O mar e suas ondas
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Sábado, às duas e quarenta e oito da tarde, eu já estava pronta. Vesti um jeans desbotado (que eu coloquei só porque não havia encontrado outro), uma blusa azul e meu par de All Star vermelhos nos pés.
Enquanto passava por perto da cozinha, onde meu pai estava preparando alguma coisa, parei no meio do caminho e gritei:
– Vou sair!
– Para onde? – ele gritou de volta.
– Casa da Lauren. – eu disse.
Eu havia mentido somente porque meu pai ainda não fazia a mínima ideia de quem era Dylan Turner, e que, mesmo se soubesse, eu jamais iria falar ao meu pai que estava prestes a me encontrar com ele no Mc Donald’s.
– Divirta-se! – meu pai gritou da cozinha, e eu abri a porta.
O Mc Donald’s ficava perto de minha casa, a aproximadamente quatro quarteirões, então fui a pé e cheguei em uns vinte minutos. Logo que passei pela porta de entrada, percebi que o local estava lotado. Eu nunca fui muito fascinada por lanchonetes, na verdade sempre fui bastante caseira, por isso fiquei muito assustada com tanta gente acumulada em um local só.
Passei os olhos por aquela multidão de pessoas lanchando na esperança de encontrar os cabelos cacheados e castanhos de Dylan Turner. E encontrei. Ele realmente estava lá. Dylan Turner estava sentado em uma das cadeiras da lanchonete, escorado de lado em uma parede com janelas.
Ele parecia olhar atentamente através do vidro da janela, mas seu olhar não era para o movimento de carros que passava pela estrada do lado de fora. Seu olhar estava longe disso. Estava triste. Mas não um triste comum, tipo quando você perde algum objeto seu e não consegue mais achar. Ele estava triste como alguém que havia acabado de se derramar em lágrimas profundas e doloridas.
Encaminhei-me até ele, desviando de várias pessoas em meu redor. Logo que cheguei ao lado da mesa, ele tirou os olhos da janela e me fitou. E não sorriu, como ele sorria toda vez que me via. Ele parecia outra pessoa. Uma pessoa que eu não havia conhecido antes. Sentei-me na cadeira do outro lado da mesa, e ele levantou o braço, assinalando para que o garçom viesse até a mesa.
E então, ele pediu somente um suco de morango, e eu, um suco de laranja acompanhado de um sanduíche. Não estava com fome, mas tinha de colaborar para que ele me contasse logo o que estava acontecendo.
– Oi. – eu disse de início, quando o garçom saiu.
– Oi. – ele disse, e voltou os olhos para a janela novamente.
– O que tem lá fora que você tanto olha? – perguntei, tentando puxar assunto.
– Não estou olhando para fora. – ele respondeu. – Estou pensando.
– Em quê? – eu perguntei novamente.
– Em como eu vou explicar isso pra você agora. – falou Dylan. – Eu não devia ter feito isso.
– Ter feito o que? Decidido tirar as minhas dúvidas para que eu não ficasse da forma como eu estou? – argumentei. – Dylan! O que tem com você? Fale-me! Eu só quero que você me diga. Deve ter algum motivo, porque... Porque você não era assim!
Dylan respirou fundo e me fitou profundamente, seus olhos verdes belíssimos pareciam extremamente inchados e sua expressão era de sofrimento e tristeza. Eu não conseguia suportar aquilo. Um nó se formava em minha garganta toda vez que o via daquela forma.
Ele saiu da posição em que fitava a janela e se ajeitou na cadeira. Cruzou os dedos das mãos e os apoiou em cima da mesa. Em seguida, ficou me fitando por alguns segundos, como se quisesse dizer algo, mas simplesmente não conseguia.
– Você não iria gostar de ouvir o que eu tenho a dizer. – ele disse.
– Eu não vim até aqui para você me negar uma explicação. – retruquei.
– Você não entende, eu – ele fez uma pequena pausa. – Eu tenho medo de lhe falar e você nunca mais querer olhar na minha cara.
– Não existe motivo para eu querer parar de olhar na sua cara, Dylan. – eu disse. – Foi você que parou de olhar na minha. Você simplesmente me ignorou, sabia?
– Eu sabia, e peço desculpas. – ele disse.
