O namorado da minha melhor amiga.
3 Trabalho em dupla.
Conheci Miguel na igreja, os pais dele começaram a frequentar os cultos e logo no primeiro dia eu o notei. Miguel era um garoto magricelo e alto quando criança, ele tinha duas covinhas nas bochechas, eu fiquei encantada por ele. Um belo dia sua mãe apareceu com ele para assistir o ensaio do coral, fiz de tudo para chamar sua atenção, não precisei de muito esforço pois ele não tirava os olhos de mim.
No começo não passamos disso, eu olhava para ele e ele olhava para mim, algumas vezes ele sorria e eu retribuía. A mãe de Miguel insistiu tanto para ele participar do coral, acho que ele não aguentava mais ouvir sua mãe falar sobre o coral e então começou a participar dos ensaios. Ele sempre se saiu muito bem. Foi por causa do coral que a gente começou a conversar, no final de um ensaio ele se aproximou de mim e disse:
— Você tem uma voz linda.
Miguel estava um pouco constrangido, suas bochechas estavam vermelhas e ele escondia as mãos no bolso da calça, me lembro como se fosse hoje.
— Obrigada. Você também canta muito bem – eu sorria para ele toda boba.
Tudo começou com uma amizade. Passávamos horas conversando, ele gostava de jogar bola e muitas vezes eu ia até o campo para assistir os jogos. Alguns meninos tiravam o sarro falando que eu não largava do pé dele. Miguel nunca pareceu ligar para o que os meninos diziam, mas conforme nós fomos crescendo e os meus sentimentos foram ficando mais intensos eu sentia que ele se afastava de mim cada vez mais. Sempre via ele conversando com outras meninas e eu morria de raiva, queria que ele só tivesse olhas para mim, que ele gostasse de mim.
Queria com toda a força que existia em mim que a gente ficasse junto, nunca desejei tanto algo como eu desejei que ele gostasse de mim assim como eu gostava dele. Pode parecer bobeira dizer o quanto eu o amava sendo tão jovem, mas o sentimento era real e chegava a doer. Para fugir da dor e me proteger do medo de perdê-lo eu me afastei, fingi que não ligava, que ele era só um amigo. Quando ele foi embora me arrependi muito por não dizer o que eu sentia por ele, até hoje eu me arrependo.
Agora que ele está namorando com a minha melhor amiga como eu vou dizer? Eu não posso fazer isso com a Bruna. Se é preciso que o esqueça de uma vez por todas para que a minha amiga seja feliz é exatamente isso que eu vou fazer.
— Aline? Você não está me ouvindo – Minha mãe estala os dedos na frente do meu rosto e eu volto para o mundo real .
— Desculpe, estava com o pensamento longe – tomo um gole de café que já está gelado, faço careta, odeio café gelado.
— Você está atrasada – ela aponta para o relógio.
— Meu Deus – pulo da cadeira – eu estou muito atrasada – corro até a pia e jogo fora o café gelado.
— Aline, você nem penteou o cabelo.
— Tenho que correr – Prendo os cabelos em um coque alto. Eu me pareço muito com a minha mãe, mas ao contrário de mim ela está sempre arrumada e com os cabelos louro escuro bem arrumado – te amo – dou um beijo em sua bochecha, pego minha mochila e saio correndo.
Estou com sorte pois na hora que chego no ponto o ônibus passa.
Não chego a tempo para a primeira aula. A diretora libera minha entrada na segunda aula.
Corro para a sala de aula, os alunos conversam entre si esperando a professora de história chegar.
Felipe permanece sentado a traz do lugar que eu geralmente me sento, ele está de cabeça baixa escrevendo e não parece nem notar que a primeira aula já terminou.
— O que aconteceu? – Bruna pergunta assim que eu me sento, ela fica em pé ao lado da minha mesa – sua cara da péssima.
— Perdi a hora – dou um sorriso amarelo.
— E foi atropelada pelo caminho? – Ela arruma a gola da minha camiseta do uniforme.
Bruna tem essa mania irritante de arrumar tudo o que vê ao seu redor, ela me deixa nos nervos com isso.
— Eu sei que to amarrotada e descabelada. Diferente da maioria, eu tenho que acordar bem cedo para conseguir me embonecar, tomar café e ainda pegar um ônibus que demora meia hora para chegar aqui. Ficaria muito grata se você compreendesse minha situação.
Abro meu livro e meu caderno.
—Que bicho te mordeu?
A professora chega e manda todos que estão de pé sentar. Hoje estou sem paciência para a neurose dos outros.
Durante a aula a professora explica sobre o trabalhamos que vamos fazer sobre a 1° fase da era Vargas, o trabalho não é muito extenso, é mais uma pesquisa então será em dupla. Olha para Bruna que pisca para mim, não preciso nem pensar com quem vou fazer.
— Desta vez eu vou escolher as duplas – a professora diz. Escuto os murmurinhos, os alunos não ficam animados com a ideia – nem adianta reclamar. Antes que alguém pergunte, o trabalho é em dupla e não em trio e nem pode ser feito individual.
Ela começa definir as duplas, Bruna fica com Rebeca, uma garota nerd que senta em frente à professora.
— Aline e Felipe – ela escreve nossos nomes na lousa.
Coloco a mão na testa. Eu definitivamente estou sem sorte.
Felipe me cutuca, olho para traz pensando em socar sua cara.
— Na minha casa ou na sua? – Ele dá uma piscadinha para mim, faz isso para me provocar e consegue.
Viro para frente sem dizer uma palavra. Eu tinha que ficar justo com ele?
No fim da última aula quando o sinal bate, todo mundo sai correndo, eu e a Bruna somos sempre as últimas a sair.
— Foi muito injusto a professora escolher as duplas – ela espera eu guardar o último livro.
— Ah, não reclama. Você ficou com crânio da turma, eu fiquei com o Felipe – Coloco a mochila das costas e caminhamos para fora da sala – Todo mundo sabe que ele não faz trabalho nenhum, as garotas colocam o nome dele para ter uma chance de ficar com ele, como se isso fosse preciso.
— Você tem a chance de colocar ele na linha – ela ri.
— Eu?
— Me lembro bem do dia que você falou que acredita na transformação das pessoas.
— Acredito que ele não queira ser transformado.
Bruna me dá carona até a minha casa. Hoje ela quase não falou do Miguel, isso me deu uma folga para pensar em outras coisas, como nesse bendito trabalho de história.
A tarde passa rápido. Consigo colocar todos os meus deveres de casa em dia. Quando minha mãe chega pedimos uma pizza. Margareth – a gata – aparece sorrateiramente em casa, é engraçado que ela aparece sempre quando tem comida.
Antes de dormir dou uma olhada no Instagram e depois no Facebook. Paro de subir a página do Facebook quando vejo que a Bruna alterou seu status no Facebook. Fecho os olhos e respiro fundo, fecho o notebook sem abrir meus olhos. Chega de internet por hoje, preciso de uma boa noite de sono.
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