O mundo vai acabar em neve

2 A pedra da tinta mais bela


Chegou o momento que por todos foi tão recordado. O burgo da família Allive foi reduzido a chamas, os muros do castelo caíram e os rebeldes entraram. A guarda real não foi capaz de segurar o avanço dos desgostosos camponeses e a rebelião atingiu seu ápice.

Enquanto isso um rapaz observa o caos instaurado pelas frestas de uma cortina. Ele está num quarto luxuoso iluminado por lamparinas a vela que garantem ao ambiente um tom âmbar.

— Majestade, eles estão aqui — alerta o jovem enquanto atravessa o quarto. Ele veste um sobretudo branco por cima de um conjunto social. Suas pernas são cobertas por calças negras com joelheiras e seus sapatos são sociais e de bico fino. Seus cabelos são loiros e seu rosto é afinado e limpo de qualquer pelo facial, marca ou mancha de pele. Pessoas diriam que sua aparência beira o andrógeno. E em suas mãos está uma lança cuja a ponta é uma lâmina larga de dois cumes.

Ele corre até uma porta de um closet e a abre.

— Victória temos que ir! os revolucionários estão aqui — exclama sem um pingo de delicadeza, porém seu rosto toma a cor avermelhada e sua voz se abaixa.

Dentro do armário estendido para outro cômodo está uma garota em seus treze anos. Ela se esforça para vestir a camisa de uma roupa de jockey vermelha. Assim como o jovem, seus cabelos são loiros, porém seu rosto é cheio de sardas.

Rangendo os dentes o jovem ajuda a garota a vestir a camisa. Logo depois ele segura em sua mão e a puxa para fora do armário. Os olhos da mocinha estão marejados de lagrimas e seu nariz está sujo de catarro.

— Cyan, isso tudo é minha culpa, é por minha causa que eles estão aqui?

— Agora não Victória. O motivo dessa guerra vai além daquilo que você pode controlar.

O Jovem Cyan abre a porta do quarto e corre pelo corredor agarrando firme o braço da jovem rainha.

— Mas e se eu me entregar? Eles pararão com esse banho de sangue?

Ao se aproximar de uma esquina Cyan solta a mão de Victória e segura a lança com a duas mãos. Com um golpe horizontal ele parte para o próximo corredor atacando. O aço de sua lâmina encontra com a carne viva de um homem. O avanço foi tão rápido que o infeliz nem teve tempo de levantar a espada para se defender.

E a Victória berra ao ver a morte diante morte.

— É claro que o traidor que nos entregou iria estar por perto para ser o primeiro a pegar a recompensa.

— E-e esse era o Stevan? — pergunta Victória cobrindo a boca.

— Sim, um homem que te serviu por tanto tempo te entregou para os ratos. Seguinte majestade; Victória, lamento em te dizer isso, mas se eles te capturarem vão no mínimo exibir sua cabeça em praça pública e continuar com o banho de sangue.

A rainha engole seco — E o que faremos?

Cyan se ajoelha para ficar na mesma altura que a pequena dama, ele coloca a mão em seu ombro.

— Com a possível queda de Bellmoth só nos resta procurar refúgio com nossos aliados em GreatHeaven, teremos que atravessar a cidade que está em chamas e possivelmente andar em terreno inimigo. Eu preciso que você seja forte me entende?

Victoria apenas acena com a cabeça e seca as lagrimas. Com a afirmação Cyan a apenas sorrir, mas então algo estrala em sua mente. Com um avanço rápido ele pega um rifle que estava com o cadáver e aponta para o corredor.

Passa um segundo e um soldado rebelde aparece, Cyan que já estava com a arma engatilhada atira. O som alto e estrondoso acompanhado do feixe de luz tomam o ambiente mal iluminado. Um grito agoniado de dor é ouvido e o soldado rebelde cai morto no chão.

— Eles estão aqui! — grita uma segunda voz inimiga.

Cyan larga o rifle de retro carga de tiro único e agarra o braço de Victoria. Ela estava tampando os ouvidos por conta do tiro e não ouviu o grito dos invasores.

Ele a puxa e ambos entram para dentro da primeira sala que veem. Eles são perseguidos por gritos e estouros de balas. A cômodo que eles entram é uma cozinha, nas bancadas dela estão os bolos e doces preferidos da majestade. E no forno está assando alguma coisa, porém foi abandonada e agora há apenas uma fumaça preta.

— Se esconde! — ordena Cyan.

A rainha atende o pedido e corre para debaixo de uma bancada. Cyan estoura a lâmpada que ainda funciona com sua lança, joga um bolo na beirada da porta e abre o forno.

A fumaça invade o ambiente ao mesmo tempo que os homens invadem o cômodo. Por conta do escuro o primeiro escorrega em chantili e tropeça, não o suficiente para cair, mas o bastante para perder o foco da mira.

O segundo entra se embolando no primeiro. Pegando uma panela de ferro fundido Cyan avança em direção a eles. Ele joga a panela no segundo homem no exato momento que ele puxa o gatilho. O projetil acerta a peça de ferro e desvia de curso, porém a panela continua até acertar o primeiro soldado.

Antes que o pistoleiro engatilhe a próxima bala Cyan avança e com uma estocada de sua lança ele perfura o coração do inimigo. Em sequencia ele solta a as duas mãos da lança e agarra a mão do atirador que havia escorregado. Ele dobra o braço do agressor para que ele não puxe o gatilho e dá um soco com toda a sua força no nariz do inimigo.

