O mar e suas ondas
9 Capítulo 9
Notas iniciais
No dia seguinte, meu pai estacionou o carro em uma das vagas em frente ao colégio, e meus olhos não conseguiram descolar do vidro do carro ao meu lado. Me despedi de meu pai rapidamente, abri a porta do carro, joguei minha mochila com força em meu ombro direito e fechei a porta.
E lá estava ele. Dylan Turner estava me aguardando em frente aos degraus do colégio, vestindo o uniforme em que eu estava acostumada em vê-lo vestindo. Era impressionante a forma como, mesmo vestindo o uniforme ridículo do colégio, ele ainda conseguia ser bonito. Os cabelos pretos e lisos de sua peruca o ajudavam a ficar ainda mais bonitos, embora que algumas pessoas que passavam por perto dele o fitavam e faziam expressões confusas.
Sem pensar muito, corri o mais rápido que consegui em sua direção e agarrei seu pescoço abraçando-o com toda a força que consegui. Dylan me segurou com os braços ao redor de minha cintura.
– Você veio! – falei, assim que nos soltamos.
Mas não consegui deixar de ficar um pouco tímida ao perceber os olhos ao nosso redor nos fitando atentamente.
– Claro que vim. Eu prometi que iria tentar. – ele disse, e sorriu.
– Mas eu não pensei que você viesse... Por causa da quimioterapia.
– Que se dane a quimioterapia e esse bendito câncer. Eu faria qualquer coisa pra voltar a falar com você aqui no colégio. – argumentou Dylan, pegando em minha mão e a segurando com força.
– Qualquer coisa? – sorri. – Então eu vou tirar a timidez de dentro de mim e vou contar pra todo mundo do seu câncer.
– Você faria isso mesmo? – perguntou ele, desconfiado.
– Duvida? – disse eu, e sorri.
Em seguida, eu respirei muito fundo. A minha timidez tinha que sumir, pelo menos naquele momento. E para a minha surpresa, eu senti como se me virar e pedir para todos parar e me escutar fosse a coisa mais simples do mundo. E foi o que eu fiz.
– Ei, pessoal! – gritei, e muitas pessoas que caminhavam e subiam os degraus ali na frente pararam e me fitaram. Tenho que confessar que fiquei um pouco nervosa, mas ignorei qualquer tipo de nervosismo que pudesse surgir dentro de mim. – Eu gostaria de fazer um comunicado importante. Durante as duas semanas anteriores, Dylan Turner – apontei para Dylan por trás de mim sem olhar – Esteve faltando às aulas por motivos que não foram esclarecidos. E eu, como amiga dele, gostaria de esclarecer a todos vocês o motivo de ele ter efetuado diversas faltas ultimamente. – fiz uma pausa e olhei em volta, fitando cada uma das pessoas que me encaravam lentamente. – Aos quatorze anos, Dylan Turner foi diagnosticado com um câncer de laringe. Esse câncer foi tratado e logo desapareceu. Há duas semanas, o médico disse que esse câncer se espalhou para o fígado. Dylan Turner tem câncer de laringe com metástase no fígado. Ele tem que fazer várias radioterapias e quimioterapias, e este é o principal motivo das faltas.
Falei tudo isso pausadamente, como os diretores dos colégio fazem discursos em datas especiais. Eu mesma não me identifiquei quando terminei. Fiquei extremamente nervosa quando acabei de falar, pois todas as pessoas ao nosso redor (incluindo alguns professores) ficaram em silêncio e fitaram Dylan e eu por vários segundos. Estes segundos foram os mais longos de toda a minha vida.
Mas, para um completo alívio de minha parte, o Sr. Johnson (um dos professores que estava presente em meu “discurso”) começou a bater palmas lentamente, olhando em volta. Logo em seguida, todo o restante do pessoal (garotos, garotas, professores etc.) começaram a bater palmas. Eu e Dylan fomos aplaudidos em público em frente aos degraus de entrada do colégio.
E aquele momento foi um dos mais marcantes para mim, porque Dylan enlaçou seus braços em minha cintura por trás, deu um beijo em meu rosto e sussurrou em meu ouvido:
– Obrigado.
