Notas iniciais
Quando chamei a banda para a mesa junto com Daniel, ele pareceu um pouco decepcionado, mas talvez tenha sido somente impressão. De qualquer forma, eu não ligava.
— Então, de onde vocês quatro se conhecem? — Josh, o amigo de Daniel, puxou o assunto.
— Bem, eu conheci a Sam quando tínhamos uns 14 anos... — Tom respondeu, sorrindo pra mim. — Na verdade a gente namorou por muito tempo. Quantos anos mesmo, Sam?
—Quatro anos. Quando eu tinha dezoito, aí eu me mudei e percebemos que não daria certo á distância. — retribui o sorriso, beijando seu rosto.
— Hum... — Josh murmurou. — Entendo. De qualquer maneira, eu preciso ir embora. Amanhã cedo temos treino. Você também deveria ir, não, Danny? — Ryan e os garotos se viraram pra mim.
— Também precisamos ir. — Ryan me deu um beijo na bochecha. — Tyler te mandou um beijo e pediu desculpas por não poder ficar. Ele tinha que ir pro clube hoje.
— Tudo bem, mande outro pra ele — murmurei, Tom virou-se pra mim, pronto para dizer alguma coisa, mas eu o interrompi — Em casa a gente conversa — sussurrei pra ele, e ele me olhou com um ar desconfiado. — Eu prometo.
—... acho que vou acompanhar a Samantha mais um pouco, o que acha?
— Hum... ótimo —murmurei, e os garotos sairam porta afora. — Então...
— Então... — Daniel tamborilava os dedos na tampa da mesa, nervoso. Isso era novidade pra mim. Desde que o conheci, ele se comportava totalmente diferente quando estávamos juntos. Estranho. Parecia até uma criancinha que não sabia o que dizer ao lado de uma garota.
— Você gostou das nossas músicas? — perguntei, tentando quebrar o gelo, tomando um gole de meu martíni.
— São boas — murmurou ele, focalizando as suas mãos, sem saber o que dizer. — Você as escreveu?
— Eu e o Tom, praticamente
— Hum... — ele parecia perdido em seu próprio mundo, em seus pensamentos.
— O que foi? — ele olhou pra mim com os olhos arregalados, e eu sorri. — Você parece meio chateado.
— Não. É que... não é nada. — murmurou, respirando fundo, tentando controlar seu nervosismo.
— Eu também deveria ir embora — disse eu, pronta para acabar com aquela conversa dolorosa. Ele virou-se para mim. Parecia desapontado. — Foi muito legal te ver, Daniel.
— Hum... eu... espera! — gritou ele, levantando-se.
— O que foi?! — Soltei uma risada, achando engraçado seu jeito abrupto.
— Eu... eu já sei como provar para você que não sou como os outros.
~x~
Abri a porta da casa da banda, rezando para que Ryan ou Felipe tivessem arrastado Tom para mais uma noitada qualquer, mas lá estava ele esperando por mim.
— Oi — sussurrei, fechando a porta atrás de mim. — Onde estão os garotos?
— Felipe saiu com uma garota e Ryan acompanhou Tyler até o clube. Estamos sozinhos hoje.
— Ah. — murmurei, incomodada.
— Podemos continuar nossa conversa? — Tom disse. — Podemos conversar francamente um com o outro? Fazíamos isso antes.
— Aquilo foi antes de...
— Antes do nosso término, antes de você ter ido viajar e nos deixado sozinhos por cinco anos, sei — Tom me interrompeu, a voz magoada. — Sam, me diz a verdade, você ainda me ama?
— Honestamente, eu não sei — sussurrei. — É por isso que tinha tanto medo de voltar para essa cidade. Não queria ter que reviver nossos momentos juntos, ou descobrir que ainda sou apaixonada por você.
— Então por que não podemos continuar de onde paramos?
— Por que não quero voltar a estaca zero. Estou muito bem assim, sozinha. — respondi, olhando em seus olhos. — Ou talvez seja a falsa sensação de segurança que me prenda a você.
— Mas, se você ainda me ama...
— Nós não vamos voltar, Tom. Nunca mais. Por favor, tente entender. — pedi, com lágrimas nos olhos. Era tão dificil ter aquela conversa com ele. Principalmente se eu tivesse de contar o real motivo que me levou a terminar o nosso relacionamento.
— Como? Como você acha que posso entender se eu não sei nem o por que do nosso fim? Eu não quero te perder. Eu não posso te perder! — exclamou ele, chorando. Caminhei até ele, o abraçando forte.
— Por favor, não chore. Não por mim. — murmurei. — Não posso te ver assim.
— Você me diz isso, mas ainda assim me magoa dizendo que não vamos voltar — fungou ele, se desvencilhando de meu abraço. — Você foi a primeira, Sam. Sempre será. — se eu tivesse coragem de reviver todo meu passado, contaria tudo para ele agora. Mas estava mais preocupada com ele. Tom já sofria por conta do nosso término, se eu lhe contasse o motivo...
— Me perdoe. Você é a minha pessoa favorita desse mundo, você é meu melhor amigo.
— Sei... — ironizou.
— Sim, você é. E eu não gosto de te ver dessa maneira. Você não sabe o quanto me dói saber que sou eu quem está te causando essa dor. Mas não tenho escolha.
— Sempre temos escolha. — sussurrou ele, e beijou minha testa. Fechei os olhos, impossibilitada de me mexer. — Mas tudo bem, Sam, se é isso que você quer... — talvez fosse o álcool em minhas veias, talvez isso fosse piorar tudo, mas eu não me importava: o beijei. Era um beijo de despedida. Tom aprofundou o beijo, tão sedento quanto eu. Mas não podíamos continuar, então quebrei o beijo, suspirando. Encostamos nossas testas, cientes de que aquilo fora um ‘adeus’.
— Eu te amo — sussurrou ele. — Pra sempre.
— Eu também te amo.
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