Na segunda feira Felipe vai até a minha casa fazer o trabalho de história. Eu queria ir até a casa dele, não confio ficar com ele muito tempo sozinha. Ele insistiu tanto que fosse na minha casa que eu concordei.

Depois da escola dei uma arrumada na casa, como passamos o final de semana na casa da minha avó não deu tempo de fazer muita coisa em casa. Para mim é sempre doloroso ficar na minha avó, eu sempre amei passar os finais de semana lá, mas depois que meu pai faleceu não gosto mais. A memória do meu pai está muito viva ali, não sei como meus avós suportam essa sensação, talvez só eu me sinta dessa forma, toda vez que eu entro naquela casa eu posso ouvir até a sua risada e a dor é tão intensa que eu corro para o banheiro e choro escondida para que ninguém me veja.

Quando o porteiro liga em casa eu libero a entrada de Felipe.

— Entre – eu digo abrindo a porta para ele – fique a vontade.

Ele olha a sua volta conhecendo a casa.

— Obrigada – Felipe está com o cabelo molhado, veste uma bermuda bordo e uma camiseta cinza batida.

— Quer alguma coisa? Um copo de água?

— Água por favor.

Vou até a cozinha e encho um copo com água, entrego para ele e sigo para meu quarto, ele me segue.

Meu quarto é pequeno, não é minúsculo como de muitos apartamentos, mas não cabe muitos móveis. As paredes são verde musgo, eu mantive do jeito que meu pai pintou pela última vez. Minha mãe fez o quarto planejado para que sobrasse um pouco mais de espaço. Tenho uma prateleira cheia de livros e outra com cd’s e alguns discos de vinil. Em uma parede eu colei os desenhos do meu pai, ele tinha uma coleção de desenhos de edifícios antigos e prédios novos, sonhos que ele não conseguiu realizar, ele faleceu antes de terminar a faculdade de arquitetura.

Felipe observa os desenhos na parede. Fico com medo que ele toque nos desenhos, eles são muito importantes para mim.

— São seus? – Ele pergunta sobre os desenhos.

— São do meu pai – ligo o notebook e pego um livro que está na minha mochila.

— Ele é muito talentoso.

— Ele era mesmo – sorrio lembrando de como ele falava sobre arquitetura para mim e eu não entendia nada.

— Era? – Felipe caminha até a prateleira de cd’s

— Sim, ele faleceu.

— Sinto muito – ele fica sem jeito. Todo mundo fica quando fala de alguém que já se foi.

— Não sinta, já faz algum tempo.

— Pensei que ninguém mais tinha cd’s. Muito menos discos de vinil.

— Eram do meu pai também.

— Acho melhor eu não perguntar sobre mais nada.

— Tudo bem. Eu tenho tudo isso no meu quarto porque gosto de lembrar dele.

É estranho como eu não me importo em olhar para as lembranças do meu pai todos os dias, mas não suporto a sensação que sinto na casa da minha avó. Quando estou lá eu sinto uma necessidade imensa de vê-lo, poder ouvir o som da sua voz. Aqui em casa, com as coisas que eram dele é como se estivesse próxima dele, mas não sinto essa urgência de vê-lo. Tem dias que a saudade é mais intensa, mas depois passa e tudo volta ao normal.

—Não sabia sobre seu pai, faz muito tempo?

— Faz sete anos, eu tinha dez quando ele faleceu – Felipe parece um pouco triste, ele fica quieto – Então vamos começar?

Ele fica aliviado que mudo de assunto. Peço para ele ficar no notebook e eu fico com um livro que peguei na biblioteca.

Felipe pesquisa e também digita o trabalho enquanto eu faço algumas anotações conforme os textos que encontro no livro sobre o assunto. Ele não faz corpo mole ou fica enrolando em nenhum momento, se mantém concentrado todo o momento, nem parece o Felipe que conheço.

— Porque você sempre deixa que alguém coloque o seu nome nos trabalhos?

— Porque é mais fácil – entrego minhas anotações para ele passar a limpo.

