O outro lado do clichê
25 25 - É problema meu
Notas iniciais
Capítulo vinte e cinco
É problema meu

"Cruzando eras encontrei você
E pouco a pouco, e quase sem querer
No meu coração desfez-se o véu
Com você eu pude ver um novo céu"
(Novo mundo — Inuyasha)
O recreio veio e junto meu espaço na árvore, uma boa sombra e o Logan. Apesar de estar do lado de alguém legal, Evan era a única coisa que eu prestava atenção. Ele me encarava também e eu não conseguia desviar, ainda mais quando estava tão machucado, era como se estivesse presa naquele olhar.
Sua expressão era séria e ao mesmo tempo desesperada, parecia era gritar pela minha ajuda. E eu estava me segurando muito para não ir.
— A Margo pediu muito pelo seu número. — Consegui pegar o que dizia.
— Deixa para lá. — Falei bem rápido.
— Mas el- — Só ouvi o resto tudo abafado, ficou um blá, blá, blá para mim.
Não dava para aguentar, ele precisava de mim.
— Onde vai? — O Robin pegou em meu braço ao me levantar.
— Vou falar com o Evan. — Falei como se fosse nada demais, só que parecia que não era.
Não me largou e tentou me fazer voltar para o lugar, o olhei com uma cara que poderia se chamar de feia, não estava entendendo.
— Não vou permitir. — Você é meu pai por acaso?
— Você não manda em mim. — Já estava começando a ficar irritada. — Ele é seu amigo não? Também não quer saber quem deu uma surra nele?
Com essas perguntas parou e largou a minha mão, abaixou a cabeça e era como se não tivesse gostado daquilo. Essa era a hora certa para correr dali, só que fiquei para ouvir o que diria.
— Fui eu. — Meus olhos se arregalaram quando disse isso em um sussurro. Nem acreditei no começo por não ter algum sinal de que tivesse se envolvido numa briga, porém de longe parecia estar sendo sincero.
Não me importava se era Logan Smith, o cara que foi meu primeiro amor, decepção e me trouxe momentos bons, para mim agora só era um idiota que agrediu alguém. Eu me sentia tão irritada e me perguntava se era por ver minha mãe apanhando do James tantas vezes ou foi pelo tal diabo de olhos verdes.
— Por quê? Isso não se faz! — Eu gritei sem nem importar se me ouviriam.
Quando levantei quase me desequilibrei pela tremedeira, minha mão em punho para não descontar nele. Talvez foi por ver como estava ou pela situação, mas agarrou nos meus dois braços para que não caisse.
— Se ouvisse o mesmo que eu me entenderia. — Respondeu.
Era como se estivesse naquele mesmo ano, casa, idade e vendo o meu ex padrasto maltratar minha mãe porque não fez a janta rápido. Mesmo que a pessoa a minha frente dizia a verdade, tudo o que vivi tinha um pé atrás em confiar em frases assim.
Era quase igual a "não é o que está pensando" quando acabou de pegar seu marido com a amante na cama.
— Deixa eu ver. — Falei essas três frases quase rangendo o dente. — É um assassino? Sequestrou uma criança? — Se eu não tivesse sido irônica quem sabe estaria na direção agora. Eu sei, não se combate violência com violência, mas fazer isso em pensamento não dá cadeia ainda pelo que sei.
— Quase isso. — Sussurrou e deu uma boa respirada. — Não sei como você consegue defender uma pessoa dessas.
— Uma pessoa dessas? É do nosso amigo que está falando! — Tentei me desvencilhar dele e sair, mas não deixou.
— Ele me contou tudo. — Confesso que estava surpresa, mas ainda a irritação vencia. — De ter te beijado a força e chantageado para ajudá-lo em uma aposta.
Por que ele não me solta?
— E ai deu uma de herói e bateu nele? — Cutuquei-o com o dedo indicador em seu de uma maneira até um pouco agressiva, mas não fiz mais por estar presa e tentar me controlar.
— Claro. — E eu jurando que foi por causa de um namorado de uma das garotas que pegou.
— Isso é problema só meu! Não tinha o direito de fazer isso com o Evan, não tinha. — Ainda não conseguia largar o que eu sentia, era um misto de emoções, tristeza, raiva e confusão. — Só me solta.
Ao invés de fazer o que pedi, me aproximou dele e me vi sendo abraçada. Dei uns socos fracos nas suas costas e tentei o encarar para que visse o quanto estava odiando essa situação, só que a sua reação me fez parar com tudo.
— Por que está chorando? — Eu?
Não tinha percebido até então, mas foi como um gatilho para continuar. Dessa vez era um choro alto e desesperado que vinha de mim sem nenhum motivo. Era tudo tão estranho desde alguns dias atrás e eu não me reconhecia. A resposta não estava em mim, nem em Catherine ou Robin, mas sim em Evan.
