O mundo vai acabar em neve
3 O garoto da montanha de prata
Um jovem forte como o sol nascente, sobe as escadarias para uma arena. Ele está envolto em densos trapos que arrastam no chão, um poncho que algum dia foi bonito e colorido. Seu cabelo é cinza como uma liga de prata, sua pele é morena, seu rosto é redondo e seus olhar é determinado e arteiro.
Ele entra na arena ao céu aberto e a plateia se anima ao ver sua chegada. Centenas de pessoas assoviam e gritam pelo seu nome.
— Cãmdi! Cãmdi! Cãmdi! Cãmdi!
A arena se localiza no alto de uma montanha nevada decorada com milhares de bandeiras que cobrem todo o topo branco. O vento frio da montanha as faz tremularem, porém esse vento gelado não é capaz de esfriar os ânimos das pessoas lá dentro.
E então um segundo garoto entra na arena. Ele possui cabelos vermelhos e seus dentes são afiados assim como seu olhar. Ele veste uma armadura de escamas vermelhas e em suas costas reside um bastão de madeira enegrecida.
— Jinsou! Jinsou! Jinsou! — grita outra metade da plateia torcendo pelo seu campeão.
Os dois param um de frente para o outro e entre eles surge um juiz com a cabeça raspada. Ele aparece em um passe de mágica usando uma arte de teleporte. Ele veste longas camadas de tecido laranja e marrom, roupas características dos monges do templo da arena.
Sua expressão é pesada e como um juiz seu olhar carrega julgamento. Ele ergue o braço esquerdo em direção ao Jinsou.
— Olá a todos presentes para a grande final do torneio de artes antigas. — Sua voz ecoa por toda a arena chegando aos ouvidos de todos os convidados no mesmo tom. — De um lado temos Jinsou, o Wyvern vermelho.
Uma parte da plateia grita com o anuncio, eles estão com vestimentas vermelhas para representar seu país de origem, as terras dracônicas de Viern.
E então o juiz levanta o braço direito. Ao fazer o jovem Jinsou perde o sorriso.
— Do outro, o maravilhoso Cãmdi.
Agora o outro lado da plateia vibra. Eles vestem roupas amarelas e azuis para apoiar o jovem Cãmdi, nascido nas montanhas de prata que sediam o torneio. Os gritos fazem Cãmdi dar leves pulinhos de animação como se o evento fosse uma brincadeira.
— Lembre-se mesmo sendo a final do torneio todas as regras ainda se valem, mortes não serão aturadas. Lutem com toda a sua força de vontade e agora vão para suas posições na arena e esperem o sinal para começar.
Os dois obedecem às ordens e vão cada um para um lado, os passos do Jinsou são pesados e firmes enquanto o Cãmdi quase dança em cada pisada.
— Quem diria que nós enfrentaríamos mais de uma vez nesse torneio? — questiona Cãmdi inclinando a cabeça para o lado. — Vai tomar outra surra há há.
Jinsou saca o bastão e o gira entre os dedos antes de repousá-lo sobre os ombros.
— Vai se achando, no nosso primeiro confronto eu não usei metade da minha verdadeira força.
— Isso tá parecendo choro de perdedor. Mas vamos lá me mostre o que você tem ô lagartixa incompleta.
Jinsou range seus dentes afiados e da sua boca sai um pouco de fumaça. Apertando o bastão ele entra em posição de combate e aguarda.
E então o som alto de um sino de bronze ecoa pela arena, um indicativo a todos que a luta começou. Jinsou avança com uma investida, com seu bastão dando uma estocada contra Cãmdi. O golpe aceta o jovem da montanha de prata, porém ele não demonstra dor ou ao menos se inclina, pois o bastão acertou tão somente os velhos trapos.
Cãmdi sorrir e com um pulo desfere um chute contra Jinsou. Seus pés descalços acertam a armadura do wyvern e o lança para longe. Cãmdi aproveita a reação como um impulso para criar distância.
— Qualé JinJin, vai deixar as coisas se repetirem exatamente como da última vez?
— Cala a boca! — Jinsou pega o bastão e começa a gira-lo e avança contra Cãmdi.
