O mundo vai acabar em neve
4 Minério bruto
Ouço o badalar de um grande sino negro, o barulho do instrumento é suficiente para me acordar e já me levanto num procurando por minha preciosa espada.
Minha cabeça dói e minhas memorias estão confusas. A última coisa que lembro é que estava na montanha pra pegar o javal e apareceu aquela coisa estranha. Agora estou numa sala iluminada apenas pela chama de uma vela que resiste sobre um montinho de cera ainda não queimou. A sala tem um formato circular e acima de mim tem um sino de bronze que não para de badalar.
Abaixo-me para pegar minha espada e a coloco na bainha.
— Que frio — comento comigo mesma ao tocar na lâmina.
— Ist jemand da? — Escuto uma voz feminina como a minha, ela fala em uma língua que não conheço e pelo seu tom sinto que está com medo.
— Olá! — grito de volta, mas engasgo com minha própria saliva quando meus olhos se acostumam com a escuridão e noto que além de mim tem mais seis pessoas na sala. Cinco delas estão caídas no chão desacordadas e os ver faz minha espinha gelar.
Vou no que está mais próximo de mim, uma criança com possíveis doze anos. Analiso seu corpo e checo sua respiração. Solto um suspiro aliviado quando sinto seu pulso.
— Ei, acorda — falo em um tom suave porquê o soar do sino parou. Ao mesmo tempo balanço seu corpo para que tentar forçar seu despertar.
— Heiliges Licht Stufe Eins.
De repente uma luz surge em nosso meio chamando minha atenção. A jovem garota que chamou a pouco possui em sua mão uma esfera de luz. Com um mover delicado de suas mãos ela ergue o orbe que flutua alguns metros e paira sobre nós.
— O que?! Como você fez isso?
Ela entorta a cabeça indicando que também não me entende. Suas vestes são diferentes das minhas com tal discrepância que é difícil comparar com algo que conheço. Sua vestimenta superior é como se fosse um poncho roxo e sua roupa de baixo é um tecido fino de tom mais claro. Suas perneiras quase não existem e suas pernas ficam a mostra até quase a altura da coxa. Além disso tudo ela usa um grande chapéu que lembra os de madeira talhada que temos em Panpunkin, mas ele combina com seu “poncho” e é bem pontudo para cima.
Então eu sinto alguma coisa agarrar meu braço, com o susto eu dou um pequeno grito e me recolho. No entanto foi apenas o garoto que está acordando. Agora que temos iluminação consigo ver seu rosto e sua pele é marrom? Interessante, eu ouvi a lenda de um samurai no passado cuja a sua pele era escura como uma sombra. Será que ele é da mesma terra que esse guerreiro?
— O-omai? — O jovem tenta falar algo, mas não consegue. Ele coloca mão na cabeça em dor cerra os dentes. Junto a ele outros parecem despertar, todos são pessoas distintas com vestimentas, estilos e falando em línguas que nem ao menos imaginei que existiam.
Considerando que todos estávamos inconscientes é logico pensar que ninguém aqui sabe o que está acontecendo. Mas o que me intriga é que além de mim há mais quatro pessoas com armas. Talvez eles sejam caçadores como eu ou guerreiros a serem temidos.
No entanto antes que eu possa chegar em alguma conclusão a parede em um dos pontos começa a brilhar em uma luz branca e a silhueta de uma porta surge. E naquele ponto os tijolos de pedra que compõe a torre desaparecem revelando uma saída.
Pela abertura se desenrola um tapete e cornetas soam. Todos nós damos alguns passos para trás, menos um homem alto vestindo branco e empunhando uma lança, ele permanece imóvel. Com isso um segundo homem se aproximou ficando ao lado dele, esse segundo veste uma armadura de bronze e carrega uma espada e um escudo.
E então pela abertura entra três homens, dois deles vestem algo como longos quimonos brancos que se arrastam pelo chão. E no meio deles um gordinho careca.
— Eouq degran ovind meb jase alo... Na art?!!
O gordo chega abaixando a cabeça e falando em uma língua que desconheço e ao levantar sua visão a nós ele se assusta junto com seus acompanhantes que se entreolham.
