O mar e suas ondas
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Cheguei em casa no mesmo dia muito tarde para o tempo em que eu geralmente fico na casa da Lauren. Eram vinte e uma e quarenta e duas quando abri a porta de entrada da casa. Meu pai estava me esperando sentado no sofá da sala de estar.
– Oi pai. – eu o cumprimentei, já sabendo o que viria em seguida. – Eu sei que cheguei atrasada, mas é que eu e Lauren ficamos conversando sobre vários assuntos e eu acabei perdendo a noção do tempo.
– Que assuntos foram esses? – meu pai perguntou, fitando-me atentamente assim que me sentei em um dos sofás.
– Os de sempre. Só que dessa vez eles eram maiores. – respondi.
Tenho que admitir que, por dentro, eu estava muito nervosa em ter que mentir para o meu pai. A última vez que eu havia feito isso era quando eu tinha sete anos de idade, quando peguei as roupas dele de dentro do armário, coloquei algumas delas na lixeira e disse que havia somente as arrumado corretamente no armário. Ele até chegou a estranhar, mas nunca havia comentado sobre isso.
– E por que os assuntos eram maiores? – meu pai perguntou novamente, com a expressão de sempre, tentando disfarçar seu nervosismo.
– Você já está perguntando demais, pai. – argumentei. – Bem, eu preciso descansar, se me dá licença. Boa noite.
Enquanto ia até o meu quarto, ouvi a voz de meu pai ao longe:
– Algo me diz que você não estava na casa da Lauren!
E ignorei meu próprio nervosismo.
No dia seguinte, às oito da manhã (acordei cedo porque não estava a fim de ir dormir tarde na noite anterior), terminei de escovar os dentes no banheiro de meu quarto e fui até a cozinha para o café da manhã. Meu pai havia enchido um bule de café e colocado somente uma xícara na mesa, mas quando me viu, franziu a testa.
– Bom dia! – ele cumprimentou. – Eu não sabia que você iria acordar cedo. – comentou.
– Eu estava com muito sono ontem à noite. – é claro que o que eu disse era mentira.
Meu pai colocou rapidamente uma xícara de porcelana em cima da mesa enquanto eu sentava em uma das cadeiras e derramou um pouco de café. Peguei um pedaço de pão, parti-o ao meio e preparei um sanduíche rapidamente.
– Onde você estava ontem à tarde? – meu pai perguntou.
– Na casa da Lauren, pai. – eu disse. – Onde mais eu poderia estar? O senhor sabe que a minha única amiga é ela.
– Talvez não seja. – meu pai me fitou por alguns segundos. – Sabe que não é certo mentir para mim, não sabe?
Fiquei insegura por alguns instantes, pois eu me sentia extremamente mal em ter que mentir para o meu pai. Mas confirmei com a cabeça lentamente e tomei um rápido gole do café para disfarçar a minha insegurança.
Foi então que lembrei. Eu havia me esquecido completamente de perguntar ao meu pai se poderia sair naquele dia. Deveria ter ligado para Dylan e o avisado se poderia ir ver seus cabelos sendo cortados (infelizmente) ou não, mas infelizmente havia me esquecido. E eu sabia que meu pai estava desconfiado, mas era a única alternativa pergunta-lo naquele momento.
– Pai... Acabei de me lembrar. – falei. – Lauren me disse que precisa urgentemente da minha ajuda para...
Mas não consegui finalizar a frase, pois a campainha da casa tocou. Senti uma estranha sensação de nervosismo, como se Dylan Turner estivesse do outro lado da porta de entrada de minha casa, à espera que eu atendesse. Só por precaução, avisei ao meu pai que atenderia a porta.
Assim que abri a porta, do outro lado dela, estava exatamente quem eu suspeitei, estranhamente, que fosse. Uma sensação esquisita tomou conta de mim. Eu estava feliz, mas ao mesmo tempo completamente desesperada. Se meu pai visse Dylan Turner na frente da porta de minha casa, o que seria de mim?
– Dylan?! – sussurrei baixinho, porém de uma forma desesperada.
Dylan sorriu, como se aquele momento fosse muito natural. Ele estava usando um smoking, e estava tão bonito que a minha vontade era empurra-lo para fora naquele momento e repetir a ação que havia acontecido no dia anterior; o beijo, só que mais profundo dessa vez. Mas eu não podia.
– Feliz em me ver? – perguntou.
– O que você está fazendo aqui?! – sussurrei novamente, sem evitar dar uma espiada para o meu pai, que permanecia sentado na cadeira da cozinha.