Usando a inercia causada pelo movimento giratório ele ataca com um corte horizontal. No entanto Cãmdi desvia inclinando seu corpo para trás. O bastão passa a centímetros do nariz dele, mas o surpreendente é o quanto ele se inclinou. Seus joelhos estão a quase noventa graus e ele não caiu no chão.
Ele sorri para o Jinsou e isso desperta a fúria do guerreiro de armadura vermelha que parte para o ataque com tudo que tem. Ele ataca com uma sequência rápida e implacável com seu bastão, golpes de todos os ângulos e formas. Mesmo assim, Cãmdi desvia deles como se conhecesse tudo que seu oponente usa. E ainda mais que isso, ele dá leves risadinhas visíveis para Jinsou.
Após mais um golpe horizontal que Cãmdi desvia se agachando, Jinsou tenta dar uma estocada mirando na cabeça de Cãmdi. Mas o jovem lutador não se agachou apenas para evitar o golpe, ele se agachou para ganhar impulso para realizar um salto. Ele pula com um salto mortal evitando o golpe e aterrissa pisando sobre o bastão de Jinsou.
Por conta de sua força dracônica Jinsou não sente tanto o peso de Cãmdi e não abaixa o bastão. E o Cãmdi fica se equilibrando sobre a arma. Por debaixo dos panos ele está com os braços cruzados e ele olha para Jinsou levantando o nariz.
Ver seu oponente fazer pouco caso da luta faz Jinsou explodir em raiva. Ele carrega a energia das artes antigas em seu bastão. As pontas da arma feita de madeira enegrecida começam a pegar fogo e com um movimento rápido ele usa o bastão para arremessar Cãmdi para cima.
Enquanto o lutador ainda está no ar o wyverns gira sua arma numa velocidade impressionante e usa da inercia para disparar duas bolas de fogo no lutador. As bolas fazem uma parábola ainda no ar e ambas o acertam. Elas geram duas explosões de fogo e fumaça negra. Mesmo assim Cãmdi cai no chão em pé.
— Então essas são as temidas bolas do dragão? — pergunta Cãmdi arrancando o manto em chamas. Por debaixo daqueles trapos velhos está o um nobre manto de seda prateada amarado com uma faixa dourada. Uma vestimenta semelhante a um judogui.
Cãmdi com um sorriso de orelha a orelha entra em postura de combate. Jinsou avança em direção a Cãmdi, a força de aceleração dele é tão alta que o piso de tijolos de pedra da arena quebra em um rastro de fogo. Sem conseguir desviar do golpe, Cãmdi se defende agarrando o bastão. A arma incandescente queima um pouco a palma das mãos de Cãmdi, mas isso não significa nada para o jovem lutador. Suas mãos brilham em dourado e essa luz se espalha por todo o comprimento do bastão até as mãos do Jinsou.
— Martelo de ouro — sussurra Cãmdi. Ao fazer, Jinsou sente uma grande dor em suas mãos, um choque físico que o faz largar o bastão.
Com seu oponente desarmado Cãmdi dá um soco com toda a sua força na barriga de Jinsou o arremessando para longe.
Jinsou não fica parado, com sua queda ele usa das mãos para se levantar com um pulo e voltar para o combate, mas diferente do que ele esperava Cãmdi não veio para continuar o assalto, o jovem lutador está parado olhando para seu braço.
Para Cãmdi algo está errado, ele tem certeza que não tomou nenhum golpe de Jinsou, mas mesmo assim ele sente seu braço queimar. Ele até dá alguns tapinhas achando que foi acertado por algum fogo invisível.
Achando que isso é uma provocação Jinsou se enche ainda mais de fúria, fúria essa que começa a transbordar o forçando a arrancar com as próprias mãos um pedaço da armadura que fica sobre o pescoço. Ao fazer revela uma incandescência em sua garganta.
— Já vai usar isso? — questiona Cãmdi. — Que sem graça.
— Isso é para você aprender a não me subestimar! Sua peste! Receba o fogo de um wyvern!
Jinsou inspira o máximo de ar possível e firma seus pés sobre a arena. Em resposta Cãmdi ignora a queimação e volta a sua postura de combate. Não só isso ele também inspira fundo e concentra toda a sua força em seus punhos os fazendo brilhar novamente com uma luz dourada.