— You'd better tell me who you are and where we are.Otherwise… — Não sei o que o que o homem de branco disse, mas pelo tom e a forma que ele apontou a lança, diria que foi uma ameaça.
—Στο όνομα του Δία, ποιος είσαι και πώς με έφερες εδώ — quase que ao mesmo tempo o homem de armadura copiou o gesto e levantou sua espada em direção aos três homens.
O gordo balança as mãos e dá um tapa nas costas de um de seus acompanhantes. O homem junta suas mãos e uma luz começa a surgir em seu entorno.
Os dois guerreiros armados dão um passo para trás, mas logo partem para o ataque. Ambos avançam com uma estocada mirada em cada um dos acompanhantes do gordinho. Vendo a cena de morte eminente levanto a mão para tentar impedi-los. Contudo, quando suas lâminas parecem que encostar nos homens, uma mão espectral surge e os agarra.
Eu e os outros na sala damos passos para trás, o garoto levanta os brações em posição de combate e um guerreiro com uma marreta grande a saca de suas costas. No entanto somos rodeados por uma luz forte e a garganta de todos incluindo a minha começa a brilhar.
Tem algo a mais nesse brilho, ele faz minha cabeça doer e meus ouvidos zumbirem. Tenho a sensação de milhares de vozes estarem dentro da minha cabeça falando ao mesmo tempo.
E então a minha mente fica clara e nesse emaranhado de caos uma única voz se alinha.
— Oi? Vocês me entendem agora? — verifica o gordo saindo de trás de um dos homens.
— Quem são vocês e onde estamos? — grita o homem com a armadura de bronze sendo prensado pela mão.
— C-calma nobre, nobres heróis. Eu sou um mero mensageiro que também está confuso com a atual situação. Tudo será explicado em seu devido tempo, mas peço que vocês se acalmem. E por favor abaixem suas armas. Enestor, por favor solte os convidados da rainha.
Com um estralar de dedos a mão estranha e desfaz em uma luz azul branca quase como se nunca tivesse existido.
Os dois guerreiros caem no chão. O de branco, apenas fecha a cara e ajeita os amassos em sua roupa. Por outro lado, o guerreiro de bronze range os dentes.
— Cachorros malditos! — berra o guerreiro enquanto avança no homem gordo. Ele agarra as golas de suas roupas e o ergue encostando-o na parede. Os dois homens que em muito provável, são os guarda costas do gordinho, começam a preparar aquilo que fizeram antes.
No entanto ele arranca de suas costas um escudo redondo e o atira em um dos guardas costas, o impacto da peça de latão e madeira o derruba. Em seguida ele pega sua espada e a coloca na garganta do gordo o ameaçando.
— Eu não quero saber! Eu o grande Chrysó, exijo uma explicação agora! — grita apertando o pescoço do gordo.
— Eu sei que vocês estão cheios de dúvidas, mas peço um pouco de paciência e compreensão. Levaremos vocês para terem uma audiência com a nossa majestade, ela é a única digna de explicar o que está acontecendo. — diz o gordo segurando nas mãos do guerreiro de armadura de bronze, enquanto é escorado na parede ele vai ficando vermelho pela ausência de ar.
Todos nós nos assustamos um pouco e ficamos ainda mais tensos diante desse cenário absurdo, mas eu não consigo ficar parada. esse idiota já feriu uma pessoa e agora ele vai contra a vida de uma segunda que nem tem como se defender? Com o punho fechado, caminho até eles e esbarro no homem de vestes brancas, já que ele ficou apenas assistindo a cena toda e não fez nada. Me aproximo do Chrysó e seguro no pulso dele impedindo que ele mova a espada.
— O que você quer?
Sem dar nenhuma satisfação, aperto o pulso dele com toda a minha força. Mesmo seus braços sendo musculosos e bem definidos ele cede diante da minha força tremenda.
— Ah! Mas o que? como? —
Conforme aperto ele geme de dor cedendo o gordo e a espada, ele até tenta fechar a outra mão para me golpear, mas antes que ele tente fazer qualquer ataque eu o solto.
— Desculpe-me pai por usar minha força contra um humano, mas ele é um idiota! — Oro para meu pai pedindo perdão. — E quem você pensa que é para tratar aquele homem desse jeito? Ele é apenas um mensageiro e já falou que tudo vai ser explicado! O que te faz pensar que sua dúvida é maior que a nossa?!