Quando olhei em volta, todas as pessoas ao nosso redor sorriam e aplaudiam durante vários segundos. Eu fiquei muito tímida, mas lá no fundo estava com um alívio enorme porque 1) eu havia conseguido falar tudo o que eu queria falar em público e 2) as pessoas aplaudiram, e não riram da minha cara. Se é que isso fosse possível, afinal uma pessoa tem que ser muito idiota para rir de um assunto tão sério.
Enquanto entrávamos na sala de aula, o pessoal que tinha horários compatíveis comigo e com Dylan dava tapinhas no ombro dele e falava coisas como “vai dar tudo certo, cara”, ou “você vai escapar dessa”. Eu nunca tinha visto aquelas pessoas parecendo tão próximas de Dylan.
A única vez que Dylan havia me apresentado alguém que ele conhecia melhor além de mim naquele colégio era o colega de quarto dele, James Davis, um garoto baixinho com olhos um pouco puxados do tipo japonês. O restante das pessoas eu nunca havia visto sequer trocar uma palavra com ele. Mesmo assim, fiquei feliz pelo gesto.
Dylan e eu sentamos nas carteiras do fundo – novamente, e para a minha felicidade. Logo que o Sr. Johnson entrou na sala de aula com o seu refletor guardado na sacola preta, mandou uma mensagem encorajadora para Dylan e começou a liga-lo.
Durante a aula de Geografia, pude perceber que lentamente Dylan começou a aproximar sua mão da minha, e logo nossos dedos estavam entrelaçados. Desta vez eu consegui ficar mais tranquila para prestar atenção na aula. Mas não era porque eu queria, era porque eu precisava. As minhas notas estavam péssimas, e eu tinha que recupera-las pelo menos até o final do ano.
No tempo livre, eu avisei que tinha de ir até a sala de informática para enviar o e-mail à Lauren. Dylan disse que me aguardaria na biblioteca, o que me deixou muito feliz, aliás, fazia muito tempo que eu não ia com Dylan até a biblioteca.
Sentei-me em uma das cadeiras em frente aos computadores da sala de informática e abri o meu e-mail rapidamente. Logo, comecei a digitar:
“Lauren!
Hoje foi incrível! Eu pensei que Dylan não conseguiria vir para o colégio, afinal ele tem uma sessão de quimioterapia pra fazer daqui a pouco... Mas ele veio! E todo mundo ficou sabendo do câncer, porque a minha timidez simplesmente fugiu e eu contei para todo mundo em público em frente aos degraus do colégio! Não é demais?
Infelizmente, o Dylan não vai mais poder dormir no colégio. Mas ele disse que vai vir quando puder. Eu só estou com medo que ele fique mal e que o câncer se estenda, mas se tudo der certo ele vai escapar dessa...
Conte-me como estão as novidades por aí!”
Despedi-me de Lauren pelo e-mail e saí correndo da sala de informática. Logo que entrei no corredor, corri até o final dele em direção à sala da biblioteca. Mas havia algo errado. Enquanto eu corria, pude ouvir sons estranhos. Era como resmungos de alguém que estava sentindo muita dor, e uma voz feminina desesperada que parecia ser a da Srta. Lynn.
Depressa, abri a porta da biblioteca e vi. Dylan estava sentado em uma das cadeiras das mesas da biblioteca, usando as mãos com força para apertar uma área do abdômen, resmungando de dor. Quando ele me fitou, seus olhos estavam molhados.
– Sam... – ele disse, com uma voz apertada, como se não conseguisse mais falar. – Tem alguma coisa errada. Está doendo muito...
Corri desesperada em direção à Dylan e olhei bem em seus olhos. A Srta. Lynn estava em pé ao lado de Dylan com uma expressão desesperada.
– Deixe-me ver. – pedi de imediato.
Devagar, Dylan tirou as mãos da área do abdômen em que apertava. Aquela área estava com um pequeno sangramento que havia manchado a camiseta de uniforme masculino do colégio que ele vestia, e as mãos de Dylan que apertavam o local estavam vermelhas de sangue.
– Está sangrando. – falei. – Dylan, fique aqui. Fique aqui, entendeu?! Aguente. Eu vou até a diretoria para chamar uma ambulância.
Quando eu estava prestes a me distanciar, Dylan segurou a minha mão e eu o fitei.
– Sam... Está doendo muito... Eu... Eu não sei se vou aguentar... – ele resmungou.
Com o gesto mais rápido que consegui, me abaixei e dei um beijo na testa de Dylan e falei:
– Vai dar tudo certo. Aguente o quanto você conseguir.
