O pai do meu bebê
17 Jacob
A tela do notebook refletia o brilho frio da madrugada. Os números da planilha pareciam dançar, borrados, diante dos meus olhos cansados. Eu tentava revisar as últimas contas do trimestre — os custos com ração, medicamentos, transporte, e o orçamento para o novo estábulo. Era o tipo de trabalho que costumava me acalmar.
Mas, naquela noite, não funcionava.
Em meio às colunas de dados, a imagem dela surgiu sem ser convidada — os cabelos ruivos iluminados pela luz do fim de tarde, o olhar surpreso e ao mesmo tempo calmo, mesmo caída no asfalto. Eu revivi o momento em que ela levantou, agradeceu e disse estar bem, sem imaginar o quanto sua voz ficou presa na minha cabeça desde então.
Suspirei e passei a mão pelo rosto.
— Ridículo, Black — murmurei para mim mesmo. — Está pensando numa mulher que nem sabe o nome.
Fechei o notebook e me recostei na cadeira. Ia me levantar para buscar um café quando o celular vibrou sobre a mesa.
Embry.
Atendi no segundo toque.
— Fala, irmão. — disse, tentando parecer mais desperto do que realmente estava. — Algum problema?
Do outro lado da linha, a voz de Embry vinha abafada, misturada ao som de vento e cascos.
— Eu não queria te preocupar, Jake… mas acho que você precisa saber.
Endireitei-me imediatamente.
— O que aconteceu?
— É o Zeus. — respondeu, a voz mais tensa. — O rapaz que cuida do pasto noturno percebeu que ele está mancando. Eu chamei o veterinário, mas ele disse que talvez seja uma lesão de tendão.
Fechei os olhos por um instante, respirando fundo.
— De novo um tendão. — murmurei. — Esse mês está me testando.
— Eu sei, cara. Mas achei melhor te avisar. O velho Billy já está sabendo, e Sam está tentando ajudar com a contenção.
Olhei para o relógio. Passava da meia-noite.
— Certo. Mantenham-no tranquilo, sem deixá-lo forçar a pata. Vou praí agora.
— Jake, você está em Seattle. Vai dirigir a noite toda?
— Já dirigi em piores condições. — Respondi, levantando-me e pegando a jaqueta. — Se é um problema com um dos meus cavalos, eu preciso estar lá.
Embry suspirou do outro lado da linha.
— Às vezes eu esqueço que você nasceu pra isso.
— Pra quê?
— Pra carregar o peso do mundo e ainda achar que dá conta.
Sorri, mesmo cansado.
— Alguém tem que tentar.
— Então toma cuidado na estrada, irmão. — disse ele, mais calmo. — A chuva está forte por aqui.
— Sempre tomo. — desliguei, troquei de roupa, peguei as chaves do carro, a mochila e saí.
No estacionamento do hotel, o vento soprava gelado.
Enquanto ligava o motor, vi meu reflexo no espelho retrovisor — o mesmo olhar obstinado de sempre. Mas por um segundo, antes de sair, a imagem dela voltou à minha mente: o cabelo ruivo, os olhos claros, o jeito distraído.
Bati levemente no volante, como se pudesse espantar o pensamento.
— Esquece isso, Jake. Ela é só uma desconhecida.
Engatei a marcha e segui em direção à estrada escura.
Mas, lá no fundo, eu sabia que não era “só” isso.
O sol ainda mal havia rompido o horizonte quando entrei pelo portão da fazenda. A neblina da madrugada se espalhava pelos campos, e o som distante dos cavalos quebrava o silêncio. A estrada de cascalho úmida estalava sob os pneus da caminhonete.
Assim que estacionei diante da casa principal, a porta se abriu.
Minha mãe surgiu envolta num xale azul, o rosto cansado, mas aliviado ao me ver.
— Jacob, graças a Deus! — disse, aproximando-se apressada. — Você passou a noite na estrada? Eu fiquei preocupada.
Sorri, tentando esconder o cansaço.
— Estou bem, mãe. A estrada estava tranquila, só um pouco de chuva no caminho.