Eu sentia muita falta dele.
Era certo que estar machucado me trouxe lembranças ruins do passado, que eu jamais queria relembrar, só que tinha mais. Apesar de lutar sempre para ficar longe dele com a desculpa de que a história desses três me afetava, era só quando se referia a Evan, porque com os outros dois era diferente. Eu estava com o Logan bem aqui do meu lado, não?
— Não sei. — Respondi depois de um bom tempo.
Antes que me chamem de mentirosa, realmente não entendia porque estava chorando por ele. Era apenas saudade? E quando olhei para o lado em busca da pessoa que mais me importava agora, não o encontrava de jeito nenhum.
— É um baita de um sortudo. — Disse e o encarei como se tivesse um enorme sinal de interrogação invisível na testa, ainda mais quando resolveu enlaçar seus braços em um aperto.
Quem deixou? Isso era no mínimo agoniante.
— Larga, não gosto que me toquem assim. — Não esperei por uma resposta sua, apenas me afastei e sai dali.
Ainda sentia um arrepio quando pegou naquela parte do meu corpo, era esquisito ter essa reação, até porque já gostei dele. Será que é por que não era mais apaixonada por ele? Era pelo trauma?
Passei pelos corredores enquanto mordia um pedaço de maçã, jogando no lixo perto do bebedouro, e olhava para todas as salas possíveis a procura do Miller. Quando o encontrei foi no banheiro masculino, entrando ali sem me preocupar se tivesse alguém ali.
De tantas garotas que deve ter pegado ali também acho que não se importaria com isso. Se ficou surpreendido com a minha presença ao ponto de largar o lenço que usava para se secar, deve ter sido por ter vindo até ele.
— Está bem? — Deu um sorriso minimo para em seguida se desmanchar como se uma coisa terrível tinha acabado de acontecer.
— Vou indo. — Quando passou por mim, foi a minha vez de pegar em seu braço e o parar, se virou até poder vê-lo de perto.
O hematoma ainda era recente e fazia um inchado até embaixo do olho, seus olhos verdes pareciam apagados e o cabelo mais desordenado que o normal. Não parecia o Evil brincalhão de sempre, sim um cara abatido e de certa forma sem vontade de viver.
— Pega. — Larguei algo para a ferida em sua mão quando consegui falar.
— Não preciso. — Será por que isso não me convenceu?
— Para de orgulho, quero te ajudar. — Rebati.
— Engraçado qu- — Parou de falar e só pegou finalmente o curativo. Não vai continuar? — Tinha razão, é melhor nos afastarmos mesmo.
Bem quando eu estava aceitando me aproximar? Tinha a ver com o Logan? Eu até ia negar, mas parecia tão errado agora, quem sabe em um melhor dia possamos conversar sobre tudo, principalmente quando não fique me sentindo tão confusa perto dele.
— Tchau. — A boba sussurrou quando já nem estava mais ali, mas pelo menos resolvi o seguir e também ir para fora antes que me peguem aqui.
Senão fosse embora daquele banheiro poderia dizer adeus a ponta de confiança que o diretor deu para mim, ainda mais depois que estendeu a suspensão da Alexia, também para as outras, até o delegado se manifestar.
Nos outros dias a gente se olhava algumas vezes e desviavamos, ainda via que parecia querer me dizer alguma coisa, mas não parecia estar bem, era como se algo muito grave tivesse acontecido. Será que já tinha falado da aposta para a Catherine ou pegado o dinheiro? Estar longe dessa vez era ruim, já que meu lado fofoqueira ia amar saber.
Também pensei nisso porque esses estavam muito íntimos ultimamente, pois apesar de algumas brigas, tinham risadas e conversas mais amigáveis no meio. Até ontem notei que estavam juntos no recreio e isso me chamava atenção demais por não me cheirar bem.
— Au, vamos na hamburgueria? — Perguntou o Smith quando estava saindo da sala. Até levei um susto por estar de novo olhando para o Evan, ao mesmo tempo que queria ficar longe para nos respeitar, era tão dolorido vê-lo assim.
— Queria era que falasse com seu amigo, Logan. — Falei, mas a cara dele não foi das boas e deixei isso de lado. — Só se me comprar um milk-shake.
— Eu aceito se me chamar de Robin. — Devolveu.
— E não vai ser ruim para você? — Ia ser complicado se trouxesse lembranças horrorosas toda a vez que dissesse esse apelido.
— Como assim? — Parecia não entender mesmo a minha pergunta.
— É o nome do seu pai. — E a boca dele ficou mais aberto do que quando vamos ao dentista.
— Quem te contou? — Até aumentou o tom de voz. Agora pisei no seu calo é?