A boca de Jinsou se enche de fogo e ele cospe um raio ardente que voa em espiral. Antes que o raio ardente acerte Cãmdi ele dá um soco com toda a sua força no golpe do oponente.
— Martelo de bronze! — uma luz dourada surge e emite um pulso que espalha as chamas as impedindo de queima-lo. — Martelo de ouro — um segundo golpe é dado por Cãmdi. Esse golpe cria uma faixa de luz dourada corre pelas chamas espirais até Jinsou. O golpe invade os pulmões do wyvern e o fazendo encerrar a técnica antiga.
O draconata começa a tossir como se estivesse engasgado e ele fica dando socos no próprio peito enquanto agoniza em dor. E então Cãmdi atravessa as chamas restantes com um pulo. Antes que Jinsou pudesse fazer qualquer coisa para se defender ele é acertado por um soco no abdômen.
— É uma bela armadura de pele de dragão, pena que é inútil! — grita Cãmdi rindo. — Martelo de prata!
Ao carregar sua arte antiga seus punhos se enchem de energia dourada e ele parte para uma sequência de socos implacáveis. Seus punhos colidem de forma rápida contra a armadura, porém o contato é mínimo, o verdadeiro dano está sendo causado pela energia dourada que invade o peitoral de escamas vermelhas e colide com o corpo de Jinsou.
Uma sequência de dez socos é dada e no final antes que o corpo de Jinsou caia, Cãmdi o acerta com um ultimo golpe duplo usando de seus dois punhos. Jinsou é arremessado alguns metros e cai desacordado.
O som alto de um sino de bronze ecoa por toda a arena e junto dele metade das pessoas na plateia pulam, se abraçam e gritam pelo nome de Cãmdi em uma comemoração histérica.
— Senhoras e senhores! Vocês testemunharam aqui a ascensão do jovem, o maravilhoso Cãmdi, até as finais e sua consagração como o guerreiro mais forte dos oito reinos. — O Juiz se aproxima de onde está Cãmdi e ergue seu braço direito.
Apesar de estar alegre com a vitória a queimação em seu braço é algo que o incomoda. Com o wyvern desmaiado qualquer arte antiga que ele tivesse usado era para ter se dissipado. Por precaução ele carrega uma arte antiga que o vai curar com a passagem do tempo.
— I-sso ainda não acabou! Nas terras Dracônicas um duelo só acaba quando um lado morre!!
Cãmdi escuta o grito vindo pelas suas costas e por conta de seus reflexos ele se abaixa. Os braços de Jinsou se tornaram garras de dragão vermelho, elas são afiadas como uma navalha e Jinsou ataca Cãmdi mirando em seu rosto. O golpe passa raspando a testa de Cãmdi causando um corte profundo.
Cãmdi cerra os dentes, porém sorri. Ele converte a energia que estava curando seu braço em um martelo de ouro e no momento que a barriga de Jinsou se torna exposta ele defere um soco com toda a sua força. Um soco tão rápido que mesmo os mais atentos teriam deixado tal golpe escapar e mesmo assim ele erra.
O juiz agarrou o Jinsou ainda no ar e o puxou tirando da reta do golpe de Cãmdi. Isso salvou o jovem wyvern, pois o golpe desferido liberou uma rajada de luz que se estendeu por metros de altura.
Mas então Cãmdi sente seu braço queimar novamente, numa dor que nunca sentiu antes. Mesmo usando uma arte antiga para aliviar a dor nada parecia a diminuir. Ele começa a dar socos e si mesmo tentando dissipar a sensação de dor. A sua volta ele escuta gritos mais próximos chamando pelo seu nome. Não são gritos comemorando ou o vaiando, são gritos desesperados o alertando para algo.
— Saia daí! — É o que ele escuta o juiz gritar.
Mas sem que sua percepção aguçada notasse uma rachadura verde cuspindo um miasma sóbrio se abre sobre ele. Ele tenta fugir, mas suas forças se esvaem e ele cai no chão.
Deitado sem conseguir me mover vejo o juiz correndo em minha direção, mas alguma coisa como um pulso o repele. Olho para meu braço que dói como se tivesse recebido um bafo de dragão a queima roupa e vejo que uma marca está sendo gravada. Ela está e uma língua que nunca vi nos sete reinos, mas que de alguma forma eu sei exatamente o que significa.
No Fate
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