O mar e suas ondas
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Acordei no dia seguinte com um tapinha de leve no ombro e, quando abri os olhos, acabei me assustando com a presença do meu pai bem na minha frente. Eu havia dormido sentada, e meu corpo estava completamente dolorido por causa disso. Nem sei como eu havia conseguido dormir, para falar a verdade.
Infelizmente, os médicos não me deixaram passar a noite na sala de Dylan ao lado dele porque era “perigoso”, então eu acabei dormindo junto com o senhor e a senhora Turner nas cadeiras de espera do hospital.
– Vamos para casa. – disse meu pai, quando eu me levantei.
Estalei o pescoço algumas vezes e me espreguicei, antes de fitar os pais de Dylan. Eles permaneciam dormindo nas cadeiras de espera por perto, a Sra. Turner estava com a cabeça escorada no ombro do Sr. Turner, e ele dormia de encosto à cadeira.
– Vamos. Não quero acordar os pais do Dylan. – falei, meneando a cabeça.
Eu e meu pai embarcamos no carro vermelho já do lado de fora do hospital. Assim que fechei a porta e coloquei o cinto de segurança, o meu pai me encarou, franziu a testa e ligou o carro. Durante os dez minutos seguintes, enquanto ele dirigia até a nossa casa, nós dois permanecemos em silêncio. Eu queria muito escutar música, o problema era que havia esquecido o meu celular no quarto do colégio.
Faltando alguns quilômetros para chegarmos em casa, o meu pai respirou fundo para quebrar o silêncio e me fitou por alguns instantes.
– Como foi dormir no hospital? – perguntou.
– Não foi nada interessante. – respondi. – Afinal, estou sentindo dores até agora.
– Mas foi uma atitude muito bonita. – comentou ele, já voltando o olhar para a estrada.
– Ele é o meu único amigo garoto, pai. – eu disse, fitando-o. – Bem, tirando o Bryan.
Meu pai deu uma risada e meneou a cabeça.
– Eu entendo. – concordou. – Além do mais, estava torcendo para que você fizesse amigos no novo colégio. E agora, está começando a gostar de lá?
– Eu estava adorando, até o Dylan ficar com uma infecção em uma área do abdômen e provavelmente não poder mais frequentar o colégio por um bom tempo.
– Foi só uma infecção. – disse meu pai. – Se ele tomar os medicamentos corretamente, logo poderá voltar novamente a estudar.
– Só que ele está com câncer, pai. – lembrei. – Você tem noção do que é isso? Ele está com risco de vida. Câncer é uma doença muitas vezes mortal! Os pais dele até permitiram que ele continuasse a frequentar o colégio depois de saber da notícia, mas ele nem dormia mais lá. E agora que houve esta infecção, está muito óbvio que os pais dele vão trancar o colégio para poder cuidar dele. E então, sabe-se lá quando ele vai voltar a estudar. E enquanto isso, eu vou ficar sozinha de novo.
Meu pai ficou em silêncio durante vários segundos. E foi então que eu percebi que havia passado dos limites e falado demais. Eu acho que toda aquela tensão do hospital havia me deixado nervosa, ou então eu estava com uma vontade louca de desabafar e acabei desabafando justo com o meu pai. Depois do que falei, decidi que tudo o que eu tinha que fazer era ficar quieta novamente, e voltar a ser a garota que eu era antes de conhecer Dylan Turner.
Quando chegamos em casa, desembarquei do carro muito rapidamente e entrei em casa correndo. Tirei meu casaco bege, coloquei-o em um cabide por perto respirei fundo. Eu precisava de um banho e de um pouco de música para me acalmar. Pensei até em ligar para Lauren e contar tudo, mas sabia que dali a pouco tempo eu teria que ir ao colégio e falar com Lauren não faria a mínima diferença.
– Preciso de um banho. – falei, quando meu pai entrou na casa.
– Ótimo! Enquanto isso eu vou preparar um café. Se apresse, porque daqui a pouco temos que voltar ao colégio. – ele disse, e eu fui até o banheiro.