Logo em seguida, o garçom voltou e colocou os copos de suco de morango e laranja em cima da mesa. Logo depois, um pequeno prato de porcelana, no qual em cima dele havia um sanduíche daqueles comuns, com presunto e queijo. Quando olhei para o sanduíche, senti um desprezo total dentro de mim. Eu não estava nada a fim de comer. Mas me obriguei.
Dylan tomou um pequeno gole do suco de morango pelo canudo, em seguida me fitou e respirou fundo.
– Eu vou lhe dizer. Se for isso que você quer que eu diga, eu vou falar. – ele disse. – Quando eu tinha quatorze anos de idade, fui diagnosticado com um câncer na laringe não muito extenso, mas que poderia se expandir caso não fosse tratado imediatamente. Meus pais ficaram muito tristes e arrasados com isso, mas logo comecei a efetuar o tratamento. Foram semanas de Quimioterapia associado à Radioterapia, até que certo dia os médicos falaram que o câncer tinha desaparecido. Foi uma época de muita felicidade, tanto pra mim quanto pra minha família, afinal, eu não havia nem precisado fazer uma cirurgia. Só que há duas semanas, o médico disse que o câncer havia se expandido para uma metástase no fígado. O que quer dizer, então, que eu estou com um câncer de laringe com metástase no fígado. – Dylan levou a mão aos seus cabelos cacheados e, sem muito esforço, puxou alguns fios e estendeu a mão para que eu olhasse. Sua mão estava repleta de fios de cabelo. – E aqui está a prova de tudo isso.
No primeiro momento, eu não tive reação. Afinal de contas, eu nunca tinha imaginado que o motivo de todo aquele suspense fosse um câncer. Dylan tinha câncer. Naquele momento, eu mal consegui acreditar no que havia acabado de ouvir. Não sabia o que pensar, ou o que fazer. Não sabia se falava alguma coisa, se me levantava para abraça-lo ou me levantava para ir embora. Eu só sei que aquilo me fez sentir uma coisa diferente, um sentimento muito mais forte do que qualquer coisa que eu já havia sentido antes. E eu sabia que aquilo não era normal.
E então eu fiz o que eu tive vontade, ou então, talvez, o que o meu coração me mandou fazer. Eu me levantei, fiz a volta pela mesa e agarrei Dylan com toda a força possível. Aquele abraço foi forte, mas foi muito confortante. Primeiro, porque eu consegui sentir o cheiro de Dylan bem de perto, e segundo, porque eu me senti muito bem. Eu mal conseguia pensar em nada. Só conseguia agir e sentir.
Logo, senti uma lágrima escorrer do meu olho direito. O meu nó na garganta desapareceu logo que as lágrimas começaram a descer lentamente, e eu fui sentindo um alívio muito grande dentro de mim, como se uma sensação terrível escapou.
– Me desculpe... – eu pedi, ainda envolvida em um abraço apertado com Dylan.
Quando nos soltamos, surpreendentemente Dylan me puxou pela cintura e eu fiquei sentada em suas pernas. A sensação era de estar no céu, em meio às nuvens. Era muito impressionante a forma como Dylan Turner me fazia bem. Sei lá, ele me tranquilizava, e me fazia esquecer de tudo ao meu redor. Eu nunca havia conhecido uma pessoa que transmitisse a mim o mesmo efeito que ele.
Pela primeira vez novamente, Dylan sorriu da forma que eu já não aguentava ficar sem vê-lo sorrir. Aquele seu sorriso típico que ele dava desde a primeira vez em que trocamos olhares era... Perfeito.
– Você jamais terá que pedir desculpas por nada, Samantha Money. – ele disse, seus olhos finalmente não demonstravam mais aquela expressão triste. – Eu que tenho de agradecer por você não ter levantado daquela cadeira e ido embora. Eu juro que eu seria a pessoa mais infeliz do mundo se isso acontecesse.
– Você realmente achou que eu faria uma coisa dessas? – perguntei. – Dylan, você é meu amigo. Independente do que acontecer com você, eu vou estar sempre do seu lado.
– Mas eu não contei sobre isso pra você, justamente porque eu achei que iria estragar tudo. – ele confessou, suspirando. – E eu não queria estragar. Mesmo que já desconfiasse que estragaria, afinal, eu tinha...