— E quem você pensa que é para falar alguma coisa comigo? sua leoa!
O Chrysó pega a sua espada e ia partir para o ataque, porém aquele garoto interveio ficando de braços abertos entre nós dois.
— Olha, se você quiser ferir a vai ter que passar por mim primeiro! —
— Sai da frente moleque! Que essa maldita por mim vai ter o que merece —
Interrompendo o Chrysó, um forte estrondo que faz o chão e as paredes tremerem.
— Vocês três parem agora mesmo com isso! — grita o guerreiro com a marreta. — Vamos logo acaba com toda essa discussão e ir embora!
A voz dele é grossa como sua marreta. Reparo que ele veste uma armadura negra completa, exceto de seu capacete que se ausenta do conjunto mostrando seu rosto limpo e seus cabelos curtos e dourados. Ela parece ser feita toda em metal. Com certeza custou uma fortuna.
— Mas que saco! — reclama uma figura que até o momento se manteve furtiva. Um jovem adulto mais baixo que eu e vestindo roupas leves e com um cachecol verde enrolado no pescoço.
— Agora que estamos todos entendidos, peço que os cavalheiros e as damas por favor me acompanhem — diz o gordinho saindo da sala em passos curtos.
Todos nós soltamos suspiros, talvez por alivio, talvez por decepção. Em seguida os “visitantes” seguem o gordinho mensageiro um por um como em fila. Eu também os sigo e em meu encalço o garoto que me chamou de Kazhimir.
Ao sair da sala sinto uma mudança brusca de temperatura, está bem frio, mais frio que as montanhas da minha vila.
Como será que estão as coisas lá? Por algum motivo sinto como se eu estivesse numa distância inimaginável de casa.
Ao sair da sala redonda entramos em um corredor como de um templo gigante. Seu telhado é alto, suas paredes são feitas de pedras e suas janelas são vitrais multicoloridos que formam a imagem de uma mulher com uma coroa sobre a cabeça. Andamos sobre um tapete vermelho e as margens desse tapete, homens com roupas engraçadas e multicoloridas segurando cornetas.
Me aproximo de uma dessas janelas e tento olhar o que tem do lado de fora. Eu consigo ver mesmo que tudo arroxeado pela cor do vitral, uma cidade extensa sobre uma montanha que desce até o mar. As casas parecem estar com o telhado no mesmo tom. Também parece que está nevando lá fora.
— Estranho, ainda era outono nas montanhas — converso em uma altura que apenas eu mesmo ouço.
Junto de mim o guerreiro com a marreta e o garoto se aproximam para ver.
— Onde estamos Kazhimir? — Pergunta o jovem moreno.
— Não faço a mínima ideia, mas vai ficar tudo bem, apenas fique comigo.
Eu coloco a mão nas costas dele e o abraço puxando para perto. Juntos caminhamos até uma porta dupla com quase três vezes a minha altura, diante dela o gordinho nos espera.
— Nobres heróis é a hora de suas duvidas serem sancionadas, eu lhes apresento a dama da sabedoria e oráculo do futuro, vossa majestade, a rainha de Refusal, Elenor Bluenessa decima segunda!
As portas se abrem para um salão enorme e no centro dele sentada em um trono está uma mulher de beleza contemplativa. Seu rosto segue proporções perfeitas e não tem marca. Seus olhos são verdes como esmeraldas e olhar para eles é hipnotizante. Seus lábios são tão vermelhos quanto meu cabelo. E seu cabelo é longo e negros como o escuro céu noturno. Ela veste um manto vermelho aberto e as roupas abaixo dele são como um quimono roxo, porém ele é bem justo e as mangas são coladas nos braços. Em sua mão esquerda está um cetro dourado que me lembra o colar do bispo.
Pelo meu costume, junto as minhas mão e abaixo minha cabeça diante da figura de autoridade máxima. O garoto copia o gesto e também saúda a rainha.
— Olá nobres heróis, confesso que quando Alastor me contou que seis de vocês foram chamados eu não acreditei. Vocês devem estar confusos e perdidos. Peço perdão pelo inconveniente, mas este mundo precisa da ajuda de vocês.
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