O caminho até o restaurante foi quieto — quieto demais.

Renesmee estava no banco do passageiro, com o olhar perdido na janela, observando o movimento das ruas de Seattle como se tentasse se perder ali. De vez em quando, o vento jogava uma mecha do cabelo ruivo sobre o rosto dela, e ela ajeitava distraída, sem dizer uma palavra.

O rádio tocava uma música suave, e o som do motor preencheu o resto do silêncio. Eu não quis forçar conversa. Às vezes, o silêncio diz mais do que qualquer tentativa de consolo. Mas o jeito que ela mexia nas mãos, os dedos entrelaçados, denunciava que alguma coisa não ia bem.

Quando estacionei, ela piscou, confusa, olhando ao redor. — Jacob… esse não é o restaurante.

Olhei pra ela e dei um meio sorriso. — Eu sei.

Ela arqueou uma sobrancelha, curiosa. — Então por que parou aqui?

Suspirei e apoiei o braço no volante, virando-me pra encará-la. — Porque eu queria saber o que aconteceu.

— O quê? — perguntou, surpresa.

— O seu ex — falei direto, sem rodeios. — O que ele fez?

Ela pareceu pegar ar, como se eu tivesse acabado de invadir um território que ela queria manter trancado. — Por que você acha que ele fez alguma coisa? — perguntou com a voz mais baixa.

Dei um leve sorriso, sem ironia. — Porque o brilho nos seus olhos… sumiu.

Ela desviou o olhar, e o silêncio voltou. Os dedos dela voltaram a brincar entre si, nervosos. Ficamos assim por alguns segundos, até que ela finalmente falou, quase num sussurro:

— Foi uma conversa difícil. Mas… definitiva.

Assenti devagar, sem insistir. — Ele não merece que você chore por ele, Nessie.

Ela soltou um riso fraco, mas sem humor. — Eu sei. Só que… é estranho ver alguém que você achou que conhecia se transformar em um estranho.

— Às vezes, é o contrário — falei, olhando pra frente. — Às vezes a gente só demora pra enxergar quem a pessoa sempre foi.

Ela ficou quieta. A respiração dela era leve, mas trêmula. Então, sem dizer nada, apenas encostou devagar a cabeça no meu ombro.

Por um momento, o tempo pareceu parar. Eu podia sentir o perfume dela, doce e suave, e o peso leve da confiança que aquele gesto carregava.

— Obrigada — murmurou ela. — Por me ouvir.

Engoli em seco e respondi baixo, quase num sussurro. — Sempre.

Ficamos assim, em silêncio, com a cidade se movendo lá fora.


O clima dentro do carro ficou leve depois de um tempo, e eu soube que era hora de tirar aquele peso dos ombros dela. Eu olhei de lado — ela ainda encostada no banco, os olhos perdidos pela janela, uma mecha do cabelo caindo sobre o rosto.

— Sabe — comecei, soltando um suspiro fingido de quem estava prestes a tomar uma decisão importante — acho que hoje é o dia perfeito pra eu cumprir minha promessa.

Ela virou o rosto, confusa. — Promessa?

— É — respondi com um meio sorriso. — Eu disse que ia realizar seus desejos, lembra? Desejos de grávida são leis, senhorita Cullen.

Renesmee riu baixinho, uma risada leve, quase tímida. — E o que exatamente você pretende fazer?

— Ué, começar pelos desejos, claro. — Cruzei os braços fingindo seriedade. — Então, me diga. O que a mamãe do meu filho está com vontade de comer hoje?

Ela deu risada e revirou os olhos. — Quando você fala assim parece que eu tenho nove meses de gravidez.

— E aí? — insisti, inclinando um pouco o corpo. — O que vai ser? Sorvete, batata frita, bolo de chocolate com picles?

Renesmee apoiou o queixo na mão, pensativa, mas o sorriso já não saía do rosto. — Hm… acho que uma massa.

— Massa? — perguntei, arqueando uma sobrancelha. — Tipo o quê?

— Tipo uma boa macarronada, daquelas de restaurante italiano mesmo. — Ela olhou pra mim, o olhar mais leve do que eu tinha visto o dia todo. — No Il Terrazzo Carmine, talvez.

Assobiei, impressionado. — Gostei da escolha. É um dos melhores da cidade.

— Eu sei — respondeu, rindo. — Meu pai adora esse lugar.

