas continuar, pode ser uma boa expansão.

Embry bateu na mesa, satisfeito.

— Eu falei! Sabia que você ia considerar.

Encerramos a reunião logo depois. Eles pegaram os casacos e saímos do escritório.

Na sala, minha mãe estava sentada no sofá, folheando uma revista de decoração, com os óculos na ponta do nariz.

— Bom dia, mãe — falei, passando por ela.

— Meu filho — Sarah respondeu, sem desviar os olhos das páginas. — Já terminou os números?

— Por enquanto.

De repente, Lucy entrou com uma bandeja nas mãos. Chá para minha mãe, como sempre.

Assim que nossos olhares se cruzaram, ela desviou rápido… mas não antes de eu notar algo estranho. Pálida. Olheiras. Diferente.

Paul se levantou primeiro.

— Bom.Sarah, eu vou indo. Rachel tá curtindo Paris, então vou aproveitar pra colocar a casa em ordem antes dela voltar.

— Mande lembranças pra ela — minha mãe respondeu, sorrindo.

Embry pegou o chapéu.

— Eu já tô atrasado no estábulo. Zeus não vai se alimentar sozinho. Até mais, Jake.

— Até — respondi, enquanto os dois saíam, deixando a sala só pra mim, minha mãe… e Lucy.

Lucy ajeitou a bandeja na mesa de centro e limpou as mãos no avental.

— Senhora Sarah — ela disse baixinho — a senhora ainda vai precisar de mim agora? Eu… acho que não estou me sentindo muito bem.

Minha mãe levantou o rosto na mesma hora.

— Você está pálida, menina. Está doente?

Lucy balançou a cabeça depressa.

— Não, não. Acho que é só um mal-estar. Nada demais.

E antes que qualquer um de nós pudesse perguntar mais alguma coisa, ela virou as costas e saiu quase correndo da sala.

Eu fiquei olhando a porta se fechar atrás dela.

Fiquei olhando a porta por alguns segundos depois que Lucy saiu, tentando entender aquele mal-estar repentino. Antes que eu pudesse organizar um pensamento, ouvi a voz da minha mãe atrás de mim.

— Jacob… — Sarah fechou a revista devagar, me encarando com aquele olhar que eu já sabia que viria acompanhado de problema. — Existe alguma possibilidade… mesmo que pequena… de você ter engravidado essa menina?

Eu quase engasguei com o ar.

— Mãe… pelo amor de Deus — levei a mão à testa, constrangido até a raiz do cabelo. — Não. Não existe essa possibilidade.

— Tem certeza? — ela insistiu, cruzando os braços. — Porque esse enjoo repentino, essa palidez… eu conheço os sinais.

— Mãe… — suspirei, irritado e envergonhado ao mesmo tempo — eu estou dizendo que não. Isso não aconteceu.

Sarah ficou me observando como quem analisa um suspeito.

— De qualquer forma, eu vou investigar esse tal mal-estar — decretou, como se estivesse falando de um rebanho doente. — Não quero surpresas desagradáveis.

Revirei os olhos.

— Deve ser só uma virose, mãe. Ela vive indo e voltando da cidade. Isso acontece.

Sarah ergueu uma sobrancelha, afiada.

— Quando se trata de uma Clearwater… uma virose é sempre um perigo.

Eu bufei.

— O que exatamente a senhora tem contra as filhas de Harry e Sue? — perguntei, já cansado dessa implicância que ela guardava Deus sabe desde quando.

Sarah pigarreou, ajeitando a postura.

— Harry é um bom homem. Leah puxou a ele, firme, correta. Mas aquela Lucy… — ela apontou para a porta por onde a menina tinha sumido — é ardilosa como a mãe.

Eu passei a mão no cabelo, frustrado.

— Mãe… sério… deixa isso pra lá. A senhora tá vendo coisa onde não tem. Lucy não tem nada demais.

Sarah estreitou os olhos como se dissesse “veremos”.

Eu decidi não prolongar aquilo. Respirei fundo e troquei de assunto.

— Eu… preciso pegar a estrada — falei, me levantando. — Amanhã é o exame. A gente vai descobrir o sexo do bebê.

Os olhos da minha mãe suavizaram na hora.

Um sorriso quente — aquele que ela só dava quando algo realmente a emocionava — apareceu.

— Mal posso esperar pra saber — disse, com a voz cheia de brilho.

Eu sorri de volta, meio sem jeito.



A estrada até Seattle sempre me deu tempo demais pra pensar.

Mas, naquela tarde, pela primeira vez em semanas… a sensação era boa.

Amanhã a gente descobriria se era menino ou menina.

E, por algum motivo que eu ainda não sabia explicar, isso me deixava ansioso feito um moleque.

Estacionei no prédio e antes mesmo de subir liguei para ela.

O telefone chamou duas vezes.

— Alô? — a voz dela veio suave, ligeiramente ofegante, como se tivesse corrido até o aparelho.

Meu peito afrouxou.

— Cheguei em Seattle — falei, apoiando o ombro na caminhonete. — Pensei em… te avisar.

O silêncio dela foi curto, mas cheio de coisa não dita.

— Que bom — respondeu por fim, e eu juro que ouvi um sorriso escondido aí. — Eu estava esperando sua ligação.

Aquilo me pegou.

Mais do que eu deixei transparecer.