Logo em seguida, saí da biblioteca correndo e cheguei até a diretoria em menos de dois minutos.
– Sra. Field! – gritei, assim que pisei na sala da diretoria. – Dylan Turner está sangrando. Precisamos chamar uma ambulância imediatamente.
A Sra. Field, uma das pessoas responsáveis pela direção do colégio, levantou de sua cadeira em frente à mesa e fitou sua secretaria, Srta. Williams.
– Srta. Williams, telefone para os pais de Dylan Turner imediatamente. – em seguida, ela fitou-me. – Vou chamar uma ambulância agora mesmo, Srta. Money. Aguarde um instante.
– Se não se importa, eu vou ficar com ele até que a ambulância chegue. – falei, e saí da diretoria novamente, indo em direção à biblioteca.
Logo que cheguei até a biblioteca, Dylan continuava sentado na cadeira, mas se contorcia para todos os lados. A Srta. Lynn, ao lado dele, não sabia o que fazer. Ela me fitou com uma expressão extremamente desesperada.
– Sam, eu não sei mais o que fazer... Ele, ele está se contorcendo muito! – ela disse.
Aproximei-me de Dylan e o fitei. Ele estava com os olhos fechados, e os abriu para me fitar. Seu rosto suava frio. Eu encostei minhas mãos em cada lado de seu rosto e o fitei profundamente.
– Dylan, me escuta. – eu disse. – Essa história não pode acabar agora. A gente ainda tem muito que conversar e se divertir. Você tem que lutar, está bem?
– Eu vou tentar. – ele resmungou.
E então eu o beijei. Foi um beijo muito rápido, mas o bastante para a Srta. Lynn ficar extremamente surpresa.
Eu e a Srta. Lynn ajudamos Dylan a sair para o lado de fora do colégio. Ele estava pesando muito, pois não conseguia caminhar direito. O local em seu abdômen sangrava cada vez mais, e ele se contorcia de dor o tempo todo. Vê-lo assim doía dentro de mim, mas ignorei. Eu queria somente que tudo aquilo passasse e que Dylan Turner ficasse bem novamente.
A ambulância chegou segundos depois, e os enfermeiros abriram a maca e deitaram Dylan em cima dela. Ao longe, pude ver que Dylan apertou o braço de um dos enfermeiros e falou alguma coisa a eles. Em seguida, o mesmo enfermeiro caminhou em minha direção e falou:
– Moça, o paciente quer que você o acompanhe até o hospital. – ele disse, fitando-me.
No primeiro momento, eu excitei um pouco. Não sabia se tinha permissão para sair do colégio naquele momento. Afinal, meu pai não estava sabendo de nada, e eu duvidava que se ficasse sabendo iria permitir. Mas ignorei qualquer hipótese e entrei na ambulância. Dylan estava preso por uma espécie de cinta que acompanhava a maca.
Dylan me fitou. Lágrimas escapavam dos olhos dele, e eu as sequei rapidamente e controlei para que elas não saíssem dos meus próprios olhos.
– Sam... Eu... Eu não sei se eu vou aguentar... – ele resmungou. – Mas eu quero falar uma coisa pra você só por precaução, enquanto eu ainda posso...
Apertei a mão de Dylan com força e abri um sorriso para ele, embora que naquele momento isso parecia impossível.
– Me fale agora. – pedi.
– Eu amo você. – ele foi direto, rápido e sincero.
Eu não pensei muito naquele momento. Afinal, eu estava em uma ambulância, ao lado de Dylan que estava sangrando, vendo-o não aguentar mais, chorando, e tudo mais. Era demais para mim.
Eu apenas sorri e falei:
– Eu também amo você, Dylan Turner.
– Eu juro que se eu pudesse eu iria lhe beijar eternamente neste momento, mas eu estou preso e está doendo muito. – ele falou, e mesmo em meio àquela dor, pude ver o sorriso brotar em seu rosto.
– Quando você melhorar, você vai poder fazer isso. – eu falei, e apertei ainda mais a mão de Dylan.