– Bem, como você me disse que não sabia se o seu pai permitiria, resolvi que eu mesmo tentarei convencê-lo. – explicou Dylan. – Pedi para a minha mãe encontrar o smoking que eu usei quando completei quinze anos, que, por sinal, ainda me cabe bem, e vim até aqui.
– Mas o meu pai não o conhece! – argumentei.
– Então ele vai conhecer agora, Sam! – retrucou Dylan.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, meu pai gritou da cozinha:
– Está tudo bem aí, filha? – e levantou da cadeira, caminhando em minha direção.
Arregalei os meus olhos. Naquele momento eu não sabia muito que fazer, afinal, estava em uma situação que não tinha solução. Então, deixei as coisas acontecerem livremente, torcendo para que não houvesse nada errado.
– Oi Sr. Money. – Dylan cumprimentou meu pai estendendo a mão, quando ele chegou até a porta. – Sou Dylan Turner, amigo de sua filha.
Meu pai me fitou por alguns segundos com uma expressão confusa, mas para o meu alívio apertou a mão de Dylan, mesmo de uma forma um tanto desconfiada.
– Oi, Dylan... – disse meu pai. – Se não se importa, preciso de um minuto a sós com a minha filha.
– Na verdade eu me importo senhor. – ele disse, antes que meu pai me guiasse para alguns metros de distância. – Eu tenho câncer de laringe com metástase no fígado, e preciso que a sua filha me acompanhe até minha casa para me ajudar a superar esse momento difícil de minha vida que é o corte dos meus cabelos.
Meu pai ficou muito confuso e desconfiado ao mesmo tempo comigo, aliás, não é sempre que um garoto desconhecido aparece em sua casa e fala que precisa de sua filha porque tem câncer. Mas, mesmo com alguns avisos de que eu teria que chegar em casa mais cedo e que teria que estar ciente de que eu e meu pai tínhamos muito o que conversar, ele permitiu, e eu saí de casa ao lado de Dylan.
Enquanto caminhávamos lentamente pela calçada da rua, eu dei uma risada e fitei Dylan.
– Você é maluco. – comentei.
Ele riu.
– Obrigado. – disse. – Mas eu já sabia.
– Não está nervoso? – perguntei. – Afinal, você está prestes a raspar todo o seu cabelo.
– Eu não estou nervoso. – ele disse. – Estou muito nervoso. Mas a maioria dos garotos não costuma demonstrar o nervosismo tão facilmente. Eu sou um destes.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Eu sorri. Estava começando a identificar algo que eu estava sentindo há muito tempo. Antes, eu nunca tive vontade de beijar Dylan. Nunca mesmo. Tudo o que eu sentia era a vontade de conversar com ele a cada dia.
Mas depois que Dylan me beijou no dia anterior, tudo havia mudado. A minha vontade não era somente de conversar com ele sobre poesia, heroísmo e astronomia. A minha vontade também era sentir a sua boca de encosto com a minha, sentir o seu cheiro, sentir o corpo de Dylan encostado ao meu... Enfim, eu estava começando a perceber que estava apaixonada.
Eu estava apaixonada por Dylan Turner, o garoto da biblioteca que ficava me fitando. Afinal, não havia outra opção. Só poderia ser paixão. O que faria uma pessoa pensar em outra quase o tempo todo, ter vontade de ficar perto dela o tempo todo, beijar, abraçar, e tudo mais? Somente a paixão.
– Antes de você aparecer na minha vida eu era uma garota tímida, que gostava de poesia e estava extremamente arrasada pelo fato de que seu pai a havia colocado em um colégio interno, onde ela teria que ficar longe de seus amigos. – eu disse, tentando quebrar o silêncio.
– Você tem amigos? – ele perguntou, e me fitou.
– Ahn, na verdade eu tenho uma amiga. E, bem... E um amigo. – respondi. – Na verdade, não sei se ele pode ser considerado um amigo. A minha amiga é Lauren, e o meu amigo é o cachorro dela, Bryan.
Dylan riu.
– Cachorros, às vezes, são mais amigáveis do que pessoas. – ele comentou. – Quando eu tinha cinco anos de idade eu ganhei um cachorro e o apelidei de Snoop. Eu o adorava, brincava com ele todos os dias. Ele era o meu companheiro de todas as horas. Três anos depois, ele escapou de casa e inocentemente foi até a rua e... Bem, atropelaram ele.
– Sinto muito. – lamentei, suspirando.
– Tudo bem, eu acho que com dezessete anos eu já tenho que ter superado. – argumentou Dylan, sorrindo. – Mas e você, já teve algum cachorro?
– Na verdade eu nunca tive um cachorro que morasse em minha casa, mas o Bryan é considerado tanto meu quanto da Lauren. Então automaticamente eu tenho um cachorro. – respondi.
