O instrumento era uma extensão do corpo da menina que tocava compenetrada, alheia do mundo exterior, só existia ela, o violino, a música, a perfeição. Em um momento de esplendor se sentia livre, como se alcançasse o próprio nirvana quando de repente o som é interrompido por alguém ao abrir bruscamente a porta. A mãe aparece com olheiras visíveis e o cabelo loiro escuro preso num coque, parecia exausta.

_Sofia, filha, pode dar uma pausa com esse violino? Ontem tive plantão, estou cansada, querendo dormir um pouco, aproveita e estuda, nesse ano você faz vestibular, sabe que não pode se agarrar a essas distrações.

A menina parou e olhou para a mãe por baixo dos cachos do cabelo castanho que lhe caiam sobre o rosto, não soube o que dizer, apenas baixou os olhos cinza e guardou cuidadosamente o instrumento, presente de seu avô.

Após a mãe fechar a porta atrás de si, Sofia vai para a janela, havia um caminhão de mudanças estacionado na frente da casa ao lado, que estava à venda até pouco tempo, atrás do caminhão uma Land rover branca da qual deve ter saído a mulher morena, alta, na faixa de quarenta anos com aparência abatida, os óculos escuros não permitiam identificar a cor dos seus olhos, nem as possíveis olheiras, mas quem chamou a atenção de Sofia foi a garota que devia ter mais ou menos sua idade, seus cabelos lisos e escuros chegavam até a altura da cintura, seu corpo era bonito, bem desenvolvido, era um pouco mais alta que Sofia, a pele branca realçava os lindos olhos azuis cobalto que de relance fitaram os da outra garota com curiosidade como se soubesse que estava sendo observada, por uma fração de segundo trocaram olhares, do azul para cinza, mas não durou mais que isso, a outra voltou a conversar com a mulher morena, ambas observavam a casa, certamente estavam se mudando para lá, a garota do violino se afasta da janela e pega um livro de química, de um dos muitos livros da sua estante e põe-se a estudar no último dia de férias.

(Sofia)

Acordo na manhã do primeiro dia de aula, e como já era de se esperar olho para o relógio e continuo com vontade de ficar ali deitada, mas sei que tenho que ir, junto coragem, tomo banho, escovo os dentes, me arrumo do jeito que posso, desço as escadas e vou tomar café, encontro apenas dona Alda na cozinha, minha mãe saiu cedo para a clínica, meu pai ainda não voltou do plantão, Alda é negra, alta e tem 37 anos, veio de Angola junto com a mãe e dois irmãos pequenos quando ela ainda era moça, desde cedo precisou trabalhar, minha mãe a conheceu em um mutirão solidário que atendeu vítimas de um desabamento em um dos bairros carentes da cidade no qual ela perdera a mãe e os irmãos, Alda trabalha em minha casa desde que me entendo por gente e até antes mesmo de eu nascer, faz parte da família, além de boa gente ela é bem informada de tudo que acontece nos arredores, me ocorreu uma ideia.

“_Bom dia dona Alda.”

“_Bom dia minha menina, fiz o café do jeitinho que você gosta e preparei o lanche para levar para escola.”

“_Você sabe alguma coisa sobre as pessoas que acabaram de se mudar?”

“_O comentário é que essa mulher acabou de se separar de um ricaço que ainda não sei quem é, mas não ganhou muita coisa na justiça, sobre a filha só sei que é problemática.”

“_Sempre bem informada. Agora tenho que ir. Até mais e valeu pelo lanche.”

“_Mas não vai tomar o café?”

Enfio um pão na boca, pego uma maçã e levanto para Alda, que balança a cabeça e resmunga algo sobre eu não ter jeito, ela ainda me surpreende, não sei como consegue essas informações, aquelas pessoas mal acabaram de se mudar, já que ainda não tenho carteira e meus pais nunca tem tempo de me levarem para escola caminho até a parada de ônibus para vê-lo já saindo, corro como nunca e consigo alcançar, o motorista, seu Jair, me conhece e me cumprimenta, assim como a cobradora, dona Sônia, entro, pago minha passagem e vejo sentada num assento dos fundos a menina de olhos azuis, ela usava a camisa do uniforme da minha escola por baixo de uma jaqueta jeans, nossos olhares se cruzaram, passamos alguns segundos nos encarando até ela baixar o olhar para um livro, subitamente quis ir lá, puxar assunto, perguntar o que ela estava lendo, mas para não ser inconveniente afastei o pensamento e tomei um assento vazio um pouco mais a frente de onde ela estava, pode ter sido minha imaginação mas em alguns momentos eu podia sentir o seu olhar de safira sobre mim.

