Notas iniciais
— O que você vai fazer hoje? — Ryan perguntou pra mim, após encher um xícara com café.
— Nada por enquanto — dei de ombros. — Meus pais me chamaram para jantar na casa deles, mas não decidi se vou.
— Não sei como você consegue ter esse sangue frio para encará-los... Quero dizer, eles te abandonaram, te chutaram de casa! — suspirei, pegando um pedaço de torrada.
— Aprendi a ser fria esses anos que fiquei longe do Texas — respondi, mordiscando da torrada. — Se não fosse por isso já teria entrado em uma depressão profunda.
— Bom dia! — Tom entrou na cozinha sem camisa e com um sorriso enorme no rosto. — Hoje é um novo dia, de um novo ano que vai ser maravilhoso pra gente. — disse ele, me dando um beijo na bochecha.
— Por favor, não comece com suas frases de auto ajuda... — Felipe entrou logo atrás dele, a aparência péssima. — Estou morrendo de dor de cabeça por conta da ressaca e a Laura está lá em cima.
— Laura? — virei-me para ele, procurando por uma resposta.
— Ah, uma garota que eu estou pegando. — respondeu ele, virando o café em sua xícara e tomando uma aspirina.
— Como mulher e ser humano, estou completamente decepcionada com você — disse eu. — “pegando”? Esse é o jeito certo de falar?
— Não vem com esse seu feminismo pro meu lado não!
— Não é feminismo, é bom senso! — gritei, realmente irritada. Amava Felipe com todo meu coração, mas, ás vezes, odiava seu comportamento infantil. — Você tem 27 anos, Felipe!
— Tá bom, já deu por hoje — Ryan gritou, segurando meu braço. — Felipe, você é nojento. Sam, a gente precisa conversar.
— Tudo bem... — murmurei, confusa. Ryan segurou em minha mão me guiando até o andar de cima, até seu quarto, fechando a porta quando entramos. — O que foi?
— Hum, eu... — suspirou. Ele parecia abalado e transtornado com alguma coisa. Isso me assustou.
— Ryan, o que está acontecendo? — perguntei, no tom de voz mais doce e inalterado que consegui encontrar. E então ele irrompeu em lágrimas, sentando-se na cama. — Okay, agora você me deixou realmente preocupada — murmurei, abraçando-o da mesma forma que ele fez comigo noite passada.
— Você se lembra quando a nossa banda começou, que eu chamei o Felipe e vocês não o conheciam? — perguntou-me ele.
— Sim... — respondi, sem saber aonde ele iria chegar com isso.
— Bem, ele era da minha escola na época... — arfou, tentando puxar ar. Nunca tinha visto Ryan dessa maneira. — E ele e eu... quer dizer, ele não, eu... Eu era e ainda sou, apaixonado por ele. — virou-se pra mim, os olhos vermelhos de lágrimas, abracei-o mais fortemente. Suspirei.
— Ryan... eu sou sua melhor amiga. Desde os quatorze anos eu sei que você é gay. Apesar de você não ter “saído do armário” ainda, eu sempre soube que você era apaixonado por Felipe. Os motivos eu realmente não sei — consegui arrancar um meio sorriso de seu rosto. — Felipe é um molecão no corpo de um homem adulto. E não sei se ele vai mudar... Sei que isso te machuca, mas não há nada que possamos fazer a respeito.
— E ele é cem por cento hétero... — Ryan completou, secando as lágrimas com as mãos e respirando fundo. — Eu realmente não sei o que faria sem você — me abraçou.
— Digo o mesmo. — sorri pra ele. — Hum... sei que este é um assunto delicado, mas você pretende assumir sua homossexualidade?
— Ainda não — falou ele. — Sei que você e o Tom vão me apoiar completamente, mas Felipe é ignorante... e, se ele descobrir que sou apaixonado por ele então...
— É, eu sei. Não posso te dizer que a melhor forma de lidar com as coisas é ser honesto consigo mesmo e com os outros, pois isso seria totalmente hipócrita de minha parte. — fiz uma careta. — Mas eu sempre vou estar do seu lado, não importa o quão ruim.
~x~
Olhei-me no espelho pela terceira vez. Não sabia ainda se iria para casa de meus pais, estava cansada de fingir ser forte para eles, eles que me mandaram embora quando descobriram...
— TOC TOC — Ryan bateu em minha porta, entrando logo em seguida. — Ah, então você resolveu ir para o jantar com seus pais?
— Sim... — suspirei. — Só tenho de me preparar mentalmente e fisicamente para o que vai acontecer... E vocês, o que vão fazer? — virei-me para ele.