Alguns minutos depois, chegamos à casa de Dylan novamente. Ela estava exatamente da forma que estava quando eu saí. A Sra. Turner estava com uma tesoura dessas de cabeleireiro e uma máquina de cortar cabelos em mãos. Ela se aproximou de nós com um sorriso, assim que Dylan fechou a porta de entrada. Estava vestindo um conjunto de blusa e calça cinza.
– Samantha, fico muito feliz que você veio. – ela disse. – Esse momento vai ser muito difícil para Dylan. Sua presença é importantíssima.
– Eu sinto muito pelo câncer, senhora... Ah, Tracy. – eu lamentei. – Mas tenho certeza de que Dylan irá se recuperar rapidamente. E com certeza eu estaria aqui de qualquer forma neste momento.
– Estaria? – Dylan me fitou e eu o fitei, e ele sorriu.
– Vocês são tão fofos juntos! – comentou a Sra. Turner.
– Ahn, mãe! – exclamou Dylan, parecendo arrasado. – Nós não estamos juntos.
– Não estão? – a voz do Sr. Turner surgiu, e ele saiu da cozinha e se aproximou. – Pensei que estivessem. De qualquer forma, vocês são realmente muito bonitos juntos.
– Obrigada. – agradeci, sem muitas alternativas, apesar da timidez.
Alguns minutos depois, a Sra. Turner colocou uma capa branca por cima de Dylan, deixando apenas sua cabeça de fora. Logo em seguida, eu caminhei em direção a ele e sussurrei em seu ouvido “vai dar tudo certo”, e ele apenas sorriu. Como a cadeira da qual Dylan estava sentado estava no centro da sala, eu me sentei no sofá ao lado do Sr. Turner e fiquei fitando os olhos de Dylan o tempo inteiro.
Eu vi cada cacho de seu cabelo cair no chão da sala de estar. Eu vi cada fio de cabelo de Dylan desaparecer, mostrando somente o seu coro cabeludo. E vê-lo naquela aparência não mudou absolutamente nada do que eu sentia por ele.
Eu continuava apaixonada pelos seus olhos verdes, pelo contorno perfeito de sua boca e pelo nariz arrebitado que dava um charme ao seu rosto. E a perda de seus belos cabelos cacheados e castanhos só fez com que eu ficasse ainda mais apaixonada por ele. Para mim, ele continuava bonito como eu sempre o vi independente da aparência em que estivesse.
Durante todo o processo do corte, Dylan apenas olhou nos meus olhos. Digamos que ele não estava sério, nem feliz. Estava com uma expressão normal, como quando você está assistindo um filme. No caso, o filme eram os meus olhos. Naquele momento, lembrei-me de quando Dylan disse que meus olhos eram bonitos. Eu o disse que sempre os achei comuns, e ele me falou que eles não eram comuns. Eles eram como o mel. “Como o mel”, pensei, e sorri.
Quando tudo acabou, eu percebi que havia derramado lágrimas durante todo o processo do corte de cabelo, mas não havia percebido. Assim que a Sra. Turner tirou a capa branca de cima de Dylan, ele levantou da cadeira e me abraçou. Me abraçou exatamente da mesma forma que eu o havia abraçado na lanchonete. Ou até com mais força. E eu tive a oportunidade de sentir uma das melhores sensações de toda a minha vida.
Dylan abraçou a sua mãe e o seu pai, pois ambos estavam segurando-se para não chorar. Em seguida, eu e Dylan subimos até seu quarto e assim que chegamos ele correu em direção ao seu espelho e se olhou atentamente. Por segundos. E quando ele se virou para me fitar novamente, uma lágrima escapou de seu olho direito. Era a primeira vez que eu o via chorar.
Caminhei em sua direção e estendi os braços até o seu rosto. Com meu dedo polegar da mão direita, sequei sua lágrima e lancei um sorriso tranquilizante. Em seguida, o abracei com muita força, sentindo o seu cheiro novamente e o seu corpo quase completamente encostado no meu. Naquele momento, a única coisa que eu fiz foi fechar os olhos e curtir o momento.
– Eu não entendo. – ele disse, quando nos soltamos. – Por que tinha de ser eu? Eu era tão feliz antes de descobrir esse câncer na laringe! Eu era uma pessoa comum!
– Você é uma pessoa comum, Dylan. – eu disse. – O fato de você ter câncer não muda absolutamente nada do seu caráter.
– Mesmo assim, o mundo tem sete bilhões de pessoas, e por que teve que ser eu com esse bendito câncer? – ele perguntou, estava completamente indignado.