Já tinha visto que usava o uniforme, portanto não me surpreendi quando descemos na mesma parada, caminhei em direção da escola quando ela me abordou:

“_Oi, vejo que você também estuda aqui.”

Não sou muito boa em fazer amizades e sem saber bem como me comportar respondi apenas: “_Sim.”

“_É que eu sou nova aqui, poderia me ajudar a encontrar a minha sala?”

Ela poderia encontrar sem minha ajuda, talvez apenas quisesse se enturmar. “_Claro, posso sim.” Respondi.

“_Eu nem me apresentei, me chamo Ana, mudei pra casa ao lado da sua, te vi ontem na janela, e ouvi também, você executando a partita nº 3 de Bach com perfeição.”

“_Obrigada, nossa...você tem um bom ouvido. Aliás, meu nome é Sofia.”

Quando a vi não me ocorreu que ela poderia conhecer ou tampouco gostar desse tipo de música, pelo visto eu estava enganada, me interessei em conhecê-la melhor. No momento que adentramos a escola os olhares se voltaram para a deslumbrante figura que me acompanhava, ela devia ser uns cinco centímetros mais alta que eu, o espesso cabelo negro solto exalava um perfume inebriante, preciso saber o nome desse shampoo, os olhos azuis cobalto e um sorriso de dentes perfeitos formavam um belo conjunto, confesso que senti uma pontinha de irritação, não que eu me achasse feia, mas ficou bastante claro que ela era o foco da atenção de todos.

“_E então em qual turma você está?”

“_3º ano A.”

“_Estamos na mesma turma.”

Adentramos a sala e os olhares nos acompanharam, ouvimos alguns assobios, brincadeirinhas e elogios que mais pereceram insultos vindo dos garotos do fundão que não respeitavam ninguém, não afetaram Ana em nada, ela mantinha uma postura educada que demonstrava maturidade, não entendi porque Alda ouviu dizer que essa garota seria problemática, eu até achei que ela fazia o tipo rebelde quando a vi, mas agora vejo que fora um mero preconceito bobo.

Nos sentamos mais ou menos no meio da sala e ficamos conversando, ela me mostrou o livro que estava lendo, Inferno, de Dan Brown, que eu inclusive queria ler, prometeu que emprestaria quando terminasse, Ana se mostrou inteligente, sagaz, bem humorada e simpática, em alguns minutos de conversa senti como se a conhecesse a bastante tempo, muito embora por mais natural que ela tentasse ser a proximidade ainda me causava uma sensação estranha, que não sei descrever, de repente o barulho de conversa paralela cessou e o professor de Biologia entrou na sala, Carlos Eduardo, um homem moreno, alto, tenho que admitir que ele tem bela aparência, é filho de um dos donos da escola, aliás da rede de escolas, dá aulas só por hobby, é apelidado carinhosamente de Cadu pelas alunas, todas parecem ser caidinhas por ele, menos eu, ano passado um episódio estranho se sucedeu entre nós, ele já havia deixado bem claro seu interesse por mim, suas investidas me incomodaram de início, mas depois de um tempo apenas o ignorei, levei na esportiva, afinal nunca imaginei que ele fosse capaz de tentar algo, mas no último dia de aula ele me pediu ajuda para lançar algumas médias, eu concordei e ficamos sozinhos na sala, eu sentada numa carteira junto a sua mesa, ele se levantou para tomar uma água, perguntou se eu queria também, agradeci e disse que não, quando voltou percebi que ele havia trancado a porta, comecei a ficar nervosa, outras garotas teriam achado excitante, mas eu só sentia pânico e estômago nauseado, ele devia ter uns 30 anos e eu apenas 15, sei que eu não era tão criança assim, mas a diferença de idade me incomodava, ele chegou por trás roçando o rosto no meu, senti a aspereza da barba por fazer, falava comigo fingindo olhar para os papéis na mesa, uma de suas mãos apoiada em meu ombro direito começou a me massagear, continuou conversando como se nada estivesse acontecendo, aos poucos foi descendo a mão pelo meu braço, ficou subindo e descendo, depois subiu para o meu pescoço massageando, senti sua outra mão fazer o mesmo percurso, em seguida soltar o meu cabelo que senti cair sob minhas costas, ele pegou algumas mechas por entre os dedos e começou a inalar o cheiro, senti sua respiração mais perto da minha nuca, não gostava daquilo, me senti estranha, mas não conseguia reagir, estava travada ali, a mercê dele, comecei a gaguejar dizendo pra ele parar, mas isso só o animava mais, ele me olhava como um predador excitado ao farejar o medo da presa, começou a beijar desde o meu cangote indo até próximo a minha boca. Ele me pôs de pé e ficou por trás de mim, sussurrando em meu ouvido e me agarrando por trás, com força, em algum momento ele desabotoou a própria camisa, pois senti seu peito nu quando ele levantava minha blusa por trás, me puxando pela barriga, eu podia sentir sua ereção.