Tomei um banho de cinco minutos, e durante esse tempo não consegui impedir e acabei pensando em Dylan. Me perguntei o que ele poderia estar fazendo naquele momento. Provavelmente, tentando beber aquelas sopas horrorosas de hospitais que eles produzem para o café da manhã. Ou então, talvez, pudesse estar conversando com os seus pais e implorando para saber quando ele poderia sair daquele lugar. Eu queria estar com ele naquele momento. Na verdade, acabei percebendo que eu queria estar com ele a todos os momentos. Infelizmente, isso era impossível.
Enrolei a toalha que estava pendurada na porta do banheiro em meu corpo e fui até o meu quarto rapidamente. Sequei-me e me vesti uma calça de moletom e uma blusa qualquer em menos de dois minutos. Depois, penteei meus cabelos e corri até a cozinha.
Sentei-me em uma das cadeiras, e meu pai fez o mesmo. Logo, nós estávamos tomando o café da manhã às pressas.
– Temos menos de quinze minutos para chegar ao colégio. – disse meu pai, antes de dar uma mordida em um sanduíche de presunto e queijo.
– Eu sei. – falei, e terminei de beber a xícara de café em um enorme gole. – Eu acho que já devíamos ir. É um pouco longe daqui até o colégio, e é sempre bom chegar alguns minutos adiantadamente.
Meu pai meneou a cabeça em confirmação, e eu me levantei para pegar minha mochila que estava em cima do sofá da sala de estar. Instantes depois, estávamos no carro vermelho e meu pai dirigia até o colégio.
Enquanto o carro andava, fiquei pensando se conseguiria ser a garota que era antes de conhecer o Dylan. Não sabia mais se me lembrava de exatamente como eu era antes. Dylan havia mudado quase completamente o meu modo de ser e de pensar, depois que eu havia começado a conversar com ele. Antes, eu era uma garota antissocial, entediante com tudo, que adorava ouvir músicas e era fascinada por Shakespeare e por poesias dele e de outros autores.
Depois que conheci Dylan Turner, algo me fez ficar diferente. Eu consegui conversar naturalmente, sem ter medo de errar em alguma palavra, de fazer brincadeiras ou de me divertir. Foi impressionante o modo como ele havia conseguido me mudar quase completamente. A única coisa da qual ele não havia me mudado completamente era a minha timidez, da qual eu sempre tive. Mas depois que eu falei todas aquelas coisas em público, acho que não era mais tão tímida como antes.
Para falar a verdade, Dylan me mudou completamente. Ele praticamente fez de mim outra pessoa. Ele me fez ver o lado bom de todas as coisas que anteriormente eu achava um tédio ou que não tinha interesse em conhecer, como por exemplo, os livros de heroísmo e a astronomia, coisas que nunca havia me passado pela cabeça de que eram tão interessantes.
Eu não sabia se conseguiria esquecer tudo o que ele havia me ensinado, se conseguiria esquecer todas as conversas e diversões que havíamos passado juntos por mais de quatro meses, antes de toda aquela história de câncer começar e estragar tudo. Eu não sabia se conseguiria voltar a ser a Samantha Money que eu era antes, sem Dylan Turner na história toda.
– Filha? – meu pai me chamou, interrompendo os meus pensamentos. – Chegamos. Já pode sair.
– Tchau, pai. – me despedi, beijando-o no rosto e desembarcando do carro rapidamente.
Enquanto jogava a minha mochila no ombro direito e fechava a porta do carro, tive a sensação de estar sendo observada por várias pessoas, mas senti medo de olhar em volta. Antes de me virar e descobrir o que estava acontecendo, aguardei o meu pai desaparecer através da curva longa da estrada. E então, respirei fundo e me virei.
Quase todas as pessoas me fitavam. Mas não era com a intenção de me xingar ou zombar de mim, tipo quando alguém fofoca alguma coisa horrível sobre você e todo o colégio acaba sabendo, e aí começam a olhar para você e dar risadinhas. Eu até havia me esquecido das “risadinhas” depois que conheci Dylan, mas achei que depois de tudo o que aconteceu eu não tivesse mais que ignorar essas coisas como era antes.
Enquanto eu subia os degraus com a intenção de ir até o banheiro feminino do colégio para vestir o uniforme, Alice Wood (minha colega de quarto) correu em minha direção e me fez parar no meio do caminho. Confesso que fiquei um pouco assustada, porque não era acostumada a ser parada enquanto subia os degraus do colégio.
– Dylan está bem? – ela perguntou, sua expressão parecia preocupada.
