Notas iniciais
Primeira atualização de hoje, continuem acompanhando. Espero que vocês gostem! ^-^

– Está brincando?! – Dylan perguntou, impressionado, quando eu o telefonei na tarde daquele mesmo dia.

– Foi isso mesmo. – falei, sorrindo. – O meu pai quer conhecer você.

– Depois da forma como eu agi hoje pela manhã, poderia jurar que seu pai não gostaria de me ver nem pintado de ouro. Acho que estava enganado. – Dylan disse, rindo.

– Meu pai é do tipo desconfiado. Ele desconfia de tudo, independente do quanto você negue. Por isso, eu estou achando que este convite para conhecê-lo é somente porque ele acha que eu e você iremos tipo... Sei lá, namorar.

– Hum. – Dylan fez, e a linha ficou em silêncio.

Durante este tempo, fiquei olhando para o teto. Eu estava segurando meu celular com a mão direita, deitada em minha cama, olhando para cima. Não sabia o que Dylan poderia estar fazendo ao mesmo tempo em que falava comigo. Só sabia que ele parou de fazer qualquer coisa, depois de minha última fala. Foi como se a conversa por telefone praticamente travasse.

Tenho de confessar que fiquei muito envergonhada.

– Para quando é o jantar? – ele perguntou, quebrando o silêncio, para o meu alívio.

– Para qualquer final de semana. – eu disse, rindo.

Dylan riu através da linha.

– Que tal o próximo? – ele perguntou. – Provavelmente não terei nada para fazer no próximo final de semana, e de qualquer forma eu procuraria por você.

– Temos a semana toda para discutir sobre isso. – falei.

A linha ficou em silêncio por mais alguns segundos, mas logo Dylan disse:

– Tenho muitas radioterapias e quimioterapias pra fazer, Sam. – ele confessou. – Esse é o principal motivo de eu ter faltado tanto nas últimas duas semanas. Não sei se conseguirei ir à aula no colégio todos os dias. Na verdade, eu teria que dormir lá... Mas o problema é que isso é impossível. Se eu não fizer esse tratamento diário, o câncer pode se expandir e eu terei que optar para um transplante ou algo do tipo. E eu não quero isso.

– Eu entendo você. – retruquei, rapidamente. – Mas você vai ir à aula quando puder, não vai?

– Eu vou tentar. – ele concordou.

– Só me prometa uma coisa... – falei. – Você vai contar sobre o câncer para todos eles.

– Vou. Bem, na verdade eu não tenho outra opção... Afinal, estou usando peruca. – disse Dylan.

– De qualquer forma você teria que contar. – retruquei, suspirando. – Não iria poder manter isso em segredo pra sempre. Eu vou ajudar você.

– Vai? – ele parecia sorrir do outro lado da linha.

– É pra isso que servem os amigos, não é? – lembrei.

– É isso mesmo, Samantha Money. – ele falou, e nós dois acabamos rindo.

– Eu queria poder retribuir tudo o que você está fazendo por mim. – ele disse.

Senti um nó se formar em minha garganta. Se eu chorasse, Dylan perceberia. Se eu falasse, minha garganta ficaria apertada. De qualquer forma ele iria perceber, então falei assim mesmo.

– Só quero que você sobreviva a isso tudo. É só isso que eu quero. – minha voz ficou extremamente apertada.

– Eu juro que se você chorar eu vou ser obrigado a ir até aí agora. – disse Dylan, e ele parecia falar sério.

– Eu não estou... – respirei fundo. – Eu não estou chorando. Tudo bem.

– É bom que não esteja mesmo – disse ele – Pois senão você receberia uma lição, mocinha!

Dei uma risada. Segundos depois, pude ouvir Dylan resmungar um pouco do outro lado da linha.

– O que foi? – perguntei de imediato.

– Senti algumas dores, mas já passou. – ele comentou.

– Sério? Quer que eu chame um médico? – perguntei, preocupada.

– Está tudo bem, Sam. Não precisa, foram só algumas dores. – ele me tranquilizou, e eu consegui respirar fundo.

– Tem certeza?

– Absoluta.

– Tudo bem, então. – afirmei. – Se você sentir qualquer coisa me avise.

– Avisarei Samantha Money. – ele concordou.

– Você vai vir para o colégio amanhã? – perguntei.

– Tudo depende de como eu estarei amanhã. – ele explicou. – Se acontecer algum imprevisto, não poderei vir. Afinal, amanhã eu tenho uma sessão de quimioterapia com meu médico. Se eu for ao colégio, não poderei dormir lá, e terei que sair antes do horário comum. Assim vai ser todos os dias.

– Ok, mas me prometa que vai tentar aparecer amanhã. – pedi.

