Em um dia no ano da raposa, na época que o clima começa a esfriar e as folhas das árvores tomam para si a tonalidade vermelha. Em um dia que as crianças acordam com o sol nascente e aproveitam para brincar enquanto tem tempo para isso. Em um dia em que os homens adultos vão fazer a última colheita do ano, as mulheres vão costurar os cobertores e fronhas. Os velhos pegam as redes e as varas de pesca para recolherem os últimos peixes no rio e os adolescentes decoram a praça da cidade com bandeiras e estatuetas de raposa feitas de madeira talhada.

Um dia que todos se unem com um único propósito coletivo. No entanto, na vila de Panpunkin, uma jovem mulher tem um trabalho diferente.

Nesse dia ela acorda mais cedo do que todos em seu povoado. Ela coloca um bule de chá sobre um fogão a lenha e vai para seu quarto se arrumar. Entre as quatro paredes ela veste seu quimono hakamashita favorito, um presente dado pelo seu pai e mestre. Ele é vermelho como vinho de amora, uma tonalidade forte e escura que combina com seu cabelo vermelho como sangue. Ela amarra uma faixa roxa na cintura para segurar sua hakama, uma saia longa de cor negra. Por fim, penteia o cabelo e amarra um rabo de cavalo com um laço em formato de flor de lotus.

Ela vai até a parede e pega o objeto de sua maior estima: uma katana longa. A espada está acompanhada de uma bainha especial que tem que ser colocada nas costas devido ao seu comprimento. Se fosse colocada na cintura ficaria arrastando no chão e se a espada fosse colocada em pé a lâmina seria capaz de ultrapassar a altura de sua portadora. O cabo e a bainha são feitos de uma rara madeira local e ambos são enrolados por faixas rosas que servem de adorno.

Com sua espada equipada, ela sai de casa, mas antes pega o conteúdo do bule e o transfere para uma cabaça e a esconde dentro da longa e larga manga de sua vestimenta. Com tudo pronto ela bate a mão no peito e ele sai com passos largos e firmes de sua casa, porém sente alguma coisa lhe puxar como se tivessem lhe agarrado pela espada.

Com um susto ela se vira pronta para atacar um possível invasor, mas para ao notar que a única culpada pela situação é ela mesma. Seu rosto fica vermelho e com as bochechas inchadas. Resmungando ela desengancha a espada da porta e olha ao redor. para seu alivio ainda não tem mais ninguém de pé na fria madrugada.

Retornando aos seus passos largos e confiantes, ela segue por uma trilha que corta a floresta e leva até os picos montanhosos que circulam a vila. Conforme caminha entre as árvores o sol vai raiando e os primeiros feixes de luz começam a atravessar as folhagens. Por ser outono, os tons de vermelho da floresta vão ficando evidentes. E entre eles a espadachim vai se camuflando, desaparecendo, se tornando invisível ao se misturar com a floresta.

Sua postura muda e ela caminha de forma mais esguia. Ela avança tateando o solo atrás de pistas, até que encontra preso entre as árvores um tufo de pelo. A descoberta coloca um sorriso determinado em seu rosto pois significa que a caçada começou. Ela localiza e segue um rastro de pegadas por algumas horas, até que em uma clareira beirando um córrego a espadachim encontra sua caça.

Na beirada do córrego está uma fera quadrupede mais alta que um cavalo adulto e com uma estrutura óssea mais larga que um hipopótamo. Ela possui uma pelagem marrom e saindo de sua boca, um par de presas pontudas como lanças.

A jovem se agacha para se aproximar da criatura. Conseguindo uma distância suficiente, ela pega a cabaça de sua manga e a arremessa próximo do animal. Ao cair no chão a cabaça derrama um líquido de aroma adocicado sobre as folhas. No primeiro momento a fera se assusta, mas ao sentir o aroma se acalma e começa a fuçar o recipiente.

Com sua caça distraída a jovem dama se levanta e saca sua espada. Mesmo com o comprimento extenso ele consegue tirar a espada da bainha sem problemas graças a uma adaptação da mesma, ao invés de sair pela ponta a espada é desencaixada e sai por uma abertura que se estende por todo corpo da bainha. Até o guarda mão se entende pelas costas da lâmina para fechar o conjunto.

A lâmina da espada também é algo anormal, o aço tem o desenho de uma pluma que se estende por toda lâmina. Além disso sua largura é de três polegadas, somado ao seu comprimento a deixa impossível de ser manuseada por um humano normal. Ainda sim a jovem dama empunha a espada sem ao menos se inclinar para trás.

A fera bestial consome todo o líquido da cabaça e após o termino da isca ela repara na presença da espadachim. Com o estranhamento natural ela arrepia seu pelo para parecer maior, raspa as patas de unhas cascudas no chão e berra com sons grotescos para o ouvido humano.

