O pai do meu bebê
22 Jacob
A estrada até Seattle parecia interminável.
A chuva fina que caía fazia o farol refletir na pista como se o asfalto estivesse vivo, pulsando. O som constante das gotas no para-brisa e o ronco do motor eram a única companhia.
Rebecca havia dito que estava tudo sob controle — mas minha cabeça não acreditava nisso.
A cada quilômetro, a preocupação aumentava.
Não fazia sentido o que eu sentia, mas havia algo dentro de mim que me impelia a ir.
Como se aquela mulher desconhecida — a mãe do meu filho — fosse, de alguma forma, o centro de tudo o que estava prestes a mudar.
Quando as luzes da cidade começaram a surgir, senti um peso se desfazer parcialmente no peito.
O hospital ficava em uma das avenidas principais, alto e moderno, com o nome Cullen Medical Center brilhando em letras azuis na fachada.
Estacionei rápido e entrei, com as roupas ainda úmidas do sereno e o coração acelerado.
O cheiro de desinfetante e café frio me atingiu como um soco de lembranças antigas.
Rebecca me esperava na recepção, de jaleco, os cabelos presos num coque apressado.
Ela se aproximou antes mesmo que eu perguntasse.
— Jake… — disse, colocando a mão no meu braço. — Você veio rápido.
— O que aconteceu? — perguntei, sem rodeios. — Foi algo grave? O bebê…
— Calma. — ela me interrompeu, a voz tranquila. — O bebê está bem. E a Renesmee também.
Senti o ar voltar aos poucos.
— Tem certeza?
Ela assentiu.
— Sim. Ela teve uma queda de pressão e desmaiou. Ficou em observação, mas está estável. O médico já passou e disse que não há risco imediato.
Passei as mãos no rosto, tentando conter a tensão.
— Eu preciso vê-la.
Rebecca respirou fundo.
— Claro. Mas vamos com calma, Jake. Ela ainda está se recuperando, e a família está com ela.
Segui minha irmã pelos corredores silenciosos do hospital. O som do solado dos sapatos ecoava no piso brilhante, e cada passo parecia mais pesado que o anterior.
Rebecca parou diante de uma porta branca, olhou pra mim e disse:
— Espera aqui um minuto, tá? Eu aviso que você chegou.
Assenti, tentando conter o nervosismo.
Ela entrou no quarto, fechando a porta atrás de si.
Fiquei parado ali, de braços cruzados, encarando o chão. O coração batia num ritmo irregular, e tudo o que eu conseguia pensar era no rosto que ainda não conhecia.
Minutos depois, a porta se abriu novamente.
Rebecca reapareceu acompanhada de uma mulher.
Ela era esguia, de traços delicados e olhar firme.
Os cabelos castanhos, presos em um coque elegante, e o jaleco branco deixavam claro que ela não era uma visitante qualquer.
Mas havia algo no jeito como ela caminhava — um misto de serenidade e dor contida — que me fez perceber antes mesmo que Rebecca a apresentasse.
— Jacob, esta é Isabella Cullen, mãe de Renesmee.
Ela se aproximou e me estendeu a mão com gentileza.
— Senhor Black. — disse, com a voz doce, mas firme. — Ouvi muito sobre você.
Apertei a mão dela, respeitoso.
— Espero que nem tudo tenha sido ruim.
Um pequeno sorriso apareceu nos lábios dela.
— As circunstâncias não foram as melhores, mas o que importa é que minha filha e o bebê estão bem.
Assenti, sem conseguir disfarçar a ansiedade.
— Posso vê-la?
Bella hesitou por um instante, o olhar suave, porém protetor.
— Ela ainda está um pouco fraca e insegura , entenda o quanto esta sendo difícil para ela, mas eu vou tentar convencê-la .
Senti um nó na garganta, se estava sendo difícil para mim essa situação com certeza para Renesmee estava sendo muito pior.
— Eu só quero estar presente, quero que sua filha entenda que pode ter em mim um amigo.
Ela assentiu e se virou fazendo um gesto para que eu a seguisse.
O corredor parecia mais longo do que antes, e cada passo em direção àquela porta me fazia sentir como se estivesse atravessando um limite invisível.
Eu ainda não sabia o que ia dizer.
Nem o que sentiria quando olhasse pra ela.
Mas no fundo… algo em mim já sabia que nada seria igual depois desse encontro.
O som do meu coração era tudo o que eu conseguia ouvir quando Bella abriu a porta.
O quarto era claro, calmo… com aquele cheiro característico de hospital e o zumbido baixo das máquinas de monitoramento.
E então eu a vi.
Deitada, com o rosto voltado para a janela, os cabelos caindo sobre o travesseiro como um feixe de cobre sob a luz.
Mesmo pálida, havia nela uma delicadeza difícil de explicar — algo entre a fragilidade e a força.
Por um instante, esqueci de respirar.
Era ela.
A garota do parque.
Aquela que eu quase havia atropelado dias atrás… e que, desde então, não saía dos meus pensamentos.
Bella percebeu minha hesitação e sorriu com gentileza.
— Eu vou deixá-los a sós. — disse, com o tom suave de quem entende que certas conversas precisam acontecer sem testemunhas.