– Pare de falar sobre isso. – pedi, interrompendo-o. – Já passou Dylan Turner. Acabou. Fim da história. Só me prometa que nunca mais vai fazer isso comigo.
– Nunca mais, Sam. – ele concordou, e sorriu novamente.
E eu sorri também. Geralmente, eu só sorrio quando eu realmente tenho motivos para sorrir. E naquela vez eu tive. Porque tudo o que eu conseguia sentir era uma felicidade enorme por tudo ter voltado ao normal, e um sentimento diferente que eu ainda não tinha conseguido decifrar.
– Escute. – pediu Dylan, depois de alguns segundos de silêncio. Ele pegou a minha mão com muita força e me fitou. – A minha mãe, bem... Ela é cabeleireira, e ela vai cortar o meu cabelo amanhã. E eu necessito que você esteja junto. Eu ia fazer isso sem você, mas... Agora que tudo voltou ao normal novamente, você tem que estar lá. E você já sabe o endereço.
Só de pensar que Dylan não iria mais ter seus cabelos cacheados e castanhos que eu gostava tanto, me dava um desgosto enorme. Por quê? Por que Dylan tinha que ter câncer? Estava tudo tão bom! Ele parecia uma pessoa tão comum, uma pessoa saudável, um garoto muito feliz e inteligente... E ele tinha câncer.
Naquele momento, lembrei-me de Lauren me dizendo que eu havia a descrito um garoto perfeito, e que ele não poderia ser um garoto perfeito porque não existem garotos perfeitos. Então o defeito de Dylan era o câncer. Se bem que eu não sabia se podia-se considerar o câncer como um defeito de alguma pessoa. Na verdade, o defeito é o fato de a pessoa ter o câncer, e não o câncer em si.
Mas eu não sabia se poderia ir até a casa de Dylan. Afinal, meu pai poderia muito bem desconfiar, pois eu geralmente não costumo sair dois dias seguidos para um só lugar, que, no caso, seria a casa da Lauren.
– Não sei se consigo, Dylan. – falei, por fim.
– Por quê?! – Dylan pareceu arrasado.
– Porque não sei se meu pai vai permitir. É que eu já menti para ele hoje, e mentir de novo vai ficar com muita desconfiança.
– Ah, inventa alguma coisa. – ele pediu.
Eu me levantei de suas pernas e voltei até o outro lado da mesa, sentando-me novamente na cadeira. Fitei-o e franzi a testa.
– Eu vou tentar. – disse eu. – Caso eu consiga, lhe telefono ainda hoje. – fiz uma pausa. – Embora que eu não goste nem um pouco da ideia de ver esses seus cabelos sendo cortados.
– Eu sei, eu também não. – ele concordou, suspirando profundamente. – Mas sabe como é... Se eu não cortar vai ficar pior.
– Eu sei. – dei uma risada, enquanto secava as lágrimas que tinham descido dos meus olhos. – O lado bom disso é que você vai poder ter vários tipos de cabelo agora.
– E você vai me ajudar a escolher. – retrucou Dylan, sorrindo.
– Claro que vou. – concordei.
Ficamos em silêncio. Tudo o que fazíamos era fitar. Olho no olho. Os olhos verdes de Dylan fitavam os meus de um jeito diferente. Era um olhar que eu nunca consegui descrever.
Ficamos naquela posição por alguns segundos. Em seguida, Dylan assinalou para que o garçom se aproximasse.
– A conta, por favor. – pediu.
– Eu pago o meu lanche. – eu disse.
– Deixe que eu pago, Sam. Tudo bem.
Logo após pagarmos a conta, Dylan me pegou pela mão e nós saímos da lanchonete.
– Vamos para a minha casa. Eu quero mostrar o meu quarto. – ele disse.
Fiquei um pouco excitada em meio a uma ideia como aquela. Afinal, eu nunca tinha ido até a casa de Dylan. Não conhecia os pais dele pessoalmente. E, se ele tivesse irmãos (que, no caso, não tem) é claro que eu também não conheceria. Para falar a verdade, a única pessoa da família de Dylan da qual eu conhecia bem era o próprio Dylan.
Senti uma sensação de nervosismo me atacar.
– Ahn... Você... Te-tem certeza disso? – gaguejei, parando no meio do caminho, quando já estávamos do lado de fora da lanchonete.