A jovem inspira fundo e tensiona seus músculos. O animal ergue a cabeça exibindo suas presas e então a criatura parte para o ataque com uma investida. A espadachim espera pelo último segundo e quando o animal toma a distância de seis passos ela movimenta a espada com um corte horizontal bem antecipado. A lâmina passa bem longe da criatura cortando apenas o vento.

O animal vem correndo e quando suas presas parecem encostar na espadachim, ela para de forma abrupta como se tivesse colidido em algo. Em sua testa se forma um corte por onde começa a escorrer sangue. e no ponto do espaço que a espadachim passou sua lâmina se forma uma linha vermelha bem fina. Enquanto a criatura está desnorteada a jovem dama corre e ataca a lateral do abdômen da criatura com dois cortes formando a letra “X”. O animal urra em dor e tenta atacá-la novamente com suas presas, porém com um salto gracioso ela se esquiva. No ar ela segura a sua espada com duas mãos e desfere um golpe rasante atingindo o pescoço da criatura, no entanto isso não é o suficiente para derrubar a fera. Então com um pulo para trás para ganhar distancia a espadachim desfere uma estocada mirando no coração da fera.

O animal urra e se debate por alguns instantes, mas logo cai sem vida ao chão. Satisfeita, a espadachim limpa o sangue e guarda sua espada. Ela se aproxima do abatido e acaricia seu pelo enquanto a criatura solta seu último suspiro.

A espadachim sorri e une as mãos e fecha os olhos como um gesto de agradecimento afinal uma vida foi tirada.

Com a sua oração finalizada a dama tira de uma de suas mangas um pequeno caderno onde anota algumas informações sobre suas caçadas.

— Vejamos, trezentos quilos de carne desossada, uma pele de qualidade, duas presas, talvez dê pra extrair gordura. É; esse javal já estava na maturidade. Aposto que o senhor Kunoma vai ficar muito feliz com essa caçada.

Após analisar as presas ela vai até sua cabaça, pega e a lava no rio. Coletando um pouco da água, a jovem tira da sua manga um frasco com um pó laranja. Ela despeja o conteúdo na cabaça e mistura bem antes de derramar o líquido sobre o javal.

Com o trabalho feito ela retorna a vila. Durante toda a caminhada de volta ela exibe um sutil sorriso vitorioso. E chegando ao arco dos portões da vila que ela mora a jovem dama avista as crianças brincando. O sol ainda não está em seu pico então o almoço ainda não está pronto, por conta disso elas ainda aproveitam para fazer suas travessuras.

— Pessoal a Kuri voltou! — grita um garotinho ao ver a dama vermelha se aproximando. Em sua mão há um graveto que simula uma espada.

— Kuri!? — questiona uma garotinha que também está com um graveto.

Como um efeito dominó, outras crianças vão ouvindo a notícia e todas correm para ver a sua heroína.

— Kuri o Midir está pegando no meu pé de novo. Manda ele parar!

— Kuri eu consegui juntar dinheiro para mandar fazer uma espada para mim, me ajuda a coletar o ferro depois!?

— Kuri a mamãe pintou meu cabelo com o broto-rubro, eu queria que tivesse ficado igual ao seu, mas ele ficou meio rosa.

— Você enfrentou algum monstro malvado hoje?

— Kuri, Kuri, Kuri! Você conseguiu caçar alguma coisa?

A espadachim tenta acompanhar o bombardeio de perguntas e pedidos, mas quando a conversa se torna uma bagunça ela cruza os braços e bate o pé no chão.

— Calma aí! Sou apenas uma! Se quiserem falar tem que ser um de cada vez.

— Já que é assim, senhorita Kurimuzon, poderia me agraciar sendo o primeiro da fila? — Entre o silêncio das crianças uma voz caquética surge.

— C-claro que sim ancião Kunoma — responde Kuri abaixando a cabeça.

— Vejo que voltou cedo, imagino que você teve uma caçada bem sucedida — afirma o senhor de idade avançada. Ele está enrolado em um cobertor de pele e caminha com auxílio de uma bengala. Seu rosto é enrugado por linhas do tempo e sua barba e resto de cabelos são totalmente brancos. Apesar disso seu tom de voz não exibe fragilidade.

— Sim, apesar de ter demorado um pouco para achá-lo, a luta contra o javal não durou dez segundos. — Kuri levanta sua manga e exibe seus músculos. Eles não são tão maiores que uma mulher normal de sua idade, mas são bem definidos.

As crianças olham para ela admirados.

— Muito bem senhorita Kurimuzon. Eu sei que você já concluiu com seu trabalho, mas tenho mais um pedido. Alguns dos nossos sondadores relataram rastros de um moonbear aos arredores de onde você foi caçar.

— Deixe-me adivinhar, o senhor quer que eu escolte o comboio que vai buscar a carcaça do javal? Posso e farei com prazer.

O Ancião acena com a cabeça e logo sem seguida coloca os dedos na boca e assobia muito alto.