– Assim eu espero. – disse ele
Minutos depois, a ambulância parou e os enfermeiros abriram as portas. Com uma agilidade incrível, eles puxaram a maca e desceram. Em poucos instantes, eu já seguia todos os médicos e os enfermeiros dentro do hospital. Haviam enfermeiros e médicos que saíam de trás de uma das portas do hospital. Eles perguntavam rapidamente milhares de coisas, e os enfermeiros da ambulância falavam enquanto alguns deles anotavam. E enquanto tudo isso acontecia, eles corriam o mais rápido possível até uma sala do hospital para colocar Dylan por cima. Era tudo muito ágil e rápido.
Quando eu estava prestes a passar pela porta que dava início para o corredor de salas onde ficavam os pacientes, um dos enfermeiros me empurrou levemente para trás e disse:
– Moça, eu acho melhor você aguardar na sala de estar. Seu namorado está em uma situação delicada, e não pode ter acompanhamentos.
Eu queria falar que não era namorada de Dylan, mas em meio a uma situação como aquela e depois de tudo o que tinha acontecido, eu já não tinha mais tanta certeza de que eu e ele fôssemos somente amigos. Logo que a porta se fechou, eu espiei pelo vidro de cima e senti uma pontada em meu coração ao ver Dylan entrando para uma das salas do corredor.
Mais ou menos dois minutos depois que me sentei em uma das cadeiras de espera, a Sra. Turner e o Sr. Turner entraram com um estrondo pela porta do hospital e correram em minha direção. Ambos estavam extremamente desesperados.
– O que aconteceu com o Dylan? – a Sra. Turner perguntou de imediato.
– Tudo bem, vocês precisam se acalmar. – pedi, depois fiz um gesto para que eles se sentassem e eles o fizeram. – O Dylan estava na biblioteca, e quando eu cheguei lá para vê-lo, ele estava resmungando de dor e apertando um local do abdômen com muita força. Eu fui ver, e estava sangrando. Não sei bem o que estava acontecendo, mas se foi só um sangramento não pode ser muito grave.
– E os médicos?! Ainda não deram notícia?! – perguntou o Sr. Turner.
– Eles acabaram de leva-lo para uma sala do hospital, Sr. Turner. Provavelmente daqui a pouco tempo já teremos notícias. – respondi.
– Oh, Deus! – exclamou a Sra. Turner. Ela levou as mãos ao rosto, chorando. – Se acontecer alguma coisa com o meu filho, eu não sei o que seria de mim...!
– Ele vai sair dessa, Tracy. – falei. – Você vai ver que daqui a pouco ele vai lançar aquele sorriso lindo dele pra todos nós.
– É isso mesmo, querida. – disse o Sr. Turner, fitando sua esposa. – Ele vai ficar bem. Temos que ter pensamento positivo, sempre.
E então, o Sr. Turner abraçou a Sra. Turner com força, e eu senti um nó em minha garganta ao ver aquela imagem. Perguntei-me se um dia eu ainda estaria no lugar da Sra. Turner, sendo abraçada por um marido. Será que esse marido poderia ser Dylan? Eu não sabia, nem nunca saberia. Nunca seria possível prever o futuro. Mas eu sabia de uma coisa: Dylan me ama.
Quinze minutos depois, eu e os pais de Dylan ainda estávamos esperando nas cadeiras da sala de espera, quando o meu pai abriu a porta do hospital com um estrondo e olhou em volta, me procurando.
– Pai! – gritei, e abanei com a mão para que ele me encontrasse.
Meu pai correu em direção a mim. Seus olhos estavam arregalados, quando ele se aproximou.
– Você está bem? – ele perguntou, rapidamente.
– Estou ótima, pai. O Dylan que não está nada bem. – respondi. – Ele está com um sangramento em uma parte do abdômen.
– Filha, você não devia ter saído do colégio sem minha permissão! – exclamou meu pai.
– Mas ele precisava de mim! – retruquei.
Meu pai suspirou e se sentou em uma das cadeiras de espera. O Sr. Turner e a Sra. Turner permaneciam nos observando.
– Tudo bem, mas agora acho que deveríamos ir. Você pode dormir por essa noite em casa, e amanhã voltamos para o colégio pela manhã. – ele disse.
– Não, pai. Eu vou ficar aqui. – insisti, cruzando os braços. – Vou ficar aqui até que eu possa ver Dylan de novo. Nem que eu tenha que passar a noite aqui.
– Você não pode passar a noite aqui, filha. – meu pai argumentou. – Não há nada que você possa fazer... O seu amigo vai ficar bem, mas a sua presença aguardando-o não faz diferença.