— É a Rebeca que passa cola para você nas provas?

Ele olha para mim como se não soubesse do que estou falando.

— Que?

— Não finge demência. Suas notas e da Receba são sempre as mais altas da turma, e você nunca faz o dever de casa ou os trabalhos.

— E porque a Rebeca me passaria cola?

— Você é muito sínico – dou um soco de leve no seu braço – ela é apaixonadinha por você.

— Sei que sou irresistível, mas a Rebeca só me daria bola se eu fosse uma enciclopédia -

Ele ri.

— Uma vez eu vi uma foto sua como proteção de tela no celular dela – sei que é de muito mal gosto falar isso pra ele, eu ficaria morrendo de vergonha se um garoto descobrisse que coloquei a foto dele como proteção de tela. Me arrependo de ter dito isso.

— Que fofo – Ele continua escrevendo sem se importar muito com o que eu disse.

— Você acha isso fofo? Não acha bizarro?

— A Rebeca é uma garota muito inteligente, então para fazer isso, devo ser especial para ela, fico lisonjeado.

Sinto como se tivesse levado um tapa na minha cara. Não acredito que este garoto na minha frente é sensível dessa forma, ele só pode estar debochando de mim.

— Então ela tem uma chance com você?

— Não – ele balança a cabeça.

— Porque não?

— Você por acaso está tentando me juntar com a Rebeca?

— Não, eu nem falo com ela, mas porque ela não teria uma chance com você? Agora eu fiquei curiosa – mordo o canto da boca esperando ele responder.

— Porque não sinto nada por ela.

Caio na gargalhando. Dou tanta risada que meu estomago chega a doer, ele também ri.

— Ah não, para – seco as lágrimas com a manga da minha blusa – conta outra. Isso nunca foi motivo para você não ficar com uma garota.

— Deve ser engraçado me ouvir dizer uma coisa dessa mesmo. Mas é sério, eu não ficaria como uma garota como Rebeca sem sentir nada por ela.

— Então quer dizer que para você as outras garotas valem menos que a Rebeca.

— As outras garotas sabem onde estão se metendo, então a responsabilidade é delas e não minha.

Ele não é tão cafajeste quanto eu imaginava.

A campainha do apartamento toca.

— Está esperando alguém?

— Não – deve ser algum vizinho pois o porteiro não interfonou – vou ver quem é.

Deixo Felipe no quarto e vou atender a campainha.

Abro a porta torcendo que não seja a dona Maria, ela fala demais.

Quase caio para traz quando vejo Miguel parado na minha frente, ele sorri para mim.

— Oi

Eu não estava esperando por isso, na verdade eu não esperava vê-lo parado em frente à minha porta nunca mais. Meu coração bate rápido e minha pernas tremem um pouco, não sei o que fazer muito menos o que falar.

— O que está fazendo aqui? – Olho para traz me certificando que Felipe continua no quarto.

— Vim visitar a minha tia, ai decidir passar aqui para te ver – Que ótimo, ele quer me ver.

— É mesmo sua tia mora no mesmo prédio – finjo que não me lembrava.

Agora que ele me viu penso que ele vai se virar e ir embora, mas ele permanece parado na minha frente como se esperasse algo. Desejei por tanto tempo vê-lo mais uma vez e agora que ele está na minha frente quer fazer um buraco no chão e me esconder. Não posso demonstrar que eu fico mexida por ele, agora ele é o namorado da minha amiga. Eu não posso gostar dele, de jeito nenhum.

— Quer entrar?

— Claro! – Dou espaço para ela passar. Miguel se senta no sofá e parece confortável. Sento no outro sofá o mais longe possível.

— Então, você está bem? – Pergunto.

— Sim, nós voltamos para cá, acho que dessa vez é permanente.

— Que ótimo – forço um sorriso.

— E você, como anda as coisas? As coisas não mudaram muito desde a última vez que eu estive aqui – ele olha em volta reparando no apartamento.

— Está tudo ótimo. A Bruna sabe que está aqui?

— Bruna?