O homem geme pela dor do nariz quebrado e tenta revidar puxando uma adaga, mas com um saque rápido Cyan corta a garganta dele com uma faca militar que ele carrega em sua cintura.

Ofegante Cyan pega no cabo sua lança e arranca do cadáver, logo em seguida ele tira da mão dos dois, seus revólveres. Ele abre as armas para conferir seus tambores percebe que cada uma só tinha três cartuchos não disparados.

Ele estrala a língua e coça a cabeça, em seguida aloca as munições para apenas uma das armas e descarta a outra numa panela com água.

— Victória, vamos. — Ele chama pela garota que sai de dentro do armário da pia.

Após sair da cozinha os dois seguem pelos corredores usados pelos funcionários para chegar nas partes baixas do palácio. Eles são estreitos, porém ocultos, criados com a intenção de fazer parecer que a casa da realeza sempre está limpa com um passe de mágica.

Eles descem uma escadaria e chegam no térreo do castelo. Nessa altura eles são obrigados a sair do corredor oculto e irem para um salão nos fundos onde o ar é estagnado pela poluição da queima dos burgos.

Mas então Cyan aperta seu braço e range seus dentes em dor.

— Arg! Mas o que?! —

— Cyan? O que foi? Você se machucou na luta?

O homem encosta na parede e puxa a manga do seu sobretudo.

— Meu braço tá ardendo. Será que fui envenenado de alguma forma? mas quando e como?

Como se essa situação não fosse ruim o bastante, Cyan sente um estralo em sua mente. Ele presente que alguém se aproxima, com uma decisão difícil ele se ajoelha novamente para conversar com Victória a mesma altura.

— Victoria tome isso. — Cyan retira uma chave de um bolso na parte de dentro de seu sobretudo e entrega a ela junto a pistola.

— Não, não, não. Você vem comigo.

— A chave é para o calabouço do castelo.

— Não Cyan, fica comigo.

— É só seguir esse corredor até o final. Desça até as catacumbas e siga a água.

— Eu não vou te deixar! — Gritou Victória com lagrimas escorrendo por suas bochechas.

— Você sabe usar uma pistola; não sabe? É só puxar o cão; apontar a mira; e puxar o gatilho. — Entre cada intrusão Cyan demandava mais e mais esforço para puxar o ar.

Negando todas as instruções de Cyan, Victória pula em seus braços e o abraça forte. — Não eu não quero de deixar! Você é meu único amigo!

— Obrigado, foi um prazer esplendido servir você, estar com você, mas se você quer retribuir essa amizade, corra até as catacumbas e use o rio para chegar até a costa. Sobreviva e chegue em GreatHeaven. Você me promete?

Já em um luto prévio, Victória morde sua língua, porém ela não é capaz de engolir o choro, ela não é capaz de dizer adeus. A única resposta que ela consegue dar é acenar com a cabeça. Soltando o seu único amigo ela Em seguida se levanta e corre para a direção indicada por Cyan. Ela olha para trás e ver a figura que tanto admira derrubado pela dor. seu coração dói, mas no fundo ela quer acreditar que ele vai ficar bem e que eles vão se encontrar.

Cyan por outro lado não fica parado esperando a morte chegar. Mesmo com braço doendo como se estivesse pegando fogo ele se apoia em sua lança e caminha até uma porta. Ele a abre um pouco e fica no aguardo. Assim que os inimigos se aproximam do corredor ele a fecha com força produzindo um barulho para chamar atenção.

Dez homens se aproximam pelo corredor, seus sabres gritam por sangue e suas armas exalam a vontade de matar.

— Nos entregue a rainha agora! — Grita o homem a frente do grupo.

Cyan nada responde, ele apenas limpa o suor da testa e segura a lança com as duas mãos. Ele está contando os passos.

— Você é o infame Cyan, a lança azul? — Cyan nada responde. — Seu silencio diz tudo, bem você também é um dos nossos alvos. Sua cabeça com esse rostinho lindo pendurado em praça publica vai ser um excelente aviso. Homens! Comessem a carnificina!

Ao sinal do líder, um homem de aparência deplorável, todos levantam seus sabres e aqueles que tem rifles e pistolas as apontam para o lanceiro.

Nesse momento Cyan apenas aceita sua morte, não importa o que ele faça não há como vencer os dez homens. Não importa o quão preciso ou rápido ele seja, mesmo se tivesse em perfeitas condições, só seria capaz de matar três ou quatro dos homens antes de ser alvejado.

— Serão quatro a menos — sussurrou para si mesmo.

Mas assim que apertou o passo algo aconteceu, uma rachadura verde surge entre ele e os homens. Todos recuam incrédulos quando a rachadura se expande e pulsa liberando um miasma negro. Cyan não sabe o que é isso, mas vê como uma última possibilidade, ele avança contornado a rachadura e encrava a lança na boca do líder dos seus perseguidores.

Os outros dão um passo para trás com medo da energia obscura que a rachadura emana, dois deles engatilham suas armas mirando em Cyan. Mas quando ele vai puxar o gatilho a rachadura pulsa com uma luz verde muito forte.

Eu não resisto a dor que se tornou insuportável, é como se meu braço estivesse em um moedor de carne. Mesmo lutando, caio agonizando e gritando como uma criança. Minhas vistas parecem escurecer e meus pensamentos começam a ficar bagunçados. Como último ato consciente, puxo minha manga para ver oque está acontecendo.

E está sendo gravado em meu antebraço uma frase, letra por letra. Ela está sendo escrita em símbolos que desconheço e em uma língua que nunca vi, porém que de alguma forma é familiar.

No Fate