– Ahn, eu não sei... É que eu saí do hospital faz pouco tempo e não sei como ele está. Ele teve uma infecção em uma área do abdômen e está sendo medicado. – respondi.
– Você falou com ele? – ela perguntou novamente.
– Falei. – concordei, e acabei sorrindo de leve ao lembrar a última vez que havia falado com Dylan Turner, que também havia sido a última vez que nos beijamos.
– E o que ele disse? – a garota perguntou mais uma vez, e eu acabei suspirando.
– Olha Alice, não quero parecer ofensiva, mas eu acho que isso não interessa a você. Você nunca foi muito ligada ao Dylan Turner. – disse eu.
– Eu sei, Samantha. – ela concordou, e então acabou abrindo um sorriso meio maroto. – Mas vamos combinar, ele é muito lindo.
E então, Alice Wood desviou de mim e saiu descendo os degraus com seu corpo rechonchudo. Os cabelos curtos e pretos dela, que estavam amarrados por um prendedor, balançavam de modo que ela se movia.
Quando realmente consegui raciocinar o que ela havia me dito, acabei dando uma risada silenciosa. Em seguida, decidi subir aqueles degraus rapidamente e colocar o uniforme antes que eu acabasse esquecendo-me de tudo e fosse mal em todas as matérias.
Os primeiros períodos de aula antes do tempo livre eram de História e Química, e eu tentei prestar atenção ao máximo no que os professores diziam. Algumas vezes, eu acabava me desconcentrando, porque Dylan entrava em minha mente sem permissão e eu tentava adivinhar o que ele poderia estar fazendo naquele exato momento. Mas ignorava toda vez que isso acontecia. Por recompensa, acabei tirando A em uma tarefa de Química.
Em meu tempo livre, fui até a informática para ler a resposta de Lauren para o último e-mail que ela havia me enviado. Ela disse que estava muito feliz que estava indo tudo certo no novo colégio. Nem fazia ideia do que havia acontecido logo depois que saí da sala de informática, pouco tempo depois que enviei o e-mail a ela.
Por fim, acabei explicando tudo que havia acontecido no dia anterior e que eu havia dormido no hospital e meu pai havia me buscado pela manhã, depois enviei o e-mail e fui até a biblioteca. Mesmo que Dylan não estava lá para me ajudar a escolher o livro perfeito para ler naquele dia, eu estava sentindo falta de conversar com a Srta. Lynn. Afinal, ela havia sido a primeira amiga que fiz naquele colégio, e era uma das mais simpáticas pessoas que eu já conheci.
Assim que passei pela porta da biblioteca, pude vê-la do outro lado de sua mesa aguardando para que entrassem as pessoas para pegarem livros, como sempre acontecia. Mas ela não estava com a expressão normal de sempre, obviamente. Ela estava preocupada, e soltou um suspiro de alívio quando eu me aproximei.
– Samantha! – ela disse. – Eu estava esperando por você. Como está o Dylan?
– Acabei de sair do hospital há algumas horas. – falei. – Passei a noite inteira na sala de espera, mas pelo menos consegui falar com ele por alguns instantes.
– E o que aconteceu? O que era aquele sangramento? – ela perguntou, preocupada.
– Aquilo foi uma infecção causada pela pressão do tumor sobre os nervos. Pode ser tratada facilmente, por alguns medicamentos. – expliquei. – Mas o problema é que o câncer está se expandindo muito rapidamente.
Expliquei à Srta. Lynn tudo o que iria acontecer caso as quimioterapias e radioterapias parassem de fazer efeito, o que tinha uma grande probabilidade de acontecer. Falei praticamente tudo o que aquela enfermeira havia nos explicado quando eu ainda estava no hospital. A Srta. Lynn ficou muito espantada após receber a notícia, e nós acabamos nos abraçando por vários segundos.
– Samantha, eu... Eu sinto muito! – ela lamentou. – Eu... Nem sei o que falar.
– O Dylan é forte, Srta. Lynn. Acho... Que ele vai conseguir sair dessa. – eu falei, enquanto a fitava. – Pelo menos é o que eu espero. Essa cirurgia é muito delicada, e um transplante de fígado, como o de qualquer outro órgão, sempre foi muito difícil de conseguir, e geralmente custa muito caro.