— Animada pro exame de amanhã? — perguntei.

— Ansiosa — ela riu, e o som me pegou no meio do dia como um soco gostoso. — Acho que nem vou conseguir dormir.

— Então vamos garantir que você fique cansada o suficiente pra isso — falei, meio brincando. — Topa jantar comigo hoje?

— Jantar? — ela disse, com aquele tom de quem estava sorrindo com as sobrancelhas erguidas. — Não sei… preciso checar minha agenda.

Ri alto, balançando a cabeça.

— Eu esqueci que essa futura mamãe é importante demais.

— Talvez eu seja — ela retrucou, divertida.

— Eu te busco às oito — falei, decidido. — Nem adianta tentar fugir.

— Eu não vou fugir — ela respondeu, baixinho.

Por um segundo, nenhum dos dois falou nada.

Deu pra sentir o peso bom daquele silêncio.

— Então… às oito — ela repetiu.

— Às oito — confirmei.

Desliguei o celular devagar, ainda segurando o aparelho por alguns segundos.

A ideia de vê-la de novo hoje à noite…

não devia mexer comigo desse jeito.

Mas mexia.

E muito.



O portão eletrônico se abriu devagar, revelando a mansão dos Cullen iluminada pela noite.

Respirei fundo, ajeitei a camisa e estacionei. Não sei por quê, mas meu coração andava batendo mais rápido do que o normal toda vez que eu vinha aqui.

Toquei a campainha.

Foi Bella quem abriu a porta.

— Jacob… — ela disse, com um sorriso que tentava ser cordial, mas não disfarçava o nervosismo. — Boa noite.

Algo estava errado. Muito errado.

O olhar dela estava inquieto, a postura tensa, como se tentasse esconder algo atrás da porta.

— Boa noite, Bella — respondi, tentando não entregar que também percebi. — A Renesmee está pronta?

Antes que ela respondesse, Edward apareceu no corredor, o rosto fechado, os olhos duros.

— Black — disse ele, com um aceno rápido. — Precisamos conversar. No meu escritório. Agora.

Aquilo me soou estranho.

Dei um passo à frente, pronto pra seguir, quando uma voz cortou o ambiente como uma lâmina.

— Não, pai.

Eu resolvo isso sozinha.

Me virei.

Renesmee descia as escadas com passos firmes, ombros tensos, rosto cheio de fúria — uma fúria que eu nunca tinha visto nela.

E antes que eu abrisse a boca pra perguntar o que estava acontecendo, ela chegou perto demais, os olhos brilhando de raiva e… mágoa?

— Renesmee? — eu tentei, confuso. — O que—

A bofetada veio antes da frase terminar.

Minha cabeça virou para o lado com o impacto. Fiquei imóvel, sem entender nada.

Bella levou a mão à boca.


A bofetada ainda queimava, mas nada comparado ao nó que se fechou no meu peito quando vi o jeito que ela me olhava… como se eu fosse o inimigo.

— Renesmee… do que você está falando? — perguntei, tentando manter a calma.

Ela respirou fundo, como alguém reunindo forças para reviver algo horrível.

— Da sua mulher — respondeu, a voz embargada, mas firme. — A senhora Heidi Black. Ela esteve aqui. Com os advogados dela.

Meu coração afundou.

— O quê? — sussurrei, completamente atordoado.

— Ela disse que você vai lutar pela guarda total — Renesmee continuou, cada palavra uma flecha. — Que você já tem um processo preparado. Que só está se aproximando de mim pra construir imagem… pra parecer o pai perfeito. Pra me tirar do caminho.

Eu abri a boca, mas nada saiu.

Aquela acusação… aquela dor nos olhos dela… me desmontou inteiro.

— Nessie, isso não é verdade. Eu jamais — comecei.

— Chega, Jacob — ela cortou, erguendo a mão como se eu fosse uma ameaça. — Eu acreditei em você. Acreditei na sua preocupação. Na sua gentileza. E agora eu descubro que… que tudo isso foi parte de um plano?

— Não! — minha voz saiu firme, quase desesperada. — Renesmee, Heidi está mentindo. Ela faria qualquer coisa pra me atingir. Você precisa acreditar em mim.

Ela deu um sorriso fraco, triste.

— Eu queria acreditar. Mas ela trouxe advogados, Jacob. Advogados. Ela sabia detalhes… sobre a inseminação, sobre mim, sobre você… detalhes que eu não falei pra ninguém além da minha família.

Edward, que tinha ficado em silêncio até então, deu um passo à frente.

— Renesmee — ele pediu com a voz calma. — Filha, ao menos ouça o que Jacob tem a dizer. Não tome uma decisão assim, no calor da raiva.

Mas ela nem olhou para ele.

Magoada demais.

Machucada demais.

— Pai… por favor — disse, a voz falhando. — Eu só preciso… de espaço.

E voltou o olhar pra mim, mas era um olhar que doeu mais do que qualquer tapa.

— Eu não quero ouvir mais nada de você hoje — sussurrou. — Nada.

E então virou o rosto, como se apenas me ver já fosse doloroso demais.

Eu fiquei ali, parado na entrada da mansão Cullen…

com a certeza esmagadora de que a mulher que mais importava naquele momento

não apenas acreditava numa mentira…

…mas acreditava que eu era capaz de destruir a vida dela.