— Hum... Felipe vai sair com essa tal de Laura, e Tom e eu vamos pedir pizza.
— Por que vocês não vão pra balada? — Ryan riu.
— Claro, claro. E aí o Tom fica com alguma garota e eu tenho que ficar sozinho conversando com o barman. — disse, irônico.
— Talvez não seja tão ruim. Talvez o barman seja legal — pisquei pra ele. — Por favor, Ryan. Não quero te ver mal por causa do idiota do Felipe.
— Tudo bem, tudo bem — levantou os braços, rendendo-se. — Se o Tom topar, nós vamos. Satisfeita?
— Muito. — murmurei, com um sorriso no rosto. — Agora preciso ir. Deseje-me sorte. — disse eu, abraçando-o.
— Boa sorte.
~x~
Quando cheguei na casa de meus pais, vi uma Civic estacionada na entrada. Meus pais não tinham esse lixo de carro. Então, vi um garoto parado na frente da porta de entrada e buzinei, saindo do meu carro.
— Quem é você? — O garoto disse, num tom arrogante.
— Sou Samantha Jones, e você, o que está fazendo com esse saco de lixo que você chama de carro na minha garagem? — soltei, já completamente irritada com aquele garoto filhinho de papai.
— Sou Daniel Evans, namorado de Paloma. — respondeu ele, com um sorriso irônico pairando em sua face. Isso me deixou ainda mais irritada. Então Paloma começou a namorar esse tipo de gente?
— Eu deveria saber que Paloma trazia para cá esse tipo de pessoa — consegui dizer, estalando a língua de maneira indiferente. — Tanto faz. — abri a porta da casa e Paloma logo veio correndo da cozinha, provavelmente achando que era seu namoradinho. Quando me viu, ficou petrificada, os olhos arregalados.
— O que você está fazendo aqui? — gritou, sem conseguir esconder sua raiva e ressentimento.
— É ótimo te ver de novo, irmãzinha — ri ironicamente, deixando minha mochila no sofá da sala.
—Ela é sua irmã? — consegui ouvir o garoto dizer, apesar de ter dito em um sussurro. Dei as costas á eles e fui para a sala de jantar, onde a mesa já estava posta e aguardando os convidados. Meu pai estava lendo o jornal na cadeira da ponta, e mal levantou os olhos para me cumprimentar. Minha mãe só sorriu pra mim, envergonhada.
~x~
O jeito daquele garoto me irritava. Ele era completamente igual á Felipe. Machista, que trata as garotas como um objeto para seu prazer. Eu já estava irritada com Felipe, e aquele garoto foi a gota da água pra mim. Meus pais o estavam tratando como uma estrela de cinema, e isso me deixou ainda mais irritada com a situação.
— Então meu querido, como está o time de futebol? — Charlotte perguntou á ele.
— Está uma maravilha, enquanto o time estiver sob minha responsabilidade, tudo correrá bem! — ele sorriu, e eu soltei um riso fraco.
— O que foi minha querida? — Charlotte virou-se para mim.
— Só estou rindo da piada alheia, Charlotte — respondi, sem olhar para o garoto, tomando um gole de minha taça de vinho.
— O que você quis dizer com isso? — ele me perguntou, tentando controlar a voz. Sorri.
— O que você bem entendeu. Meus pais aqui não compreendem que a minha irmã é uma vadiazinha que dá para qualquer garoto popular e que você é um aproveitador. O que você menos tem é responsabilidade. Não duvido nada que você já deve ter transado com a minha irmã milhões de vezes aqui mesmo, nessa casa, enquanto meus pais estavam viajando.
— Samantha! — meu pai exclamou, levantando-se da cadeira. — Não permito esse tipo de conversa dentro de minha casa!
— Desculpe, John, mas alguém deve ser honesto com vocês. — suspirei, afetada.
— O que você está fazendo aqui afinal de contas, Samantha? — Paloma soltou, me fuzilando com o olhar. Não respondi.
— Eu... eu acho... eu acho melhor eu ir embora — o garoto gaguejou, a voz embargada, levantando-se.
— Nada disso! — Paloma levantou-se, ainda olhando para mim como se quisesse me ver morta. — Você vai passar a noite aqui. Não posso deixá-lo ir para casa nesse estado de nervos. — olhei para ele pela primeira vez desde que entrara no cômodo, e vi seu maxilar retesado, e as mãos fechadas em um punho, tentando reprimir a raiva. Não sabia que conseguiria desestabilizá-lo daquela maneira.
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