– Porque teve que ser você. Foi o destino. – eu disse.
Ele me fitou. Seus olhos estavam molhados, os meus também. Eu sorri. E ele me beijou. Pela segunda vez. Mas desta vez não foi como da primeira vez. Enquanto Dylan me beijava, pude sentir meu corpo caindo em cima do colchão da cama e o corpo dele deitando por cima do meu. Não consigo decidir qual era a sensação melhor de todas as vezes que Dylan havia chegado perto de mim. Acho que todas elas eram igualmente perfeitas, e a sensação era a mesma. A sensação de estar beijando uma pessoa por quem está apaixonado.
Mas logo ele parou, e saiu de cima de mim. Ficou em pé e me fitou. Sua expressão era preocupada.
– Eu não posso fazer isso. – ele falou.
– Por que não pode? – perguntei. – O que aconteceu?
– Não aconteceu nada... – ele fez uma pausa, enquanto sentava-se ao meu lado na beirada da cama. – Mas eu não posso. Sam, vamos ser amigos. Pelo menos por enquanto.
– Tudo bem. – concordei. – Mas eu quero que saiba de uma coisa, Dylan. O fato de você ter câncer não muda nem um pouco o que eu sinto por você. Muito menos o fato de você estar sem cabelos.
– Eu sei disso. – pela primeira vez novamente, Dylan sorriu. – E é por isso que eu adoro você.
Eu teria admirado-o muito mais se ele tivesse trocado a palavra “adoro” pela palavra “amo”, mas mesmo assim fiquei muito feliz.
Minutos depois, consegui convencer Dylan a sair na rua comigo sem os cabelos. Ele havia negado muitas vezes, pois não queria passar a “vergonha” de aparecer para o público sem seus cabelos cacheados e castanhos. Mas eu o disse que isso era normal e que as pessoas iriam o admirar por ter tido essa coragem, e por final ele acabou concordando.
Meu objetivo era ir até a loja de perucas, para que nós dois escolhêssemos uma que se encaixasse completamente à personalidade de Dylan. Enquanto passávamos pela rua, percebi que as pessoas que o viam não riam de sua cara, muito menos zombavam dele. Elas sorriam de uma forma encorajadora para Dylan, e isso me deixou muito aliviada.
Assim que chegamos até a loja de perucas, a vendedora da loja fitou Dylan por alguns instantes.
– Você vai escapar dessa, querido. – a mulher falou.
– Obrigado. – ele agradeceu. – Na verdade, eu estou realmente querendo escapar dessa. Vim até aqui para encontrar uma peruca perfeita para mim.
A vendedora riu, e eu também não consegui impedir uma risada.
– Tudo bem, fiquem à vontade para escolher. As masculinas ficam na parte da direita. – ela disse, e então desapareceu em meio ao monte de coisas espalhadas pela loja.
Caminhamos até uma parede à direita onde havia estantes brancas repletas de bonecos de plástico com diversos tipos de perucas. Haviam perucas de cabelos cacheados e de diversas cores, cabelos lisos, curtos, compridos, com franja, sem franja, etc. Se na sessão masculina havia tantas opções, fiquei imaginando na sessão feminina quantas teria.
Dylan caminhou em direção a uma peruca de cabelo extremamente preto e liso, com uma franja que ficava para o lado na testa.
– Que tal esta? – ele perguntou, fitando-me, após tira-la do boneco de plástico.
– Experimente. – opinei.
Dylan colocou-a em sua cabeça e caminhou em direção a um espelho por perto. Em minha opinião, os cabelos cacheados de Dylan sempre foram melhores. Mas aquele cabelo liso e preto havia o deixado muito bonito.
Depois da primeira peruca, Dylan provou muitas outras. Havíamos até encontrado uma peruca com um cabelo cacheado muito parecido com o de Dylan, mas segundo ele, já que havia tido essa oportunidade ele queria ter um cabelo diferente pelo menos por um tempo. E a escolhida dele havia sido justamente a peruca lisa e preta com franja para o lado.
A peruca era do tipo picada, havia vários fios espalhados para todos os lados. Mas como eles eram lisos, ficavam perfeitos em qualquer cabeça. Principalmente na de Dylan.
Assim que fizemos a compra, Dylan saiu da loja já usando a peruca. Fiquei olhando para ele por vários segundos, tentando colocar em minha cabeça que aquele era o mesmo Dylan. Mas eu não conseguia. Ele estava diferente aparentemente. O cabelo havia modificado quase completamente o seu rosto. Percebi que sentia falta dos cabelos cacheados.