“_Você não tem ideia do quanto eu esperei por isso, as outras foram fáceis demais, mas você é um... desafio, gosta de provocar... não vai dar uma de santa agora, sei que você também quer, relaxa... isso é natural.”

Não que eu quisesse bancar a santa, mas realmente não me lembro de tê-lo provocado, aliás, nem sei se saberia fazê-lo, nunca tive tempo pra isso, eu só queria ir embora dali, e quanto mais lutava pra me desvencilhar ele me agarrava com mais força e dizia que não adiantava eu tentar escapar, que não haveria ninguém para me socorrer, comecei a chorar e ele me virou e me puxou para si em um beijo violento que eu achei que fosse arrancar meus lábios, lutava para manter a boca fechada enquanto ele tentava invadi-la com a língua até que enrolou a mão no meu cabelo e puxou com força, quando eu abri a boca para gritar ele aproveitou para fazer o que queria me espremendo ao seu encontro, com uma mão se livrou de uma vez da minha blusa e apertava meus seios por cima do sutiã, ele quase tinha orgasmos ao fazer isso, principalmente quando eu gemia de dor, só de lembrar sinto vontade de vomitar, quando foi me beijar novamente mordi seus lábios e ele me empurrou com força no chão, quando ia avançar sobre mim ouvimos batidas na porta e ele instintivamente se afastou de mim e abotoou a própria camisa, foi ver quem era na porta fazendo sinal de silêncio com o indicador, pra eu ficar de bico calado, quieta, não fiquei mesmo, era o zelador que chegava para fazer a limpeza da sala, Carlos Eduardo falou com ele segurando a porta, ao ver a porta entreaberta aproveitei a oportunidade e fiz a única coisa que me veio a cabeça, corri com minha blusa ainda na mão e empurrei Carlos Eduardo saindo da sala, no caminho derrubei o balde com água e quase tropecei no zelador que olhou pra mim sem entender nada. Desgraçadamente aquele foi o meu primeiro beijo, quanto ao zelador ouvi dizer que foi demitido pouco tempo depois, acho que ele tinha entendido tudo afinal.

“_Você está se sentindo bem?” Eu ouvia a voz de Ana, mas parecia muito distante, até que ela apertou forte minha mão e perguntou mais uma vez, olhei para seu rosto e despertei da horrível lembrança.

“_Estou sim.” Respondo entre os dentes quando Carlos Eduardo com o típico sorriso cínico me dá bom dia, devolvo o bom dia a contragosto, Ana percebe que tem alguma coisa errada.

Durante a aula eu sempre dava um jeito de olhar para Ana, ela correspondia meu olhar, sorria e em seguida desviava o dela, nesses instantes eu quase sempre era surpreendida pelas perguntas de Carlos Eduardo, que já estava me exacerbando, as outras garotas me olhavam com inveja, eu apenas torcia para o sinal tocar e não graças aos meus pedidos finalmente tocou, enquanto os outros alunos saiam Carlos Eduardo me puxou pelo braço e começou a me perguntar sobre as férias, a conversa mole de sempre, me sondando, eu tentava me livrar dele, nesse momento Ana levantou me pegando pela mão e dizendo ao professor que precisava conversar comigo, então colocou meu braço sobre o seu e me levou para fora, ela havia tirado a jaqueta e usava assim como eu a camisa de manga curta do uniforme do colégio, foi bom sentir o toque da sua pele contra minha, a proximidade, o agradável aroma do seu cabelo, quando ela se virou vi seu belo sorriso se desfazer em preocupação.

“_Sofia qual é o problema com o professor de Biologia? Ele te fez algum mal? Porque se fez...”

“Não quero falar sobre isso.” Eu a interrompi, ela me encarou séria por mais alguns segundos e depois disse: “_Você quem sabe”.