– Desculpe-me interromper, Sr. Money... – o Sr. Turner chamou, e meu pai o fitou. – Provavelmente nós iremos passar a noite aqui, e se a sua filha também quiser ficar aqui, nós nos responsabilizamos por ela.
– E quem são vocês? – perguntou o meu pai.
– Somos os pais do Dylan. – disse a Sra. Turner. – Prazer em conhecê-lo, Sr. Money.
Meu pai trocou um aperto de mãos com os pais de Dylan, depois me fitou com uma expressão indecisa.
– Bem, eu não sei se...
– Eu quero ficar aqui, pai. – interrompi-o, rapidamente. – Eu preciso ficar aqui. E o senhor e a senhora Turner são confiáveis, se houver algum problema eles telefonam você.
– Pode deixar com a gente, Sr. Money. – disse o Sr. Turner, meneando a cabeça.
– Tudo bem, se é isso que você quer eu não vou questionar. – disse meu pai. – Mas eu irei amanhã às seis e meia para irmos para casa. E então você vai tomar um café e voltar para o colégio, entendeu?
– Entendi. – concordei, em seguida abracei o meu pai e sorri. – Obrigada pai. Nos vemos amanhã de manhã.
Meu pai passou seu número de celular para o senhor e a senhora Turner e os avisou que se acontecesse qualquer coisa era para lhe telefonar, e em seguida foi embora. Seu casaco comprido e marrom balançava de modo que suas pernas e pés se moviam em direção à porta de saída do hospital.
Mais ou menos meia hora depois, eu já não aguentava mais esperar. Queria muito saber o que estava acontecendo. Tinha risco de que Dylan pudesse morrer? Quando sairiam as notícias? Eu queria poder ver Dylan e perguntar se ele estava bem, e tudo mais. O fato era que nenhum médico ou enfermeiro vinha até nós para dar as notícias.
E então, por um milagre, uma enfermeira loira, segurando um papel impresso, se encaminhou até nós.
– Vocês são os pais e namorada do paciente Dylan Turner? – ela perguntou.
Os pais de Dylan se levantaram da cadeira de espera exatamente no mesmo instante que eu.
– Na verdade, eu sou amiga. – corrigi.
– Tudo bem. – a enfermeira deu um sorriso tranquilizador ao fitar-nos. – Bem, pelo que diz aqui o paciente tem câncer de laringe com metástase no fígado, e isso já foi informado aos senhores. O que aconteceu foi que houve uma pequena infecção em uma área do fígado, o que provocou um sangramento e algumas dores. Essa infecção foi causada pela pressão do tumor sobre nervos, mas é fácil de ser tratada. O que ele precisa é de alguns medicamentos que já foram dados e também precisa tomar alguns cuidados que serão recomendados assim que o médico do paciente falar com vocês. – ela fez uma pausa. – Porém, tenho uma má notícia para informar-lhes.
– Má notícia?! Como assim?! – a Sra. Turner perguntou, preocupada.
– O câncer no fígado está se expandindo muito rapidamente, e as quimioterapias e radioterapias não estão mais fazendo muito efeito. Porém, elas ainda estão fazendo certo efeito e devem ser mantidas. Mas se essas técnicas deixarem de fazer efeito, o que existe uma grande probabilidade de acontecer, o paciente terá que optar para questões mais delicadas. – explicou a enfermeira.
– E que questões delicadas são essas? – perguntou o Sr. Turner de imediato.
– Existe uma grande probabilidade de que o paciente precise fazer uma cirurgia muito delicada. – respondeu ela. – E dependendo do resultado dessa cirurgia, talvez o paciente precise de um transplante de fígado.
A minha reação foi a mesma dos pais de Dylan; extremamente triste. Dylan teria que fazer uma cirurgia muito delicada. E se ele não resistisse à cirurgia, ainda mais a uma cirurgia delicada? Eu tinha muito medo que tivesse que me despedir de Dylan pela última vez. E embora que isso fosse péssimo de se pensar, era impossível não pensar. Afinal, Dylan tinha câncer.
– Obrigado pela informação. – agradeceu o Sr. Turner, enquanto acompanhava a sua esposa, perplexa, até a cadeira de espera novamente.
Eu me sentei lentamente na cadeira, enquanto observava a enfermeira desaparecer do outro lado da porta do corredor do hospital. Fitei a Sra. Turner, e vi várias lágrimas escorrer dos seus olhos. Ela realmente amava muito Dylan Turner. Afinal, ela era a mãe dele.