– Eu não tenho certeza. – ele comentou. – Eu tenho certeza absoluta. – acrescentou, e me fitou de frente. – Ah, qual é? Vai dar uma de nervosa agora só porque vai conhecer a minha família? Eles são legais – Dylan fez uma pausa. – Bem, na medida do possível, claro.
– É que, ahn... Eu não estou vestida decentemente para uma ocasião dessas e tal. – retruquei.
– Ninguém liga pra o que você veste, Sam. – disse Dylan, e sorriu novamente. – As pessoas ligam para o que você é. A menos que o cara seja um babaca, o que eu posso lhe garantir que meus pais não são.
– Se você insiste...
Mais ou menos meia hora depois (porque o caminho da lanchonete até a casa de Dylan não era tão curto quanto da minha casa até a lanchonete), chegamos. Fiz uma rápida análise na casa antes de entrarmos.
A cor do lado de fora era de um azul-bebê – o que é um nome bem esquisito para ser dar a uma cor, mas infelizmente é assim que se chama. A casa era de dois andares, e havia quatro janelas brancas (duas em cada andar) na parte da frente. A porta de entrada era enorme e de cor branca. Na frente da casa, havia uma pequena área de gramado. Percebi que, quando os pais de Dylan compraram a casa há semanas antes, haviam se esquecido de tirar a placa onde estava escrito “vende-se”, no canto direito da casa.
Assim que entramos, me deparei com um espaço aconchegante no interior da casa. Todos os cômodos eram limpos e organizados. Os pais de Dylan realmente não pareciam pessoas desorganizadas.
A Sra. Turner (mulher da qual eu palpitei que fosse a mãe de Dylan) se aproximou assim que Dylan fechou a porta. Era uma mulher alta, magra, tinha algumas rugas ao redor dos olhos e boca e aparentava ser uma mulher de uns 40 anos. Os olhos dela eram extremamente verdes (quase da mesma cor que os de Dylan). Não parecia antipática, o que me deixou mais aliviada.
– Mãe, esta é Samantha Money. – disse Dylan.
– Samantha! – a Sra. Turner sorriu. – Dylan vive falando de você. Fico feliz que finalmente ele resolveu lhe apresentar.
– Mãe... – Dylan parecia extremamente envergonhado, quando eu o fitei.
– Ahn, oi Sra. Turner, prazer em conhecê-la. – eu disse, sem conseguir esconder a timidez.
– Me chame de Tracy, por favor. – ela pediu.
– Visitas? – uma voz masculina pareceu vir da cozinha.
– Querido, é a Samantha! Venha aqui. – a Sra. Turner gritou, direcionando a voz para a cozinha.
O pai de Dylan era mais ou menos da altura da Sra. Turner, tinha um rosto comprido e seu queixo era tapado por uma barba cinza. Seus cabelos eram cacheados e castanhos, e eu não pude impedir um sorriso ao perceber a semelhança. Os cabelos castanhos de Dylan vinham de seu pai.
Quando vi os pais de Dylan juntos à minha frente, fiquei pensando no quanto devia ser interessante ter os dois pais unidos. Uma família unida, sem mortes, sem acidentes... Sem ter que perder a mãe aos quatro anos de idade.
Senti uma pequena pontada de tristeza dentro de mim, mas ignorei quando o Sr. Turner estendeu a mão para me cumprimentar.
– Samantha...
– Samantha Money. – Dylan completou, e então pegou em minha mão e me guiou para um corredor por perto.
Enquanto passávamos pelo corredor, pude perceber que junto à parede havia diversos quadros com pinturas feitas de diferentes tipos de tinta. As pinturas eram esquisitas, tipo aqueles quadros cheios de rabiscos vindos de todas as direções (dos quais às vezes dá para formular desenhos quase imperceptíveis), que vendem por milhões de dólares nas galerias.
– Não liga, meu pai é pintor. – disse Dylan. – São muito esquisitos, mas ele diz ser “a arte de pintar”. Ele é meio maluco para essas coisas.
Enquanto subíamos por uma escada que ficava no final do corredor, pude ouvir uma voz masculina abafada vinda de longe, e Dylan se inclinou para fora para ouvi-la. Eu também me esforcei para ouvir:
– Dylan, esta não é a Samantha por quem você estava falando na semana passada?