Assim que chegamos à casa de Dylan novamente, a Sra. Turner abriu um enorme sorriso ao vê-lo com um cabelo novo. Ela correu em nossa direção e abraçou Dylan rapidamente.
– Nossa, filho! Você ficou...
– Bonito, eu sei. – Dylan interrompeu, rindo. – Nem eu estou me reconhecendo nesse momento.
– Se você não está, quem diria eu. – argumentei, e todos rimos.
– Bela peruca, filho! – gritou o Sr. Turner, da sala de estar.
Algumas horas depois, os Turner me convidaram para almoçar com eles e eu aceitei, afinal, não iria dar tempo de chegar em minha casa até o horário do almoço. Logo depois que almocei, eu e Dylan conversamos por mais alguns minutos sobre astronomia (ele me explicou sobre o motivo de o sol ser uma estrela extremamente quente), depois eu me despedi de todos e fui embora.
Cheguei em casa às doze e trinta e oito.
– Por que não veio para almoçar? – perguntou meu pai, assim que o cumprimentei.
– Porque não iria dar tempo de chegar até a hora do almoço. – respondi.
– Claro que iria, era só você sair mais cedo. – retrucou meu pai.
– Pai, você quer mesmo saber? – peguei minha bolsa que estava pendurada em meu ombro direito e a coloquei em cima da mesa da cozinha. Em seguida, me sentei em cima de uma das cadeiras e o fitei. – O Dylan é o meu único amigo além da Lauren e do Bryan. E ele está com câncer, como ele falou. Você tem noção disso?! Se eu estivesse com câncer como ele, você iria gostar?
– Claro que não. – respondeu o meu pai, suspirando. – Nem me diga uma coisa horrível dessas, filha.
– Pois então! – exclamei. – Pai, ele precisava de mim. Até onde eu saiba, sou a única amiga dele do colégio em que você me colocou, ou então talvez a mais próxima dele. E eu assisti a mãe dele raspando o cabelo dele, e isso foi muito doloroso pra mim. Muito mesmo. – respirei fundo, porque já estava sentindo um nó formar-se em minha garganta ao lembrar aquele momento. – E eu tenho certeza de que foi doloroso tanto para ele quanto para os pais dele também. E depois disso, eu tive que consolá-lo, porque ele não se conformava com a situação de haver sete bilhões de pessoas no mundo e justo ele teve que ter esse câncer. E depois, eu fui com ele até uma loja de perucas e nós dois escolhemos uma para ele, da qual ele está usando nesse exato momento pelo fato de não ter mais seus cabelos naturais. E então, eu fiquei com ele por mais algumas horas, e aí os Turner me convidaram para almoçar com eles e eu aceitei. Essa é a explicação.
Minha voz estava apertadíssima, pois o nó na garganta estava cada vez mais forte. Mas eu não havia dito tudo aquilo somente para explicar o motivo de que eu não tinha ido almoçar com meu pai. Se fosse apenas por causa disso, eu teria dito muito menos ou então falado alguma mentira novamente. Eu fiz aquilo porque precisava desabafar com alguém e arrancar a tristeza de dentro de mim. E eu sabia que não poderia fazer isso na frente de Dylan.
– Até aí eu entendo. – disse meu pai, sentando-se em uma das cadeiras por perto. Sua expressão estava começando a ficar preocupada. – Só não entendo porque você não tinha me dito sobre esse garoto antes.
– Porque eu achei melhor não falar, pai. – respondi, suspirando. – Porque achei que seria melhor mantê-lo em segredo, pelo menos até um momento em que eu tivesse realmente certeza de que poderia contar para você. – e então eu o fitei e abri um sorriso pequeno. – E também porque geralmente os pais costumam ficar muito ciumentos quando a filha apresenta um garoto a eles, nem que seja somente um amigo.
Meu pai riu, e apertou a minha mão com força por cima da mesa.
– Eu quero conhecer esse garoto. – falou.
– Mas ele é só um amigo...
– Não importa querida. – ele sorriu. – Convide-o para um jantar aqui em casa uma hora dessas. Eu irei recebê-lo com mais educação, desta vez.
Dei uma risada.
– Tudo bem, eu vou tentar. – falei. – E espero que seja mais educado, realmente.
E então, me levantei da cadeira com a intenção de ir até o meu quarto, mas meu pai me chamou e eu parei no meio do caminho para fitá-lo:
– Filha! – ele chamou. – Eu fico muito feliz por você ser tão generosa com uma pessoa com câncer. Estou orgulhoso de você.
– Para mim, com câncer ou sem câncer ele será sempre um amigo, pai. – eu disse, sorrindo.
Em seguida, fui até o meu quarto para ouvir músicas lentas.
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