– E não tem como ele melhorar somente sob o efeito desses tratamentos que ele está fazendo agora? – a Srta. Lynn perguntou.
– A probabilidade é muito pequena, Srta. Lynn. – respondi. – O câncer está ficando muito extenso.
– Tomara que dê tudo certo. – ela disse, suspirando.
Depois de ler por alguns minutos um livro de poesia que encontrei na estante, olhei para o relógio da biblioteca. Ainda havia alguns minutos até o horário de tempo livre acabar, então eu saí da biblioteca e fui até o meu quarto.
Assim que subi na cama de cima do beliche, da qual fazia um bom tempo que eu não subia, peguei o meu celular debaixo do travesseiro, escorei minhas costas na cabeceira e olhei se haviam sido enviadas alguma mensagem desde que eu havia deixado o celular naquele quarto. Havia duas mensagens, uma de Lauren e outra de Dylan. Primeiro, li a de Lauren:
“Estou aguardando o seu e-mail!”
Como eu já havia enviado o e-mail explicando o que havia acontecido, ignorei a mensagem e abri a de Dylan:
“Se você não me ligar assim que pegar este celular, eu juro que vou te dar uma surra assim que sair deste lugar infernal...”
Dei uma risada ao terminar de ler a mensagem e me preparei psicologicamente antes de discar o número de Dylan. Eu estava prestes a ouvir a voz dele novamente, e tinha que estar preparada.
Ele atendeu no segundo toque, muito mais rápido do que eu esperava.
– Samantha Money! – exclamou.
– Dylan Turner! – exclamei também, e dei uma risada. – Acho que agora você não vai mais precisar me dar uma surra, porque eu já te liguei.
– Eu já estava à espera. – ele disse, e pude ouvi-lo rir do outro lado da linha. – Como vai?
– Um pouco dolorida. Passei a noite inteira dormindo sentada em uma cadeira de espera dentro do hospital. Não se espera outra reação diante de uma situação como essa. – respondi. – Mas... Valeu a pena.
– Não valeu a pena, não! – ele negou. – Você está fazendo demais por mim, e não está me dando a oportunidade de lhe recompensar.
– Não quero recompensas. – falei.
– Mas eu quero lhe recompensar. – ele insistiu. – Por falar nisso, você acaba de me dar a oportunidade de lhe dizer o principal motivo dessa ligação.
– E qual é? – perguntei, sorrindo.
– Ué, você não se lembra que seu pai queria me conhecer? – ele disse.
– Mas você está no hospital! – eu lembrei. – Não tem como fazermos um jantar enquanto você está assim.
– Foi apenas uma infecção. – disse Dylan. – Eu vou ganhar alta do hospital amanhã, Sam.
– Amanhã?! – repeti surpresa.
– É, mas isso não quer dizer que eu vou poder continuar indo ao colégio. – ele confessou. – Meus pais vão trancar os meus estudos por um tempo, até que eu me recupere... Caso eu me recupere. – ele fez uma pausa, depois suspirou profundamente. – Os médicos disseram que eu poderei ficar em casa, mas que terei que ter muito cuidado e terei que tomar todos os remédios recomendados na hora certa. Mas eu não quero parar de ver você. Não quero mesmo.
– Você não vai. – neguei. – Eu queria estar aí agora. Sério.
– E você acha que eu também não queria? – ele riu. – Eu queria estar aí toda hora.
Abri um sorriso e suspirei.
– Por que você tinha que ter câncer? – perguntei, incrédula.
– Porque eu tive que ter câncer. Lembra? – ele disse, e nós dois acabamos rindo.
– Você está certo. – concordei.
– Está livre no próximo final de semana, gata? – ele perguntou tipo quando os garotos paqueram as garotas, só que de um jeito brincalhão.
– Com certeza. – eu respondi. – Vou avisar o meu pai, ok? Você vem sábado ou domingo?
– Acho que domingo é mais apropriado para um jantar desses. – ele comentou, rindo.
– Tudo bem. – falei. – Trate de estar lá às vinte e uma. Entendido mocinho?
– Entendido, mocinha. – ele concordou. – E eu vou lhe ligar exatamente no horário de tempo livre amanhã. É melhor você estar com este celular em mãos.
– Eu vou estar. – concordei, e abri um sorriso. – Pode ter certeza.
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