— A Margo. — Falei sem nem pensar, mesmo que eu tenha visto a sua indignação com isso. Será que era tão ruim que eu soubesse?
— Eu vou matar ela. — Tudo nele tinha um ar ameaçador.
— Bem feito! — Até ri pelo jeito que me encarou, como se fosse um pecado ter dito isso. — É para aprender como é bom quando contam algo sem permissão. — Apontei para o celular.
— Achei que tinha deixado para lá. — Fez biquinho e depois fomos para onde queria.
Quando veio aquele burger bacon com muito molho esqueci tudo, era como se vivessemos nós dois ali e o mundo que se explodisse, quer dizer, a bebida também podia participar.
— Diz para ela me dar "oi". — Respondi enquanto limpava minha boca com o guardanapo, porque sabia que tinha me sujado e esse mico não ia ficar pagando mais nenhum segundo. — Para a sua ex, quero falar mais com ela, parece legal. — Completei quando percebi que não tinha entendido.
— Então pode ser pessoalmente, ela está aqui.
— O quê? — Apontou para um lado e a vi com umas garotas, entre elas estava a Catherine. Nessa hora não entendia se era melhor chama-la ou não. — Você sabia?
— Sim, me mandaram mensagem. — Respondeu como se fosse nada demais. Tá bom, não posso o culpar, até porque não devem ter contado que eu e a sua amiga, ou sei lá o que, tinhamos nos desentendido.
Minha vontade era de me levantar e eu ia fazer para ir ao banheiro, só que percebi de canto de olho que estavam vindo até nós. Isso me fez engolir em seco e ficar nervosa.
— Log, precisamos conversar. — Nem sequer cumprimentou ou me encarou, apenas disse isso.
— Tudo bem. — Concordou, sendo puxado por ela. — Você fica aqui. — Apontou para a pessoa do meu lado. É, a coisa ia ficar feia e o assunto bem provável seria sobre ter abrido a boca.
Assim Margo e eu ficamos sozinhas em um silêncio constrangedor.
— É uma sem noção. — Parecia um desabafo e tanto.
— Quem? — Perguntei.
— A Catherine. — A tá, achei que era você. — Não me leva a mal, ela é legal como amiga, mas não tem desconfiomêtro.
— Sei que deve achar que eu sei tudo sobre eles, mas eu não entendi nada. — Confessei para ver se me falava o babado por inteiro.
— Sempre foi assim quando namoravamos, vivia o chamando quando estava com ele. — Agora acho que todas as fichas caíram, está reclamando da amizade estranha deles. — Até parecia que os dois que estavam juntos. — Pelo jeito encontrei o motivo principal de terem terminado.
— Acho que tenho de concordar. — Mesmo que não estivesse ali na época, parecia compreender tudo, até porque um boato desse já chegou a se espalhar pela escola.
— Se estiver pensando em namorar com ele, é melhor parar agora. — O seu desencentivo foi comovente.
— Não gosto mais dele. — Fui sincera, mal ligando para o que soltei. — E o Evan como ficava nessa?
— Aquele cara nunca gostou de mim, vivia me zoando. — Que estranho, achei que estariam se juntando nessa. — Mas pelo menos não me sentia tão sozinha.
— Entendo. — Que sem graça.
— Estou falando sério, Audrey, de alguém que já viveu isso: se afasta, nunca vamos conseguir ganhar dela. — Me fala uma novidade que estou vivendo há semanas.
— Eu sei. — Só consenti sem a minima vontade de tocar nesse assunto, parecia que não queria me falar ou sabia sobre a história deles também. — Ficaram quanto tempo juntos? — Queria comprovar uma coisa.
— Cinco meses. — Mais explicado ainda, dali não teria nada, principalmente sobre o Miller.
Os dois voltaram depois de muito tempo e sentaram na nossa mesa, mas sem nem me encarar, já eu apenas continuei tomando meu milk-shake não tão gelado no mais pleno tédio. Se o Evil estivesse aqui as coisas seriam bem diferentes, talvez teria feito uma piada dessa saída, do molho em minha cara ou da Margo estar ali, pensei tanto nisso que me peguei rindo sozinha. É, a coisa de saudade estava muito grave.
— Vou trabalhar, tchau. — Ia sair, mas me lembrei de uma coisa. — Já que o Logan te deu meu número, me manda um "oi".
Talvez se não tivesse ido até aquele parque hoje e ficado até às 22h, não teria encontrado tal pessoa sentada no meio-fio ali de perto, a cabeça baixa que logo levantou ao perceber que alguém estava ali. Se tinha dúvida que era a mim que procurava, ela desapareceu quando ficou em pé na mesma hora e correu para onde estava.
— Evan? É você? — E deixei tudo de lado para corresponder ao seu abraço desesperado, de um certo alguém que parecia a mim naquele tempo.
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