Quando estávamos caminhando no pátio do colégio, Bernardo, um dos idiotas do fundão, passou a mão no bumbum dela, Ana ficou irreconhecível, e com olhar de ódio desferiu um soco que quebrou o nariz do garoto que recuou vários passos perdendo o equilíbrio.

“_Olha o que você fez! Sua Vadia! Vou acabar com você!” Ele se levantou xingando e limpando o nariz do qual não parava de escorrer sangue e avançou em direção de Ana que ficou imóvel, sem demostrar nenhum sinal de medo do brutamonte furioso bem maior que ela, o garoto foi impedido por um monitor da escola. Os dois foram levados para a secretaria, não vi mais Ana nos próximos tempos de aula que foram de Química, com Márcia, uma professora gordinha e bem humorada, suas aulas eram as minhas preferidas porque ela detinha um amplo conhecimento da disciplina e metodologia dinâmica, aliando a teoria à prática, nunca entendi porque ela continuava ali, com um currículo como o dela eu já estaria longe, fingia que ouvia a aula, já que os esforços para prestar atenção se mostraram infrutíferos, só pensava em Ana, a forma como ela mudou, tenho a impressão de que não foi o gesto em si, mas algo que ele representa que despertou nela alguma lembrança ruim.

Quando a aula termina saio e vejo Ana escorada do lado de fora do muro da escola, próxima ao portão, ela estava sentada de cabeça baixa, braços cruzados sobre os joelhos e a mochila largada ao seu lado na calçada, já tinha começado a chover forte e ela estava encharcada, ao me ver se levanta deixando claro que estava me esperando e se aproxima com seu belo sorriso, sorria feito uma idiota encharcada pela chuva, o que ela tava pensando?

“_Ana você é maluca?”

Ela ignora minha pergunta, apenas pega minha mão e corre em direção a parada de ônibus do outro lado da larga avenida movimentada, o sinal estava aberto, os carros passando muito perto de nós, eu sentia medo, mas ao mesmo tempo sua loucura era contagiante, entre uma freada brusca, xingamentos e uma garrafa de água vazia atirada por um motorista que atingiu cabeça de Ana chegamos até a parada, entramos no ônibus que estava com vários lugares vazios, sentamos uma ao lado da outra nos fundos do ônibus, rindo e arfando por conta da correria, a chapinha que eu tinha feito tinha ido para o espaço, meus cabelos molhados já se desfaziam em longos cachos, Ana começou a ajeitar meu cabelo, a parte de trás da sua mão roçando em meu braço, aos poucos acrescentava leves carícias no meu rosto.

“_Seu cabelo, fica bem melhor assim, natural, bem mais você.” Ela falou baixinho, sua voz ficava ainda mais sexy nesse sussurro rouco, senti um frio na barriga, só então notei que a outra mão dela ainda segurava a minha, mas não me incomodei, seu toque era macio e quente, quando olhei para o rosto dela novamente me permitir a vê-lo de uma forma diferente, apreciando cada traço, comecei a gostar bastante de observar os mínimos movimentos que ela fazia com a boca, o modo como seus olhos se moviam enquanto olhava para o meu cabelo, o ritmo em que seu peito subia e descia quando respirava mais fundo, como involuntariamente ela apertava mais minha mão, meu coração começou a bater mais rápido, senti corar quando ela cessou com a carícia, pousou a mão no meu rosto, olhou em meus olhos e depois baixou o olhar para minha boca, estávamos perto demais, Ana sorri de repente e diz que a próxima parada é a nossa, volto para a realidade e me preparo para descer do ônibus, ainda estava chovendo.

Antes de entrar em casa deixo a água escorrer um pouco, retiro meus tênis encharcados e as meias molhadas, tento fazer o mínimo de barulho possível, mas meus planos de não ser pega são frustrados por Alda que me vê de sobressalto.

“_Sofia! Eu te liguei várias vezes, ia levar um guarda-chuva, se seus pais souberem, por que você veio no meio da chuva? Deveria ter chamado um táxi.”

Olhei para Alda e comecei a rir, sua expressão de espanto era cômica, ela não sabia nem a metade e ficou me olhando sem entender nada por um tempo, depois saiu, talvez convencida de que eu tinha perdido o juízo de vez, voltou com uma toalha, pegou meus tênis em uma das mãos e saiu dizendo para eu ir me trocar, nem foi preciso dizer duas vezes, eu já estava subindo as escadas, tremendo enrolada na toalha felpuda, entrei no meu quarto, me despi e tomei um banho quente, rindo como uma idiota, acho que a maluquice de Ana é mesmo contagiante.