— Sim, sua namorada

Miguel fica surpreso.

— A Bruna é minha melhor amiga – explico.

— Minha Bruna?

Sinto um nó na garganta. A Bruna deveria ser minha amiga e não sua namorada.

—Sim.

— Agora entendo quando dizem que o mundo é pequeno – ele fica pensativo – Você falou alguma coisa para ela sobre nós? Quer dizer que éramos amigos?

— Ainda não. Ela quase não falou de você – minto – alguns dias me mostrou uma foto sua, mas logo mudou de assunto, então não falei nada.

— Entendi.

Ficamos em silêncio. Miguel não é mais aquele garoto magricelo, continua alto, mas está forte, deve frequentar academia. Sua feição também mudou, ele não tem mais aquele rosto de garotinho, seus traços são marcantes, um rosto que está mais para de um homem do que um garoto de dezoito anos.

— Está fazendo faculdade? – pergunto quebrando o silêncio.

— Sim.

Escuto Felipe sair do quarto. Fico apreensiva esperando ele aparecer.

— Já sabe o que vai fazer depois do ensino médio? – Miguel me pergunta sem perceber Felipe que acaba de entrar na sala.

— Não – olho para Felipe angustiada, ele levanta a sobrancelha e olha para mim e depois para Miguel.

— Desculpa interromper, mas to cheio de fome – Ele se alonga com a maior naturalidade do mundo, pelo menos alguém nesta sala não parece um robô.

Miguel se levanta e dá um toque na mão de Felipe em cumprimento.

— Acho que já vou indo, só passei para saber como você tá.

Talvez seja coisa da minha cabeça, mas tenho a impressão que Miguel ficou incomodado com a presença de Felipe, ele fica olhando para ele de um jeito estranho.

— Não quer tomar comer alguma coisa?

— Não, tenho que ir – ele olha para o relógio em seu pulso.

Abro a porta e ele sai.

— Fala que eu deixei um beijo para sua mãe.

— Falo sim.

— Tchau

— Tchau – aceno com a mão e vejo ele descer as escadas. O prédio só tem quatro andares e não tem elevador.

Fecho a porta e vou para cozinha preparar algo para Felipe comer, faço um misto quente e um milk-shake. Ele senta no banco e se apoia no balcão da cozinhas, meche no celular por alguns minutos esperando o misto quente ficar pronto.

— Então esse é o namorado da Bruna? – Ele pergunta.

— É feio ouvir a conversa dos outros – faço uma cara feia.

— Qual o lance entre vocês?

— Que lance? Além de ouvir a conversa, escuta errado – entrego o misto quente dele.

— Tem alguma coisa entre vocês dois. Isso eu tenho certeza.

— Sinceramente, você só abre a boca para falar asneira.

Me sento ao seu lado para comer. Margareth aparece se esfregando nas minhas pernas, ela mia para chamar minha atenção. Felipe olha para o chão procurando a gata.

— Você tem gato – ele espirra.

— Na verdade é mais do vizinho do que minha, ela só aparece aqui pra comer – olho para ela com a cara feia.

Magareth tenta com Felipe. Ela se esfrega em sua perna e mia bem ato. Ele espirra várias vezes.

— Tenho alergia de gatos – ele diz entre um espirro e outro.

— Que ótimo, mais uma coisa que eu não gosto em você.

Felipe corre para o banheiro.

— Tem um remédio de espirrar no nariz no armário do banheiro – eu grito.

Penso que ele morreu no banheiro pois demora um tempão para voltar. Quando volta está com os olhos pequenos e vermelhos assim como o nariz.

— Posso levar? Está muito bom – ele dá um sorriso amarelo apontando para o misto quente.

Embrulho o lanche enquanto ele busca a mochila no meu quarto.

— Deveria contar para Bruna que gosta do namorado dela – Felipe aparece com a mochila nas costas.

— E você deveria ficar de bico calado. Eu não gosto de ninguém.

— Ta bom – Quando ele passa pela porta eu a fecho sem dizer tchau.