— Então tá decidido — disse, ligando o motor. — Seu desejo é uma ordem.

Ela riu outra vez, e o som da risada dela encheu o carro de um jeito que eu não conseguia explicar. Era como se, por um instante, o mundo lá fora tivesse parado.

Enquanto eu dirigia pelas ruas de Seattle, vi pelo canto do olho o sorriso dela se manter. Os olhos brilhavam de novo, refletindo as luzes da cidade e a calma que eu tanto queria devolver a ela.

Ela olhava pela janela, o rosto suavizado pela tranquilidade que começava a voltar.

E eu, por algum motivo que ainda não sabia explicar, me senti satisfeito só de ver aquele pequeno sorriso nos lábios dela.

Era simples, mas verdadeiro.

E talvez, naquele momento, fosse tudo o que eu precisava.


O Il Terrazzo Carmine estava cheio, como sempre, mas conseguimos uma mesa próxima à janela. O restaurante tinha aquele ar elegante, com luz baixa, cheirando a vinho e manjericão fresco. Renesmee parecia mais tranquila ali — os ombros relaxados, o olhar curioso percorrendo o ambiente.

Ela mexia o garfo no prato de massa enquanto falava sobre a faculdade, os professores e as histórias engraçadas das primas. Eu ouvia, meio rindo, meio fascinado com o jeito leve dela contar as coisas. Quando a conversa caiu num pequeno silêncio confortável, ela me olhou por sobre o copo de suco.

— E você? — perguntou. — Me conta da fazenda.

Sorri. — Bom… a fazenda é praticamente minha segunda casa. Na verdade, acho que é a primeira.

— Você vive lá desde sempre?

— Desde que aprendi a andar. — Apoiei os cotovelos na mesa. — Acordar com o cheiro de terra molhada, ouvir os cavalos logo cedo… é um tipo de vida que faz a gente entender o valor do simples, sabe?

Ela sorriu, inclinando a cabeça, curiosa. — E o que você cria mesmo?

— Cavalos, principalmente — respondi, empolgado. — Tenho uma tropa linda. Sangue puro, raça cara. E eu juro pra você, quando esse bebê nascer, o primeiro presente que ele vai ganhar vai ser uma sela de montar feita só pra ele.

Renesmee riu, quase engasgando com o suco. — Você tá brincando, né?

— Claro que não — respondi, fingindo indignação. — Com seis meses já dá pra começar o treino leve.

— Jacob! — Ela me olhou incrédula, rindo. — O seu filho vai ter dentes, não equilíbrio pra ficar num cavalo.

Fingi refletir. — Tá, então com um ano.

— Cinco — rebateu ela, cruzando os braços.

— Dois e meio.

— Quatro.

— Três. E tá fechado. — estendi a mão, como se fosse um acordo sério.

Ela apertou, rindo. — Você é impossível.

— E você já tá agindo como mãe — provoquei. — Já quer decidir tudo sozinha.

— Alguém precisa ter juízo aqui.

— Tá me chamando de imprudente?

— Tô chamando você de teimoso — respondeu, divertida.

Ficamos assim, trocando provocações leves, até percebermos que estávamos agindo como um casal discutindo sobre um filho que ainda nem nasceu.

A ficha caiu e os dois riram juntos — aquele tipo de riso que começa tímido e logo vira gargalhada.

Quando o riso foi se acalmando, fiquei olhando pra ela por um instante. O brilho tinha voltado. O rosto dela estava leve, bonito de um jeito natural.

— Eu vou precisar voltar pra fazenda amanhã cedo — falei, quebrando o silêncio, a voz mais baixa agora. — Tem um monte de coisa pra resolver por lá.

Ela assentiu, mas o sorriso diminuiu um pouco. — Claro…

— Mas quero que me prometa uma coisa. — Apontei o dedo pra ela, tentando parecer sério. — Vai se cuidar. E se acontecer qualquer coisa, me liga. Não importa a hora.

Renesmee segurou o olhar, e por um momento o ar pareceu pesar de novo.

Depois, ela sorriu, com doçura. — Eu prometo.

Assenti devagar. — Ótimo.

O garçom trouxe a sobremesa, mas por algum motivo o doce pareceu desnecessário.

Aquela promessa simples, dita com sinceridade, já bastava.

E enquanto ela provava um pedaço de tiramisù e sorria, percebi que eu estava completamente perdido — e, estranhamente, não queria ser encontrado.