Fecho o livro. Há um garoto sentado ao meu lado no ponto de ônibus e ele está olhando para mim. Quando viro a cabeça para ver quem é dou de cara com o sorriso sarcástico de Felipe. Não me dou o trabalho de falar com ele, desvio o olhar e continuo esperando o ônibus que demora mais que o normal. Bruna geralmente me dá carona até minha casa, é totalmente fora da sua rota, ela faz isso por ser uma boa amiga. Sinto um leve arrependimento por ter a evitado na saída da escola, mas eu não agüentaria nem mais um minuto ela falando de Miguel.

Ao meu lado, Felipe faz gestos com a mão para chamar minha atenção. Tiro os fones de ouvido e olho para ele de cara fechada.

— Oi – ele diz. Reviro os olhos.

— O que foi? – pergunto.

— Não está a fim de ir a uma festa amanhã ?

— Você está de brincadeira né?

— Eu só te chamei para uma festa, o que tem de mal nisso? – ele se faz de inocente mas não me engana.

— Quem não te conhece que te compre.

— Se mudar de idéia o convite está de pé.

Coloco os fones de ouvido novamente. O ônibus chega e eu subo nele e o mais estranho é que Felipe também. O dia não poderia ficar mais bizarro.

Passo a catraca e vou direto para o fundo, o ônibus está vazio. Sento-me no ultimo banco, Felipe se senta na frente. Fico intrigada, porque será que ele está andando de ônibus? Posso contar nos dedos os alunos que utilizam o transporte publico, a maioria volta para casa de carro ou pedem um Uber, alguns voltam a pé pois moram bem próximo do colégio. Eu moro em uma periferia do outro lado da cidade, e se não fosse pelas caronas da Bruna voltaria todos os dias para casa de ônibus.

Felipe é um filinho de papai e sua irmã mais velha o busca na escola todos os dias. Ele é da minha turma e ao contrário da maioria das meninas, que ficam se derretendo por ele eu prefiro manter a distância, sua fama é ser o galinha da escola, se você der mole ele não perde tempo. Depois que a professora de Matemática o trocou de lugar, colocando ele sentado a traz de mim, Felipe começou a puxar assunto comigo e é claro, já deixei bem claro que não quero papo com ele.

Pego meu celular e mando uma mensagem para Bruna:

“Você não vai acreditar em quem esta no mesmo ônibus que eu. O Felipe”

Não demora nem um minuto e ela responde:

“OMG, sério? O badboy andando de ônibus? Queria estar ai para ver isso”

“ Ele me convidou para uma festa!!!!” – envio para ela.

“ Pelo amor de Deus, não aceita!”

“É obvio que não, eu não sou louca”

“ Só um pouco”

Teria que estar totalmente fora de mim para sair com o Felipe. Já ouvimos histórias horríveis de meninas que saíram com ele.

Ele desce em um ponto bem antes que o meu, em um bairro visinho.

Chego em casa exausta. Esquento minha comida no micro ondas e assisto um episódio de Supernatural. Queria ficar jogada no sofá o dia inteiro, mas prefiro continuar viva porque se caso minha mãe chegar e encontrar a casa desse jeito ela me esfola viva.

É bom faxinar a casa, matem a minha mente ocupada. Limpo tudo tão bem que nem parece mais minha casa. O dever de casa já é outra história, leio dezenas de vezes o mesmo parágrafo e não consigo entender nada. Fecho o caderno e os livros e espero minha mãe chegar do serviço.

— Nossa, a fada madrinha passou por aqui? Está tudo brilhando – ela fala quando entra em casa, olha ao seu redor e seus olhinhos até brilham de alegria.

— Prazer, fada madrinha – digo terminando de coar o café.

— O que deu em você? – Minha mão pendura a bolsa e o casa no mancebo que fica a traz da porta.

Moramos em um apartamento pequeno, mas aconchegante. Não precisamos de muito espaço pois somos só nos duas, e uma gata que mais fica na casa do vizinho do que na nossa.

— Precisava manter minha mente ocupada.

— O que foi filha? – agora está preocupada.

— Mãe, você lembra do Miguel?

— O garoto do coral da igreja?

A memória da minha mãe é ótima.

— Sim, ele mesmo.

— O que tem ele?

— Ele é o novo namorado da Bruna.

Minha mãe se senta e enche uma xícara de café.

— Eles não tinham se mudado?

— Sim, mas devem ter voltado para cá.

— Aline, você não era apaixonada por esse Miguel?

— Sim – eu me sento ao seu lado.

— E a Bruna começou a namorar com ele mesmo assim?

— Ela não sabe que eu já gostei dele, não sabe nem que eu o conheço.

— Pensei que vocês não tinham segredos.

— E não temos. Você acha que a Bruna se lembraria de uma coisa que eu contei para ela anos a traz?

— Tem razão – ela ri.

— Você acha que eu devo contar para ela mãe?

— No seu lugar eu contaria.

— E se ela se afastar dele por minha causa?

— É o que ela deve fazer.

— Por quê? – não entendo seu modo de pensar.

— Porque ele foi importante pra você filha, e ela como sua amiga deve escolher outro garoto para namorar. Pelo que você me contou, ela não tem muita dificuldade para arranjar um novo paquera.

— Eu acho que dessa vez é diferente mãe, ela gosta mesmo dele.

— Filha, eu tenho certeza que vocês duas vão resolver essa situação, juntas.

Mais tarde penso em ligar para ela e contar sobre Miguel, mas antes que eu consiga discar o numero eu desisto.

Notas finais
Se puderem me dar um feedback sobre os capítulos, ficarei muito grata!