Tudo o que eu queria era poder ficar com Dylan a sós no colégio novamente, e poder falar com ele como sempre conversávamos juntos no colégio antes dele começar a me ignorar como se nada tivesse acontecido antes. E também, eu queria muito que as pessoas soubessem do câncer de Dylan. Talvez fosse porque eu queria fazer isso. Simplesmente queria que as pessoas soubessem.

– Prometo que irei tentar. – ele concordou, e eu sorri.

– Ótimo. – falei. – Agora tenho que desligar. Se tudo der certo, nos falamos amanhã.

– Tchau, Samantha Money. – Dylan disse, parecendo sorrir. – Nos vemos amanhã, caso eu consiga.

E então, eu desliguei o celular e levei alguns segundos até lembrar que eu não conversava com Lauren há muito tempo. Ela geralmente me telefonava quando não mantínhamos tanto contato. Mas desta vez ela não havia me telefonado. O que explicava, com certeza, que tinha alguma coisa errada.

Disquei o número de Lauren e ela demorou muito para atender.

– Eu não queria atender, porque seria uma vingança da minha parte. – ela disse, de início, sem dizer ao menos um “oi”.

– Me desculpe. – pedi depressa.

– Desculpar do quê? Tem vários motivos. – ela falou. – Mas... Vamos contar para nossa querida Samantha Money o que foi que aconteceu, porque ela não ficaria ciente se ninguém se desse ao trabalho de contar, não é mesmo? – o tom de voz de Lauren ficou um pouco estranho. Eu podia sentir que ela estava com muita raiva, mesmo do outro lado da linha de telefone. – Como eu sempre fazia, telefonei para o seu número de celular mais ou menos às três e meia, para perguntar como estavam indo as coisas e se estava tudo certo para que eu visitasse a sua casa. E o que aconteceu? Você não atendeu. Telefonei a cada quinze minutos novamente, e você não atendia. É claro que eu comecei a ficar preocupada, afinal, você geralmente costuma atender. E então, eu decidi telefonar mais tarde, à noite, porque geralmente você costuma ir dormir tarde durante a noite. Liguei duas vezes, e você não atendeu novamente. Telefonei hoje pela manhã, e você não atendeu. E agora são... – ela fez uma pausa, provavelmente para espiar um relógio por perto. – Dezesseis e trinta e sete e você finalmente telefonou. Fiquei muito feliz que você finalmente lembrou-se da sua amiga aqui, Samantha.

Só então, percebi que tudo o que ela havia acabado de dizer com uma voz enraivecida se encaixava de acordo com o que havia acontecido naquele final de semana.

Quando fui até a lanchonete, havia decidido deixar o celular em casa para o caso de que não houvesse interrupções durante minha conversa com Dylan. E no mesmo sábado, quando cheguei em casa fui dormir cedo, e provavelmente já havia pegado no sono quando Lauren telefonou.

Na manhã daquele mesmo dia, domingo, eu havia ido até a casa de Dylan e só havia voltado depois do meio dia. Tudo se encaixou perfeitamente, mas eu nunca havia pensado que Lauren pudesse me telefonar somente nos momentos em que eu não pudesse atender.

Expliquei tudo a Lauren, e no final toda a sua raiva acabou desaparecendo e abrindo lugar para uma curiosidade enorme de como havia sido o meu final de semana com Dylan.

– Foi legal. – falei. – Não foi nada picante como você está imaginando não. Na verdade, é uma longa história da qual eu fiquei sabendo ontem. Acho melhor você vir até aqui, porque não é nada legal explicar por telefone.

Quinze minutos depois, Lauren chegou com Bryan e eu fiquei fazendo carinho nos pelos brancos dele durante todos os minutos seguintes. Bryan era extremamente fofo neste sentido. Adorava quando era acariciado, e muito animado quando eu brincava com ele no gramado da frente da casa. Lembrei-me de quando Dylan disse que cachorros podem ser melhor que pessoas com relação às amizades. Definitivamente, é verdade.

Eu e Lauren sentamos nos degraus da frente de minha casa e eu fiquei jogando uma bolinha de brinquedo de Bryan para o longe. Ele a pegava, trazia e colocava junto aos meus pés, para que eu jogasse novamente, e assim seguidamente.

– E então... – disse Lauren, enquanto observava Bryan trazendo a bolinha até mim. – Como foi?

– Na verdade você não vai nem acreditar no que irei dizer. – confessei, suspirando, em seguida joguei a bolinha para o longe. – Lembra quando você me disse que eu havia lhe descrito um garoto perfeito, e que ele tinha que ter algum defeito porque não existem garotos perfeitos?