— Meus agradecimentos em nome de toda a vila, me pergunto o que seríamos sem você aqui para cuidar do serviço perigoso.

Assim que o ancião termina de falar um grupo de seis homens aparece. Eles estão montados em cima de uma carroça feita de madeira e puxada por dois pássaros de tamanho avantajado e penugem verde.

— A Kuri já vai? — chora a menina de cabelos pintados.

— Não se preocupem, vai ser rapidinho. Voltarei logo — responde a espadachim com uma piscadela de um olho.

A Kuri sobe na carroça com a ajuda de um dos homens que segura a sua mão para que ela suba. Ela se senta na parte da frente junto do condutor e todos partem para o local do abate. Os pássaros conhecidos como “kalvagulas”, puxam a carroça com uma velocidade que um homem teria dificuldade de acompanhar a pé. Graças a isso os trabalhadores chegam no local indicado por Kuri antes de um ciclo de tempo.

Kuri é a primeira a descer, logo atrás dela os homens fazem fila e a seguem com as ferramentas para destrinchar o animal. Chegando na beirada do rio eles veem o cadáver intacto.

Mas a expressão de Kuri está estranha, onde costuma ter um sorriso determinado há uma expressão dura. Seus passos estão pesados e seus cabelos arrepiados. De forma sutil ela levanta a mão e os trabalhadores entendem o recado desacelerando o passo.

Em seguida ela coloca a mão no cabo da espada e deixa armada para um saque rápido. Seus instintos estão gritando que algo no ambiente não está certo.

Ela observa os arredores e se aproxima do abatido e o circula.

— Mas o que? — exclama ao ver o motivo de sua de sua aflição. Para a sua surpresa não se trata de nenhuma outra criatura e nem é ao menos alguma coisa sólida. Ela solta a espada e com sua mão direita, tateia o ar.

De repente alguma coisa toca seu ombro e ela pula como um gato que tomou um susto.

— Kuri? — pergunta um dos trabalhadores que a acompanham. Ele é mais velho e tem a barba malfeita. Usa um chapéu de palha e trouxe consigo uma grande faca.

Kuri vendo que é apenas seu parceiro, solta um suspiro de alívio. — Ufa, é só você Yukuna.

— Algo de errado? Você veio para cá e ficou uns cinco minutos parada. Ficamos preocupados então vim ver o que aconteceu.

Por um momento Kuri fica apreensiva com a quantidade de tempo que se passou. Em sua cabeça tudo durou um instante. — Entendo, por favor me diga, você também está sentindo isso?

— Isso o que?

— Um frio que não é natural. E parece que está vindo de onde eu deixei meu fio para trás. — Mesmo sentindo uma brisa que a faz sua espinha arrepiar, Kuri mantém sua postura e ainda coloca a mão no queixo pensativa.

— Desculpa, mas não estou sentindo nada de anormal, será que você está adoecendo e ficando com febre? — Preocupado, Yukuna tira sua luva de couro denso e coloca a mão na testa de Kuri. — Nada de anormal.

No entanto Kuri começa a sentir um calor estranho, ela sente como se seu braço direito estivesse enrolado em toalhas quentes. Logo em seguida uma luz verde nasce a poucos centímetros dela. Num susto Kuri se levanta e empurra Yukuna para longe do quer que seja aquilo.

A luz verde começa a deixar de ser um ponto luminoso e toma forma, ela começa a se parecer com uma rachadura no próprio ambiente. A luz pulsa e em seu entorno as coisas começam a se distorcer e uma nuvem de miasma negro surge dela. Kuri, no entanto entra em postura de combate e agarra o cabo de sua espada.

Ela olha para trás e vê o grupo de homens se aproximando. Eles estão armados com suas ferramentas e parecem prontos para lutar.

— Voltem! — grita a espadachim substituindo sua voz serena e calma por uma carregada de força.

— Mas Kuri.

— Voltem agora e avise todos da vila para uma possível evacuação. Eu não sei o que é isso, mas a primeira coisa que ela vai ter que enfrentar sou eu. Se isso for perigoso e eu cair, pelo menos os outros vão estar a salvo. Agora vão! — ordena Kurimuzon

Ressentidos, os homens obedecem às ordens da espadachim e correm para a carroça. Um sorriso solidário surge no rosto dela, se fosse para morrer, morreria sozinha.

Mas então o sorriso que estava em seu rosto é substituído pelo ranger de dentes. Seu braço que antes estava apenas quente, agora queima numa dor tão forte que ela, a espadachim que já enfrentou feras que cuspiam gás inflamável, ceder em um grito agoniado e a dor caída de joelhos.

Como último ato consciente ela puxa a manga de seu quimono para entender o que estava acontecendo com seu braço.

E está sendo gravado em meu antebraço uma frase, letra por letra. Ela está sendo escrita em símbolos que desconheço e em uma língua que nunca vi, porém que de alguma forma eu sei o que está escrito.

No Fate