Notas iniciais
— E então, quais foram as aventuras vividas por Samantha nesses cinco anos de estrada? — Ryan me perguntou, me entregando uma lata de cerveja.
— Não há muito o que contar — dei de ombros. — Quero dizer, eu estava a procura de trabalho, então não tinha muito tempo para admirar a paisagem.
— Ah, qual é, você deve ter histórias boas. Principalmente de Nova York. — Ryan disse, olhando ansioso para mim.
— Nenhum namorado em potencial? — Felipe indagou. Troquei olhares com Ryan. Ponto para Felipe e sua inconveniência. Virei-me para Tom, que olhava para o chão com uma careta.
— Na verdade eu não namoro desde que me mudei daqui — disse, e pude ver Tom levantar a cabeça para me olhar pelo canto do olho. — Mas tenho uma história bem interessante da época que passei em Minessota. — murmurei, ansiosa para mudar o assunto. — Eu morei com essa garota, Alana. Ela tinha acabado de entrar para a faculdade e precisava de uma companheira de quarto, então eu fiquei lá por seis meses. Arrumei um emprego de garçonete no bar da família dela, o que foi bom já que eles não eram completos estranhos. O pai dela, Fred, concordou em me deixar fazer shows no bar todos os sábados junto com a Alana. Ela tocava baixo, muito bem por sinal.
— Ela era gostosa? — Felipe me interrompeu.
— Felipe! Deixa a Sam terminar a história. — Tom riu. — Mas... ela era gostosa? — o fuzilei com o olhar. — Okay, desculpe.
— Continue — Ryan murmurou.
— Então, teve esse dia em que a gente estava fazendo uns covers do The Killers, e quando a gente acabou, tinha um cara de uma gravadora no bar que veio falar com a gente perguntando se gostaríamos de marcar uma entrevista com ele.
— O que, você está falando sério? — Ryan disse, os olhos brilhando de excitação. — E o que você disse?
— Sim. O nome dele era Harry Mitchell... eu acho que ainda tenho o cartão dele em minha bolsa. — respondi. — Mas eu disse á ele que não poderia aceitar seu convite por que... bem, vocês sabem como eu amo ser de uma banda independente.
— Sam, você enlouqueceu? — Tom perguntou. — Essa podia ser a chance da sua vida. Da nossa vida! A gente poderia ganhar milhões com isso.
— Pode ser, Tom. Mas eu comecei isso aqui por diversão. Acho que se virasse meu trabalho, eu perderia completamente o interesse. — dei de ombros. — Enfim, agora a Alana está fazendo carreira solo nessa gravadora. Música country. Não é meu estilo.
— Ah — Felipe suspirou. — Faltam alguns minutos para a meia noite gente, precisamos nos preparar.
— Então... — Ryan murmurou — O que vai acontecer á cinco anos?
— Não gosto dessa brincadeira — respondi, nervosa. — Não gosto de lembrar que tudo que sonhei pra mim á cinco anos não aconteceu.
— Ah, qual é Sam, essa brincadeira é uma tradição. — Tom disse, apertando minha bochecha.
— Tudo bem... — bufei. — Daqui á cinco anos eu vou ser feliz.
— O que?!
— Isso é tudo o que eu peço: felicidade — falei, me sentando no sofá da garagem, com a cara amarrada.
— Ah... tá bom. — Tom continuou. — Daqui á cinco anos vamos ser a maior banda de rock do mundo.
— Daqui á cinco anos vou estar muito bem casado — Ryan disse, sonhador. Nos entreolhamos e começamos a rir. — O quê?
— Você ganhou! — Felipe conseguiu dizer, ainda rindo loucamente com a mão na barriga. Eu já estava com lágrimas nos olhos de tanto rir.
— Realmente, isso me animou. — continuei, secando as lágrimas do canto do olho.
— Isso é bullying! — Ryan protestou, apontando para mim.
— Desculpe, Ryan. — respondi, o abraçando. — Tenho certeza que estará casado daqui á cinco anos — tentei ficar com a expressão séria, mas logo estava rindo novamente.
— Vocês vão ver... — disse ele, senti um pouco de ressentimento em sua fala, e ele me empurrou, subindo as escadas para o andar de cima.
— O que deu nele? — Felipe indagou.
— Acho que fomos longe demais... — murmurei, suspirando. — Ryan é tão sentimental!
~x~
“Okay, então a gente se encontra amanhã?,” Tom perguntou, um sorriso iluminando seu rosto.
“Claro... Não vejo a hora de nos mudarmos para nossa casa” Respondi, sorrindo. Ele me deu um beijo demorado e então coloquei meu capacete, sentando na garupa de minha moto. Murmurei um “adeus” — isso soou tão certo... mas eu nunca dizia “adeus”, por que eu diria ‘adeus’ para Tom, o amor da minha vida? —, liguei o motor e parti, sem olhar para trás. Eu amava viajar por aquela estrada, era tão tranquilo e silencioso... sorri, me lembrando do dia anterior, quando Tom pediu para morarmos juntos. Estávamos noivos e iríamos morar juntos... a vida não poderia ficar melhor. Acordei de meu devaneio com a buzina alta de um carro, e um farol e, de repente, tudo ficou escuro.”
— Sam! Sam! Acorda! — Ryan estava em cima de mim, os olhos preocupados. Foi um sonho. Um pesadelo. Estava chorando descontroladamente, então Ryan deitou-se ao meu lado na cama e me abraçou fortemente. Eu não podia acreditar que isso estava acontecendo de novo.
— Eu... eu... — gaguejei, tentando botar pra fora tudo que estava entalado em minha garganta. — Eu sonhei com aquela noite, Ryan.
— Ah, minha querida... — ele beijou minha testa toda soada, sem se importar.
— Eu sabia que não deveria ter voltado para o Texas. Sabia... sabia que aquela noite ia me atormentar para o resto da vida se eu voltasse.
— Me escuta: Eu posso imaginar o quanto dói lembrar de tudo. É claro que dói! Vocês dois estavam prestes a começar uma vida juntos... — Ryan suspirou, passando a mão por meu cabelo. — Mas você não pode ficar fugindo do seu passado. Uma hora ou outra você ia ter de enfrentá-lo. Você passou por tudo aquilo por uma razão. Pois coisas maiores e melhores ainda vão acontecer na sua vida. E eu estou aqui pra você, sempre vou estar.
— Eu sei... — suspirei.
— Então tá. Quer que eu durma com você esta noite? — perguntou ele.
— Por favor... — pedi, envergonhada. Ele sorriu e apertou minha bochecha.
— Tudo pela Sammy. — deixei escapar uma risada fraca ao lembrar de que ele me chamava de Sammy quando éramos pequenos.
Fale com o autor