– Não consigo acreditar que isso realmente está acontecendo... – ela disse, e o Sr. Turner abraçou-a novamente.
– Tracy, a enfermeira disse que as quimioterapias e as radioterapias ainda estão fazendo efeito, embora que o efeito diminuiu, mas ainda estão! Talvez elas funcionem. – lembrei, tentando reanima-la.
– Não adianta Samantha. – ela disse, e me fitou com os olhos molhados de lágrimas. – Está na cara que ele vai precisar desta cirurgia. E se ele não resistir?
– Pensamento positivo, querida! – insistiu o Sr. Turner, sorrindo para ela. – Vai dar tudo certo, você vai ver. Ele vai sair dessa sorrindo. O nosso filho é forte, você sabe disso.
– Ele é muito forte. – concordei, e sorri. – Muito mesmo.
A Sra. Turner me fitou, e nós ficamos nos encarando olho no olho por alguns segundos. Por fim, acabamos nos abraçando com força, e eu finalmente consegui ficar confortável para chorar.
Não sei por que, mas eu estava começando a sentir como se a Sra. Turner fosse minha mãe. Ela me tratava como uma filha. Talvez isso fosse porque eu sentia falta da minha mãe, ou talvez nunca tivesse experimentado a sensação de ter uma mãe. Às vezes, eu penso o quanto eu queria poder ter a oportunidade de ter a minha mãe verdadeira por perto, de poder sentir como é o abraço dela.
Minutos depois, um enfermeiro se encaminhou até nós.
– O paciente Dylan Turner está disponível para receber visitas, mas só pode ser uma pessoa. – ele disse.
Fitei os pais de Dylan, que também me fitaram. Eu queria muito ir, mas sabia o quanto era importante que a Sra. Turner ou o Sr. Turner visitassem seu filho, então não fiquei implorando pela oportunidade de poder vê-lo.
Mas, para a minha surpresa, a Sra. Turner apertou a minha mão e sorriu para mim.
– Pode ir. – ela permitiu.
– Sério? Mas... Mas você é mãe dele! – argumentei surpresa.
– Você só tem esta noite para falar com ele, e nós temos todo o tempo do mundo depois. Pode ir, querida. – ela confirmou, e eu sorri.
– Obrigada! – agradeci e abracei os dois rapidamente.
Em seguida, segui o enfermeiro pelo corredor do hospital e ele me levou até a sala 405. Quando olhei pelo vidro da porta antes de entrar, consegui ver um pedaço do corpo de Dylan deitado na cama do hospital.
– Dylan? – o enfermeiro chamou ao abrir a porta, e Dylan virou a cabeça lentamente para o fitar. – Sua namorada está aqui, para falar com você.
– Minha amiga, senhor. – ele disse. Sua voz novamente estava normal, para o meu alívio. – Pode permitir a entrada.
Assim que entrei, o enfermeiro fechou a porta da sala e finalmente eu consegui ficar a sós com Dylan Turner. Era possível escutar somente o “bip” do monitor cardíaco ao lado de Dylan.
Dylan Turner estava vestindo aquela roupa horrível de cor azul que os pacientes costumam usar nos hospitais e estava espetado por uma agulha ligada por uma pequena mangueira transparente a um pacote cheio de soro. Por baixo da roupa de hospital, provavelmente, também havia outros equipamentos colados ao corpo dele. Vê-lo daquela forma me deixava triste, mas ver que ele estava lutando para viver a cada segundo me deixava feliz.
Assim que me aproximei de Dylan, ele abriu um enorme sorriso. Fui até o seu lado esquerdo da cama, do qual sua mão não estava espetada por um soro, e peguei em sua mão direita.
– Eu não falei que você ia sair dessa? – falei, sorrindo.
– Claro que falou. – ele concordou. – E tenho que admitir que você estava certa. Estou vivo.
– Como se fosse possível você morrer. Foi só uma infecção, Dylan. Nada que pudesse lhe fazer morrer.
– É, eu sei. – ele suspirou. – O fato é que eu não sei se irei sobreviver por muito tempo, Sam.
– Não fale uma coisa dessas! – pedi, arrasada.