Ela me olhou de cima a baixo, como se procurasse algum sinal de que eu mentia.
— Você não aprende. — suspirou, depois de um instante. — Poderia ter esperado o amanhecer.
— Um dos cavalos precisava de mim — respondi, entrando na sala. — Eu não ia conseguir dormir sabendo disso.
Do corredor, ouvi o som característico das rodas da cadeira de Billy se aproximando.
Meu pai surgiu com o jornal no colo e aquele meio sorriso tranquilo de quem sabia mais do que deixava transparecer.
— Bom dia, filho. Embry já foi pros estábulos. Disse que o veterinário chega em uma hora.
— Ótimo — respondi, largando a mochila sobre o sofá. — Quero ver o Zeus assim que terminar o café.
Billy observou o olhar tenso da minha mãe e franziu o cenho.
— Sarah, ele voltou inteiro. Não precisa fazer esse rosto.
Ela ignorou o comentário e serviu café para nós três.
O aroma quente se espalhou pela cozinha, e por alguns instantes, o ambiente pareceu recuperar a calma habitual.
Depois de um gole, minha mãe me olhou com atenção.
— E como foram as coisas em Seattle? — perguntou, com aquele tom sutil que sempre parecia sondar mais do que as palavras diziam.
Deixei a xícara sobre a mesa e respirei fundo antes de responder.
— Ainda não consegui contato com a mãe da criança. — disse com calma. — Só falei com o pai dela. Edward Cullen.
Billy ergueu as sobrancelhas.
— O médico?
— Ele mesmo. — confirmei. — Homem de pulso firme. Civilizado, mas… difícil. Disse que tentaria conversar com a filha pra me permitir conhecê-la.
Sarah se sentou, apoiando as mãos sobre o avental.
— Deve ser complicado pra ela.
— É. — respondi, pensativo. — Não consigo imaginar o que ela está sentindo.
Houve um breve silêncio até que minha mãe, com o mesmo tom suave de sempre, comentou:
— A propósito… a Heidi ligou.
Levantei o olhar, surpreso.
— Ligou pra cá?
— Ligou ontem à noite. Pediu que eu pedisse pra você enviar as coisas dela para Seattle. Disse que está ficando no apartamento de vocês.
Cruzei os braços e encostei na cadeira, olhando para o vazio por um instante antes de responder.
— Pode deixar as malas dela prontas. Vou mandar alguém levar.
Sarah me olhou com cuidado, mas sem julgamento.
— Jacob… você tem certeza?
Assenti, firme.
— Tenho. Pedi o divórcio, mãe.
Ela suspirou, como quem esperava por aquilo, mas ainda assim doía ouvir.
— Imagino que não tenha sido fácil.
— Não foi — admiti. — Mas ela cruzou um limite que não tem volta. E o que sinto agora é só… alívio.
Billy pigarreou, pousando o jornal no colo.
— Às vezes, filho, cortar o que te prende é o único jeito de continuar andando.
Sorri de leve.
— É, pai. Acho que finalmente entendi isso.
Minha mãe tocou minha mão com carinho.
— Então é hora de começar de novo. Do seu jeito.
Olhei para o campo pela janela, onde o sol finalmente começava a surgir, tingindo de dourado as cercas e o pasto úmido.
Era um novo dia — e, de algum modo, o mundo parecia mais pesado e mais esperançoso ao mesmo tempo.
Peguei o chapéu sobre o aparador e o coloquei.
— Vou ver o Zeus.
Sarah assentiu.
— Eu levo o café pra você lá embaixo.
Billy sorriu.
— E não discute com o veterinário. Deixa o homem trabalhar.
— Sem promessas — respondi, já a caminho da porta.
A fazenda me esperava.
E, enquanto caminhava em direção aos estábulos, uma voz na minha mente insistia em lembrar da jovem ruiva que eu quase atropelara.
Por mais que tentasse afastar a imagem, ela voltava, teimosa., sem imaginar que o destino estava prestes a juntá-la a mim — de um jeito que ninguém seria capaz de prever.
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