O quarto do hotel era grande, moderno, mas frio. Nada nele tinha o cheiro ou o som de casa. Eu estava sentado à beira da cama, com uma xícara de café já gelado na mão, olhando a chuva cair pela janela de vidro. Seattle parecia sempre cinza — como se o céu refletisse exatamente o que eu sentia por dentro.

Uma batida firme na porta me tirou dos pensamentos.

— Entre — disse, deixando a xícara na mesa.

A porta se abriu, e Alec Volturi entrou. Terno escuro, olhar analítico, o mesmo jeito contido de quem sempre pesa as palavras antes de dizê-las.

— Jacob — cumprimentou, estendendo a mão. — Recebi sua mensagem. Parece que as últimas horas foram… intensas.

Soltei um meio sorriso cansado.

— Digamos que a palavra “intensas” é gentil demais.

Ele se sentou na poltrona em frente a mim, abriu a pasta que trazia e me encarou.

— Então, me conte. Desde o início.

Expliquei tudo — a inseminação feita sem meu consentimento, a troca de prontuários, a revelação de que uma jovem, completamente alheia àquilo, estava grávida do meu filho. Alec ouviu em silêncio, o maxilar tenso, apenas balançando a cabeça de tempos em tempos.

Quando terminei, ele apoiou os cotovelos nos joelhos e me olhou fixamente.

— Legalmente, a situação é complexa. Se a mãe biológica decidir levar a gestação até o fim, ela tem direitos iguais sobre a criança. A questão é: o que você pretende fazer, Jacob?

Cruzei as mãos e fiquei em silêncio por alguns segundos.

— Eu quero fazer o que for melhor pro bebê. Mas se ela decidir… não me deixar participar, eu quero saber se posso lutar pela guarda.

Alec respirou fundo.

— É possível, mas delicado. Você teria que provar que pode oferecer um ambiente melhor, sem desrespeitar o direito da mãe. E nesse caso — ele me olhou com seriedade — a história toda viria à tona. A imprensa, o hospital, tudo.

Inclinei a cabeça.

— Eu não me importo com a imprensa. Eu me importo com a criança.

Alec fez um leve aceno.

— Eu sei. Mas se isso for pra frente, você precisa estar preparado pra uma guerra longa e barulhenta.

Assenti, sem hesitar.

— Eu já passei por guerras piores.

Ele abriu um sorriso discreto.

— E quanto ao divórcio?

Suspirei.

— Quero resolver o mais rápido possível. Heidi ultrapassou todos os limites.

Alec ajeitou os papéis na pasta.

— Mesmo assim, ela ainda é sua esposa legalmente. E, por lei, tem direito à partilha de bens. Você pode contestar, claro, principalmente se conseguir provar má-fé — e no seu caso, a inseminação sem consentimento já pesa bastante.

Passei a mão no rosto, exausto.

— Faça o que for possível pra encerrar isso logo, Alec. Eu só quero seguir em frente.

Ele assentiu, guardando os documentos de volta.

— Deixe comigo.

Meu celular vibrou na mesa. Peguei-o sem muita pressa — até ver o nome na tela.

Rebecca.

Meu coração acelerou.

— Com licença, Alec. — Atendi de imediato. — Rebecca, aconteceu alguma coisa?

A voz da minha irmã veio rápida, com um tom que misturava nervosismo e alívio.

— Jake…pode vir ao hospital? Edward Cullen deseja falar com você.

Fiquei em silêncio por um instante, sentindo o estômago revirar.

— O pai da mãe do bebê?

— Sim — Rebecca respondeu. — E acho melhor você vir agora.

Olhei para Alec, que me observava em silêncio, e respondi:

— Estou a caminho.

Desliguei e fiquei parado por um instante, olhando para a chuva batendo no vidro.

Alec se levantou.

— Vai ao hospital?

— Vou — respondi, pegando o casaco. — Chegou a hora de resolver a situação.

E pela primeira vez em muito tempo, eu não sabia o que esperar.


O saguão do hospital estava cheio, como sempre. O som dos passos apressados, dos chamados nos alto-falantes e das rodas das macas ecoando pelo corredor pareciam compor uma sinfonia de rotina — uma que eu não fazia parte.

Passei pela recepção, ajustando o casaco, e me apresentei à atendente.

— Jacob Black. Tenho um encontro marcado com a doutora Rebecca Finau.

A moça checou algo na tela do computador e acenou com um sorriso profissional.

— Pode subir, senhor Black. A doutora o aguarda no terceiro andar.

Subi de elevador, o reflexo do meu rosto no espelho de aço frio me encarando de volta. Eu parecia calmo, mas por dentro o coração batia pesado. Quando as portas se abriram, Rebecca estava à espera, os braços cruzados, o jaleco impecável e o olhar preocupado.

— Você veio rápido — disse ela, meio surpresa.

— Você disse que Edward Cullen queria me ver. Achei que não era o tipo de convite que se recusa.

Ela respirou fundo.

— Ele quer falar com você sobre a filha… e o bebê.

Assenti, sem desviar o olhar.

— E o que você acha que ele quer, Beck?

Rebecca hesitou por um instante.

— Sinceramente? — perguntou, e eu apenas assenti. — Acho que ele vai querer entender até onde você pretende se envolver. Edward é um homem de princípios, mas também… de território.

Soltei um leve riso sem humor.

— Eu não temo Edward Cullen, Rebecca. Nem o sobrenome, nem a influência.

Ela me lançou um olhar de quem conhece bem minha teimosia.

— Eu sei. Mas talvez fosse bom, só dessa vez, não agir como o dono do mundo.

— Não se preocupe. — Passei a mão pelos cabelos, respirando fundo. — Eu sei me comportar.

Rebecca deu um leve sorriso e fez um gesto com a cabeça.

— Então venha comigo.

Seguimos pelos corredores amplos do hospital. O som do piso limpo sob nossas botas ecoava em meio à movimentação dos pacientes e enfermeiros. Em determinado ponto, um garoto passou correndo, rindo alto, perseguindo um balão colorido enquanto a mãe o chamava.

Por um segundo, tudo parou.

Aquela risada inocente cortou o barulho ao redor e me atingiu em cheio. O menino devia ter uns cinco anos — o mesmo que meu filho teria, se tudo desse certo. Senti um aperto no peito, uma vontade súbita de proteger algo que ainda nem estava no mundo.

Rebecca percebeu o silêncio e tocou meu braço de leve.

— Está pronto?

Assenti, engolindo o nó na garganta.

Chegamos ao corredor do setor administrativo. A placa dourada na porta dizia Presidência – Dr. Edward Cullen.

A secretária levantou o olhar assim que nos viu.

— Doutora Finau, senhor Black. O doutor Cullen os aguarda. Podem entrar.

Rebecca fez um leve sinal com a cabeça, e empurrei a porta.

O escritório era espaçoso, elegante, com grandes janelas que deixavam a luz cinzenta de Seattle invadir o ambiente. Atrás da mesa, um homem alto se levantou — terno escuro, presença imponente, olhar firme.

— Senhor Black — disse ele, estendendo a mão. — Edward Cullen.

Apertei sua mão com firmeza, sem desviar o olhar.

— Prazer em conhecê-lo, doutor Cullen.

Rebecca se manteve próxima, observando os dois em silêncio. A tensão era quase palpável. Dois homens, dois mundos, ligados por um erro que agora tinha nome, coração e futuro.