Assenti em silêncio.
Ela se retirou, fechando a porta devagar.
Renesmee virou o rosto na direção do som e nossos olhares se encontraram.
Por um segundo, o tempo simplesmente parou.
Havia confusão e surpresa nos olhos dela — e, de algum modo, também uma calma que eu não esperava encontrar.
Dei um passo à frente, tentando encontrar palavras que fizessem sentido.
— Olá. — murmurei. — Eu sou Jacob Black… o pai do bebê.
Ela me observou por um momento, e então um sorriso leve surgiu em seus lábios.
— Prazer, Jacob. Renesmee. — disse, com a voz suave, ainda um pouco trêmula.
O sorriso aumentou, e ela balançou a cabeça, quase rindo.
— Isso é… muito louco. Você quase me atropelou no parque.
Não consegui evitar o riso baixo que escapou.
— É, eu lembro. Acho que o destino tem um senso de humor meio cruel.
— Ou talvez ele só esteja tentando provar um ponto. — respondeu, ainda sorrindo.
Havia algo encantador na forma como ela falava, uma mistura de inocência e maturidade. E aquilo me desarmou completamente.
— Posso? — perguntei, apontando para a cadeira ao lado da cama.
— Claro. — ela respondeu, ajeitando o lençol.
Sentei-me, tentando não parecer tão nervoso quanto estava.
Por um momento, ficamos em silêncio. Apenas o som suave do monitor preenchia o espaço entre nós.
— Eu imagino o quanto tudo isso deve estar sendo difícil pra você — comecei. — Confuso, injusto… e assustador.
Renesmee baixou o olhar, brincando com a ponta do lençol.
— Acho que você descreveu bem.
— Eu também estou perdido — confessei. — Nada disso foi planejado, e eu ainda estou tentando entender o que o destino quis fazer com a gente.
Ela levantou o olhar, curiosa.
— E o que você quer fazer agora?
Respirei fundo antes de responder.
— Eu só quero estar por perto. Não quero te pressionar, nem invadir seu espaço. Mas… quero estar aqui. Ser um amigo, ajudar. Estar ao lado do bebê.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, como se pesasse cada palavra.
Por alguns minutos, o silêncio entre nós foi quase confortável.
Ela parecia mais calma, o rosto mais corado do que quando cheguei.
Mas bastou uma única frase para o ar mudar completamente.
— Jacob… — disse ela, com cuidado. — Eu entendo que você queira assumir a paternidade. Que queira estar presente. Mas… eu ainda não sei se quero isso.
Fiquei em silêncio por um instante, tentando ter certeza de que tinha ouvido direito.
— Como assim, não sabe se quer isso?
Ela desviou o olhar.
— É que… eu tenho um noivo. — disse, a voz baixa, quase um sussurro. — E tudo isso já está difícil o bastante. Seria estranho… complicado.
O nome “noivo” soou como um estalo seco dentro de mim.
Engoli em seco, mas não disse nada.
Ela continuou:
— Eu não estou dizendo que você é uma má pessoa, Jacob. Só… — suspirou. — Eu não quero dividir o meu bebê com um estranho.
Essas palavras me atingiram mais forte do que eu esperava.
Um estranho.
Fiquei olhando pra ela, tentando encontrar o tom certo — qualquer coisa que não soasse como raiva.
Mas não consegui.
— Então é isso? — perguntei, a voz mais áspera do que pretendia. — Você está dizendo que não vai me deixar assumir o meu filho?
Renesmee hesitou.
— Eu… não sei.
— Você sabe, sim — retruquei, levantando-me da cadeira. — Está me dizendo que vai me tirar o direito de ser pai dessa criança porque acha que seria estranho pro seu noivo?
Ela se encolheu levemente, surpresa com meu tom.
— Não é isso…
— É exatamente isso. — interrompi. — Você acha que pode decidir sozinha o que é certo ou errado, mas não se trata só do que você quer, Renesmee.
Ela me olhou, os olhos marejando.
— Eu só quero proteger o meu bebê.
— Eu também. — disse, firme. — Mas proteger não é o mesmo que esconder.
O silêncio voltou, pesado.
Dei um passo para trás, tentando conter o impulso de continuar discutindo.
Mas a raiva não vinha dela. Vinha do absurdo de toda aquela situação — do fato de eu estar ali, tentando provar que queria ser pai de um filho que ela não pediu pra ter.
— Eu não vou brigar com você — continuei, respirando fundo. — Mas se você não aceitar isso de forma amigável, eu vou lutar pela guarda.
Os olhos dela se arregalaram, e vi o medo surgir junto com a mágoa.
— Vai… lutar contra mim?
— Não contra você — respondi, com firmeza. — Pelo meu filho.
Aquela frase ficou entre nós, como uma ferida aberta.
Renesmee virou o rosto, as lágrimas caindo em silêncio.
E eu… só consegui ficar parado, sentindo o peso da minha própria voz me esmagar.
Saí do quarto sem dizer mais nada.
Mas, ao fechar a porta atrás de mim, soube que, a partir dali, nada entre nós seria simples.
Fale com o autor