– Só estou falando a verdade. – ele disse. – Eu já sei de tudo, o médico já me contou. Vou ter que passar por uma cirurgia delicada, e caso o resultado saia mal vou precisar de um transplante. Um transplante. Você tem noção do que é isso?
– É, já recebemos essas notícias. – concordei. – Mas isso só vai acontecer se a quimioterapia e a radioterapia pararem de fazer efeito, e isso só acontecerá se o câncer se expandir ainda mais.
– O que é praticamente óbvio! – falou Dylan. – O câncer está se expandindo muito rápido, e esses benditos tratamentos não estão fazendo efeito algum. Não vai durar nem uma semana, e eu já precisarei fazer essa droga dessa cirurgia. – ele fez uma pausa e me fitou profundamente. – Nesse momento, eu queria estar no corpo de outra pessoa. Ou então arrancar esse bendito fígado e joga-lo na lixeira, porque ele não serve pra nada.
– Calma Dylan. – entrelacei os meus dedos aos de Dylan. – Você vai conseguir. Não pode desanimar agora. Vai dar tudo certo.
– Isso é o que todo mundo fala. “Vai dar tudo certo”. E nunca dá tudo certo. Só piora as coisas. – ele fez uma pausa, e depois que percebeu o que disse se arrependeu e apertou a minha mão. – Desculpe-me, eu estou nervoso.
– Tudo bem. – afirmei, suspirando.
– Por que tinha que ser eu? – ele perguntou. A voz começou a se apertar.
– A gente já conversou sobre isso. – lembrei. – Foi você, porque teve que ser você. E agora você vai lutar para mostrar para todo mundo que você venceu essa droga desse câncer.
E então, ficamos em silêncio por alguns instantes, nos fitando olho no olho. Eu acabei abrindo um pequeno sorriso, e senti os meus olhos ficar molhados. Mas ele, ao contrário, tentou se recuperar do nó na garganta e abriu um sorriso.
Dylan acariciou a minha mão levemente.
– “Somos senhores dos nossos pensamentos; mas é-nos alheia a execução deles.” Sabe de quem é esta frase? – ele perguntou.
– William Shakespeare. – respondi, sorrindo. – Esta eu conhecia.
– E conhecia muitas outras, com toda certeza. – ele afirmou.
– Com toda certeza. – repeti, concordando.
Dylan sorriu, e ficou me fitando por alguns segundos, como alguém que estava completamente concentrado em um pensamento.
– Lembra o que você disse na ambulância? – perguntou.
– O que eu disse? – perguntei de volta, fitando-o com um sorriso.
– Que quando eu melhorasse eu poderia te beijar. – ele respondeu. – Agora eu estou melhor.
– Você não está melhor. – lembrei. – Está deitado em uma cama de hospital, recebendo soro e tentando se tratar de uma infecção.
– Que se dane tudo isso. – ele disse, rindo. – Se você quiser, eu arranco esta bendita agulha de soro e saio daqui neste exato momento.
Dei uma risada.
– Maluco. – falei.
– Eu só quero encostar em você de novo. Só queria... – ele me fitou profundamente. – Só queria lhe agradecer por tudo o que você está fazendo por mim.
E eu o beijei. O beijei do jeito mais profundo que já consegui. Eu consegui envolver tudo o que eu sentia naquele beijo. E Dylan fez o mesmo, porque eu pude sentir. Foi um beijo incrível, um beijo que expressou tudo o que ambos de nós sentíamos. Um beijo inesquecível.
E quando eu o soltei, franzi a testa.
– Já é a terceira vez que isso aconteceu. – falei, sorrindo.
– Você contou? – ele perguntou, e depois deu uma risada. – Bem, todas as vezes foram maravilhosas. – ele fez uma pausa. – Eu queria poder fazer isso todo dia.
– Mas você pode. – peguei em sua mão. – Bem, isso se a gente estiver oficialmente namorando... O que eu não tenho muita certeza ainda.
– Não estamos namorando oficialmente. – Dylan sorriu. – Ainda.
– Ainda? – perguntei surpresa.
– Você vai ver que logo estaremos.
– Logo estaremos? – semicerrei os olhos. – Como você tem tanta certeza?
– Você quer isso, não é? – ele perguntou.
– Bem, depois de tudo que aconteceu... – abri um sorriso. – Eu acho que sempre quis, Dylan Turner.
– Então aguarde Samantha Money. – ele disse, e apertou a minha mão.
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