– Deixa pra lá, pai! – Dylan tentou disfarçar, mas pude vê-lo corar quando me fitou.
Mas eu abri um sorriso que não consegui disfarçar, enquanto subíamos o restante da escada.
– Você falou de mim aos seus pais na semana passada? – perguntei.
– Ahn, é, falei. – ele concordou. – Bem... Se é que você se importe com isso de alguma forma.
– Eu não me importo. – comentei. – Eu até gostei.
Dylan parou no meio da escada e me encarou por alguns segundos.
– Olhe, eu sei que meus pais são meio estranhos, e tal. – ele argumentou.
– Seus pais não são estranhos, Dylan. Muito pelo contrário. – eu disse, e então o puxei até o topo da escada pela jaqueta preta.
O quarto de Dylan era muito, digamos... Radical. Não era tão organizado quanto o restante da casa, pois havia alguns pares de meia e tênis jogados no chão. Os casacos, camisetas e calças de Dylan estavam pendurados de um modo bagunçado dentro do armário (porque, é claro, as portas estavam abertas), e a cama estava completamente desarrumada.
Mas o que mais me impressionou foi que, em uma das quatro paredes do quarto, havia cinco bonés pendurados e dois skates pendurados também.
– Eu não sabia que você usa boné e anda de skate. – comentei.
– Bem, é que no colégio é proibido usar boné e andar de skate. – retrucou Dylan, rindo. – Na verdade, meu pai me deu esses cinco bonés separadamente. Ganhei de presente de aniversário seguidamente, desde os meus treze anos de idade, um boné por ano. E minha mãe me deu esses dois skates de presente quando eu fiz dez anos de idade. Na época, o meu sonho era ter dois skates; um para andar, e outro reserva, caso ele estragasse. Depois disso, acabei me apaixonando por livros e deixei o skate de lado. Até hoje, só ando às vezes.
– Uou! – exclamei, surpresa. – Seus pais são legais.
– Nem tanto. – Dylan riu. – Quando eu tinha oito anos, minha mãe me trancou dentro do porão de minha casa anterior durante dois dias por eu ter quebrado um dos pratos de porcelana favoritos dela.
Não pude impedir uma risada.
– Retire o que eu disse. – pedi, e ele sorriu.
– Mas e você? Disse-me que a sua mãe morreu, mas até agora eu não sei de que forma ela morreu. – ele comentou.
– Ela sofreu um acidente de carro quando eu tinha quatro anos de idade. – respondi.
Dylan me fitou por alguns segundos, sua expressão era de lamentação. “Todo mundo lamenta”, pensei suspirando.
– Sinto muito. – ele disse, finalmente.
– Tudo bem, eu...
– Não, é sério. – ele interrompeu. – Eu sinto muito mesmo. Sabe, foi o destino que quis assim. Se a sua mãe morreu, foi porque ela teve que morrer.
Tenho que confessar que aquela foi a melhor lamentação que eu já tinha recebido em toda a minha vida, desde a primeira pessoa que havia me perguntado o que havia acontecido com minha mãe – que por acaso foi Lauren, há alguns anos atrás.
E então, eu sorri. Mas fui pega de surpresa, porque eu não esperava isso. Não esperava mesmo.
Dylan me beijou. Não foi um beijo picante, daqueles que o garoto quase engole a sua língua. Nem foi pequeno demais, tipo somente um selinho. Dylan agiu muito rapidamente, ele encostou na minha nuca com a mão direita e me beijou. A sensação foi tão boa, que acabei batendo minhas costas de leve contra a parede por perto e só percebi depois que tudo acabou.
– Desculpe. – ele pediu depois que abriu os olhos. Parecia estar preocupado.
– Tudo bem.
– Não, eu...
– Dylan, tudo bem. – eu o interrompi, fitando-o bem de perto. O corpo dele estava a, tipo, cinco centímetros do meu. – Eu não me importo. Sério.
E então, Dylan saiu de perto de mim. Depois disso, nós conversamos por muito tempo. Não foi muito tempo, tipo meia hora. Foram horas. Duas, três, quatro horas. Era como se tudo tivesse voltado ao normal, como se Dylan não estivesse com câncer e muito menos tivesse faltado às aulas nas últimas semanas.
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