– Lembro. Não vá me dizer que ele é todo defeituoso. – disse Lauren, fitando-me.

– Bem... Ele tem um defeito, realmente. – eu disse. – Se bem que não sei se é possível considerar isso como um defeito, somente o fato de ele ter isso.

– Como assim? – ela franziu a testa, confusa. – Ele tem rugas? O nariz é arrebitado demais? Beija mal?

“Beija mal”, repeti em minha mente, e acabei rindo. Se Dylan beijava mal, fiquei pensando em como deveria ser um garoto que beijasse bem. Definitivamente, eu achava que não existia beijo mais perfeito que o de Dylan.

– Não, não é isso Lauren. – falei. – O Dylan tem câncer de laringe com metástase no fígado.

Expliquei toda a história de como Dylan descobriu o câncer e tudo mais, e quando terminei Lauren não teve reação. Só consegui ver a sua expressão segundos depois, quando finalmente caiu a ficha para ela.

– Então... – ela arregalou os olhos. – Então ele teve que... Que cortar os cabelos?! Os cabelos cacheados perfeitos que você me disse são uma peruca?!

Dei uma risada e meneei a cabeça negativamente.

– Os cabelos são reais. Ele os cortou hoje mesmo, que foi o motivo de eu ter saído pela manhã. Para ver a mãe dele raspar os cabelos dele. Foi dolorido. – expliquei.

– Eu imagino. – disse Lauren, suspirando. – Mas isso definitivamente não é um defeito dele. É uma doença.

– Eu acredito que o câncer em si realmente não seja um defeito dele. Mas o fato de ele ter câncer é. Porque ter câncer não é uma qualidade de uma pessoa. Afinal, ter câncer é horrível e muita gente morre por causa disso.

Ficamos em silêncio por alguns segundos. Só então, Lauren me fitou com sua expressão típica de que algo picante vem por aí.

– Vocês já se beijaram? – perguntou ela.

– Duas vezes. – respondi.

– Uau! – exclamou ela, surpresa. – E como foi?

– Indescritível. – falei, sorrindo. – Sei lá, foi incrível. Uma das melhores coisas que já me aconteceu.

– Então, ele não beija mal.

– Definitivamente, não. – concordei, e nós duas rimos.

– Com certeza, eu gostaria de conhecer esse garoto. – disse Lauren, enquanto me fitava.

– Meu pai também quer conhecê-lo. – falei, em seguida joguei a bolinha de Bryan ao longe novamente.

– Sério?! Mas... O seu pai não iria gostar. Ele ficou arrasado quando você o apresentou aquele garoto feio que te convidou para uma festa quando você tinha quatorze anos... Lembra, o Richard?... Seu pai quase não permitiu que você fosse. – lembrou Lauren, e depois deu uma risada ao lembrar-se da cena dos meus quatorze anos.

Quando eu tinha quatorze anos, um garoto muito feio chamado Richard Smith (era baixinho, usava óculos com lentes do tipo que deixa os seus olhos como uma bolota preta de tão fortes, pés enormes e mãos pequenas, entre outras coisas) me convidou para ir a uma festa de fim de ano do colégio e eu aceitei, mas somente porque queria ir com algum par para ficar observando um garoto do qual eu era apaixonada e que nunca me deu atenção na época. Quando eu apresentei Richard para o meu pai, ele ficou extremamente arrasado. Em alguns momentos, eu não consegui reconhecer o meu próprio pai, naquele dia.

– Nem me lembre do Richard. – eu disse, rindo.

– Oras, coitado. – disse Lauren, e deu uma risada. – Eu nunca mais o vi, mas as pessoas mudam. Ele pode ser um cara lindo agora. Já se passaram dois anos desde aquele dia.

– Não consigo imaginar Richard Smith bonito. – confessei. – Bem, mas não fui eu quem pedi a permissão de meu pai para jantar aqui em casa com Dylan um dia desses. Foi ele quem pediu.

– Bem, estou com um mau pressentimento, mas geralmente meus pressentimentos são contrários, então nem irei falar nada sobre isso. – disse Lauren.

– Se você quiser, pode jantar também. Assim vai conhecer Dylan e me ajudar a evitar uma briga entre ele e meu pai, caso isso esteja para acontecer. – sugeri, fitando Lauren.

– É uma boa ideia, mas para isso tenho que saber em qual final de semana será o jantar.

– Eu ainda não sei. – disse eu. – Falei com o Dylan alguns minutos atrás, e ele disse que não teria nada para o próximo final de semana. Se tudo der certo, irei falar com ele sobre isso amanhã no colégio.

– Quando combinarem, me telefone. Não se esqueça de mim novamente, ok?!